Artigo, especial, Marcus Gravina - Brasil das conjecturas

Marcus Vinicius Gravina
OAB-RS 4.949

Tivemos um presidente da República eleito, que foi impedido de tomar posse por  causas naturais.

Uma enfermidade repentina o levou à morte.

Assumiu o seu vice-presidente, José Sarney, pacificamente, o  governo.

O sonho do vice do Lula, Geraldo Alckimin talvez deseje que aconteça o mesmo e não será  surpresa a causa: cirrose epática, aguda e fatal.

Quem estará na mira do golpe, desta vez, será o Lula, por rebelião interna do seu partido, o  PT ou pelo Centrão fingido de aliado.

Para que isso aconteça o Lula precisar ganhar a eleição neste mês de outubro de 2026.

Os urubus do Centrão contam com isto, prontos para negociar a aposentadoria trilhonaria do Lula.

Ele está velho e não será difíci…

Este artigo é em comemoração a data deste domingo.  Eleições..

Análise, Carlos Eduardo Borenstein - Zucco arranca para vitória em 1º turno no RS

Carlos Eduardo Bellini Borenstein
Cientista Político

E-mail - carloseduardo@arkoadvice.com.br

O Rio Grande do Sul caminha para uma nova surpresa eleitoral na disputa ao Palácio Piratini. Luciano Zucco (PL) teve um expressivo crescimento na pesquisa Quaest, divulgada neste sábado (3), ganhando dez pontos percentuais em relação ao dia 23 de setembro, e chegando aos 39% das intenções de voto. Considerando os votos válidos, Zucco contabiliza 52%, abrindo espaço para uma vitória já no primeiro turno. 

Juliana Brizola (PDT) oscilou positivamente de dois pontos – 23% para 25% das intenções de voto. Gabriel Souza (MDB), por sua vez, variou negativamente um ponto, ficando com 9% das intenções de voto. Juliana registra 35% dos votos válidos. Gabriel aparece com 12%.

Em um eventual segundo turno, Zucco venceria Juliana por 46% a 35%, ou seja, uma vantagem de 11 pontos. Na pesquisa realizada em 23 de setembro, a distância de Zucco para Juliana era de seis pontos (40% a 34%). Ou seja, mesmo que tenhamos dois pontos, Zucco entrará na disputa como grande favorito.

Ao que tudo indica, o robusto crescimento de Zucco veio de eleitores que declaravam voto em branco ou nulo. Esse contingente baixou de oito pontos (25% para 17%) em relação ao dia 23 de setembro. Nesse mesmo período, Zucco cresceu dez pontos.

A arrancada de Zucco para a vitória em primeiro turno também deve trazer como consequência a eleição de Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL) ao Senado. De acordo com a Quaest, Sanderson aparece com 15% das intenções de voto. Marcel Van Hattem (Novo) atinge 14%. Manuela D’Ávila (PSOL) soma 13%. Paulo Pimenta (PT) aparece com 12%.

Comparado a pesquisa Quaest de 23 de setembro, Sanderson cresceu cinco pontos (10% para 15%). Van Hattem avançou quatro pontos (10% para 14%). Manuela teve variação negativa de um ponto (14% para 13%). Pimenta oscilou positivamente dois pontos (10% para 12%).


Saiba como é a votação de hoje

 Desde as 8h e até as 17h, 158,7 milhões de eleitores brasileiros estão aptos a comparecer as urnas para eleger presidente, governadores, 2 senadores por Estado, deputados federais e deputados estaduais.

A ordem de votação é a que consta da colinha ao lado. Comosão muitos votos, recomenda-se que o eleitor leve colinha para a cabine de votação.

Se houver segundo turno para escolha de presidente e governadores, será no dia 25 de outubro..

O uso de telefone celular na cabine continua proibido.

Perfil do eleitorado

As eleições de 2026 reúnem o maior eleitorado da história brasileira. Do total de eleitores aptos, 141.321.493 já têm biometria cadastrada, o equivalente a 89,01% do eleitorado, segundo a Justiça Eleitoral.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, há 605,8 mil eleitores de 16 anos e pouco mais de 1 milhão de eleitores com 17 anos – faixas etárias para as quais o voto é facultativo.

