quinta-feira, 29 de abril de 2021

Artigo, Geraldo Samour, Brazil Journal - Em “Mr. Dreamer”, um Sirotsky tenta recuperar seu “groove”.

Desde quando era moleque, José Pedro Sirotsky já respirava música, trabalhando na rádio da família como programador e apresentador. Nos anos 70, seu programa Transasom, que nasceu na Rádio Gaúcha e logo migrou para a TV, começou a exibir videoclipes antes do gênero ser criado e muito antes de se tornarem um pilar da indústria musical. Para trazer as novidades da cena internacional, Pedro usava comissários da Varig para “importar" gravações de shows de rock. Na cena doméstica, seu programa abriu espaço para talentos gaúchos que estavam começando, incluindo Kleiton & Kledir e Borghettinho. Mas em 1979, a música parou. O jovem VJ, então com 23 anos, teve que atender a pedido seu pai-herói, Maurício Sirotsky, o fundador do grupo de mídia RBS: largar os programas para assumir a operação das rádios FM que a RBS estava começando a montar. Tinha início ali uma hibernação que duraria 40 anos, durante a qual o jovem aficcionado por música trocou os headphones pelo terno, gravata e as realidades do balance sheet sem jamais estar convicto do tradeoff. A catarse dessa hibernação é 'Mr. Dreamer,' um docudrama profundamente pessoal no qual Sirotsky expõe a angústia de um sonho interrompido e tenta se reconectar com a música procurando entender os jovens talentos - gente que hoje tem a mesma idade que ele tinha quando parou.


Dirigido por Flavia Moraes, Mr. Dreamer estreia dia 29 no NOW (Claro Brasil) e em maio na GloboPlay. Assim como os jovens que mostra, Mr. Dreamer é um projeto em busca de uma vocação. Pode se tornar uma série, um reality show, ou parar por aqui, como uma provocação. O filme começa com Sirotsky viajando a Dublin para explorar a cena musical da cidade, mas o roteiro de Marcélo Ferla teve que mudar porque a pandemia mudou o mundo, forçando Sirotsky a um novo tipo de hibernação. Entre sua casa no litoral catarinense e uma viagem a Porto Alegre onde cresceu, Sirotsky reflete sobre o que podia ter sido. Pedro não foi o único Sirotsky a trocar uma carreira musical pelos negócios. Seu pai era um apresentador de programas de auditório que largou o microfone para construir a RBS. Sua mãe – uma cantora de rádio precoce que chegou a ser conhecida como a 'Shirley Temple do Sul' – foi forçada a interromper seu sonho aos 14 anos com a morte da mãe. O velho Mauricio, reza a lenda, "descobriu" Elis Regina e lhe deu seu primeiro contrato profissional no final dos anos 1950. Mais tarde, Mauricio e Elis brigaram e ficaram anos sem se falar, até que, entrevistando a Pimentinha para seu programa em 1978, Pedro reaproximou os dois, que voltaram a ser amigos. (A amizade se estendeu ao próprio Pedro.) Para o historiador Eduardo Bueno, amigo de Pedro há décadas, os próximos episódios de Mr. Dreamer deveriam mostrar a música de outras cidades brasileiras e do mundo, "talvez a procura pela próxima Elis." Talvez olhar para o futuro seja realmente o melhor caminho - até porque nem todo mundo aprecia a nostalgia. Numa cena do documentário, Alan McKee, o músico millennial que Sirotsky descobriu em Dublin, se exaspera com a pandemia. "Ter tempo livre é ótimo, mas de que serve isso se eu não posso fazer shows e não tenho dinheiro?" E, apontando para Sirotsky, diz: "Você tem uma vida ótima, tem dinheiro e pode fazer o que quiser." Alan has a point. Sirotsky não pode exatamente reclamar da vida: sua carreira empresarial lhe trouxe enormes recompensas materiais. Além disso, misturou prazer e negócios no melhor sentido possível: tornou- se amigo de nomes como Caetano, Gil, Roberto Carlos e Lulu Santos, e, como chefe da RBS em Santa Catarina, levou a Florianópolis o primeiro show internacional da cidade: Rod Stewart em 1989, seguido de Eric Clapton e Paul McCartney. Não foi pouca coisa. Como a grama do vizinho é sempre, por definição, a mais verde, alguns poderão menosprezar a queixa de Sirotsky como um 'white people problem' – em vez de uma questão existencial legítima sobre 'qual vida se deve viver.' Mas numa época em que a pandemia nos força a refletir sobre os valores que importam e a brevidade da nossa experiência, Mr. Dreamer é particularmente sensível e oportuno.


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