Os democratas varreram o Congresso e viraram até o Texas. O eleitor puniu promessas não entregues por Trump. O perigo de verdade começa em 2028.
O Texas vai mandar um democrata ao Senado pela primeira vez em mais de trinta anos. James Talarico derrotou Ken Paxton, e Greg Abbott perdeu o governo para Gina Hinojosa. No Maine, caiu Susan Collins, a senadora que sobreviveu a todas as ondas. Chame como quiser: tsunami azul, terremoto, massacre. Não há como dourar a pílula. A eleição de terça-feira foi um desastre para a direita.
Com a apuração ainda em andamento, no Senado os republicanos tinham 53 cadeiras e perderam nove: Texas, Maine, Kansas, Iowa, Ohio, as duas Carolinas, Alasca e até o Mississippi. Na Câmara, a perda deve ficar entre 35 e 45 cadeiras. E os democratas passam a governar a maioria dos estados pela primeira vez desde 2010. Frank Luntz, que não é exatamente um militante, chamou o resultado de a maior virada partidária desde 1974.
Há dois anos, a direita comemorava a volta de Trump e o controle do Congresso. O refluxo veio rápido, e não só aqui: na Hungria, Orbán caiu em abril; no Brasil, o Descondenado foi reeleito há dez dias.
Esse voto teve um principal motivo: PUNIR DONALD TRUMP. Mas puni-lo por quê?
O pêndulo e o tamanho da onda
Em parte, porque é isso que o eleitor americano costuma fazer: punir o presidente na eleição de meio de mandato. Bill Clinton perdeu 54 deputados e oito senadores em 1994. Barack Obama perdeu 63 deputados e seis senadores em 2010. Na Câmara, os dois perderam mais do que Trump vai perder. No Senado, não: a perda de Trump é maior que a de ambos. E nenhum dos dois acabou ali: Clinton saiu do cargo perto de 66% de aprovação, e Obama perto de 60%.
A diferença é que ninguém previa o TAMANHO desta onda. Nem os republicanos, que redesenharam os mapas espalhando seus eleitores por mais distritos, com vantagens pequenas em cada um. A aposta só funcionava se o eleitor de 2024 voltasse às urnas. Ele não voltou, e cadeiras que deveriam ser conquistas viraram derrotas. O que transformou uma derrota previsível em massacre?
O bolso
Em primeiro lugar, o custo de vida. Na pesquisa de boca de urna, nove em cada dez eleitores disseram que ele pesou no voto. Trump prometeu melhorar esse ponto e não conseguiu.
E aqui está o que quase ninguém fala: o principal motor do aumento do custo de vida, aqui nos Estados Unidos ou no Brasil, é um só. Os déficits crescentes dos governos. O Estado gasta mais do que arrecada, e a conta chega ao cidadão em forma de inflação e juros.
É uma equação politicamente impossível. O eleitor quer mais coisas "grátis", mais poder de compra e menos imposto, jogando a conta para os "ricos", como se isso fosse sustentável. Se Trump corta benefícios, perde. Se não enfrenta o déficit, perde do mesmo jeito. É o nó que a lógica esquerdista de expansão ilimitada do Estado deixou armado.
Mas houve algo que jogou gasolina nesse fogo: as tarifas. Como apontou Ben Shapiro na noite da eleição, foi no Dia da Libertação, em abril de 2025, que a aprovação líquida de Trump ficou negativa. E nunca mais voltou. Declarar guerra comercial ao planeta inteiro, no meio de uma espiral de custo de vida, não fecha. Quem pagou primeiro foi o agro, uma das bases mais fiéis do partido: a China foi comprar soja no Brasil, e o governo teve de socorrer o produtor com 12 bilhões de dólares.
A gasolina e o ICE
O segundo acelerador foi a guerra contra o Irã. Pode ser uma guerra necessária. Mas guerra tem preço, e ele apareceu na bomba de combustível. Quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, em 28 de fevereiro, o galão custava, em média, 2,98 dólares, segundo a AAA. Na véspera da eleição, 4,17. Cerca de 40% a mais.
A gasolina é um benchmark especial: o efeito psicológico supera o econômico, porque o número está ali, toda semana, num letreiro de três metros de altura. O próprio Trump admitiu à Fox News, na noite da eleição, que parte do resultado foi o Irã. Não a guerra, corrigiu, mas o preço da gasolina.
O terceiro ponto foi a agressividade com os imigrantes ilegais. Fechar a fronteira e deportar criminosos tem amplo apoio, e Trump cumpriu. Deportar quem vive aqui há anos, trabalha e não cometeu crime grave, não. Na pesquisa da Universidade Marquette de fevereiro, 56% apoiavam deportar imigrantes ilegais em geral; para quem tem anos de país, emprego e ficha limpa, o apoio caía para 44%. Some a isso prisões transformadas em meme por conta oficial do governo. A militância aplaudiu; o eleitor hispânico, que Trump havia trazido em 2024, ouviu outra mensagem.
Quem ficou em casa
Por fim, a esquerda radicalizada mobilizou os jovens, e o eleitor republicano ficou em casa. A Broome Street Labs comparou esta eleição com a de 2024, condado por condado, em cinco estados. Para cada 100 eleitores de 2024, o voto republicano caiu entre 14 e 46. O democrata ficou praticamente parado. No Texas, chegou a subir.
Ou seja, os democratas não ganharam por uma conversão em massa. Ganharam, acima de tudo, porque o eleitor republicano não apareceu.
