terça-feira, 14 de março de 2017

Artigo, Tito Guarniere - A implosão do Fies

Artigo, Tito Guarniere - A implosão do Fies
Em 25 de novembro de 2015 publiquei um artigo sob o título de “FIES, bomba de efeito retardado”. Os sinais de que o Fundo de Financiamento Estudantil-FIES estava fazendo água já eram bem visíveis. Não era preciso ter o dom da vidência para adivinhar que ia dar rolo, e dos grandes.
 O programa era todo errado. Se o governo de então (Dilma) quisesse bolar um plano para perder dinheiro em um projeto de financiamento estudantil, não poderia ter sido mais competente. O financiamento era de 100% da anuidade e os juros negativos. E não bastassem essas benesses, o aluno de uma faculdade de quatro anos teria 15 anos para pagar, depois de formado!
 Era um programa de pai para filho, mas o pai teria de ser muito rico e perdulário, o que não era o caso. Governantes em geral - e os do PT em particular -  ficam meio ensandecidos diante de recursos do orçamento, que lhes parecem inesgotáveis. Cheios de amor para dar e de votos a conquistar, abrem os seus próprios corações, e mais ainda as burras do tesouro. 
 A primeira distorção era o financiamento de 100%: em financiamento de médio e longo prazo, todos sabem - menos o governo Dilma - que é uma regra de ouro exigir uma contrapartida de recursos próprios. No caso, seria bem simples: cobrar do aluno, digamos, 20%, e financiar o restante, 80%.  Na ânsia de agradar o distinto público (em 2014, ano eleitoral, foram concedidos 732 mil créditos estudantis) o governo preferiu a “bondade” do financiamento total. Bondade essa, claro, com o chapéu alheio.
 O beneficiado com o financiamento integral, para pagar depois de formado, em breve estará tentado a pensar que a escola superior é gratuita, um direito seu, e não uma obrigação que ele contraiu e tem o dever de pagar, ainda que em futuro distante. 
 Os juros negativos se tornaram uma atração extra até mesmo para alunos que tinham capacidade de pagar. A maior das instituições de ensino brasileiro, a Kroton, anunciava orgulhosamente e com a maior cara de pau em seu site: “A taxa de juros é tão baixa que vale a pena contratar (o FIES) mesmo que você tenha dinheiro para pagar o curso.  Se você colocar na poupança o dinheiro que iria usar para pagar a faculdade, acaba tendo lucro”.
 Que tal? O aluno, mesmo tendo recursos para pagar, tomava o financiamento, aplicava o dinheiro, e viria a frequentar faculdade não apenas gratuita, mas lucrativa! Claro, quem pagou a farra fomos você, eu, nós, os otários em geral.
 E hoje em dia como está o programa? Bem, o programa hoje em dia apresenta um índice assustador de inadimplência: 53%. Ou seja, apesar de todas as facilidades e concessões, mais de metade dos beneficiados do FIES não pagam. Devem ter incorporado o discurso de que a educação, como a saúde, é direito de todos e dever do Estado, como adoram dizer os petistas e aliados.
 O FIES será mais um desses rombos abissais, irrecuperáveis, espetados na conta do povo brasileiro, gerado por um projeto de poder sem limites e sem escrúpulos, pela demagogia e irresponsabilidade fiscal, pela ideia de que o Estado deve tudo dar e conceder, o ensino, a saúde, o desenvolvimento, a felicidade geral.

 ​titoguarniere@terra.com.br  

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