segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Artigo, Rosane Oliveira, Zero Hora - Quero o meu, e que se dane o mundo

Quero o meu, e que se dane o mundo
O agravamento da crise não foi suficiente para convencer os gaúchos de que o Estado chegou ao fundo do poço e que alguma coisa precisa ser feita

Parece incrível que depois de nove meses de atraso no pagamento dos salários dos servidores do Executivo, boa parte da população do Rio Grande do Sul ainda não tenha se convencido de que o Estado chegou ao fundo do poço. Cada um quer preservar as suas "conquistas" – ou feudos, privilégios, benefícios e direitos adquiridos de forma legítima ou ilegítima. Como a arrecadação não cresce na proporção das necessidades e foi seriamente afetada pela recessão, a conta não fecha. No puxa e estica, quem pode mais chora menos. E a maioria da população, que deveria receber serviços públicos de qualidade como contrapartida aos impostos que paga, assiste à progressiva descida rumo ao abismo, sem perspectiva de recuperação no curto e médio prazos.

Aqui não se está falando apenas das corporações que lotam as galerias da Assembleia quando está em jogo a aprovação de reajustes, benefícios ou planos de carreira que oneram o Estado. De certa forma, cada gaúcho vê o Estado pela ótica do seu interesse, pequeno ou grande. Se o seu lado estiver garantido, que se dane o resto. À maioria silenciosa, que nunca entrou nas galerias da Assembleia, resta conformar-se com os sucessivos aumentos de impostos, a transferência de obrigações, a falta de serviços.

Os empresários que criticam as corporações de servidores públicos são os primeiros a pleitear benefícios fiscais e a não aceitar uma revisão de isenções concedidas em tempo de vacas gordas. As federações empresariais se mobilizam para impedir o aumento de impostos, mas não movem um dedo para evitar o aumento de gastos, quando estão em debate projetos do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e do Ministério Público que oneram os cofres do Estado. Encastelados em sua redoma, os integrantes da casta conhecida como "carreiras jurídicas" tratam de garantir seus acessórios, como o auxílio-alimentação retroativo, mesmo quando aos outros falta o principal, que é o salário em dia.

As mesmas corporações que apontam as isenções fiscais como vilãs da crise são incapazes de reconhecer que não há mais como manter a estrutura pesada e ineficiente que resultou nesta equação perversa, com toda a arrecadação sendo consumida na manutenção da engrenagem.

A sociedade, em geral, também não quer abrir mão de nada. Mesmo quando se fala na venda de prédios subutilizados, para fazer frente aos gastos, ensaia-se uma revolução. Qualquer pequena solução apontada é recebida com desdém: "Isso não resolve". A verdade é que não há e não haverá uma solução milagrosa, que resolva os problemas de uma tacada só. A única seria o crescimento da economia, que não depende somente dos governos, mas que esbarra em obstáculos como a falta de investimentos em infraestrutura para atrair empreendimentos.


 O Rio Grande do Sul precisaria de um pacto, essa palavra desgastada e tantas vezes mal empregada, que passou a ser vista com desconfiança. Quem haverá de liderar uma empreitada dessas, se além de dinheiro faltam líderes com capacidade de convencimento?

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