quarta-feira, 12 de maio de 2021

Artigo, Renato Sant'Ana - A quem interessa a vulnerabilidade do país?

"Se não houver voto impresso, não haverá eleições em 2022", disse Bolsonaro, errando na forma e tropeçando no conteúdo, mas com muito acerto em advertir para a grande farsa de uma eleição não auditável.

É no mínimo estranho que haja quem se oponha a mudar o sistema, como se os computadores da Justiça Eleitoral fossem absolutamente seguros.

Os crimes a seguir referidos provam que, não sendo auditável (hoje não é!), nossa votação em modo eletrônico jamais poderá ser considerada transparente nem, muito menos, confiável.

Há poucos dias, em 28/04/2021, hackers atacaram o sistema de computação eletrônica do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, TJ-RS.

Por meio de um ransomware (software malicioso - malware - que bloqueia o acesso a arquivos ou sistemas de um computador) foram criptografados criminosamente conteúdos como textos, imagens, modelos de documentos jurídicos e processos, inclusive dados sigilosos.

Segundo o CISO Advisor (um website dedicado à segurança cibernética, segurança da informação e ciberdefesa), criminosos pediram o equivalente a US$ 5 milhões em criptomoedas para fornecer as chaves que podem decodificar (desbloqueando) o conteúdo criptografado.

Há poucos meses, em 03/11/2020, hackers invadiram os "servidores" do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e criptografaram todos os processos em tramitação na casa e outros documentos, além de bloquearem o acesso às caixas de email dos ministros daquela corte.

Em 19/03/21, foi preso pela Polícia Federal o responsável pelo vazamento de dados de 223 milhões de brasileiros (sic). Ele já tinha sido preso antes e usava tornozeleira eletrônica por haver realizado, com outros bandidos, ataques cibernéticos aos sistemas do Exército Brasileiro, Senado Federal e, notem bem, Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mundo afora, a lista de crimes dessa natureza é imensa. Sites presuntivamente os mais bem guardados - inclusive NASA e Governo dos Estados Unidos - já foram invadidos por hackers.

O que falta para admitirem que nenhum sistema é totalmente seguro? Por que seria o nosso sistema eletrônico de votação o único inexpugnável?

O ataque ao TJ-RS visava a extorquir dinheiro. Mas o potencial ofensivo do cibercrime é muitíssimo mais grave quando tem um Estado por trás.

Em 28/05/2020, o governo alemão convocou o embaixador russo, Sergei Netschajev, a explicar um ciberataque ao parlamento do país (Bundestag) e aos serviços de mensagens da chanceler Angela Merkel.

O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha informou existirem claros indícios de que o ciberataque (executado cinco anos antes) foi praticado por um elemento que pertencia, à época, ao serviço de inteligência militar russo (GRU).

Conforme o website CISO Advisor, em 07/04/2020, a A BlackBerry Research and Intelligence Team apurou a atuação de cinco grupos chineses que, durante uma década, sem serem detectados, vinham invadindo principalmente (mas não apenas) a plataforma Linux.

Acontece que o Linux roda em todos os 500 supercomputadores mais rápidos do mundo e em 90% de toda a infraestrutura de nuvem. Além disso, 96,3% dos 1 milhão de servidores espalhados no planeta também operam com ele. É de se imaginar o quanto os espiões chineses já bisbilhotaram.

Os investigadores da Blackberry viram indícios de que os espiões são civis contratados pelo governo chinês, os quais cumprem a rotina de compartilhar ferramentas, técnicas, infraestrutura e informações entre si e com seus colegas do governo.

Tem ainda a Coreia do Norte, que financia seus programas de mísseis nucleares com dinheiro do cibercrime, conforme descreve relatório da ONU revelado em 10/02/2021. Mas China e Rússia, dois regimes totalitários, é que são as duas grandes hienas prontas a atacar nações debilitadas.

Aí, é preciso ser muito desinformado para não entender que esses países têm interesse no Brasil. E só um fedelho de grêmio estudantil acha que é teoria da conspiração quando se diz que as hienas têm lado nas nossas eleições e que, podendo, elegerão o seu candidato.

O que fica patente é que nosso sistema atual de votação está sujeito a intrusão tanto de agentes internos quanto de externos.

E uma conclusão é simples: se existe, como é óbvio, interessados em fraudar as eleições; se o atual sistema eletrônico de votação é vulnerável; então, até por uma questão de soberania nacional, é urgente criar as condições para tornar auditável o processo eleitoral.

Mas a solução não é o voto impresso, que, aliás, não tem chance de ser implantado. O jornalista Jorge Serrão já apontou um meio de, com baixo custo, "combinar voto físico com eletrônico, para que ambos sejam comparados", tornando a votação auditável e o processo transparente.

Escreveu Jorge Serrão: "Eleição 100% segura: Eleitor recebe o cartão do voto. Faz suas marcações. Passa o cartão numa leitora da urna eletrônica (A). Dado ok? Dedada na urna. Em seguida, deposita o cartão na urna física (B) para conferência. A tem de ser igual a B. Se for, eleição limpa, transparente."

Bolsonaro errou na forma. Embora o "conjunto da obra" torne óbvio o sentido das suas palavras, a literalidade deu azo a que os partidários da fraude eleitoral apontassem nelas ameaça de golpe. Não colou, claro.

Ademais, faria bem se deixasse a escolha do melhor recurso técnico para quem tem tempo, conhecimento e honestidade para resolver o problema.

O mérito do presidente está em trazer à baila uma inquietude que é de todos os brasileiros esclarecidos e honestos.

 

Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo. 

E-mail sentinela.rs@uol.com.br

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