Dagoberto Lima Godoy
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio estimou que já em 2024 o varejo deixou de faturar R$ 103 bilhões em 2024 em razão do deslocamento de recursos das famílias para as apostas online. Trata-se de dinheiro que antes circularia no comércio, nos serviços, na alimentação, no vestuário, no lazer familiar e nas pequenas despesas do cotidiano, mas que passou a migrar para plataformas digitais de aposta.
Esse movimento coincide com um quadro grave de endividamento das famílias. Em março de 2026, pesquisas da mesma CNC indicavam que cerca de quatro em cada cinco famílias brasileiras estavam endividadas, com índice de 80,4%, patamar apontado como recorde. Não se pode atribuir toda essa crise às apostas, evidentemente; juros altos, perda de renda, crédito caro e inflação acumulada também pesam. Mas seria ingenuidade ignorar que as bets passaram a disputar, de modo agressivo, a renda disponível de famílias já financeiramente fragilizadas.
A medicina já reconhece o transtorno do jogo como uma adição comportamental, associada a ansiedade, depressão, endividamento familiar e sofrimento psíquico grave. Diante disso, tratar as apostas digitais apenas como “entretenimento” é mascarar o problema. Quando o produto depende do prejuízo repetido de muitos — estimulado por design viciante, publicidade agressiva e acesso permanente, 24 horas por dia — a regulação pró-mercado torna-se cosmética: melhora a vitrine, mas preserva o motor do dano.
A incoerência se torna ainda mais evidente quando o Estado, depois de licenciar, tributar e organizar o mercado, passa a insinuar sua proibição ou forte restrição às vésperas de uma eleição presidencial. O governo federal estruturou a Secretaria de Prêmios e Apostas para autorizar, regulamentar, supervisionar e sancionar o setor; ao mesmo tempo, em abril de 2026, integrantes do governo e da base governista passaram a defender medidas mais duras, inclusive projeto para proibir a exploração, oferta e promoção de apostas de quota fixa no país.
Se a prioridade era proteger as famílias, por que se permitiu a expansão explosiva do setor? Se a prioridade era arrecadar, que se diga claramente: o Estado aceitou tributar uma atividade cuja dinâmica econômica se alimenta da perda recorrente de milhões de apostadores. Agora, quando o dano social se torna visível e politicamente incômodo, surge a conversão moral tardia. Pode ser correção de rumo; mas também tem aparência de cálculo eleitoral.
O ponto central é simples: não se pode transformar vício em fonte de receita pública e, depois, posar de defensor das vítimas. Licenciar, tributar, arrecadar, tolerar publicidade massiva, permitir patrocínios no esporte e, só depois do estrago, cogitar proibição ou endurecimento radical, revela uma gestão errática, quando não hipócrita.
Política séria não transforma dependência em estratégia de arrecadação, nem corrige por conveniência eleitoral aquilo que ajudou a expandir por conveniência fiscal.
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