O ex-governador do Rio Grande do Sul Antônio Britto avalia
que o Brasil atravessa uma transformação política e institucional capaz de
encerrar o ciclo iniciado com a redemocratização. “Tá acabando a Nova
República. Acaba agora. Daqui a três semanas acaba a Nova República”, afirmou
durante a 98ª edição da Coonline, confraria virtual formada por jornalistas
veteranos. Ex-jornalista, deputado federal e ministro da Previdência Social,
Britto analisou o resultado do primeiro turno, o desempenho de Lula, o avanço
do conservadorismo e os desafios que aguardam o próximo presidente.
Para o ex-governador, a eleição não deve ser interpretada
apenas como uma disputa entre duas candidaturas. O resultado também expressa
mudanças acumuladas na sociedade brasileira, o desgaste de forças políticas
tradicionais e a dificuldade das instituições de preservar a capacidade de
produzir consensos. Na sua avaliação, os valores associados à redemocratização
continuam relevantes, mas perderam parte da força mobilizadora que tiveram nas
últimas quatro décadas.
Lula perdeu o primeiro turno, avalia Britto
Ao comentar o desempenho dos candidatos, Britto fez uma
distinção entre a votação obtida por Flávio Bolsonaro e o resultado alcançado
por Lula. “Eu não acho que o Flávio ganhou o primeiro turno. Eu acho que o Lula
perdeu o primeiro turno”, afirmou.
Na avaliação do ex-governador, o resultado foi influenciado
pelo crescimento do antipetismo nos últimos dias da campanha, pela migração de
eleitores de candidaturas menos competitivas e pela dificuldade do presidente
de apresentar uma mensagem convincente de futuro. O movimento teria antecipado
a polarização que se consolidaria no segundo turno.
Britto considera que a votação de Flávio Bolsonaro não
representa necessariamente uma adesão entusiasmada de todo o eleitorado à sua
candidatura. Uma parcela expressiva dos votos, segundo sua interpretação, teria
sido mobilizada pela rejeição ao PT. O antipetismo funcionaria, assim, como
elemento de aproximação entre eleitores com diferentes posições políticas, mas
que compartilham resistência ao atual governo.
O ex-governador também apontou problemas na condução da
campanha petista. “A campanha do Lula foi uma campanha muito descoordenada no
primeiro turno”, declarou. Para ele, o presidente não conseguiu transformar a
experiência acumulada em seus mandatos anteriores em uma narrativa capaz de
renovar expectativas e ampliar o apoio para além de sua base tradicional.
Governo perdeu apoio de eleitores independentes
Um dos principais pontos da análise de Britto é a
dificuldade de Lula de preservar a coalizão política que o levou à vitória em
2022. Naquela eleição, a candidatura petista reuniu setores da esquerda, forças
de centro e eleitores que, embora não se identificassem com o PT, consideravam
importante impedir a continuidade do governo Jair Bolsonaro.
Segundo Britto, essa frente perdeu amplitude durante o atual
mandato. O governo teria passado a ser percebido como excessivamente
identificado com o PT, reduzindo sua capacidade de dialogar com segmentos
independentes e moderados da sociedade.
O ex-governador também descreveu a administração federal
como politicamente desgastada e dependente de realizações do passado. Na sua
avaliação, a lembrança dos resultados dos primeiros governos Lula não substitui
a apresentação de propostas capazes de responder às expectativas atuais da
população.
A dificuldade seria especialmente relevante em uma eleição
polarizada, na qual a rejeição a um candidato pode ser tão determinante quanto
a identificação com o adversário. Para Britto, o governo não conseguiu
construir uma mensagem suficientemente ampla para neutralizar o crescimento do
antipetismo.
Desgaste institucional também influencia o cenário
A avaliação de Britto inclui o desgaste do Supremo Tribunal
Federal (STF) como um dos elementos que contribuíram para o ambiente político.
Na sua interpretação, decisões e controvérsias envolvendo a Corte passaram a
ser associadas por parte do eleitorado ao governo Lula, mesmo quando não havia
responsabilidade direta do presidente.
Essa percepção, segundo o ex-governador, ajudou a reforçar a
rejeição ao PT em determinados segmentos da sociedade. O fenômeno demonstra, na
sua análise, como a avaliação do governo pode ser afetada por controvérsias
envolvendo outras instituições.
