Felipe Vieira é jrnalista da Band TV
Há textos que custam mais do que outros. Não pela falta de palavras, mas porque nenhuma delas parece suficiente quando é preciso se despedir de um amigo.
É assim que escrevo sobre João Garcia.
Foram muitos anos de convivência, rádio, futebol, conversas, risadas e histórias. E é difícil aceitar que alguém que esteve durante tanto tempo por perto, com aquele jeito tão particular de ocupar os ambientes, agora passe a existir apenas na memória.
João Antônio Lopes Garcia morreu nesta terça-feira, 18 de agosto, aos 77 anos, em decorrência de um acidente doméstico sofrido durante a madrugada.
João atravessou mais de cinco décadas de comunicação no Rio Grande do Sul. Fez parte de uma geração em que o rádio esportivo gaúcho não era apenas acompanhamento de futebol. Era companhia. Era hábito. Era parte da vida das pessoas.
Natural de Arroio Grande, começou profissionalmente em 1971, na Rádio Cultura de Pelotas. No ano seguinte, passou pela TV Tuiuty, posteriormente incorporada à RBS TV. Viveu também uma etapa profissional em Brasília, onde chegou à chefia de Jornalismo da Rádio Alvorada e foi correspondente de Zero Hora.
De volta ao Rio Grande do Sul, passou por algumas das principais emissoras do Estado. Trabalhou nas rádios Gaúcha, Sucesso, Difusora, Bandeirantes e Guaíba, além da televisão.
Na Rádio Gaúcha, integrou uma geração extraordinária do esporte, convivendo com nomes como Ruy Carlos Ostermann, Pedro Ernesto Denardin e Haroldo de Souza. Participou também da experiência da Rádio Sucesso, ao lado de Pedro Ernesto, Wianey Carlet, Nilton Azambuja, Paulo Mesquita e tantos outros profissionais que ajudaram a construir uma época especial do rádio esportivo gaúcho.
Mas foi na Rádio Bandeirantes que nossas histórias profissionais se encontraram de maneira mais próxima.
João chegou à emissora em 1995. Entre aquele ano e 2003, apresentou o Manhã Bandeirantes e participou intensamente da programação esportiva da rádio e da televisão. Mais tarde, em 2008, retornou ao Grupo Bandeirantes, novamente dividindo sua atuação entre jornalismo, esporte e opinião.
Foi ali que trabalhei com ele.
E é inevitavelmente esse João que aparece primeiro quando fecho os olhos.
Antes do comentarista, do radialista experiente, do homem que conhecia futebol e carregava décadas de rádio nas costas, lembro do parceiro.
João era um companheiro espetacular de trabalho. Amigo, engraçado, divertido, com aquele repertório inesgotável de quem tinha vivido muito dentro e fora das cabines.
Com ele, o rádio não começava quando acendia a luz vermelha do estúdio. Começava muito antes. Nas conversas, nas provocações, nas histórias, nas discussões sobre futebol. E também não terminava quando o microfone era desligado.
Esse talvez seja um dos maiores privilégios que a nossa profissão proporciona: algumas pessoas entram na nossa vida como colegas e, quando percebemos, já viraram amigos.
João foi um deles.
Seu trabalho também recebeu reconhecimento. Em 2011, ganhou o Prêmio Press de Melhor Comentarista de TV. Em 2024, esteve entre os profissionais homenageados pela Associação Riograndense de Imprensa em uma celebração dedicada à história do rádio gaúcho. Mesmo depois de deixar a rotina das grandes emissoras, continuou ligado à comunicação em diferentes projetos, entre eles a Rede de Opinião.
E havia ainda sua relação com os próprios cronistas esportivos.
João presidiu a Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos, a ACEG, trabalhando pela valorização dos profissionais e pelo fortalecimento da entidade. O vínculo permaneceu mesmo depois da presidência, e uma das competições promovidas pela associação chegou a receber seu nome.
Mas a vida também reservou a João capítulos muito duros.
Um deles eu jamais esqueci.
João perdeu uma filha depois de uma doença grave. Naquele período, a família precisava de ajuda e nós nos mobilizamos. Amigos, colegas e profissionais de diferentes lugares participaram de uma campanha para auxiliá-los.
Anos depois, seria o próprio João quem precisaria novamente dessa corrente.
Nos últimos tempos, sua saúde se tornou cada vez mais frágil. Enfrentou dois infartos, três AVCs e problemas renais que o levaram à hemodiálise três vezes por semana. Passou ainda por uma infecção grave e sepse. Mais recentemente, foi diagnosticado com aterosclerose, doença que comprometeu a circulação das pernas e exigiu novos procedimentos médicos.
E, outra vez, o rádio se encontrou.
Colegas de diferentes emissoras, gerações e redações se mobilizaram para ajudá-lo. Houve vaquinha, campanha, rifa, divulgação. Gente que havia trabalhado com João décadas antes apareceu. Outros que conviveram com ele mais recentemente também.
Isso sempre me tocou.
Porque há uma espécie de família invisível formada por quem passou a vida em redações e estúdios. Podemos trabalhar em empresas diferentes, disputar audiência, discordar sobre futebol, política ou qualquer outra coisa. O tempo pode nos afastar.
Mas, quando um dos nossos precisa, muitas dessas diferenças desaparecem.
Foi assim com João na doença da filha.
Foi assim novamente quando ele próprio adoeceu.
E talvez isso diga muito sobre as relações que construiu durante a vida.
Lembro também de uma homenagem feita a João anos atrás. Naquela ocasião, ele deixou uma mensagem aos jovens jornalistas. Falou sobre sonhos, honestidade, verdade e sobre a possibilidade de transformar o rádio em instrumento de amor e solidariedade.
E falou sobre o dia em que não estivesse mais aqui.
Esse dia chegou.
Só que João não será apenas saudade.
Será memória.
Será uma voz guardada na cabeça de quem cresceu ouvindo rádio no Rio Grande do Sul.
Será parte da história de uma geração extraordinária da crônica esportiva, aquela em que uma jornada começava horas antes da bola rolar e o rádio acompanhava o torcedor dentro de casa, no carro, no estádio, na rua, onde quer que estivesse.
Será lembrado pelas redações pelas quais passou, pelas cabines que ocupou, pelas Copas que acompanhou, pelos programas que apresentou e pelas intermináveis discussões sobre futebol.
Para mim, porém, ficará sobretudo o amigo.
Aquele João da Bandeirantes.
O parceiro.
O sujeito engraçado.
O contador de histórias.
O homem com quem dividi microfones, trabalho e uma parte importante da vida profissional.
A morte sempre nos confronta com uma crueldade simples: durante anos encontramos determinadas pessoas acreditando, sem sequer pensar nisso, que haverá outra conversa, outra brincadeira, outro encontro.
Até que descobrimos que o último encontro já aconteceu.
João deixa a esposa, Nélia Garcia, as filhas Thaiany e Thaynã, os netos Lucas, Bethânia e Dielly e uma quantidade impossível de medir de colegas, ouvintes e amigos que fez ao longo de mais de meio século de comunicação.
À Nélia, às meninas, aos netos e a toda a família, deixo meu abraço mais carinhoso.
E a ti, meu querido João, deixo o meu obrigado.
Obrigado pela amizade.
Pelas conversas.
Pelas histórias e pelas risadas.
Pela generosidade.
Pelo rádio.
Pelo jornalismo.
E por ter ajudado a construir uma época do rádio esportivo gaúcho que aqueles que tiveram o privilégio de viver jamais esquecerão.
Vai em paz, meu amigo.
O microfone pode ter sido desligado.
A tua voz, não.
@felipevieirajornalista