sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Artigo, Astor Wartschow - Lula e o Cisne Negro

               A pretexto das dificuldades de fazer política “sem sujar as mãos”, ou no exercício da troca de favores para construir maiorias parlamentares, os governos e partidos têm realizado o “loteamento” de órgãos público-estatais.
                Habitualmente, essa prática implica transgressões e negócios escusos, de modo que sempre reinou uma espécie de pacto do silêncio entre os negociadores, políticos ou não. Parafraseando o filósofo alemão Ludwig Wittgenstein, resulta que “o que não pode ser dito deve ser calado!”.            
                Neste sentido, o agravamento das presentes investigações jurídico-policiais em torno de expressivas figuras públicas tem proporcionado uma série de reflexões com pretensões filosóficas.
                Simpatizantes dos ora suspeitos e acusados preferem discutir não o núcleo das fraudes e desvios (roubo!) de dinheiro público, e das estranhas e generalizadas benfeitorias realizadas por empreiteiras, mas, sim, se são legítimas as delações e as próprias investigações.
                Estes surpreendentes esforços retóricos de proteger pessoas e negócios suspeitos, inclusive desmerecendo o trabalho jurídico-policial, será a banalização do mal, enunciada pela filósofa Hanna Arendt? Lembra: “quando o mal se banaliza, perdemos a capacidade de indignação”!
                Mantido o debate nesses termos, a sujeira continuará debaixo do simbólico tapete de “nossas virtuosas relações sócio-políticas”. Será o triunfo da máxima “os fins justificam os meios!”.
                Nassim Nicholas Taleb é um professor libanês, residente nos Estados Unidos, autor de um livro chamado "The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable". Em português: “O cisne negro: o impacto do altamente improvável” (Valor, São Paulo, 04/06/07).
                Antes de a Austrália ser descoberta, todos os cisnes do mundo eram brancos. A Austrália, onde existe o cisne negro, mostrou a possibilidade de uma exceção.           
                A teoria do cisne negro tem três características: altamente inesperado (1), tem grande impacto (2), e, depois de acontecer, procuramos dar uma explicação para fazê-lo parecer o menos aleatório e o mais previsível do que era (3).
                O autor prega que é fundamental manter o hábito de questionar estruturas de pensamento e atitudes, mesmo que isso exija ações não-ortodoxas.
                Uma vez que o cisne negro apareça, as pessoas devem estar com sua exposição maximizada para ele. Devem acreditar na possibilidade de o mais inusitado acontecer. 

                Se há um enunciado que diz que todos os cisnes são brancos, e aparece um cisne negro, o certo seria trocar o enunciado para: “Alguns cisnes não são brancos”!

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