Britto também chama atenção para a necessidade de distinguir
o conservadorismo democrático de posições autoritárias. Na sua avaliação,
tratar todos os eleitores conservadores como adversários da democracia é um
erro político, porque pode afastar setores que poderiam dialogar com outras
correntes partidárias.
O avanço do bolsonarismo, nessa perspectiva, não se limita
ao desempenho eleitoral da família Bolsonaro. Representa também a ocupação de
espaços antes associados a outras correntes da direita e, mais recentemente, a
segmentos do centro político.
Conservadorismo avança e muda a agenda política
Para Britto, o fortalecimento da direita está relacionado a
transformações sociais que parte das elites políticas e intelectuais demorou a
compreender. O ex-governador considera que a sociedade brasileira sempre
apresentou características mais conservadoras do que algumas interpretações
predominantes no debate público admitiam.
Entre os fatores que ajudam a explicar essa mudança, ele
destaca o peso econômico e cultural do agronegócio, a influência das pautas
religiosas e a centralidade da segurança pública nas preocupações da população.
A violência e a criminalidade, em particular, teriam aberto
espaço para o avanço de discursos conservadores, diante da dificuldade de
setores da esquerda e da social-democracia de oferecer respostas percebidas
como eficazes por parte do eleitorado.
Essa mudança também afeta a distribuição de forças no
Congresso Nacional. O fortalecimento de bancadas e lideranças conservadoras
amplia a pressão por alterações legislativas e modifica as condições de
negociação do governo federal, independentemente de quem ocupe a Presidência da
República.
Britto ressalta, porém, que a direita não constitui um bloco
homogêneo. A distinção entre conservadores democráticos e grupos que defendem
posições autoritárias é fundamental para compreender a nova configuração
política e as possibilidades de diálogo institucional.
Flávio Bolsonaro é favorito, mas Lula ainda pode reagir
Apesar do diagnóstico desfavorável ao presidente, Britto não
considera a disputa definida. Na sua avaliação, Flávio Bolsonaro parte de uma
posição favorável, mas Lula ainda dispõe de condições para reduzir a diferença
no segundo turno.
“Eu acho que hoje o Flávio é obviamente favorito, mas acho
que o Lula tende a diminuir, no mínimo a diminuir a diferença”, afirmou.
O ex-governador prevê uma campanha mais agressiva, com os
dois lados concentrados em explorar as fragilidades do adversário. Na sua
interpretação, o PT deverá buscar mobilizar eleitores preocupados com a
preservação de direitos sociais e programas governamentais, além de questionar
a trajetória política do candidato do PL.
A questão central será a capacidade de cada candidatura de
conquistar eleitores que não se identificam plenamente com nenhum dos dois
campos. Nesse cenário, a rejeição aos candidatos, a avaliação do governo e a
disposição para participar da votação podem influenciar o resultado.
Britto também chama atenção para a abstenção. Ele questiona
se Lula ou Flávio Bolsonaro conseguirão mobilizar eleitores que deixaram de
votar por desencanto com a política, desinteresse pela disputa ou rejeição às
alternativas apresentadas.
A possibilidade de mudança no comportamento eleitoral,
portanto, impede que o resultado seja tratado como definido antecipadamente.
Embora o ex-governador identifique vantagens para Flávio Bolsonaro, sua análise
preserva a possibilidade de reação de Lula.
O significado do fim da Nova República
A declaração de Britto sobre o encerramento da Nova
República constitui o eixo mais amplo de sua análise. O conceito remete ao
período de transição democrática, à Constituição de 1988 e à consolidação das
eleições presidenciais diretas, depois de duas décadas de regime militar.
Para o ex-governador, os valores que sustentaram esse
processo continuam válidos, mas perderam parte de sua capacidade de mobilizar a
sociedade e organizar consensos entre diferentes forças políticas.
“Todos esses sonhos continuam verdadeiros, mas eles se
gastaram como utopia”, afirmou.
A interpretação de Britto não significa necessariamente que
a democracia brasileira esteja chegando ao fim. Seu diagnóstico aponta para o
esgotamento de um modelo de representação e de funcionamento institucional que
predominou desde a redemocratização, diante de uma sociedade transformada pelas
redes sociais, por novas identidades políticas e pelo enfraquecimento da
confiança nas instituições.