Candidatos

A disputa também é marcada pelo grande número de candidatos. A Justiça Eleitoral registra cerca de 21 mil pedidos de candidatura. Mais da metade está concentrada nas eleições para as assembleias legislativas e para a Câmara Legislativa do Distrito Federal.

São cerca de 11,3 mil candidatos a deputado estadual e 433 a deputado distrital, totalizando cerca de 11,7 mil concorrentes nesses cargos.

Para a Câmara dos Deputados, foram registrados 7.803 candidatos.

Antipetismo pode beneficiar Flávio na véspera do primeiro turno

 Carlos Eduardo Bellini Borenstein
Cientista Político
carloseduardo!arkoadvice.com.br

Pesquisa divulgada hoje (3) pelo PoderData/Aya mostra uma acirrada disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na véspera do primeiro turno. Lula tem 45% votos válidos contra 43% de Flávio. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o quadro é de empate técnico. Augusto Cury (Avante) atinge 4% das preferências. Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) contabilizam 3%. Romeu Zema (Novo) figura com 1%.

Nas 24 horas que antecedem a votação, variáveis como a abstenção e o voto útil, assim como o movimento de eleitores indecisos, devem provocar impacto. Embora o mais provável seja que tenhamos dois turnos, não deve ser descartada a possibilidade da eleição ser definida em primeiro turno, já que Lula e Flávio concentram mais de 80% das intenções de voto.

Outro fator importante – e que pode impactar a disputa – é o fenômeno do antipetismo. Nas últimas três eleições presidenciais (2014, 2018 e 2022), os candidatos que eram os principais representantes do antipetismo – Aécio (2014) e Bolsonaro (2018 e 2022) – tiveram mais votos ao final do primeiro turno que o estimado pelas pesquisas. Isso pode ser explicado pela decisão tardia de voto de eleitores antipetistas.

Vale observar que antes do primeiro turno de 2014, o instituto Datafolha apontava que Aécio Neves (PSDB), o candidato mais forte de oposição ao PT naquela eleição, tinha 26% dos votos válidos. Após a abertura das urnas, Aécio obteve 33,55% dos votos válidos, ou seja, 7,55 pontos a mais.

Em 2018, na véspera do primeiro turno, o Datafolha indicava que Jair Bolsonaro (PL) tinha 40% dos votos válidos. Após a abertura das urnas, Bolsonaro ficou com 46,03% dos votos válidos – 6,03 pontos a mais.

Este mesmo fenômeno ocorreu nas eleições de 2022. Jair Bolsonaro (PL) tinha 36% dos votos válidos na véspera do primeiro turno. Após a contabilização dos votos, Bolsonaro teve 43,20%, ou seja, 7,20 pontos a mais.

Como Renan, Caiado e Zema concentram 7% dos votos, de acordo com o PoderData/Aya, e esse contingente do eleitorado rejeita mais Lula que Flávio, é possível que parte desses votos migrem para Flávio.

Assim, se o antipetismo se mover nas últimas horas em direção a Flávio, é possível que o candidato do PL faça mais votos que o estimado pelas pesquisas. A dúvida é saber qual será a diferença de Flávio para Lula e se Flávio irá terminar na frente ou ligeiramente atrás de Lula após o primeiro turno.

Artigo, Adão Paiani e Afonso Celso Pupe Neto - A microfísica do voto

*Adão Paiani e Affonso Celso Pupe Neto


  Em 2018, em um período de intensa exposição pública por seus posicionamentos políticos, o ator Robert De Niro recebeu, no endereço de sua produtora em Nova York, um pacote contendo um artefato explosivo que somente não foi detonado por intervenção de sua segurança.

  Ao se manifestar sobre o episódio, De Niro respondeu à violência com uma frase que ultrapassa qualquer posição partidária: “There’s something more powerful than bombs, and that’s your vote”. Em tradução livre: votos são mais poderosos que bombas.

  A frase é simples, mas contém uma das premissas fundamentais da democracia: votos têm muito poder e, por isso, seu exercício precisa ser livre.

