quinta-feira, 18 de abril de 2019

Gustavo Grisa: "Argentina toma medidas desesperadas e heterodoxas. No médio prazo, isso não se sustenta".


P- O que está acontecendo na Argentina?
G - O governo Macri recorreu a um congelamento de 60 produtos da cesta básica, a um acordo com setores empresariais e a um congelamento de tarifas públicas para tentar conter a inflação, que chegou a 54% em um ano, e, caso não fosse contida, poderia fugir do controle.
P- Mas por que a inflação?
G- Por uma mistura muito conhecida da América Latina e dos brasileiros principalmente nas décadas de 80 e 90 de misturar medidas contracíclicas (de estímulo à economia), com ajuste fiscal imposto pelo FMI e logo após uma crise cambial que tivemos no ano passado. A desvalorização do peso causou pressão de custos em vários setores, e os desorganizou, a economia argentina é muito mais dependente da questão cambial que a brasileira. Por outro lado, o ajuste fiscal é desgastante politicamente, pesado no sentido de controle de caixa, mas apenas paliativo, pois não foram feitas reformas profundas. Uma mistura bombástica de inflação e recessão, resultado da administração sucessiva de crises com soluções paliativas.
P- Mas o congelamento e controle de preços funciona?
G- Está comprovado que não, nunca funcionou no médio prazo. É uma medida desesperada de curtíssimo prazo. O congelamento de tarifas públicas leva a déficit, a subsídio, piora as finanças públicas, e o próprio congelamento pode gerar problemas de desabastecimento e ágio.
Quem viveu as décadas de 80 e 90 aqui e lá conhece bem essa história.
P- Mas Macri foi eleito com um conceito de economia liberal, defendendo o liberalismo.
G- Sim, mas na prática nunca conseguiu praticar esses princípios, pois a "herança maldita" da gestão populista na economia dos anos Kirchner foi extremamente pesada. Inicialmente, focou na melhoria do ambiente e em medidas graduais; não funcionou, a economia não reagiu, houve uma pressão especulativa sobre o peso no ano passado e a Argentina precisou recorrer ao FMI. A partir daí, passou a combinar medidas fiscais com tentativas pontuais de reanimação da economia. Mas a fase é crítica, com exceção da agricultura, a economia da Argentina está estruturalmente muito abalada. O fantasma da inflação junto com baixo crescimento se formou, e Macri tem uma reeleição pela frente.Macri tinha ideia liberal de não criar mais heterodoxias na economia, mas precisou dançar conforme a música. Pagou o preço de adiar reformas profundas que deveria ter feito no primeiro ano de governo.
P- Ou seja, esse congelamento pode ter um caráter eleitoreiro?
G- Possivelmente sim, estanca uma questão no curto prazo, dá uma sensação de alívio em parte da população, principalmente os mais pobres, mas desorganiza a economia, os preços, e dá um sinal muito ruim de futuro. A inflação poderia ameaçar Macri politicamente muito mais.
P- A reeleição de Macri em outubro estaria, então, agora em xeque?
G- As medidas teoricamente aumentariam as chances de Macri sob uma ótica populista, para uma possível ressaca econômica logo após as eleições; são medidas que em 6 meses já começam a mostrar resultados desastrosos após uma euforia inicial. Mas talvez Macri e seu grupo ainda sejam a melhor alternativa que a Argentina tenha nesse momento, as outras trazem o fantasma do populismo. Uma volta do peronismo ou outra forma de populismo nas eleições seria jogar gasolina na fogueira.
P- Há perigo de efeito Orloff, de termos algo semelhante no Brasil em um futuro próximo?
G- São realidades bem diferentes, hoje; a situação da Argentina é muito mais aguda, pelo acúmulo de graves crises. Mas, em um cenário muito pessimista de chegar ao fim de 2020 sem conseguir aprovar nenhuma reforma , buscar medidas expansionistas para crescer a qualquer custo, e corrida cambial, poderíamos ter um repique grave de inflação no Brasil.  Mas não vejo essa hipótese como a mais provável, nem a atual equipe econômica fazendo isso, sequer em um cenário desfavorável.

Um comentário:

  1. O Brasil, se não aprovar a reforma da previdência ou se não conseguir aumentar a receita, seja reduzindo as desonerações ou aumentando impostos (o que ninguém deseja), entrará em grave crise fiscal. O que poderia salva também é o crescimento econômico,mas necessita das reformas. Acho que caminhamos a passos certos para a inflação. Muito boa a entrevista. Parabéns ao Grisa.

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