O governo diz que precisa proteger o brasileiro dos riscos das bets. Mas existe uma pergunta incômoda: se apostar pode comprometer o orçamento familiar, por que o próprio Estado estimula há décadas uma indústria de loterias que movimenta bilhões de reais ?
Em 2025, as Loterias CAIXA arrecadaram mais de R$ 25,9 bilhões. Desse total, aproximadamente R$ 10 bilhões foram destinados a programas sociais. O argumento oficial é conhecido: uma parte da arrecadação volta para a sociedade por meio de saúde, educação, esporte, segurança e outras áreas.
Mas existe outro lado da história.
Para quem está com o orçamento apertado, R$ 5, R$ 20 ou R$ 100 gastos em apostas continuam sendo dinheiro que saiu do bolso. O destino posterior da arrecadação, seja para o governo, seja para programas sociais, não devolve esse dinheiro ao consumidor que perdeu a aposta.
A Mega-Sena movimentou cerca de R$ 11,2 bilhões em 2024, enquanto a Lotofácil movimentou aproximadamente R$ 7,4 bilhões. Somadas, as duas modalidades representaram cerca de R$ 18,6 bilhões em vendas.
Ao mesmo tempo, o governo endurece o discurso contra as bets, especialmente diante dos problemas associados ao comportamento compulsivo e ao comprometimento da renda.
Uma pesquisa Datafolha realizada em 2026 mostrou que 7% dos brasileiros adultos fazem atualmente apostas em bets ou jogam em cassinos online. Entre os que apostam ou já apostaram, 35% afirmaram que já comprometeram suas finanças para apostar.
Outro estudo encontrou aumento de 20% na inadimplência entre pessoas que começaram a apostar online, além de aumento de 38,7% nos atrasos de cartão de crédito.
Esses números são preocupantes.
Mas também levantam uma questão para o poder público: Por que o problema é tratado de maneira tão diferente dependendo de quem explora o jogo?
Quando uma pessoa perde dinheiro em uma bet, o discurso é de preocupação com endividamento, proteção do consumidor e saúde financeira.
Quando ela perde dinheiro na Mega-Sena ou na Lotofácil, o mesmo dinheiro pode ser contabilizado como arrecadação das loterias e fonte de recursos para políticas públicas.
É verdade que existe uma diferença importante: as loterias federais têm regras específicas de distribuição da arrecadação e destinam recursos legalmente definidos para diversas áreas sociais. Isso não ocorre da mesma maneira nas bets.
Mas há uma questão que não deveria ser ignorada: Para o cidadão que perdeu dinheiro, a perda continua sendo perda.
Se ele gastou R$ 100 que precisava para pagar uma conta, pouco importa se o dinheiro foi para uma loteria federal ou para uma plataforma de apostas: aqueles R$ 100 não estão mais no orçamento da família.
Isso não permite afirmar que Mega-Sena e bets produzam exatamente o mesmo nível de endividamento, as pesquisas disponíveis não sustentam essa equivalência. Mas permite questionar a coerência de uma política pública que reconhece os riscos econômicos das apostas privadas enquanto mantém uma gigantesca indústria de jogos administrada pelo próprio Estado.
A pergunta que fica é simples: o Estado está protegendo o cidadão do jogo ou simplesmente escolhendo quais jogos pode explorar?
Esse é o debate que precisa ser feito.
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