Nesse ambiente, os partidos tradicionais enfrentam
dificuldades para representar grupos sociais cada vez mais fragmentados. Ao
mesmo tempo, lideranças com forte presença nas redes e discursos de confronto
ganharam espaço, alterando as formas de mobilização política e a relação entre
representantes e eleitores.
A eleição presidencial, nessa perspectiva, é uma
manifestação de mudanças mais profundas, e não um acontecimento isolado. O
resultado definirá o próximo presidente, mas não resolverá automaticamente os
conflitos que vêm remodelando a política brasileira.
Congresso será decisivo para o próximo governo
Britto considera que a composição do próximo Congresso será
determinante para o funcionamento do Executivo. Independentemente do resultado
presidencial, o novo governo terá de negociar com parlamentares de perfil
predominantemente conservador em temas importantes da agenda nacional.
Entre as questões que poderão ganhar força estão as
atribuições do Supremo Tribunal Federal, a legislação sobre costumes, as
políticas ambientais e os direitos das minorias. A intensidade dessas mudanças
dependerá da articulação entre as bancadas, da capacidade de negociação do
Executivo e das condições institucionais para aprovar alterações legislativas.
Em relação aos direitos sociais consolidados, como o décimo
terceiro salário e os benefícios previdenciários, Britto considera menos
provável uma retirada generalizada, em razão do elevado custo eleitoral que uma
medida desse tipo poderia representar. Isso não elimina, contudo, a
possibilidade de restrições orçamentárias, disputas sobre financiamento e
dificuldades para ampliar políticas públicas.
Uma eventual reeleição de Lula, segundo sua avaliação, seria
marcada pela necessidade de reconstruir uma base parlamentar ampla em um
ambiente menos favorável ao PT. O presidente teria de lidar com pressões
fiscais, resistência no Congresso e dificuldades para recompor a aliança
política que sustentou sua vitória em 2022.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro, por sua vez, também traria
desafios institucionais. A relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário
seria um dos pontos centrais, assim como o espaço ocupado pelos setores mais
radicais do bolsonarismo dentro de uma eventual administração.
Em ambos os cenários, o próximo presidente precisará
administrar uma sociedade polarizada e um Congresso com interesses diversos, em
um contexto de disputas sobre os limites e as atribuições das instituições.
Disputa eleitoral vai além de Lula e Flávio
A análise de Antônio Britto reúne três movimentos que se
conectam: o desgaste político do governo Lula, a ampliação da influência
conservadora e a perda de força dos consensos que marcaram o período posterior
à ditadura militar.
O ex-governador considera que o avanço da direita reflete
tanto a rejeição ao PT quanto mudanças sociais e culturais que alteraram as
prioridades de parte do eleitorado. Ao mesmo tempo, avalia que a dificuldade de
renovação das mensagens políticas tradicionais contribuiu para reduzir a
capacidade de mobilização de forças que tiveram protagonismo nas últimas
décadas.
A questão central, portanto, não se limita a quem vencerá a
eleição presidencial. Também envolve a capacidade do próximo governo de
construir maioria parlamentar, administrar as relações entre os Poderes e
responder às demandas de uma sociedade que apresenta novas formas de
participação e de conflito político.
Na interpretação de Britto, o Brasil vive uma transição cujo
alcance ultrapassa o mandato presidencial em disputa. A eleição poderá acelerar
mudanças já em curso, mas o futuro da relação entre governo, Congresso e
instituições dependerá das escolhas políticas e das negociações que ocorrerão
nos próximos anos.
Apesar de considerar Flávio Bolsonaro em posição favorável,
o ex-governador evita antecipar o desfecho da disputa. “Eu tô velho demais para
dar o jogo por jogado”, afirmou.
A frase resume a cautela de Britto diante de uma eleição
que, na sua leitura, combina incerteza eleitoral e transformação institucional.
Mais do que definir o próximo presidente, o segundo turno colocará em evidência
a nova configuração de forças que deverá orientar a política brasileira.
Assista à entrevista completa de Antônio Britto no canal da Coonline no
YouTube.