sábado, 17 de setembro de 2022

Artigo, Guilherme Baumhardt, Correio do Povo - Que vergonha

 Entre tantas frases ditas por Roberto Campos (e outras tantas atribuídas a ele), tenho especial predileção por uma delas: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar: bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. São os filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola”.


Na semana que passou, uma cantoria (chata) de alguns artistas (?) nacionais foi parar nas redes. Um videoclipe digno de propaganda soviética mostra músicos e cantores falando sobre o Brasil Maravilha, um país que só é possível com a volta do ex-condenado ao poder. Se você não se cuidar corre o risco de soltar uma lágrima. É tocante. É emocionante. E pasmem, leitores: eles resgatam, inclusive, a bandeira e as cores brasileiras, associando-as a quem sempre adorou o vermelho, a foice e o martelo. Sim, uma eleição é capaz de produzir milagres.


Voltando à frase de Roberto Campos. Fidel Castro morreu, os cachês hoje não são mais acertados em dólar (graças ao Plano Real) e, apesar da narrativa de que o atual presidente é um genocida, fascista, ortopedista, dentista, taxista e taxidermista, a liberdade vigora no país – ao menos no que diz respeito ao poder executivo. Sobre o STF, não podemos dizer o mesmo. Ou seja, décadas depois da maravilhosa frase de Roberto Campos, o nosso pessoal continua com sua libidinosa relação com o refrigerante que é ícone do capitalismo.


Em 2018, diante da iminente eleição de Jair Bolsonaro, muitos foram até o guarda-roupas e tiraram de lá o velho fantasma empoeirado da ditadura. Para essa turma, com a eleição de JB voltaríamos aos tempos de AI-5, da censura, da supressão das liberdades individuais, das liberdades artísticas. O tempo mostrou que não passava de groselha, coisa de quem usou substâncias ou talvez viva em uma realidade paralela.


O que assistimos, de fato, foi ao desespero do establishment. Bancos que gozavam do oligopólio perceberam que os dias de moleza estavam próximos do fim. Micro e pequenos empresários, que precisavam do carimbo e da bênção do Estado (no seu sentido mais amplo), agora podem tocar suas vidas, gerar emprego e renda sem a necessidade do amém do governante de plantão. E os artistas?


Bem, essa turma viu secar uma teta. Uma gorda teta. Acredite se quiser, no Brasil, o dinheiro do pagador de impostos (que poderia ser utilizado para obras de infraestrutura ou investimentos em segurança, por exemplo) foi canalizado para bancar espetáculo internacional com ingresso custando o equivalente a um salário-mínimo. Inauguramos a era do “empreendedorismo de risco zero”. Se lotar, ótimo. Se não lotar, as contas (total ou parcialmente) estão pagas. Aliás, meu reconhecimento às empresas (produtoras de eventos) que não faziam uso da lei de incentivo para este fim.


Sobre liberdades. Não se tem notícia de um show daquele cantor Sandy Jr. (ou é uma dupla?) que tenha sido vetado por Bolsonaro. Não se sabe de alguma letra ou música de Chitãozinho e Xororó que tenha sido alvo de censura. Gilberto Gil segue sendo o esquerdista/petista que sempre foi. Não foi preso, não precisou ir para o exílio e nem teve jipe do Exército batendo na sua porta. Caetano Veloso fala abertamente que votará em Ciro Gomes, nossa eterna fonte de humanismo, ponderação, racionalidade e razoabilidade.


Se não assistimos a uma truculência bolsonarista contra as liberdades, o que vimos foi a Suprema Corte do país impor aos cidadãos (alguns, inclusive, protegidos pela imunidade parlamentar) a maior mordaça já vista. E, quanto a isso, o grosso da nossa classe artística, sempre tão estimada, valorosa e corajosa, não deu um pio sequer. Pior, querem que você acredite que a solução dos nossos problemas é colocar de volta no Palácio do Planalto o sujeito que quebrou o país, junto do seu poste, Dilma Rousseff.


Para entender a cantoria (ou choro) dos artistas nacionais vermelhos, além de Roberto Campos, é prudente relembrar também a frase vinda a público no escândalo Watergate, nos Estados Unidos: “Follow the Money”. Ou, em bom português, siga o dinheiro.


O engajamento político de artistas recomenda cautela. Como hoje resolvi citar frases, lembro de Millôr Fernandes, falando sobre Chico Buarque (outro vermelho): “Eu desconfio de todo idealista que lucra com o seu ideal”. Vale para Chico Buarque. E vale para todos aqueles que receberam gordas indenizações do pagador de impostos brasileiro, por terem participado da luta armada. Como dizia Millôr: “Não era ideologia, era investimento”.


Se aqueles que gravaram o clipe enaltecendo o ex-condenado querem nele votar, são livres para isso (mais uma prova de que não há ditadura bolsonarista vigente no Brasil). Só não me chamem de burro ou otário. De gente assim eu prefiro manter distância. De gente como Millôr e Roberto Campos eu sinto saudade.

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