Em Pelotas, um dos principais centros urbanos da região, Lula recebeu 47,1% dos votos válidos, contra 42,09% de Flávio Bolsonaro. Foram 86.617 votos para o petista, uma diferença de quase 9,2 mil votos.
O contraste fica ainda mais evidente em Rio Grande. A cidade deu 56,1% dos votos válidos a Lula, contra cerca de 35% para Flávio, uma vantagem superior a 21 pontos percentuais para o presidente. O resultado colocou Rio Grande entre os municípios gaúchos onde o petista conseguiu desafiar frontalmente a maré conservadora que tomou conta do Estado.
A preferência por Lula nessas cidades pode ser lida também como um retrato de uma região que há décadas enfrenta problemas estruturais: menor crescimento econômico, perda de dinamismo industrial, desemprego, renda mais baixa e dificuldades para transformar seus ativos econômicos em prosperidade duradoura.
É justamente aí que aparece o paradoxo político. Quanto mais evidente é a dificuldade econômica de determinados municípios, maior parece ser, em alguns deles, a resistência a uma agenda política identificada com a direita e com o discurso de redução do tamanho do Estado. Em Rio Grande e Pelotas, o eleitorado continuou apostando em Lula mesmo quando boa parte do Estado escolheu o candidato do PL.
O resultado eleitoral é influenciado por fatores históricos, econômicos, culturais e políticos. Mas a concentração da votação petista em determinadas áreas da Zona Sul abre uma questão incômoda: por que regiões que continuam enfrentando problemas econômicos persistentes seguem depositando tanta confiança em um modelo político que está no poder há tantos anos?
O fenômeno fica mais interessante quando comparado às grandes cidades gaúchas. Enquanto Lula venceu em Pelotas e Rio Grande, Flávio Bolsonaro liderou em importantes centros urbanos como Caxias do Sul, Canoas e Santa Maria. Porto Alegre também ficou com Lula, com 48,57%, mostrando que a capital segue uma dinâmica eleitoral diferente da maior parte do interior.
A Zona Sul, portanto, não representa o sentimento predominante do eleitorado gaúcho. Ela é, antes, uma espécie de ilha eleitoral petista em um Estado que se deslocou fortemente para a direita.
No segundo turno, a Zona Sul volta a ganhar importância. Não
porque tenha força suficiente para mudar sozinha o resultado gaúcho, mas porque
seus votos mostram que o mapa político do Estado está longe de ser homogêneo.
Entre a prosperidade relativa da Serra e a força conservadora de boa parte do
interior, existe uma metade Sul que continua olhando para Brasília em busca de
respostas.

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