terça-feira, 3 de maio de 2016

Artigo, André Burger - O Ambiente dos Investimentos no Cenário pós dilma.

Artigo, André Burger - O Ambiente dos Investimentos no Cenário pós dilma.

O cenário dos investimentos no Brasil está calmo, demais até. Seja pela incerteza gerada por uma economia em recessão, seja pela expectativa da troca de governo: sai uma facção política que espantou os investidores, entra uma que pode, insisto no pode, atraí-los.
São dois os principais componentes para afastar investidores: a incerteza e a insegurança. Incerteza temos demais, principalmente com esta indefinição política. Insegurança, também estamos bem servidos. Seja econômica: qual a política fiscal, cambial e de juros de longo prazo? Seja jurídica: qual respeitabilidade aos contratos privados?
O Brasil viveu, a partir do governo dilma, como um pródigo, gastando mais do que arrecadava e com políticas econômicas e sociais iguais ao do governo Lula, onde havia um superávit fiscal, mas as condições econômicas não se repetiram com dilma. A consequência dessa política temerária foi um crescente endividamento público, que geraram as pedaladas fiscais. O sinal de perigo para os investidores, notadamente os estrangeiros, foi a perda do tal grau de investimento. Ou seja, quem aqui investir reconhece que o risco é elevado. Somos terra para especuladores. Recuperar isso levará tempo.
O que acontece com a saída de dilma e sua desastrada política econômica? O Brasil não amanhecerá com suas contas em dia, num ambiente favorável aos negócios. Ainda levaremos 107 dias para abrir uma empresa e 2.600 horas para cumprir as obrigações tributárias. Os juros ainda serão elevados, contratar funcionários continuará oneroso e ainda seremos junk para os investidores internacionais. Porém, à semelhança da Argentina, pós Macri, com origem pior que a brasileira, poderemos mudar as expectativas sobre o nosso futuro. Vale lembrar, investimentos são decididos com base nas expectativas de retornos futuros. O Brasil continua sendo uma economia grande com um enorme mercado consumidor. Um pouco empobrecido, é verdade, mas segue tendo um PIB superior a todos os demais países da América do Sul somados. O PIB de São Paulo equivale ao da Argentina. O do RS, a soma da Bolívia, Paraguai e Uruguai. Ou seja, há mercados e consumidores. Historicamente recebemos mais investimento estrangeiro, proporcionalmente ao PIB, que os demais países que formam o BRICS e isso desde 1996.
Conversando com investidores externos e gestores de fundos de investimento (private equity), suas expectativas estão alinhadas a esses parâmetros: potencial do Brasil a longo prazo, o tamanho do mercado brasileiro e as vantagens comparativas frente a outros países e regiões, especialmente no agronegócio. Ou seja, há uma potencial reversão da situação de investimento privado no Brasil. Em o próximo governo garantindo os 3 Cs: coerência, constância e comprometimento, é viável uma retomada do investimento e do crescimento.
Mas isso é o setor privado, pelo lado do governo uma retomada dos investimentos deverá demorar muito mais. O endividamento do setor público (União, estados, municípios e as empresas estatais)1 atingiu, em 2015, preocupantes 46% do PIB quando era 27%, em 2002 quando o PT iniciou seu governo. Se o governo pós dilma for minimamente responsável deverá reduzir as despesas correntes antes de se aventurar novamente a promover investimentos. Decorre daí um cenário auspicioso: a falta de recursos do governo pode obrigá-lo a privatização e orientar menos os investimentos através dos bancos públicos, cabendo ao setor privado com sua lógica de mercado investir. Essas duas ações levam-nos a investimentos de acordo com o que o mercado busca, portanto, em caso de prejuízo, o ônus não é dos pagadores de impostos.
Devemos, naturalmente, vigiar atentamente o novo governo. A tentação de se tornar populista, emitir moeda, criar déficits fiscais é sempre muito grande. Soma-se a isso que a futura oposição, que se não é majoritária, sabe armar protestos, fazer barulho e cuspir.
Vimos que o caminho para uma economia estável é demorado e difícil. Quantos anos levamos para conquistar o tal grau de investimento e quão rápido foi perdê-lo. Ou ainda, em apenas 15 anos um país rico, a Venezuela, se torna um dos mais pobres da América Latina. Ou seja, o desvio para o fracasso é rápido. Imaginar que o governo é a solução, apenas precipita isso.


Por André Burger, economista.

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