terça-feira, 27 de setembro de 2016

Artigo, Tito Guarnieri - "Ditabranda" e golpe

O jornal Folha de São Paulo tem se referido ao presidente Michel Temer, em editoriais, como “Temer Golpista”. É um desrespeito aos fatos e aos leitores. Cai bem no figurino de um estudante secundarista, desses que queimam pneus e invadem escolas, mas não de um grande jornal. Talvez o jornalão queira compensar, nas esquerdas, a gafe histórica de cinco ou seis anos atrás, quando afirmou que o regime militar de 1964 não foi uma ditadura, mas uma “ditabranda”.

Que um ou mais dos muitos colunistas do jornalão paulista chame Temer de golpista, vá lá. Mas o editorial reflete a posição do jornal, vale dizer, para a FSP o impeachment foi  golpe. Sorte da Folha e de toda a imprensa que o “golpe” foi tão brando – este sim -  que vigoram no País as mais amplas liberdades civis e políticas, o Congresso está aberto, a Justiça funciona e os jornais dizem o que bem entendem, até mesmo chamando o presidente de “Temer Golpista” em editorial.

Se todos fizessem o raciocínio cretinoide do jornalão paulista, quem pensa diferente deveria se referir ao ex-presidente Lula como Lula Réu da Lava Jato, ao PT como PT - o Partido Mais Corrupto da História, e à Dilma, como Dilma - a Pior Governante do Brasil de Todos os Tempos.

A estrela cai

O Partido dos Trabalhadores derreteu nas eleições municipais deste ano. Nas eleições de 2012 o PT apresentou, em todo o Brasil, 41.756 candidatos a vereador, prefeito e vice-prefeito. Agora, em 2016, o número de candidatos do partido desabou para 24.269.

Em 2012, ficava atrás só do PMDB em número de candidatos. Em 2016, está atrás do PMDB, PSDB, PSB, PDT e PP. O PT, nesse critério, está agora mais ou menos do tamanho do DEM e do PTB.

Ao mesmo tempo, nas pesquisas eleitorais deste final de semana, só tem um candidato do partido que lidera nas capitais,  em Rio Branco, no Acre. Os candidatos escondem a estrela e a sigla. É pesada a conta das lambanças.

Retórica e ação

O governo Temer, de surpresa, apresentou um projeto de mudanças no ensino médio do País. Antes mesmo de ler com atenção, as forças retrógradas de sempre caíram de pau na proposição.

É o mantra ordinário:  o projeto não foi discutido com a sociedade. Ora, se existe algo que não falta na reforma do ensino,  nestes 13 últimos anos, é a discussão, o debate. E no entanto, o ensino médio – e não só ele – ou fica na condição sofrível em que está ou ainda decai em qualidade.

Era de esperar de um governo “popular” que a educação fosse uma prioridade real, e não dessas urgências que só existem nos discursos de candidato. Mas não há instância da educação brasileira, nestes anos de lulopetismo, que não se tenha degradado. Uma das razões está bem à vista:  o debate sobre a matéria, entre especialistas e na sociedade, é um meio que, nunca concluído, acaba por se transformar num fim em si. Dizendo de outro modo, muita retórica e  pouca ação.

A grita em curso é porque a proposta não é “deles”,  não vem “das bases”. Não sendo deles, é imprestável. E apresentada assim, em tempo recorde, lhes rouba a prática execrável de enxugar o gelo em consultas intermináveis, de modo a que – no final – tudo permaneça como está.

titoguarniere@terra.com.br


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