terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Artigo, Tito Guarniere - Trump mostra as garras

TITO GUARNIERE
TRUMP MOSTRA AS GARRAS
Sempre achei que a linguagem tosca, os ataques grosseiros contra adversários reais e imaginários, os chiliques em série, fossem truques de campanha. Candidatos são assim em todo o mundo: personagens de si mesmos, fazem qualquer negócio e desempenham qualquer papel para vencer a eleição.
Só os candidatos derrotados guardam coerência com o que dizem em campanha. O vencedor negaceia e desconversa sobre o que prometeu. Pois Donald Trump quebrou o protocolo e, eleito presidente, dobra a aposta e reafirma cada ponto das bandeiras que empunhou, mesmo as mais atarantadas. Não se pode mesmo confiar em políticos: até quando a gente calcula que eles tenham mentido, eles falaram a mais pura verdade.
Trump ganhou a eleição na contramão do “stablishment”, inclusive do seu próprio partido. Com “feeling” apurado, capturou o sentimento de eleitores dos grotões da América, e das regiões depauperadas pela globalização. Eles elegeram Trump: os americanos ressentidos com a perda de “status” - mais do que a perda de postos de trabalho, pois os Estados Unidos exibem um dos menores índices de desemprego do mundo.
Culpados da perda e decadência eram a globalização, a voracidade comercial da China, os imigrantes, usurpadores dos empregos americanos. E por omissão e descaso, culpados eram os velhos políticos de Washington, seus conchavos e manobras de bastidores. Retórica rasa mas eficaz, para convencer as massas nostálgicas do poder e da riqueza do Império (que, diga-se, jamais ficou menor) de que deveriam chamar o xerife Trump: ele entendia as suas aflições e era o único capaz de botar para correr os vilões.
Mas não era só retórica, vemos agora. Era verdade! E aí o temos, rasgando como um papel de peixaria, o TPP-Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, tratado de comércio que vinha sendo pacientemente costurado entre uma dezena de países relevantes - Japão, Austrália, Nova Zelândia entre outros. De uma canetada rompeu o trato, pela televisão, sem aviso prévio, tratando os parceiros com desprimor e desrespeito.
E reafirmou que irá construir o muro na fronteira com o México, para combater a imigração ilegal. E quer mais, que o país vizinho pague a metade - coisa que o México, com toda a razão, se nega a fazer. Trump ameaça com um míssil econômico: se o México não pagar a sua parte, os EUA taxarão em 20% os produtos mexicanos importados. O nome disso é chantagem, extorsão.
É assustador. O presidente dos EUA age como uma prima-dona destemperada, um ditador de república bananeira, que ignora nuances e sutilezas da diplomacia, códigos de conduta e normas civilizadas do convívio entre as nações. Trump é o Chávez da direita. Só que um é presidente da nação mais poderosa e rica do mundo e o outro era o tiranete de uma república mambembe.
Trump não está ameaçando apenas o México, as nações soberanas da TPP - cujo acordo desfez como um velhaco vulgar -, os imigrantes hispânicos, e sabe-se lá mais quem. Ele nos ameaça a todos. Retorna ao cenário mundial a imagem – que havia abrandado com Obama – de uma América boçal, belicosa, abusando de seu poderio. Não vai terminar bem.

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