quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Jornal Valor - A fé nas diferenças


Por Patrick Cruz, 09/10/2015 às 05h00
Um dos homens mais poderosos da República na atualidade é Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados. Equilibrando-se entre a descoberta de contas bancárias na Suíça atribuídas a ele e seus familiares e o desejo de levar o governo à lona, em suas mãos poderá estar, por exemplo, o andamento de um eventual processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Cunha é evangélico. Em 2016, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) deve ser um dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, a maior metrópole do país. Feliciano é evangélico. Nos dias 22 e 23, mais de 2 mil políticos evangélicos deverão se reunir em Brasília para discutir sua atuação na vida pública, no primeiro congresso do gênero organizado pela Frente Parlamentar Evangélica. Todos são irmãos de fé, mas será que todos compartilham a mesma visão de mundo e do papel da religião?
Não é bem assim. O crescimento da população evangélica no país - e também da chamada bancada evangélica no Congresso - tem sido tratado por alguns analistas políticos e sociólogos muitas vezes como sinônimo de ascensão de um Brasil mais conservador. Mas, em paralelo, ascendem vozes que mostram: muitos não se sentem representados por essa ala. São líderes religiosos, pensadores e fiéis que, organizados em grupos, defendem bandeiras de tolerância social, política e religiosa, muitas vezes não associadas a esse grupo. "Eu não votei nessas pessoas que dizem falar em nome dos evangélicos. Não penso como eles, e muita gente do meio evangélico também não", diz Clemir Fernandes, pastor da Igreja Batista e sociólogo. "O mundo evangélico tem visões muito mais diversas do que essa agenda exclusivamente moralista."
Antônio Carlos Costa, pastor da Igreja Presbiteriana e presidente da organização não governamental Rio de Paz - conhecida por seus atos contra os assassinatos no país -, é outro representante desse segmento que começa a marcar uma posição distinta. "É muito evidente que boa parte da sociedade vê os evangélicos como uma coisa só, mas nem todos seguem esses verdadeiros 'coronéis da fé', que se dizem representantes de todos os evangélicos", diz. Costa foi um dos pastores que, em 2013, assinaram um manifesto contra a polêmica indicação de Marco Feliciano - notoriamente contrário ao casamento de pessoas do mesmo sexo - para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.
Uma das máximas sobre a relação dos evangélicos com a política é "irmão vota em irmão", expressão que batizou um dos livros do pesquisador evangélico Josué Sylvestre, ainda nos anos 80. Hoje, a chamada bancada evangélica tem 74 deputados federais e três senadores, de acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Mas não necessariamente esses 77 parlamentares falam em nome de seus 45 milhões de evangélicos.
Ronilso Pacheco, evangélico e estudante de teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), é uma das pessoas envolvidas no momento na estruturação do Entre Nós, plataforma que pretende mapear iniciativas sociais e políticas capitaneadas por evangélicos. A ideia é identificar os trabalhos com visão menos conservadora, mais "progressista", da sociedade - e, com isso, ajudar a diminuir o estigma que, segundo Pacheco e outros apoiadores da iniciativa, coloca evangélicos como essencialmente moralistas.
"Inicialmente, queremos mapear essas iniciativas. Muitas vezes são pequenos grupos, ou mesmo pessoas trabalhando sozinhas, mas sempre com o respeito às diferenças e ao diálogo - e são pessoas que não são vistas", afirma Pacheco. "No longo prazo, queremos ajudar a mudar a visão que se tem dos evangélicos, a mostrar a diversidade de opiniões [nesse grupo]." Entre os planos do Entre Nós está a organização de seminário para discutir como os evangélicos são retratados na imprensa.
Cunha, da ala mais "conservadora" dos evangélicos: a fiéis que dizem não ser representados por essa ala incomoda o uso de conteúdo religioso na elaboração de leis
O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil é um dos grandes fenômenos sociais do país nas últimas décadas. Em apenas 30 anos, entre 1980 e 2010, os adeptos passaram de 6,6% para 22,2% da população, segundo o IBGE. Ainda assim, os estudos sobre o tema não crescem na mesma proporção - e, com isso, levantamentos que exponham as nuances dos diferentes perfis de evangélicos são escassos. "Os evangélicos são heterogêneos, como heterogênea é a sociedade brasileira", observa Ricardo Mariano, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).
