terça-feira, 24 de julho de 2018

Artigo, Tito Guarniere - As classes dominantes


Há algum tempo, na Folha de São Paulo, o petista André Singer, ex-secretário de imprensa do governo Lula, usou a expressão um tanto em desuso, “classe dominante”. É um conceito clássico do marxismo, derivado da crítica profunda (e brilhante) que o filósofo alemão Karl Marx fez do capitalismo, ainda nos seus primórdios.
Em essência ele afirmava que as relações de trabalho, no capitalismo, se assentavam na exploração cruel e desumana da classe trabalhadora, o lado mais fraco e vulnerável onde a corda rebentava. As coisas eram assim desde tempos imemoriais para que as classes dominantes (a nobreza, a burguesia, os capitalistas) pudessem usufruir da riqueza criada por todos. Os demais deviam viver de migalhas, suficientes apenas para garantir a sua reposição. A luta de classes era a síntese que explicava a história do mundo, a passada, a presente e a futura.
A partir de tais argumentos, Marx elaborou a teoria de que o trabalhador espoliado tinha o direito de quebrar os grilhões que o aprisionavam. Vencidos os opressores, então a humanidade viveria uma era de prosperidade e paz.
Marx tinha razão: a exploração da classe trabalhadora, à época, era extensa, cruel e inumana. Porém quando enveredou pelo futuro, Marx errou a mão. Nada deu certo, nem se cumpriu, ainda que os marxistas que habitam o planeta, aos milhares, insistam na teoria de que a história ainda não chegou ao fim, isto é, nós ainda estamos apenas em uma estação de passagem, até a redenção final. O Palácio de Inverno será um dia tomado. Quando? Bem, aí o leitor está querendo saber demais.
Devemos à Marx a concepção pretenciosa dos marxistas, que se acham donos do futuro, conhecedores dos rumos da história, principalmente da que ainda não chegou.
O filósofo alemão não foi capaz de antever que o Estado burguês, a democracia formal e representativa, com todas as suas contradições, ao permitir um clima de amplas liberdades civis, sociais e políticas, não poderia represar as demandas das classes subalternas. Os trabalhadores passaram a votar nas eleições, a ter voz ativa e direitos próprios, práticas empresariais abusivas foram derrubadas, formas de trabalho degradante foram reduzidas e punidas.
Dentre as classes dominantes, na clássica divisão do mundo entre opressores e oprimidos, estão, sim, os grandes capitalistas, os rentistas e endinheirados. Mas logo ao lado, em igual patamar de dominação, hegemonia, influência - dividindo o poder -, estão as universidades, os sindicatos, os partidos de centro-esquerda e de esquerda, a mídia (quarto poder), as igrejas. Foi no clima plural das democracias ocidentais que brotaram os movimentos feministas, de raça, de orientação sexual, das minorias cada vez mais ruidosas, na proposição de difusão de suas demandas e palavras de ordem.
Em meio à classe dominante brasileira está o PT, a sua influência (domínio?) na academia, nas centrais sindicais, nas redações dos jornais, na igreja da teologia da libertação, no alto funcionalismo de Estado, nas estatais. Mas sabem como é, para petistas como Singer, dominantes são os outros, “elites” são os outros.
titoguarniere@terra.com.br



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