Artigo, Assis Moreira, jornal Valor - O tempo de Trump e o risco para o Brasil

Neste artigo de Assis Moreira, publicado no jornal Valor, fica claro que a economia brasileira sofrerá forte abalo nas suas relações comerciais e financeiras com os Estados Unidos.

Saiba por que razão.

Leia todo o artigo.

Uma importante personalidade da cena comercial internacional, habituada a negociar com os Estados Unidos, não tem dúvida: não vê chance de o Brasil escapar ileso da investigação aberta pelo USTR, a agência de representação comercial americana, sobre alegadas práticas comerciais do país.

Trata-se do processo aberto em julho de 2025 pelo governo Trump contra o Brasil, com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, que permite investigar políticas ou práticas de outros países em relação ao comércio com os EUA.

Washington listou seis “preocupações” com práticas do Brasil envolvendo: Pix/comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais a outros parceiros; aplicação fraca de leis anticorrupção; propriedade intelectual; barreiras à entrada de etanol americano; e desmatamento ilegal.

Alguns interlocutores indicam que a investigação americana está na reta final. O Itamaraty poderá enviar, no fim do mês, uma delegação a Washington para tratar do tema — etapa que corresponde à fase obrigatória de consultas prevista no processo conduzido pelo USTR.

Se confirmadas, as alegações poderão justificar a imposição de tarifas adicionais ou outras medidas contra exportações brasileiras.

Nesse cenário, prevalece o pessimismo quanto à conclusão da investigação. De um lado, um importante interlocutor na Esplanada dos Ministérios vê risco concentrado basicamente nas tarifas sobre o etanol americano. De outro, ninguém ignora que a investigação do USTR é um jogo de cartas marcadas.

Sobre a possibilidade de o Brasil não ser sobretaxado com base na Seção 301, uma fonte com transito na cena global afirmou: ''Eu ficaria extremamente surpreso se isso acontecesse”.

A questão é se o governo de Donald Trump deixaria para aplicar eventuais sobretaxas antes ou depois de uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca — ainda sem data prevista.

A avaliação em setores do governo é de que não haverá negociação comercial relevante ou razoável com Jamieson Greer, chefe do USTR, antes de Lula tratar diretamente com Trump.

Paralelo à investigação, o Brasil já colocou na mesa propostas para a eliminação de sobretaxas sobre produtos brasileiros. Também apresentou proposta de combate ao crime organizado. E sinalizou abertura para discutir minerais críticos e a atuação de big techs, indicando até onde pode avançar nesses temas na relação bilateral.

A ideia, portanto, seria sair de uma eventual visita à Casa Branca com um mandato político para avançar nas negociações comerciais com base nos termos definidos pelos dois presidentes.

Ainda é preciso, porém, acertar a viagem a Washington. Inicialmente cogitada para o início do ano, ela segue sem data, também em razão do foco americano na guerra contra o Irã.

Um integrante do governo admite que a janela para a visita pode se estender até o fim do primeiro semestre. A expectativa é de que, até lá, o governo Trump eventualmente segure decisões sensíveis, tanto na área comercial quanto na possível designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

A constatação, porém, é que a relação com o governo Trump é calibrada dia a dia: o que vale em uma semana pode não valer na seguinte. A incerteza é permanente. O ambiente bilateral, além disso, sofreu arranhões com o confronto sobre a moratória do comércio eletrônico, que acabou cristalizando o fiasco da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), há duas semanas.

Haveria falta de avanço nas negociações com o USTR. Ao mesmo tempo, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, mantém contatos com o secretário de Estado, Marco Rubio, na tentativa de construir uma agenda bilateral positiva.

Há ainda uma segunda investigação com base na Seção 301 envolvendo o Brasil, sob alegação de trabalho forçado, que deve demorar mais. Para interlocutores em Brasília, se a questão fosse estritamente bilateral, seria de solução mais simples — inclusive porque o Brasil mantém parceria com o Departamento do Trabalho dos EUA no combate ao trabalho escravo.

O problema é que essa investigação pela seção 301 se refere essencialmente a não importar produto de países terceiros que poderiam estar utilizando trabalho forçado (o foco é mesmo a China). E aí é ‘’uma janela totalmente arrombada’’, pela qual o USTR pode alegar qualquer coisa para sobretaxar o Brasil e dezenas de outros parceiros.

A percepção é de que o USTR está ‘’catando coisas’’ para reproduzir o tarifaço que foi condenado como ilegal por juizes da Suprema Corte americana.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos acumulam importante superavit no comércio com o Brasil. No comércio de bens, o saldo americano aumentou 112,8% e alcançou US$ 14,4 bilhões no ano passado, enquanto no comércio de serviços chegou a US$ 26,1 bilhões, alta de 12,8% (US$ 3,0 bilhões). Ou seja, o superávit comercial total americano com o Brasil atingiu US$ 40,5 bilhões em 2025 — bem diferente do que acontece com a maioria dos parceiros.


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