A ala mais "conservadora" dos evangélicos, representada por deputados como Eduardo Cunha e Marco Feliciano, é mais estridente. Sobram a eles o palanque dado pelos cargos que ocupam e a desenvoltura de políticos experientes. Aos eleitores evangélicos que dizem não se sentir representados por essa ala incomoda não apenas a oposição a temas tidos por esses congressistas como contrários à fé que professam, mas o próprio uso de conteúdo religioso na elaboração de projetos e leis.
O texto original da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata da maioridade penal é um exemplo disso. A PEC data de 1993 e foi elaborada pelo ex-deputado federal Benedito Domingos (PP-DF), pastor da Assembleia de Deus. Na justificativa para o projeto, Domingos citou passagens da "Bíblia" e três de seus personagens, Salomão, Davi e o profeta Ezequiel. Não havia estatísticas no texto que justificou a PEC.
Já entre alguns "progressistas" - em autocrítica feita em depoimentos colhidos pelo Valor -, a projeção política nunca foi uma prioridade. Está aí uma das origens, acreditam, do paralelo feito por muitos observadores políticos entre conservadorismo e a atuação política dos evangélicos: apenas uma ala tomou os palanques; a outra preferiu trabalhar um pouco mais em silêncio. Também está aí a força dos ditos conservadores, a despeito de mais vozes evangélicas se manifestarem como antagonistas: entre eles, há um esforço constante por exposição - e por exposição que mencione o fato de serem evangélicos.
Se há um crescente número de vozes que dizem não se sentir representadas por parte da bancada evangélica, fica evidente que, entre os evangélicos, as visões de mundo, políticas e sociais, são diversas como em qualquer outro estrato da população brasileira. Em 2002, a cientista política Simone Bohn, doutora em ciências sociais pela USP, publicou o artigo "Evangélicos no Brasil: perfil socioeconômico, afinidades ideológicas e determinantes do comportamento eleitoral". A pesquisadora mostrou que 39,6% dos católicos entrevistados eram contra o aborto em qualquer situação. Entre os evangélicos, a oposição era um pouco maior, de 46,7%. Simone registrou que os evangélicos eram "mais tradicionalistas" no tema, mas ressaltou: "É fundamental perceber que a postura antiaborto é comum a todos os segmentos religiosos".
A diferença mais significativa apareceu na pergunta sobre homossexualidade. Entre os evangélicos, 15,7% disseram considerar que as pessoas são livres para fazer suas escolhas sexuais. O percentual foi quase o dobro entre os católicos (31%). Ao mencionar a pesquisa, o professor Mariano complementa: "Nesse tema, os evangélicos apareceram como mais conservadores que a média, o que não quer dizer que os outros também não tenham se mostrado conservadores".
É verdade que, se faltam estudos que evidenciem os diferentes perfis de evangélicos, também falta que os grupos dissonantes se façam ouvir. "Há políticos que se manifestam como representantes do 'Brasil cristão', mas não falam em nome de todos. Apenas uma parte dos evangélicos concorda com eles", diz Rodrigo Franklin de Sousa, evangélico e professor do programa de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Os que discordam se calam, preferem se abster da política. Talvez seja o caso de uma mudança de postura."
Nem toda ação política exige voto na urna. Em 2002, membros e ex-membros da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (Abub) criaram a Rede Fale, mais uma iniciativa identificada com evangélicos que não se sentem representados pela chamada bancada evangélica. O grupo tem ramificações em pelo menos 13 Estados e realiza campanhas de conscientização, debates e petições sobre temas que vão de igualdade racial a justiça no comércio internacional. O Fale também já se manifestou oficialmente em debates públicos, como o ocorrido na eleição para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em 2013.
"Nenhuma liderança religiosa ou política pode ser porta-voz dos evangélicos. Fazemos parte de um segmento extremamente plural", disse, por e-mail, a coordenação nacional do Fale - o grupo preferiu não destacar nenhum integrante em particular nesta reportagem. A coordenação reconhece que, em parte da comunidade evangélica, o "irmão vota em irmão" ainda está presente. "Algumas igrejas ainda são tratadas como curral [eleitoral]", afirma o grupo.