Entre os jovens, porém, aconteceu algo mais grave. Pela boca de urna da CNN, a geração Z votou nos democratas por quase 50 pontos, e os jovens homens brancos, que deram a Trump 28 pontos de vantagem em 2024, foram para os democratas por 17. A direita perdeu terreno justamente onde achava estar construindo uma nova geração.
A esquerda escondeu o jogo
O problema de fundo é que o eleitor médio não quer saber de guerra cultural. Vota com o bolso, e só muda quando uma agenda é absurda demais, como a agenda trans ou o fim da polícia. Os democratas aprenderam. Esconderam as agendas radicais e fizeram campanha sobre custo de vida.
A prova está na Carolina do Norte. O eleitor mandou o democrata Roy Cooper para o Senado com folga. E, na mesma cédula, aprovou três emendas à constituição estadual: teto de 3,5% para o imposto de renda, caminho aberto para limitar o imposto sobre propriedade e documento com foto até no voto pelo correio. Boa parte dos eleitores de Cooper votou nas três. O eleitor votou na pauta da direita e no candidato da esquerda. A direita ganhou o argumento e perdeu a eleição.
Só que a onda carregou muitos radicais junto. O novo senador do Texas foi gravado em 2020, numa reunião com o Sierra Club revelada pela CNN, celebrando que jovens ativistas tivessem ligado mudança climática, supremacia branca e capitalismo, "sistemas opressivos" a desmantelar. Na campanha, virou "capitalista orgulhoso". O Texas foi californizado. Em Michigan, Abdul El-Sayed será o primeiro senador muçulmano da história americana, da ala socialista do partido, e cuja própria meia-irmã escreveu que a família "há muito tempo é da Irmandade Muçulmana", organização terrorista. Em Minnesota, Ilhan Omar, investigada por fraude no seu processo de imigração, foi reeleita, com uma leva de candidatos de origem somali nas assembleias estaduais.
E aí as coisas ficam perigosas. Com Texas, Carolina do Norte e Ohio em jogo, a esquerda sai desta eleição com uma base muito forte para 2028. Em 2022, 48 senadores democratas votaram para mudar a regra do filibuster (a regra que exige 60 votos para a maioria dos projetos de lei avançar); Manchin e Sinema impediram, e os dois já saíram do Senado. Em julho, Kamala Harris falou em "revisitar" o Colégio Eleitoral, numa Suprema Corte com 13 juízes e em dois estados novos, D.C. e Porto Rico.
E aqui está o detalhe decisivo: ampliar a Corte, acabar com o filibuster e criar estados novos não exige emenda constitucional. Exige só maioria simples e um presidente disposto a assinar. Em 2028, a disputa não será apenas sobre quem governa. Será sobre as regras pelas quais o país continuará sendo governado. Como Elon Musk escreveu, o projeto é criar um país de partido único.
O grande risco para o eleitor americano médio, acostumado a ter nas urnas uma ferramenta de controle da classe política, é não perceber que o Partido Democrata que está aí não é o mesmo de décadas atrás. É cada vez mais um partido extremista, com uma agenda antiamericana. Não podemos esquecer o velho adágio: você pode colocar socialistas no poder pelo voto, mas não tirá-los do poder pelo voto.
A exceção da Flórida
A Flórida sobreviveu ao massacre. Byron Donalds venceu o governo por pouco mais de um ponto, e Ashley Moody manteve a cadeira no Senado por cerca de dois. Margens apertadas, num estado que Trump venceu por 13 pontos há dois anos. Mas venceu.
E isso catapulta Ron DeSantis para 2028. O que seria ótimo. DeSantis vinha dizendo o que o partido precisava ouvir: o caminho mais rápido para um país socialista é o capitalismo de compadrio. Entre um capitalista de compadres e Mamdani, disse ele, o jovem escolhe Mamdani sem piscar.
O recado do mercado
Os próximos dois anos serão de Trump como o Mr. Veto. Os democratas não têm os dois terços para derrubar vetos nem os 60 votos para vencer o filibuster, e o país fica congelado em termos de agenda legislativa.
O mercado entendeu isso antes de todo mundo. Na madrugada de quarta-feira, os futuros desabaram, com medo de um Congresso democrata freando a corrida da inteligência artificial. Na abertura, a história virou: o Dow Jones chegou a subir mais de mil pontos, e o juro do título de dez anos do Tesouro caiu para perto de 4,9%. Wall Street não estava comemorando a agenda democrata. Estava comemorando a PARALISIA. Para o investidor, a melhor notícia da semana é que ninguém em Washington vai conseguir aprovar uma nova farra de gastos.
Além disso, restrições a novos data centers podem até favorecer os acionistas das gigantes de tecnologia, ao conter investimentos que muitos analistas consideram exagerados e reduzir o risco de uma bolha.
Mas a aposta tem prazo. O mercado precifica dois anos de paralisia. Não precifica 2028. A maior parte dos senadores eleitos na terça-feira fica no cargo até 2033. Se a esquerda radical somar a Casa Branca a esse Congresso, a paralisia que hoje acalma Wall Street vira porta aberta para reformas antimercado.
O farol
Os Estados Unidos não acabaram. As instituições seguem fortes, e não há colapso à vista. Muita coisa acontece em dois anos: em 1974, os republicanos foram massacrados, e seis anos depois Reagan venceu em 44 estados.
Mas os riscos aumentaram, sem dúvida. A eleição de 2028 terá importância tão grande quanto a de 2024, e não só para os americanos. Para os perseguidos do mundo inteiro, inclusive milhões de brasileiros, é para cá que se corre quando a liberdade acaba em casa.
O Farol da Liberdade não se apagou na terça-feira. Mas, pela primeira vez, quem quer apagá-lo deu um relevante passo nessa direção.