terça-feira, 4 de julho de 2017

TITO GUARNIERE - PÓS-VERDADE E COERÊNCIA

TITO GUARNIERE
PÓS-VERDADE E COERÊNCIA
Na era da pós-verdade vale tudo e coerência é artigo raro.
A companheirada petista, por exemplo, chiou um bocado por causa do arquivamento do processo contra Aécio Neves (PSDB-MG) na Comissão de Ética do Senado. Faz parte do jogo, o protesto. Mas o evento se deu quase na mesma hora em que a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) tinha sido eleita presidente nacional do partido. Ora, Aécio provavelmente venha a ser réu, mas ainda não é. Já a senadora é ré na Lava Jato. Ao que se tem notícia, nem por isso alguém - e menos ainda do PT - pediu a abertura de processo na Comissão de Ética contra ela.
O colunista André Singer, petista roxo, escreveu na Folha o artigo: "Delação da JBS revela corrupção selvagem". E ali, no seu espaço privilegiado, ele discorre sobre a explosiva delação de Joesley Batista. Porém André pegou a delação só na parte que lhe convinha, que era a corrupção de Temer e Aécio. Não deu um pio sobre a revelação de Batista de que Lula e Dilma tinham ao seu dispôr uma mesada de U$ 150 milhões de dólares para gastos eleitorais e (digo eu) despesas extras.
Ou seja Singer, que já foi Secretário de Imprensa de Lula e que escreve coluna em jornal da grande imprensa, tem para si, e divulga com a maior cara de pau, que Joesley Batista fala a verdade quando denuncia a corrupção "selvagem" de Temer e Aécio, mas mente - tanto que nem registra - quando o açougueiro predileto do doutor Janot denuncia Lula e Dilma, no corpo da mesma delação.
O caso de Jânio de Freitas diz respeito à coerência, à prova dos fatos, independente e apesar dos fatos. Na sua coluna da Folha jamais se lê um só ponto ou vírgula, que de algum modo possa atingir as figuras de Lula, Dilma e petistas em geral. Não importa de que sejam acusados, não importa em quantos processos sejam réus. Já quanto ao PSDB, Serra, Aécio, FHC, a pauleira come solta.
Em artigo da semana passada, Jânio critica a inciativa em andamento, no Congresso, de votar uma verba de R$ 3,5 bilhões destinada ao fundo dos partidos. Quem está articulando a farra? Todos os partidos. Todos querem a sua parte no butim. Jânio dá a notícia na sua coluna e adivinhem quem levou a culpa sozinho? Tasso Jereissati, presidente interino do PSDB. E por pouco não sobrou para Aécio Neves, que nem no exercício do mandato está, e a quem Jânio cita no contexto do seu artigo. Mas Jânio não é incoerente, como tantos outros. É apenas membro de torcida organizada.
Mas ninguém pense que a coerência e a exatidão de análise sejam ralas só pelos lados de jornalistas como Jânio, e de partidos como o PT. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, nas últimas semanas, também deu valiosa contribuição para a esquizofrenia nacional, que não para de ter surtos. Agora, FHC quer que Temer renuncie. Mas não quer que o seu substituto seja por via indireta, porque "esse Congresso também está em causa". Muito bem. Olhando de longe parece bom. Mas há aí um porém: no singular raciocínio do ex-presidente o Congresso está desacreditado para a escolha indireta do novo presidente, mas abre-se uma exceção no descrédito para que ele possa convocar eleições diretas fora de hora.
titoguarniere@terra.com.br

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