"A fé não pode ser tratada como moeda para se conseguir vantagens materiais ou simbólicas. É lamentável que a sede de poder seja ainda hoje uma tentação para muitas lideranças cristãs." As vantagens materiais, diz a coordenação, incluem a doação de terrenos para a construção de novos templos.
As igrejas evangélicas têm origem na Reforma Protestante, como ficou conhecida a cisão entre a Igreja Católica e o teólogo alemão Martinho Lutero, ocorrida em 1517. Lutero insurgiu-se contra o comércio de indulgências, a compra e venda de perdões pelos pecados que havia se tornado habitual nos meios católicos. Ao ler com atenção as "Escrituras", chamou a atenção de Lutero o texto da carta do apóstolo Paulo aos romanos, em que este afirma que a "salvação vem por meio da fé". Isso contrariava a doutrina católica de que a salvação era um resultado das boas obras, o que por sua vez fortalecia as vendas de indulgências. Ao reler a "Bíblia" e se insurgir contra o comércio da fé, Lutero valorizou um princípio hoje basilar para os protestantes - o do direito à livre interpretação dos textos bíblicos.
"A livre interpretação, que é a força do protestantismo, acabou desvirtuada", diz Antônio Carlos Costa, da Rio de Paz. "Já se usou a 'Bíblia' para justificar a segregação racial nos Estados Unidos e o apartheid na África do Sul." Esse desvirtuamento ajudou a cunhar a frase "a Bíblia é a mãe de todas as heresias", creditada ao teólogo protestante Júlio Andrade Ferreira, morto em 2001. Mas é também a livre interpretação que reitera as diferenças de pensamento que há entre os diferentes grupos de evangélicos no Brasil.
São três grandes denominações protestantes. As tradicionais - ou históricas -, conjunto que inclui batistas (a maior dessa ramificação no Brasil, com 3,7 milhões de pessoas), luteranos e presbiterianos, surgiram na Reforma Protestante ou logo depois dela. As pentecostais - entre as quais está a Assembleia de Deus, maior igreja evangélica do país, com mais de 12 milhões de fiéis -, nascidas nos Estados Unidos no início do século XX, reconhecem as manifestações do Espírito Santo. O terceiro grupo, surgido a partir da década de 60, é o das neopentecostais. Elas se diferem das pentecostais por uma maior liberdade de costumes e pela ênfase dada à teologia da prosperidade, segundo a qual qualquer desejo pode ser alcançado por meio da fé. Desse grupo, no Brasil, a maior é a Universal do Reino de Deus, com 1,8 milhão de fiéis.
Essa perspectiva histórica ajuda a explicar as diferentes visões de mundo que há também entre os evangélicos - e por que há segmentos com mais representação política que outros. Até o início dos anos 80, era incomum que os evangélicos entrassem na política. O quadro começou a mudar na segunda metade da década. Disseminou-se em meios evangélicos - em particular, na Assembleia de Deus - que a Assembleia Constituinte, que seria instalada em 1986, votaria leis que dariam mais benesses à Igreja Católica - e, por oposição, que tolheriam liberdades dos evangélicos.
Isso uniu parcela grande dos fiéis em torno da ideia de que era necessário ter representantes para defender seus direitos. O receio virou combustível para o crescimento das igrejas, em particular as pentecostais. "Desde o início do protestantismo, quanto mais os evangélicos apanham, quanto mais se sentem perseguidos, mais eles crescem", comenta Lidice Meyer Pinto Ribeiro, professora da pós-graduação em ciências da religião da Mackenzie.
O temor que uniu parte dos evangélicos em torno da ideia de que era necessário ter representantes na política mostrou resultado nas urnas. Na eleição para a legislatura 1983-1986, 12 deputados federais evangélicos saíram vencedores, sendo 2 pentecostais. Na seguinte, para o período 1987-1990, foram 32 deputados - com 18 pentecostais, e, desses, 13 da Assembleia de Deus.
Houve novo clima de receio na eleição presidencial de 1989. Em seus discursos, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva expunha o plano de instalar um "socialismo democrático" no Brasil. Na era pré-queda do Muro de Berlim, com o histórico de supressão das liberdades religiosas na União Soviética e nos países sob sua influência, Lula era visto como "comunista" - e, como tal, supunha-se que também cercearia o direito de culto dos crentes. Mais uma vez grande parte dos evangélicos se uniu em uma causa política para assegurar a manifestação de sua fé.
