segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Análise, Giles Lapourge, Estadão, Caderno Aliás - Cúmplices no desastre

Na cobertura das eleições americanas, os jornais franceses, como todo mundo, se enganaram completamente. E foram todos, porque desde os mais sérios, como o Le Monde, ou publicações mais fúteis, como Paris Match, entoaram a mesma música: Trump é um bufão. Um amador. Um personagem grotesco. Não conhece nada de política. Hillary Clinton, que tem o dinheiro, o saber e as redes, irá esmigalhá-lo.
É bom dizer que a cegueira dos jornais se apoiou na cegueira de um outro meio de comunicação: os institutos de pesquisa de opinião. Essas duas instituições caminham de mãos dadas, puxam a mesma carroça, avançam no mesmo passo. Uma esclarece a outra, trocam informações. Estranho espetáculo: um cego guiando outro cego. Não espanta assim que ambos tenham se perdido na floresta da informação e que tenham se equivocado tanto.
Claro, sabemos que este não foi o primeiro erro dos dois cúmplices, jornais e institutos de pesquisas. Ambos já se confundiram também nos referendos sobre a Europa em 2005 e 2008 e mais recentemente no caso do Brexit. Mas, com relação a Trump, o erro foi ainda mais espetacular. Os próprios jornais franceses começaram a refletir e, corajosamente, a se questionar.
E reconhecem que cometeram erros, mas sabem muito bem a razão desses erros: foi culpa dos institutos de pesquisa que não compreenderam o fenômeno Trump. Nada mais exato. Mas então por que jornais e redes de TV insistem em escutar religiosamente as profecias desses institutos, já que regularmente elas ficam longe da verdade?
Outras hipóteses foram levantadas, mais sólidas ao que parece. Do mesmo modo que nos Estados Unidos, não é verdade que Nova York (cidade cosmopolita, muito europeia, de alto luxo, intelectual) seja pouco representativa do país, na França também toda a opinião pública se forma às margens do Sena entre a Torre Eiffel e a Câmara dos Deputados, ou seja, é decidida por 100 ou 200 parisienses (diretores de jornais, políticos, institutos de opinião e alguns editorialistas) que a comunicam ao povo extasiado. Uma opinião se forma e se impõe ao país inteiro num abrir e fechar de olhos. Não é uma opinião, mas uma “vulgata” à qual todos aderem. Um grande rebanho de carneiros, eis o que é a opinião pública.
Mas, entre os formadores dessa opinião pública, é preciso citar um outro grupo, que surgiu mais recentemente e vem se propagando muito rápido: o dos “consultores”, também chamados especialistas, figuras convocadas pelos jornais por ocasião de grandes acontecimentos. A cada evento maior, esses consultores saem do seu retiro como escargots após a chuva. E rapidamente chegam às telas das TVs.
E há consultores para todos os gostos. No futebol, por exemplo (com frequência são velhos torcedores). Ou quando o Exército francês lança um tiro de canhão no Saara ou no Mali, imediatamente temos direito a algum sargento aposentado que desembarcou na Normandia em 1944, ou participou da batalha de Verdun em 1916, ou mesmo da Guerra dos Cem Anos na Idade Média, que nos explica porque o Estado Islâmico vai ganhar ou perder a guerra.

Ocorre que esses “consultores” não sabem o que responder, mas não é grave porque os jornalistas que os interrogam sugerem a resposta adequada, o que dá uma ideia muito precisa do jornalismo e o percurso através do qual se fabrica a opinião dominante. É a figura da “serpente que morde o rabo”: o consultor consulta o consultado que consulta o consultor que consulta o consultor e assim por diante. E qual o resultado final? Uma opinião pública.

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