  Votar, hoje, parece um ato absolutamente ordinário. Comparecer à seção eleitoral, identificar-se, entrar sozinho em uma cabine e escolher aqueles que governarão é tão natural que facilmente esquecemos que nem sempre foi assim.

  A história eleitoral brasileira também foi construída sobre fraudes, coronelismo, currais eleitorais e o apelidado “voto de cabresto”, período em que a manifestação política do cidadão podia estar subjugada ao poder econômico, à autoridade local e, não raramente, à própria força.

  Michel Foucault, ao tratar da chamada “microfísica do poder”, observou que o poder não existe apenas nas grandes estruturas do Estado, mas circula também pelas relações sociais, de maneira difusa e granular.

  Poucas imagens brasileiras traduzem isso tão bem quanto o antigo “curral eleitoral”: o poder chegava até o indivíduo e alcançava precisamente aquilo que deveria pertencer exclusivamente a ele: o seu voto.

  É nesse contexto que surge uma das garantias eleitorais que integram o chamado período de “defeso eleitoral”: a vedação, como regra, à prisão do eleitor às vésperas da eleição.

  Sua origem remonta ao Código Eleitoral de 1932 e sua razão é essencialmente democrática: impedir que a prisão ou sua ameaça pudesse ser utilizada para afastar eleitores das urnas, constranger adversários ou interferir na liberdade do voto.

  A regra permanece no artigo 236 do Código Eleitoral. Desde cinco dias antes e até 48 horas depois do encerramento da eleição, nenhuma autoridade poderá prender ou deter eleitor, ressalvadas as hipóteses previstas pela própria lei.

  Mas há uma distinção fundamental.

  Essa garantia, contudo, não constitui salvo-conduto para o cometimento de ilegalidades. A garantia protege o voto, não o crime.

  Quem estiver em situação de flagrante delito poderá ser preso normalmente. A legislação também ressalva a prisão decorrente de sentença criminal condenatória por crime inafiançável e aquela decorrente do desrespeito a salvo-conduto eleitoral.

  A lógica é simples: o Estado continua autorizado a conter o crime que está acontecendo, mas não pode utilizar a prisão como instrumento para interferir no exercício do sufrágio, ainda que de modo indireto.

  Talvez essa proteção pareça anacrônica justamente porque funcionou. As práticas que justificaram sua criação pertencem a um Brasil que a democracia procura manter no passado, mas a razão que sustenta a norma permanece atual: ninguém deve ser impedido, constrangido ou intimidado no exercício de sua liberdade política.

  Porque uma eleição não é apenas uma disputa entre candidatos.

  É o momento em que milhões de opiniões individuais, absolutamente iguais em valor jurídico, são convertidas em uma decisão coletiva.

  Durante alguns segundos diante de uma urna, não importam patrimônio, profissão, posição social ou poder. Cada cidadão possui exatamente um voto.

  E cada voto representa sua opinião sobre como a sociedade deverá — ou não — progredir durante os próximos quatro anos.

  De Niro tinha razão em algo que ultrapassa qualquer candidato, partido ou eleição. Existem (poucas) coisas mais poderosas do que bombas: uma delas é o voto.




 

Artigo, Zero Hora, Eugênio Esber - Rebeldia e protesto

O candidato em quem já depositei confiança se tornou, para mim, símbolo de tudo aquilo de que hoje quero me afastar

Por aspectos diversos, o 13 é número de azar ao redor do mundo, e uma das mais fortes razões para a superstição está ligada à presença de um traidor, Judas, na ceia de Jesus Cristo com seus 12 apóstolos. Pensei nisso antes de ir dormir, nesta sexta-feira, inconformado com a farsa judicial montada por Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, e por Estela Aranha. Estela opera na corte eleitoral do país a serviço de seus ex-chefes - Lula e sua longa manus no STF, Flávio Dino, ex-ministro da Justiça que foi colocado na suprema corte para fazer as vontades do presidente que busca a reeleição. Ficou tudo escancarado. O STF, pela vontade de uma facção poderosa, se articulou nas sombras do entardecer de quinta-feira para, de última hora, fulminar a TV Globo com ordens brutalmente contrárias à lei e ao ordenamento jurídico com o propósito de melar - o termo é este - a realização de um debate que Lula, o candidato 13, quis, e conseguiu, evitar.

