Paulo Germano, jornalista da Zero Hora, comentarista da RBS TV e apresentador da Rádio Gaúcha, publicou uma coluna intitulada “O candidato ruim”, na qual anuncia que votará em alguém que considera ruim porque, pelo menos, esse candidato lhe permitirá votar novamente. Não menciona nomes. O contexto indica Lula e Flávio Bolsonaro.
Germano constrói dois personagens. Um Lula democrático, apesar dos defeitos, e um Flávio Bolsonaro que, uma vez eleito, acabaria com as eleições. O primeiro é absolvido por antecipação. O segundo, condenado por antecipação. Ambos são produtos de uma imaginação que dispensa a demonstração.
Há uma diferença epistemológica fundamental entre o real e o potencial. O real existe e pode ser conhecido mediante evidências. O potencial depende de condições objetivas que precisam ser identificadas. Germano transforma uma possibilidade futura em certeza, sem demonstrar a relação causal que sustentaria sua previsão.
Qual proposta de Flávio prevê acabar com as eleições? Qual ato seu comprova essa intenção? Invocar seu parentesco com Jair Bolsonaro não resolve o problema. Responsabilidade é individual. Culpa não é hereditária.
Enquanto isso, o Mensalão e o Petrolão aconteceram. Esquemas de compra de apoio parlamentar e corrupção política comprometeram instituições do Estado brasileiro. O Inquérito do Fim do Mundo existe desde 2019. As controvérsias sobre censura, concentração de poderes, devido processo legal e a condenação e prisão de Jair Bolsonaro são questões concretas que exigem exame independente das decisões de quem exerce o poder.
Na minha avaliação, Lula já se mostrou mais danoso ao processo democrático do que qualquer Bolsonaro. Os esquemas de corrupção e sustentação política revelados no Mensalão e no Petrolão integram a história de seus governos. Suas relações políticas com integrantes do STF merecem escrutínio, especialmente diante das decisões que anularam suas condenações, restabeleceram seus direitos políticos e permitiram sua candidatura em 2022. O Tribunal Superior Eleitoral, então presidido por Alexandre de Moraes, conduziu uma eleição marcada por controvérsias sobre os limites da intervenção judicial. Não basta invocar a autoridade dos tribunais para encerrar a discussão sobre a legitimidade de seus atos.
Germano teme a eventual destruição da democracia por um futuro presidente, enquanto atribui peso insuficiente aos problemas institucionais do presente. Confunde a continuidade das eleições com a preservação da liberdade. Uma sociedade pode realizar eleições periódicas e, simultaneamente, restringir direitos individuais, perseguir opositores e concentrar poderes.
Seu argumento contém um falso dilema: votar no candidato ruim ou perder o direito de votar. Recorre ao apelo ao medo, à culpa por associação e ao espantalho. O candidato real desaparece, substituído por um personagem ao qual são atribuídas intenções não demonstradas. Ao mesmo tempo, o histórico político do candidato preferido é relativizado em nome de uma virtude democrática presumida.
O próprio Germano já criticou excessos do Supremo e de Alexandre de Moraes. Isso torna sua escolha argumentativa ainda mais questionável: por que os riscos que imagina no futuro parecem determinar seu voto mais do que os abusos institucionais que ele próprio identifica no presente?
Como jornalista influente em Porto Alegre, Germano tem responsabilidade pelo rigor dos argumentos que oferece aos leitores. Seu direito de escolher candidatos é indiscutível. Suas inferências, não. O prestígio de um veículo de comunicação não transforma presunções em evidências nem dispensa o jornalista de fundamentar suas conclusões.
Não preciso afirmar que Flávio Bolsonaro salvará a democracia. Tampouco preciso prever que Lula acabará com as eleições. Exijo apenas que ambos sejam julgados pelos mesmos princípios, com base em evidências, e que nenhum abuso seja desculpado pela identidade política de seu autor.
A liberdade não está assegurada simplesmente porque podemos comparecer às urnas a cada quatro anos. Ela depende da proteção permanente dos direitos individuais contra a arbitrariedade de governantes, legisladores e magistrados.
Paulo Germano quer votar novamente. Eu também. Quero, sobretudo, continuar livre entre uma eleição e outra.
Uma eleição futura imaginada não absolve abusos presentes.
Uma ameaça presumida não apaga fatos conhecidos. E o medo não transforma
espantalhos em realidade.

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