Dica do editor - Saiba como ajudar os 500 exilados políticos brasileiros. Faça sua doação.

O material abaixo é assinado pela jornalista gaúcha Ana Maria Cemin.

 A exilada política Claudete Tristão fez um pedido e não pude recusar: “publica o vídeo, Ana”. 

Embora seja um tema triste “ao cubo” - na terceira potência - decidi fazer. 

Ouça ela e depois leia estas linhas. Ou vice-versa. 

Só existem duas entidades que atuam de forma humanitária em atenção aos perseguidos do 8 de janeiro. E calculo, a grosso modo, que temos perto de 3 mil pessoas nessa condição - investigadas, julgadas e condenadas. Mais de mil foram julgados e, possivelmente, mais de 500 buscaram exílio em outros países. Não existe uma estatística de exilados, até porque alguns foram embora por temer perseguição. Não aguardaram a coisa ficar feia. E a coisa não parou! 

Dito isso, vamos à “dor” desse vídeo. 

Os dois institutos recebem doações, fazem suas campanhas, mas não chegam a receber volumes que alcancem todos os presos políticos ao mesmo tempo. Então, em três anos de trabalho, a saída das entidades tem sido compartilhar esses valores de forma rotativa, a partir do critério das necessidades mais urgentes (comida e remédios). Quantas e quantas vezes pedi ajuda para presos políticos para a @gabriela_ritter presidente da @asfavfamilias e para a @tanielitelles do @instituto_gritos_de_liberdade! Muitas vezes, muitas dezenas. E sabe quantas vezes ouvi um não? Nenhuma! 

Diante das más línguas, me associo à Claudete nesse testemunhal sobre o trabalho humano das duas entidades. Desejo que nesse quarto ano de luta, possamos ver mais amor e gratidão.

Precisamos disso com urgência. 

Nesse final de semana conversei com Ana, que trabalha o dia inteiro na Argentina, está com anemia profunda, em risco de saúde gravíssimo. Ela me diz: o meu almoço é uma medialuna, porque é o possível. 

]O meu objetivo com esse último comentário é declarar que tem muito a ser feito. Essas pessoas perderam tudo, mas podem encontrar o mínimo de dignidade humana quando estendemos a nossa mão. Porém, pessoas maliciosas podem intimidar e inviabilizar atos de bondade. Temos que ir além da barreira do nosso ego e mostrar que de fato somos filhos de Deus e não daquele outro. Não temos que silenciar as línguas de serpentes, mas aprender a identificar quando elas surgem para trazer a discórdia.

CLIQUE AQUI para ver o vídeo.

Artigo, Ricardo Breier - Quando a mentira vira método de poder

Ricardo Breier -  Advogado, Pós-doutor em Direito e Presidente da OAB/RS  (2016/21).


Este artigo foi publicado no jornal Zero Hora de hoje.

Um Estado começa a se deteriorar quando a mentira deixa de ser exceção e passa a operar como método de exercício do poder. Não se trata apenas de ilegalidades pontuais, mas de um processo mais profundo: a normalização de narrativas convenientes, a omissão deliberada de fatos relevantes e o enfraquecimento do debate público.

Nesse contexto, a legalidade permanece como aparência, enquanto a verdade é substituída por versões seletivas e discursos técnicos que ocultam o essencial. A mentira institucional raramente é explícita, manifestando-se por meio de decisões incompletas, relatórios que silenciam aspectos centrais e comunicações oficiais que moldam a percepção social sem compromisso real com os fatos.

Ao mesmo tempo, ganha espaço a política do descrédito. Em vez do confronto de ideias, passa-se à desqualificação de quem questiona. A crítica é tratada como ameaça às instituições; o dissenso, como irresponsabilidade. O efeito é a intimidação simbólica e o empobrecimento do espaço público, no qual o contraditório deixa de ser visto como virtude democrática.

Quando isso ocorre, a mentira assume dimensão normativa. Sem mudanças formais na Constituição, os limites do poder são redefinidos na prática. Exceções tornam-se precedentes, abusos são relativizados e garantias fundamentais passam a ser flexibilizadas sob o argumento da eficiência ou da urgência.

Esse processo gera um paradoxo preocupante: instituições que aparentam solidez, mas perdem legitimidade; decisões tecnicamente elaboradas, porém distantes da percepção de justiça.  O Direito, que deveria funcionar como limite ao poder, corre o risco de ser instrumentalizado por ele.

Enfrentar esse cenário exige menos retórica e mais compromisso com a verdade factual, com o devido processo legal e com a responsabilidade institucional. Democracias não se enfraquecem apenas por rupturas abruptas, mas também pela erosão silenciosa de seus fundamentos. Preservá-los é tarefa permanente da sociedade.