*Leia Mais Saiba quais serão os últimos atos de campanha de Lula e Flávio antes do primeiro turno Sala de Eleição repercute cancelamento do debate da Globo e outros destaques das eleições

Lula teve meu voto, no passado, quando eu o considerei um legítimo apóstolo de mãos limpas a pregar uma democracia de base popular e compromisso com a emancipação social e econômica dos brasileiros. Mas então seu número, que era o 3, tornou-se, cabalisticamente, 13, e diante daqueles meus olhos de 1989 foi-se tornando uma figura irreconhecível.

Governou o país, direta e indiretamente, em cinco mandatos. Fez fortuna. Loteou entre apaniguados não apenas a máquina pública do poder executivo, mas órgãos de controle, como tribunais de contas. Desgraçadamente partidarizou também dois baluartes de defesa do estado de direito - o ministério público e o Poder Judiciário. Como Nicolás Maduro, na Venezuela, Lula capturou a suprema corte, hoje atolada no mais profundo descrédito popular. Extrapolou, para muito além dos limites éticos da barganha política, a cooptação do parlamento brasileiro, transformado em balcão de negócios. Foi preso. Foi solto. E hoje é a viga-mestra de um regime que prendeu e persegue milhares de brasileiros que olham para nós, jornalistas, incrédulos, como a perguntar se não estamos vendo o que se passa debaixo de nossos narizes.

Em Lula, dependura-se todo o cortejo da velhacaria oligárquica. Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino, Davi Alcolumbre, Hugo Motta e muitos outros exemplares de um organismo institucional corrupto cujas vísceras estão sendo expostas à medida que se conhecem as relações de Daniel Vorcaro com figurões da República.

Nada mais posso fazer, ou dizer, a não ser votar na oposição. Hoje, avô, sou tomado de um espírito juvenil de rebeldia e protesto. Sentimento temporão, talvez. Mas é que quinta-feira fui dormir pensando na Santa Ceia e em Judas. Um pesadelo.

13? Não mais.


Artigo, Roberto Rachewsky - Piauí ou Maranhão? Eis a questão!

Roberto Rachewsky


Eu li o longo artigo que João Moreira Salles publicou na revista piauí, intitulado “O que esses brasileiros sabem”, e resolvi escrever este porque aquele artigo é muito mais do que uma crítica a Flávio Bolsonaro.


A tese de Salles é simples. Existe uma elite empresarial e financeira que sabe exatamente quem são os Bolsonaro, conhece a homenagem de Jair Bolsonaro a Brilhante Ustra, conhece Queiroz, Adriano da Nóbrega, as acusações envolvendo milícias e o Oito de Janeiro e, apesar disso, aceita conversar e jantar com Flávio Bolsonaro.


Segundo Salles, essas pessoas sabem de tudo isso, mas estariam dispostas a tolerar o risco que ele atribui a Flávio porque querem responsabilidade fiscal, redução de impostos, privatizações, menos regulamentação, corte de gastos e diminuição do Estado.


O argumento chega ao ponto de reduzir a escolha moral desses empresários a uma alternativa entre irresponsabilidade fiscal e tortura. E trata Flávio essencialmente como uma extensão política e moral do pai.


Foi por isso que resolvi escrever esse texto.


Não para defender Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Ustra, Queiroz ou quem quer que seja. Muito antes, pelo contrário. O que me interessa aqui é a régua utilizada por João Moreira Salles.


Ele começa seu ensaio distinguindo duas atitudes diante da realidade: compreender e acreditar. É uma distinção importante. Tão importante que vale aplicá-la ao seu próprio texto.


Eu acrescentaria uma terceira possibilidade: selecionar.


Selecionar os fatos que confirmam uma conclusão previamente desejada, excluir aqueles que a perturbam e depois apresentar o resultado dessa seleção como produto inevitável da razão. Isso não é compreender. É racionalizar.


Para mim, democracia não é um valor moral primário. Vida, Liberdade e Justiça são. Direitos individuais são.


