quinta-feira, 23 de março de 2017

Como enfrentar a narrativa populista, William Waack, Brazil Journal

Como enfrentar a narrativa populista
William Waack

As pessoas hoje me conhecem mais como apresentador de telejornal e de um programa semanal de debates, mas minha carreira como jornalista foi sobretudo a de repórter. Meu coração bate repórter; apenas estou apresentador.

Isto é para dizer que não consigo, ao analisar a realidade em que vivemos, fugir à grande lição que aprendi como repórter: fatos não são fatos. Fatos são o que as pessoas fazem do que julgam enxergar e viver.

Pode parecer um contrassenso, mas fatos não ficam de pé por si mesmos (o que vem sendo objeto novamente de pesquisa acadêmica interessantíssima). O quadro é particularmente grave e deprimente para quem, como eu, não está disposto a viver resignadamente no que alguns já chamam “a era da pós-verdade”.

O rótulo pode ser novo e atraente, mas o fenômeno é tão antigo quanto a humanidade, ou seja, quanto a política – sim, porque qualquer tribo de primatas pratica a política, no sentido mesmo que aplicamos ao falar do Congresso: com chefões, suborno, violência, cooptação, alianças e objetivos.

Fatos não se impõem por si, ao contrário do que os economistas muitas vezes acreditam. Até os desastres – nem mesmo os naturais – não são percebidos da mesma maneira por pessoas diferentes em termos de suas causas, consequências e medidas para corrigir o estrago. Tudo isso é senso comum, que os psicólogos estudam há mais de sete décadas e que alguns descreveram (estou simplificando a tese) como “desfazendo” a realidade. Em outras palavras, nós seletivamente amplificamos o que nos convém, ignoramos o que nos é inconveniente, e reinterpretamos tudo à nossa volta.

Sendo minha biografia a de um repórter encarregado de explicar rapidamente para o público brasileiro realidades complexas em países distantes, meu cacoete ao analisar a situação atual vem da política, e não da sociologia ou psicologia. E na política, o fenômeno considerado “atual” faz parte dos clássicos há séculos, com abundante literatura a respeito escrita já bem antes de Cristo. O fenômeno do discurso populista atual obedece às mesmas linhas gerais de sempre: contar mentiras que possuem alguma verossimilhança com a “verdade”, repeti-las à exaustão, apelar ao medo e prometer soluções rápidas e fáceis.

Quem acabou descrevendo de forma muito contundente o que acontece na era da revolução da informação (nas “redes sociais”) foi Umberto Eco, ao dizer que se tratava em boa medida do “empoderamento de imbecis”. Não, não é arrogância elitista. É a ideia de que a velocidade e a amplitude da comunicação entre pessoas – em vez de torná-las mais curiosas ou ávidas por checar os fatos, procurar os fatos, confrontar-se com fatos desagradáveis – apenas reforçam preconceitos, pressupostos e aquilo que já se considera o “certo”.

É outro truísmo afirmar que discursos populistas dificilmente ganham projeção se não tiverem uma conexão mínima com o “zeitgeist”, com o espírito de uma época. Como o tema desta minha contribuição ao trabalho do Geraldo Samor é tentar responder à questão “como enfrentar a narrativa populista?”, minha resposta não é animadora.

Aquilo que nós, jornalistas profissionais com opiniões – mas desvinculados de orientações partidárias e afiliações a grupos de interesse – consideramos “fatos essenciais” que deveriam em mínima medida ser levados em consideração por agentes políticos, econômicos e eleitores, não são levados em conta sequer por boa parte do público.

Ao contrário: frequentemente, a tentativa de contra-atacar uma óbvia mentira (a de que Lula e Dilma não foram em larga escala responsáveis diretos pelo descalabro econômico, político e moral no qual nos encontramos, por exemplo) através de um bombardeio de fatos provoca em muitos casos a reação contrária. Em outras palavras, contrapor um mito à realidade dos fatos reforça o mito.

Infelizmente, é um bocado assim: dados importantes da realidade surgem na era da narrativa populista como coisa chata. É muito mais fácil e confortável agarrar-se defensivamente ao que cada um já considera sua visão de mundo estabelecida.

Mas como, então, enfrentar a narrativa populista na era da pós-verdade?

Tentando vencer a guerra cultural na qual estamos. Usando os fatos para descrever o mundo. Nunca abandonando o que considero o foco central da atividade do jornalista profissional: a preocupação em contar histórias de pessoas para pessoas, o respeito ao público, aos princípios universais dos direitos humanos, das liberdades, da tolerância e, na minha convicção pessoal, do lugar central do indivíduo – em oposição às narrativas de utopias sociais ou controle a partir de instâncias superiores sempre ocupadas por grupinhos que julgam saber o que é a História ou o que é melhor para a humanidade.

Acho que é uma tarefa ingrata nas circunstâncias atuais, mas a única moralmente aceitável.

Enfrentar a narrativa populista é descrevê-la incessantemente pelo que ela é, pelo que tem de prejudicial à própria vida dos que dela se tornam reféns, pelo que ofende a inteligência e os princípios universais aos quais me referi acima, pelo mal e dano que causa em prazo mais longo às sociedades humanas e seus integrantes.


O antídoto contra esse tempo perigoso e imprevisível é agir com a própria consciência.

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