"No segundo turno da eleição de 89, houve movimento anti-Lula entre os evangélicos", diz o cientista político Cesar Romero Jacob, professor da PUC-Rio. "E não deu outra: onde tinha mais igreja evangélica, o [Fernando] Collor [hoje senador pelo PTB-AL] levou mais votos." A rejeição a Lula entre os evangélicos ocorreu também nas eleições presidenciais de 1994 e 1998, afirma o professor. Ambas foram vencidas por Fernando Henrique Cardoso.
Jacob mapeou os resultados da eleição presidencial de 2002, na qual o evangélico Anthony Garotinho recebeu 15 milhões de votos e ficou em terceiro lugar. Essa eleição é um dos grandes exemplos de que a máxima "irmão vota em irmão" segue válida, raciocina o professor. Garotinho recebeu mais votos onde havia mais evangélicos pentecostais e repetidoras da Rede Record, controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal. Nas eleições para a Prefeitura do Rio, em 2004, e para o governo fluminense, em 2006, o também evangélico Marcelo Crivella - sobrinho de Macedo - teve grandes votações em áreas com forte concentração evangélica, segundo o levantamento de Jacob.
Doze anos depois, outro presidenciável evangélico não teve o mesmo sucesso. Pastor Everaldo (PSC) terminou a eleição de 2014 com 780 mil votos. Além de Everaldo não ter governado nenhum Estado, entre uma eleição e outra, pelas igrejas do país, o mantra que fortaleceu Garotinho, ex-governador do Rio, foi substituído pelo voto em "homens de bem", sem especificar o credo. O ponto de virada pode ter sido a CPI dos Sanguessugas, que investigou a máfia das ambulâncias.
Segundo o relatório da CPI, dos R$ 9 milhões pagos em suborno para que parlamentares direcionassem emendas para a compra de ambulâncias, 58% foram para os bolsos de evangélicos. Foi assim que, dos 50 deputados evangélicos que tentaram a reeleição em 2006, 32 foram rejeitados nas urnas. Dezoito se reelegeram, e os demais da bancada eram novatos. A legislatura 2007-2010 começou com 27 deputados federais a menos que a anterior.
Essa retrospectiva relativiza a ideia de que, se há alguns evangélicos no Congresso, eles falam em nome de todos - e uma ideia que não deixa de ser alimentada por parte desses congressistas. "Se muitas vezes eles [membros da bancada evangélica] discordam entre eles mesmos, imagine se há alguma chance de unanimidade", diz o pastor Clemir Fernandes. "É impossível falar em nome de todos os evangélicos."
Enxergar matizes nesse estrato do eleitorado e do Congresso exige um amadurecimento político do país que o maniqueísmo atual não deixa entrever. Mas as evoluções raramente ocorrem na velocidade que se deseja delas. "Quando vemos um deputado com um discurso bastante conservador, e o deputado é evangélico, o discurso é conservador, mas não necessariamente evangélico", diz Rodrigo de Sousa, da Mackenzie.
Entre os matizes, há o do deputado João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica - e um dos nomes que vêm à mente dos evangélicos que dizem não se sentir representados pela bancada que se identifica como tal. Nos dias 22 e 23, Campos será um dos anfitriões do 1º Congresso de Agentes Políticos Evangélicos do Brasil (Capeb). Segundo ele, o evento terá como foco a capacitação dos parlamentares, deputados estaduais, prefeitos e vereadores. O deputado espera pelo menos 2 mil pessoas no encontro.

Campos foi o autor do projeto que ficou conhecido como "cura gay". O texto do projeto sugeria a suspensão de artigos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que impedem que profissionais da área participem de terapias para tentar alterar a orientação sexual de pacientes. Um dos principais palestrantes do Capeb será o pastor Silas Malafaia, voz ativa da ala mais conservadora dos evangélicos - que, de tão onipresente no mundo político, não raro é chamado de "deputado". "Qualquer interessado vai poder participar do congresso, mesmo não sendo evangélico", afirma o tucano. Outro dos palestrantes será Eduardo Cunha - se nada mudar no cenário político até lá.

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