Democracia é apenas um método para escolher governantes e substituí-los sem violência. Seu valor está subordinado aos direitos que deve proteger. Se 99 pessoas votarem para confiscar a propriedade da centésima, o placar de 99 a 1 não transforma roubo em justiça. Se uma maioria autorizar censura ou prisão sem devido processo, a urna não santifica a coerção.


Por isso, antes de perguntar quem ameaça a democracia, eu perguntaria: quem ameaça os valores primários e os direitos individuais?


Tortura é abjeta porque viola brutalmente direitos individuais. Ditadura também. Milícia, terrorismo, censura estatal, prisão arbitrária, confisco e violação do devido processo devem ser julgados pelo mesmo princípio.


Não existe uma moral para o meu adversário e outra para o meu aliado.


Salles dedica enorme espaço a Carlos Alberto Brilhante Ustra. Que se examine Ustra. Se torturou, que seja chamado de torturador. Tortura não ganha dignidade porque foi praticada contra comunistas ou adversários de uma ditadura.


Mas daí não decorre aquilo que Salles precisa que decorra.


Jair Bolsonaro ter homenageado Ustra não transforma Flávio Bolsonaro em torturador. Flávio defender o pai não transforma um empresário que conversa com ele em defensor de Ustra. E jantar com Flávio não transforma ninguém em cúmplice de uma futura ditadura.


Isso é culpa por associação.


Ustra contamina Jair. Jair contamina Flávio. Flávio contamina Queiroz, Ciro Nogueira, Cláudio Castro e outras pessoas de seu entorno. Finalmente, a contaminação chega a André Esteves, Roberto Campos Neto, Rubens Ometto, Pedro Parente, Richard Gerdau e aos empresários que aceitaram conversar com Flávio.


Não é assim que funciona justiça.


Justiça significa avaliar cada indivíduo por seu próprio caráter e por suas próprias ações. Se alguém cometeu um crime, prove o crime e responsabilize essa pessoa. Se outro participou, prove a participação. Se financiou, ordenou, ocultou ou conscientemente auxiliou o crime, demonstre o nexo causal.


Sentar à mesa não é aderir. Conversar não é endossar. Conhecer não é participar. Ser filho não é ser o pai.


E aqui aparece uma incoerência especialmente interessante na régua escolhida por João Moreira Salles.


Seu pai, o banqueiro Walther Moreira Salles, havia sido ministro da Fazenda de João Goulart. No final de 1963, poucos meses antes do golpe militar, mantinha interlocução tanto com Goulart quanto com Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil.


Há registros diplomáticos dessas conversas. Em dezembro de 1963, Walther conversou com Gordon, depois encontrou-se com Goulart e voltou a falar com o embaixador americano, transmitindo-lhe um resumo da conversa que tivera com o presidente.


Isso faz de Walther Moreira Salles um golpista?


Não.


Conversar com Lincoln Gordon não prova participação em golpe algum. Manter relações com pessoas envolvidas numa crise política não significa compartilhar suas intenções. Para atribuir responsabilidade moral a alguém é preciso demonstrar aquilo que essa pessoa efetivamente fez.


Mas então a mesma regra precisa valer para os outros.


Por que empresários que conversam com Flávio Bolsonaro em 2026 estariam legitimando aquilo que João atribui aos Bolsonaro, enquanto a interlocução de Walther Moreira Salles com Lincoln Gordon às vésperas de 1964 não produziria automaticamente a mesma culpa por associação?


Eu não uso a relação de Walther com Gordon para condená-lo.


Uso-a para mostrar por que a régua de João está errada.


Ou conversar com alguém não significa endossar seus atos e suas ideias, e então os empresários citados no artigo precisam ser julgados pelo que eles próprios fizeram, ou significa, e João terá de aceitar que a mesma lógica seja aplicada ao próprio pai.


Justiça não admite dois pesos e duas medidas.


Curiosamente, o próprio Salles percebe parte do problema quando afirma que jornalistas podem entrevistar pessoas sem legitimá-las. Mas cria uma exceção para empresários: jornalista pode conversar; empresário, ao conversar, legitima.


