Roberto Rachewsky
Eu li o longo artigo que João Moreira Salles publicou na revista piauí, intitulado “O que esses brasileiros sabem”, e resolvi escrever este porque aquele artigo é muito mais do que uma crítica a Flávio Bolsonaro.
A tese de Salles é simples. Existe uma elite empresarial e financeira que sabe exatamente quem são os Bolsonaro, conhece a homenagem de Jair Bolsonaro a Brilhante Ustra, conhece Queiroz, Adriano da Nóbrega, as acusações envolvendo milícias e o Oito de Janeiro e, apesar disso, aceita conversar e jantar com Flávio Bolsonaro.
Segundo Salles, essas pessoas sabem de tudo isso, mas estariam dispostas a tolerar o risco que ele atribui a Flávio porque querem responsabilidade fiscal, redução de impostos, privatizações, menos regulamentação, corte de gastos e diminuição do Estado.
O argumento chega ao ponto de reduzir a escolha moral desses empresários a uma alternativa entre irresponsabilidade fiscal e tortura. E trata Flávio essencialmente como uma extensão política e moral do pai.
Foi por isso que resolvi escrever esse texto.
Não para defender Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Ustra, Queiroz ou quem quer que seja. Muito antes, pelo contrário. O que me interessa aqui é a régua utilizada por João Moreira Salles.
Ele começa seu ensaio distinguindo duas atitudes diante da realidade: compreender e acreditar. É uma distinção importante. Tão importante que vale aplicá-la ao seu próprio texto.
Eu acrescentaria uma terceira possibilidade: selecionar.
Selecionar os fatos que confirmam uma conclusão previamente desejada, excluir aqueles que a perturbam e depois apresentar o resultado dessa seleção como produto inevitável da razão. Isso não é compreender. É racionalizar.
Para mim, democracia não é um valor moral primário. Vida, Liberdade e Justiça são. Direitos individuais são.
Democracia é apenas um método para escolher governantes e substituí-los sem violência. Seu valor está subordinado aos direitos que deve proteger. Se 99 pessoas votarem para confiscar a propriedade da centésima, o placar de 99 a 1 não transforma roubo em justiça. Se uma maioria autorizar censura ou prisão sem devido processo, a urna não santifica a coerção.
Por isso, antes de perguntar quem ameaça a democracia, eu perguntaria: quem ameaça os valores primários e os direitos individuais?
Tortura é abjeta porque viola brutalmente direitos individuais. Ditadura também. Milícia, terrorismo, censura estatal, prisão arbitrária, confisco e violação do devido processo devem ser julgados pelo mesmo princípio.
Não existe uma moral para o meu adversário e outra para o meu aliado.
Salles dedica enorme espaço a Carlos Alberto Brilhante Ustra. Que se examine Ustra. Se torturou, que seja chamado de torturador. Tortura não ganha dignidade porque foi praticada contra comunistas ou adversários de uma ditadura.
Mas daí não decorre aquilo que Salles precisa que decorra.
Jair Bolsonaro ter homenageado Ustra não transforma Flávio Bolsonaro em torturador. Flávio defender o pai não transforma um empresário que conversa com ele em defensor de Ustra. E jantar com Flávio não transforma ninguém em cúmplice de uma futura ditadura.
Isso é culpa por associação.
Ustra contamina Jair. Jair contamina Flávio. Flávio contamina Queiroz, Ciro Nogueira, Cláudio Castro e outras pessoas de seu entorno. Finalmente, a contaminação chega a André Esteves, Roberto Campos Neto, Rubens Ometto, Pedro Parente, Richard Gerdau e aos empresários que aceitaram conversar com Flávio.
Não é assim que funciona justiça.
Justiça significa avaliar cada indivíduo por seu próprio caráter e por suas próprias ações. Se alguém cometeu um crime, prove o crime e responsabilize essa pessoa. Se outro participou, prove a participação. Se financiou, ordenou, ocultou ou conscientemente auxiliou o crime, demonstre o nexo causal.
Sentar à mesa não é aderir. Conversar não é endossar. Conhecer não é participar. Ser filho não é ser o pai.
E aqui aparece uma incoerência especialmente interessante na régua escolhida por João Moreira Salles.
Seu pai, o banqueiro Walther Moreira Salles, havia sido ministro da Fazenda de João Goulart. No final de 1963, poucos meses antes do golpe militar, mantinha interlocução tanto com Goulart quanto com Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil.
Há registros diplomáticos dessas conversas. Em dezembro de 1963, Walther conversou com Gordon, depois encontrou-se com Goulart e voltou a falar com o embaixador americano, transmitindo-lhe um resumo da conversa que tivera com o presidente.
Isso faz de Walther Moreira Salles um golpista?
Não.
Conversar com Lincoln Gordon não prova participação em golpe algum. Manter relações com pessoas envolvidas numa crise política não significa compartilhar suas intenções. Para atribuir responsabilidade moral a alguém é preciso demonstrar aquilo que essa pessoa efetivamente fez.
Mas então a mesma regra precisa valer para os outros.
Por que empresários que conversam com Flávio Bolsonaro em 2026 estariam legitimando aquilo que João atribui aos Bolsonaro, enquanto a interlocução de Walther Moreira Salles com Lincoln Gordon às vésperas de 1964 não produziria automaticamente a mesma culpa por associação?
Eu não uso a relação de Walther com Gordon para condená-lo.
Uso-a para mostrar por que a régua de João está errada.
Ou conversar com alguém não significa endossar seus atos e suas ideias, e então os empresários citados no artigo precisam ser julgados pelo que eles próprios fizeram, ou significa, e João terá de aceitar que a mesma lógica seja aplicada ao próprio pai.
