O saudoso jornalista e escritor Walter Galvani dizia que as seleções de futebol espelham características do povo que representam. A seleção da Itália (que anda sumida), por exemplo, teria o temperamento sanguíneo e a alegria barulhenta dos italianos. A uruguaia, com a alma charrua do seu povo, mostraria uma garra feroz e o espírito de jamais desistir da luta. A da Espanha mostraria a coragem atrevida e a persistência de um povo que, além de jogar bola, não teme os touros.
Para Galvani, a seleção brasileira tinha, então, a ginga, a alegria, o improviso mais criativo e uma certa malemolência, ou seja, o jeito bem brasileiro de tocar a vida.
Escrevo de memória. Não sei se Walter Galvani chegou a publicar essas apreciações que ele expressou numa conversa entre amigos na década de 1990 e que me pareceram instigantes. E imagino o que ele diria hoje ao observar o desempenho de nossa seleção.
Onde foi parar a ginga, a alegria, o improviso mais criativo e até uma certa malemolência, que, no passado, fez da seleção brasileira a mais admirada do mundo?
A copa de 2026 mostrou muita coisa. Vimos seleções de menor envergadura técnica mostrarem uma sinergia, uma entrega e um entusiasmo que não se viu na seleção brasileira. Quem não vibrou com a seleção de Cabo Verde? Para quem não sabe, Cabo Verde tem pouco mais de meio milhão de pessoas.
E não dá raiva, ver a Argentina jogar? A média de idade de sua equipe é bem superior à de nossa seleção. Que entrega! Que virilidade! (Nem sei se não estou usando uma expressão politicamente incorreta...) A catimba dos argentinos entrou em campo como sempre: copa do mundo, Libertadores, amistosos, qualquer jogo. Pode-se gostar ou não, mas não se pode falar que eles não dão o sangue pela equipe ou, mais exato, por sua pátria.
Já o Brasil foi um fracasso - fracasso, porque era de se esperar mais. E isso tem muitas causas. Nossos clubes já não formam jogadores para seus plantéis, mas para vender aos estrangeiros. E os atletas saem do país muito jovens e, lá fora, são amestrados para jogar um futebol de força, de transição, de correria, sem as características que faziam do nosso futebol o melhor do mundo. Eles não têm mais as nossas raízes. Em 1970, todos os jogadores da seleção jogavam em clubes brasileiros. Hoje como é? Antes, era comum que alguns clubes formassem a base da seleção e os jogadores se conhecessem do dia a dia. Hoje eles se conhecem pela TV, vendo os jogos uns dos outros. Em breves linhas é isso. Só que é preciso descobrir a causa dessas causas...
Mas eu lembrei Walter Galvani e fiquei pensando se ele perceberia certas coincidências. Será que ele diria que a seleção de hoje é um retrato do Brasil? Essa seria uma análise para o antropólogo Roberto DaMatta. Mas, vá lá. Nos últimos 45 anos, o brasileiro vem sendo amestrado para berrar por seus direitos sem a contrapartida de responsabilidade. Diariamente, nas escolas, principalmente nas faculdades, nas entrelinhas da imprensa e no discurso de políticos populistas, o que se propõe é que as pessoas esperem que "alguém faça alguma coisa". Quem empreende é acusado de só sugar o sangue dos outros. Tem até "figurinha empoderada" que acha muito natural "roubar" celular para tomar uma cervejinha... Parecerão ideias desconexas? Tudo isso leva a uma passividade burra e irresponsável. O resultado no dia a dia é desaparecer a ginga, a alegria, o improviso criativo e até aquela malemolência tão simpática, embora improdutiva se falamos de dar providências de garantir a subsistência.
Quem são os nossos jogadores? Com o cuidado de evitar generalizações, sobretudo por não conhecer de perto nenhum dos atletas, vale registrar o que muitas pessoas apontam. Durante a copa, nos dias de folga, jogadores de outras seleções estavam focados, inclusive estudando o adversário da rodada seguinte. Enquanto isso, alguns dos nossos andavam no shopping em busca de relógios de luxo e tolices afins. Nem todos funcionavam do mesmo jeito, mas não se via, no geral, a energia nem a inconformidade se a coisa ia mal. Ninguém mostrando destacada liderança! Uma passividade que não poderia redundar em vitória. Analistas do futebol vêm dizendo que muitos dos nossos não mostram na seleção a qualidade com que jogam nos seus clubes. E falta, para muitos, compensar limitações com esforço, com empenho, garra, ousadia, com grandeza de espírito. O Brasil perde no "mental", fator que hoje torna todo mundo, ao menos, competitivo.
Será exato esse quadro? Será que Galvani o veria como um retrato dessa pasmaceira para a qual estamos sendo empurrados há décadas?
Por fim, uma curiosidade. Uma análise patrimonial, coisa que, aliás, não importa, mostraria que o grupo de 2026 é o mais rico de todos os tempos. Tudo bem! Se o mercado paga alto pelo talento dos atletas, eles seriam idiotas se recusassem. A questão é que o futebol se espalha para além das quatro linhas. Há todo um entorno, um ambiente que infla o ego dos fracos de espírito, os que pensam mais em ser celebridade do que noutra coisa. Há muita gente interessada no negócio, aplaudindo e reforçando a ostentação. E tudo isso compõe a força (ou a fraqueza) de um grupo. O que esperar de milionários com mentalidade de bolsa família?
O ambiente do futebol, a mentalidade prevalente no país, a atitude do povo brasileiro, ou seja, a passividade da maioria que se deixa conduzir por uma minoria oportunista, tudo isso compõe a cara do Brasil atual.
Como sair dessa? Enquanto o brasileiro não compreender que a iniciativa pessoal é o mais importante e enquanto persistir a tola expectativa de que "alguém tem que fazer alguma coisa", seguiremos andando para trás. Inclusive no futebol. Sem título. Sem copa. Sem brilho. Sem graça.