domingo, 21 de fevereiro de 2016

Escritor americano aponta o brasileiro como o grande problema do país e desperta reações extremada

Texto publicado por escritor americano mexe com os brios do brasileiro e põe em questão a relação dúbia que o brasileiro tem com o olhar estrangeiro e a própria autoimagem

Pouca gente fala tão mal do Brasil quanto o próprio brasileiro, ou ao menos uma determinada parcela bem identificável da sociedade brasileira – da classe média para cima, digamos. Mas se alguém o fizer – e não for um brasileiro, prepare-se para a indignação que não se fará esperar, ainda mais nesta época rápida de redes sociais.
Foi o que fez Mark Manson, um escritor americano. Noivo de uma brasileira e com planos de passar mais tempo no país, ele publicou, no dia 11 de fevereiro, em sua página pessoal, uma longa Carta Aberta ao Brasil (que pode ser lida no endereço markmanson.net/brazil_pt), na qual apontava o principal responsável pelos problemas recorrentes do país: o próprio brasileiro.
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“O problema é a cultura. São as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade. O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte de ‘ser brasileiro’ mesmo que isso não esteja certo.”, diz Manson em um dos trechos da postagem, que aponta também que os brasileiros são egoístas, vaidosos, bem pouco inclinados ao altruísmo pelo bem comum, embora leais aos amigos próximos.
As reações não tardaram. Muitas delas, como seria de se esperar, negativas. Já no primeiro dia intelectuais, pesquisadores e pessoas comuns manifestaram em suas redes sociais indignação pelo “texto do gringo”. Mas, e aqui está talvez o ponto que provoca reflexão, muitos o compartilharam com a aprovação e o entusiasmo de uma verdadeira declaração oficial das Nações Unidas. Para alguns, este é o verdadeiro mistério.
– É um texto fraco, que levanta até algumas questões interessantes, mas não se aprofunda. Para mim, a grande  questão é por que a classe média, de modo geral, se identificou tanto com esse texto e concordou com ele de modo tão apaixonado. O furor provocado por esse texto é, pra mim, o verdadeiro objeto de interesse desse artigo – diz Ronaldo Helal, professor de Comunicação e Cultura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Para além de qualquer consideração sobre a qualidade do texto de Manson, ou mesmo suas qualificações para realizar uma análise de um país estrangeiro, o que parece ter acontecido é que seu olhar de fora talvez tenha se conectado a um impulso que constitui parte do imaginário nacional e que vem à tona de tempos em tempos, principalmente em períodos de crise: a suspeita melancólica de que o país está fadado ao fracasso, não importa que mudanças ocorram na política, na economia e na sociedade.
Não é um tema novo. De tempos em tempos, uma pesquisa qualquer encomendada por instituto de pesquisa ou por algum veículo de comunicação devolve uma imagem incômoda (e em muitos casos distorcida) de seu país e de sua comunidade. Uma delas, realizada pela revista Superinteressante, em 1991, por exemplo, entrevistou 1,2 mil pessoas em seis grandes capitais para chegar à assombrosa conclusão de que um em cada dois desses entrevistados não via nada de bom no Brasil. Outra, realizada em 2000 pelo Instituto Datafolha, registrava que a primeira ideia associada ao Brasil por mais da metade dos consultados era negativas: crise, pobreza, má administração, violência e desemprego, entre outras. São essas as personagens que veem nas palavras de Manson uma confirmação de seu próprio pensamento sobre um país com crises periódicas e casos sucessivos de corrupção.
Outro ponto interessante a se refletir quando se pondera a reação despertada pela postagem de Manson está o próprio histórico brasileiro com a opinião estrangeira, mesmo quando ela de algum modo acerta, ainda que de modo superficial, em pontos válidos dos problemas nacionais. Embora muitos se sintam insultados, outros veem no olhar de um estrangeiro, qualquer estrangeiro, a legitimidade que faltava para concluir que o Brasil foi à breca. Um exemplo é o da frase “O Brasil não é um país sério”, citada há gerações como uma declaração derrisória proferida pelo presidente-herói francês Charles De Gaulle nos anos 1960. Há de querer dizer algo o fato de que De Gaulle nunca disse tal coisa, ele foi na verdade o destinatário da frase, formulada por um... brasileiro, o diplomata Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964. O fato de que a diatribe passou ao anedotário nacional atribuída ao presidente estrangeiro é um indício dessa relação dúbia, de concordância e de revolta que muitos têm com gringos que emitem uma opinião sobre o Brasil.
Os tópicos levantados por Manson não são necessariamente novos. Alguns deles, ao contrário, estão no coração do pensamento social brasileiro. A lealdade à tribo antes que ao conceito imaterial de Estado já foi diagnosticada no muitas vezes mal compreendido “brasileiro cordial” identificado por Sérgio Buarque de Holanda em seu Raízes do Brasil. O “cordial” aqui não é o amistoso, acepção que se tornou comum para o termo, e sim aquele que é regido pelas forças “do coração” (“corda”, em latim): o resultado é o estabelecimento da família como núcleo primário da cidadania e da noção de disponibilidade do público para o interesse privado.
Roberto da Matta, por sua vez, já definiu o “jeitinho” e o “você sabe com quem está falando?” comuns na sociedade brasileira  como “como duas pernas de uma mesma ficção jurídica”, a saber, a de que a lei é justa, alcança a todos e todos a cumprem. O “jeitinho” nasce com o exemplo de cima: ao notar que o aristocrata não está sujeito ao mesmo rigor, o “do andar de baixo” desenvolve artifícios para ter, por baixo dos panos, a mesma relação com a lei geral, ou seja, escapar dela quando for possível.
Em seu recente best-seller A Cabeça do Brasileiro (Record, 2007), o sociólogo Alberto Carlos Almeida testa essas formulações em uma pesquisa ampla e chega a uma radiografia do modo de pensar nacional, apontando a educação como o grande divisor entre “dois Brasis”. Na contramão do discurso que culpa exclusivamente a elite, Almeida conclui que a ampla fatia de 57% de brasileiros que cursou só até o ensino fundamental tem um perfil bem delineado: é um personagem que apoia o jeitinho, valoriza a hierarquia e o patrimônio, é desconfiado, contrário ao liberalismo no comportamento, a favor da censura e tolerante com a corrupção.  Se é assim, o que pode ter provocado tal identificação, como se o texto apontasse algo novo, ou tal indignação, como se o texto estivesse errado do início ao fim? Talvez a superficialidade de era da internet.
– O brasileiro tem a mania de falar que todo mundo é corrupto, menos quem fala. O texto dele toca em uns pontos interessantes, mas não se aprofunda, e as pessoas aceitam como revelação – comenta Ronaldo Helal.


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