Depois de ataques duros durante a campanha, a aproximação
entre Zucco, Leite e Gabriel Souza levanta suspeitas sobre a
preservação de espaços no próximo governo e desafia o governador eleito a
mostrar que a mudança prometida não ficará pelo caminho.
por Rodrigo Alves, jornalista.
Depois de ataques duros durante a campanha, a aproximação
entre Luciano Zucco, Eduardo Leite e Gabriel Souza levanta suspeitas sobre a
preservação de espaços no próximo governo e desafia o governador eleito a
mostrar que a mudança prometida não ficará pelo caminho.
A política tem dessas reviravoltas que merecem atenção.
Depois de uma campanha eleitoral em que Luciano Zucco foi alvo de críticas
contundentes de Eduardo Leite e de seu vice, Gabriel Souza, a cordialidade
demonstrada nas reuniões da semana passada abre espaço para uma pergunta
incômoda: até onde vai a transição institucional e onde começa a negociação
pela preservação de espaços de poder? O diálogo entre governos é necessário,
mas não deveria apagar o histórico recente de confrontos nem dispensar explicações
sobre os compromissos assumidos nos bastidores.
Gabriel Souza, em particular, adotou um tom duro contra
Zucco durante a campanha, chegando a questionar publicamente seu conhecimento
sobre o número de hospitais do Rio Grande do Sul. A intensidade dos ataques de
integrantes da chapa governista tornou o contraste com a atual atmosfera de
cordialidade ainda mais evidente. A comparação com as críticas dirigidas a
Zucco por Juliana Brizola, candidata apoiada pelo campo político de Lula no
Estado, também faz parte do debate sobre o comportamento dos adversários
durante a disputa. Agora, a eleitores da direita e centro que votaram e
elegeram Zucco tem o direito de perguntar se a transição será conduzida com
base em critérios técnicos e administrativos ou se haverá acordos destinados a
acomodar nomes da gestão que está de saída.
Um dos casos que merecem atenção é o de Danielle Calazans, servidora
federal, é atual secretária de Planejamento, Governança e Gestão do Rio Grande
do Sul. Com passagem pelo Ministério da Economia durante a gestão de Paulo
Guedes e pela direção da Caixa Econômica Federal, ela foi incorporada ao
governo gaúcho por convite de Eduardo Leite. Sua eventual permanência ou
participação na próxima administração estadual ou federal, já que ela é de
Brasilia, deve ser discutida à luz de critérios objetivos, como experiência,
resultados e alinhamento ao programa do novo governo e não apenas pela
proximidade com o atual governador.
Leite também convidou Zucco para acompanhá-lo à COP,
prevista para novembro de 2026, na Turquia, em uma agenda voltada às mudanças
climáticas, às enchentes e às relações com organismos internacionais. Há ainda
a perspectiva de uma viagem conjunta a Brasília para tratar de pautas
econômicas e de interesse do Estado. São iniciativas que podem produzir
resultados positivos para os gaúchos, desde que tenham objetivos claros,
transparência e prestação de contas.
O desafio de Zucco será conduzir uma transição respeitosa
sem permitir que a cordialidade se transforme em compromisso político não
explicado ao eleitor. O eleitor gaúcho que escolheu uma nova administração
espera conhecer suas prioridades, sua equipe e os critérios que orientarão as
nomeações.
Há, por fim, uma questão política que permanece em aberto:
qual será a postura de Leite diante da disputa presidencial? O governador não
demonstrou, até aqui, o mesmo empenho público de outros aliados da direita na
defesa de uma candidatura de oposição a Lula, até porque Leite se diz de centro.
Seria essa postura a mesma caso o resultado do primeiro turno tivesse sido
diferente a favor de Lula? Não há como afirmar. Mas a pergunta é legítima e
ajuda a dimensionar o grau de convergência política entre Leite e o grupo que
pretende conduzir o Rio Grande do Sul nos próximos anos.
Na política, cordialidade não é sinônimo de acordo, assim
como divergência não impede cooperação. O que a sociedade gaúcha precisa é de
transparência. Zucco foi eleito para liderar um novo ciclo de governo; cabe a
ele demonstrar que a transição será guiada pelo programa apresentado aos
eleitores principalmente de direita que o elegeram e não a continuação do
governo de centro-esquerda de Eduardo Leite.