Justiça não admite dois pesos e duas medidas.
Curiosamente, o próprio Salles percebe parte do problema quando afirma que jornalistas podem entrevistar pessoas sem legitimá-las. Mas cria uma exceção para empresários: jornalista pode conversar; empresário, ao conversar, legitima.
Por quê?
Ele não demonstra.
Um empresário tem o mesmo direito de ouvir um candidato, questioná-lo, discordar dele e descobrir o que pretende fazer caso seja eleito.
Informação não é sanção moral.
Sanção pressupõe aprovação, legitimação ou cooperação consciente. Transformar uma conversa em endosso é esvaziar o próprio conceito.
Há outro problema ainda mais profundo.
Salles afirma saber o que essas pessoas sabem.
“Sei que sabem.”
Não, ele não sabe.
Pode demonstrar que determinada informação foi publicada, que alguém recebeu um documento, fez uma declaração ou participou de uma reunião. Mas não pode penetrar na consciência de dezenas de indivíduos e declarar quais fatos conhecem, como os integraram e quais conclusões extraíram deles.
“Sei que sabem porque conheço o mundo social em que vivem” não é evidência.
É uma inferência sobre a consciência alheia apresentada como fato.
O mesmo acontece quando atribui aos empresários vaidade, interesses particulares ou uma “vertigem quase erótica da influência política”.
Como sabe?
Não sabe.
É literatura apresentada como epistemologia.
Mas a maior distorção aparece no falso dilema que sustenta o artigo.
Salles reduz a escolha moral dos empresários a isto: de um lado, irresponsabilidade fiscal; do outro, tortura. Chega a escrever que conversar com Flávio equivaleria a declarar: “entre a irresponsabilidade fiscal e a tortura, fico com a tortura”.
Isso é um "package deal", uma falácia: empacotam-se fenômenos diferentes sob duas alternativas emocionalmente carregadas e exige-se que o leitor escolha uma delas.
Nenhum empresário citado está escolhendo entre tortura e responsabilidade fiscal. Nenhum candidato está propondo substituir ajuste fiscal por uma política pública de tortura.
Pode-se condenar inequivocamente a tortura e, simultaneamente, considerar dívida pública, inflação, impostos, gasto estatal, insegurança jurídica, censura e abuso institucional ameaças aos direitos individuais.
Uma coisa não apaga a outra.
Salles também fala de programas sociais como se a discussão fosse essencialmente sobre compaixão.
Não é.
A pergunta moral anterior é: de quem é o dinheiro?
O fato de alguém precisar de alguma coisa não cria sobre outra pessoa a obrigação jurídica de fornecê-la. Necessidade não é título de propriedade. Se fosse, quanto maior a necessidade de alguém, maior seria seu direito sobre a vida e o patrimônio de quem produz.
Direitos não são reivindicações sobre os bens alheios.
Direito à vida significa liberdade para sustentar a própria vida. Direito à propriedade significa liberdade para adquirir, usar e dispor do que é seu. Direito à liberdade significa ausência de coerção iniciada por outras pessoas, inclusive quando agem através do Estado.
E considero igualmente condenável o corporativismo que muitos chamam erroneamente de "capitalismo de compadrio". A expressão é uma contradição nos termos.
Subsídio, proteção regulatória, financiamento favorecido e qualquer mecanismo pelo qual empresários utilizem o Estado para transferir riqueza de terceiros para si não têm nada a ver com capitalismo.
Caracteriza o estatismo contido em sistemas socialistas como o fascismo.
Se existem empresários defendendo benefícios estatais para si enquanto pedem o fim dos benefícios dos outros, que sejam criticados por isso.
Mas dois privilégios não produzem justiça.
Produzem dois privilégios.
Chegamos então ao “golpe”, expressão que Salles utiliza como se resolvesse a discussão.
Não resolve.
No Oito de Janeiro houve invasão, vandalismo e destruição de patrimônio público. Quem destruiu, agrediu ou invadiu ilegalmente deve responder pelo que fez. Mas daí a concluir que aquelas pessoas tinham capacidade objetiva para tomar o poder no Brasil existe uma distância que precisa ser demonstrada.
O STF adotou juridicamente a tese de tentativa de golpe e houve condenações com base nessa interpretação dos acontecimentos. As defesas contestaram essa caracterização. A existência de uma decisão judicial é um fato; ela não dispensa o exame independente dos fatos e dos argumentos.
FALTOU COMENTAR NO ARTIGO QUE SALLES SE ESQUECEU DE CITAR QUE A ESCOLHA DA IRRESPONSABILIDADE FISCAL, OU SEJA, O LADO DO ATUAL SISTEMA PETRALHA VIGENTE, ENVOLVE SIM UMA DITADURA NÃO OFICIAL, COM TORTURA E PERSEGUIÇÃO POLÍTICA A PATRIOTAS, JORNALISTAS, BLOGUEIROS, EMPRESARIOS, OFICIAIS DAS FFAAS, POLÍTICOS, DONAS DE CASA, CONGRESSISTAS, ETC
ResponderExcluirE interessante que jornalistas que conhecem a folha corrida dos crimes de um candidato ( monstruosa...kilometrica) exigem que o outro candidato tenha uma folha corrida pura e DIVINA....só isto já mostra a canalhice do argumento....90 PC dos jornalistas vivem de jabas do estado.....sempre houve jornalistas jabazeiros..desde o início da imprensa...mas nunca tantos como agora......canalhas..
ResponderExcluir