Por quê?


Ele não demonstra.


Um empresário tem o mesmo direito de ouvir um candidato, questioná-lo, discordar dele e descobrir o que pretende fazer caso seja eleito.


Informação não é sanção moral.


Sanção pressupõe aprovação, legitimação ou cooperação consciente. Transformar uma conversa em endosso é esvaziar o próprio conceito.


Há outro problema ainda mais profundo.


Salles afirma saber o que essas pessoas sabem.


“Sei que sabem.”


Não, ele não sabe.


Pode demonstrar que determinada informação foi publicada, que alguém recebeu um documento, fez uma declaração ou participou de uma reunião. Mas não pode penetrar na consciência de dezenas de indivíduos e declarar quais fatos conhecem, como os integraram e quais conclusões extraíram deles.


“Sei que sabem porque conheço o mundo social em que vivem” não é evidência.


É uma inferência sobre a consciência alheia apresentada como fato.


O mesmo acontece quando atribui aos empresários vaidade, interesses particulares ou uma “vertigem quase erótica da influência política”.


Como sabe?


Não sabe.


É literatura apresentada como epistemologia.


Mas a maior distorção aparece no falso dilema que sustenta o artigo.


Salles reduz a escolha moral dos empresários a isto: de um lado, irresponsabilidade fiscal; do outro, tortura. Chega a escrever que conversar com Flávio equivaleria a declarar: “entre a irresponsabilidade fiscal e a tortura, fico com a tortura”.


Isso é um "package deal", uma falácia: empacotam-se fenômenos diferentes sob duas alternativas emocionalmente carregadas e exige-se que o leitor escolha uma delas.


Nenhum empresário citado está escolhendo entre tortura e responsabilidade fiscal. Nenhum candidato está propondo substituir ajuste fiscal por uma política pública de tortura.


Pode-se condenar inequivocamente a tortura e, simultaneamente, considerar dívida pública, inflação, impostos, gasto estatal, insegurança jurídica, censura e abuso institucional ameaças aos direitos individuais.


Uma coisa não apaga a outra.


Salles também fala de programas sociais como se a discussão fosse essencialmente sobre compaixão.


Não é.


A pergunta moral anterior é: de quem é o dinheiro?


O fato de alguém precisar de alguma coisa não cria sobre outra pessoa a obrigação jurídica de fornecê-la. Necessidade não é título de propriedade. Se fosse, quanto maior a necessidade de alguém, maior seria seu direito sobre a vida e o patrimônio de quem produz.


Direitos não são reivindicações sobre os bens alheios.


Direito à vida significa liberdade para sustentar a própria vida. Direito à propriedade significa liberdade para adquirir, usar e dispor do que é seu. Direito à liberdade significa ausência de coerção iniciada por outras pessoas, inclusive quando agem através do Estado.


E considero igualmente condenável o corporativismo que muitos chamam erroneamente de "capitalismo de compadrio". A expressão é uma contradição nos termos.


Subsídio, proteção regulatória, financiamento favorecido e qualquer mecanismo pelo qual empresários utilizem o Estado para transferir riqueza de terceiros para si não têm nada a ver com capitalismo.


Caracteriza o estatismo contido em sistemas socialistas como o fascismo.


Se existem empresários defendendo benefícios estatais para si enquanto pedem o fim dos benefícios dos outros, que sejam criticados por isso.


Mas dois privilégios não produzem justiça.


Produzem dois privilégios.


Chegamos então ao “golpe”, expressão que Salles utiliza como se resolvesse a discussão.


Não resolve.


No Oito de Janeiro houve invasão, vandalismo e destruição de patrimônio público. Quem destruiu, agrediu ou invadiu ilegalmente deve responder pelo que fez. Mas daí a concluir que aquelas pessoas tinham capacidade objetiva para tomar o poder no Brasil existe uma distância que precisa ser demonstrada.


O STF adotou juridicamente a tese de tentativa de golpe e houve condenações com base nessa interpretação dos acontecimentos. As defesas contestaram essa caracterização. A existência de uma decisão judicial é um fato; ela não dispensa o exame independente dos fatos e dos argumentos.