Meios e modos

 O deputado federal Luciano Zucco venceu as eleições para governador do RS no primeiro turno, surpreendendo todo mundo, porque se acreditava que ele sairia na frente da disputa, mas teria que ir para o segundo turno com a candidata da coligação PDT+PT, Juliana Brizola, neta de Brizola.

Esta é a primeira vez que a direita vence uma eleição de dois turnos para governador

Depois da redemocratização mais recente, antes de Zucco, apenas um candidato de direita venceu no RS. Foi Jair Soares, mas não havia segundo turno. Soares venceu por maioria simples os candidatos Pedro Simon, MDB; Olívio Dutra, PT e Alceu Collares, PDT. Todos os três viriam a ser governadores.

O resultado principal:

Zucco, 58,05%
Juliana, 31,65%
Gabriel Souza, MDB, 8,43%
Marcelo Maranata, PSDB, 1,68%

Agora, todos, menos Juliana, estão unidos para eleger Flávio Bolsonaro.

Duas graves questões

1) A dívida.

Luciano Zucco herdará um governo estadual com as contas públicas bastante equilibrada, mas por conta da suspensão de pagamento de uma dívida de R$ 145 bilhões com a União, que deveria estar sendo quitada em prestações mensais, mas que nem de longe são pagas. É o mais grave problema que Zucco terá que enfrentar, porque pelo acordo conseguido por Leite, as parcelas mensais terão que ser honradas a partir de abril de 2027. Serão R$ 2 bilhões que terão que ser pagos no ano que vem.

Caso Flávio Bolsonaro seja eleito, a solução seria prorrogar o atual acordo fechado entre Lula e Leite.

Uma solução definitiva, no entanto, só acontecerá com a abolição da dívida.

2) A economia

Caso consiga governar o governo, passando pelo enxugamento da máquina pública, engordada incrivelmente por Leite, Luciano Zucco precisará buscar rapidamente meiose modos de retirar a economia gaúcha do fundo do poço onde se encontra.

O novo governador prometeu retomar a prosperidade aos gaúchos.

Terá que encontrar meios e modos de fazer isto.




Astúcia para enganar

 Astúcia para enganar


Por Renato Sant'Ana


Incrível, mas há bichos que nos dão dicas para pensar a política. Um dos meus favoritos é o gato-pescador. Do tamanho dos bichanos que moram em nossas casas, esse felino selvagem é um especialista em iludir a presa. Habitando próximo de córregos em várias regiões da Ásia, o gato-pescador bate de leve com a patinha na superfície da água, fazendo parecer que um inseto caiu ali. Os peixes, enganados, vêm comer o inseto e terminam nas garras do gato: um predador inteligente.

Não têm a graça do gato-pescador, os políticos que, para pescarem votos, enganam o eleitor com promessas mentirosas, como, por exemplo, a redução da jornada de trabalho e proibição da escala 6x1 sem redução de salário. É mentira! E é fácil compreender que é mentira.

No mundo real, as empresas têm dois destinos: adaptar-se à realidade ou falir, o que implica extinguir empregos. E como será a adaptação, caso seja proibida a escala 6x1? Ora, não podendo baixar salários para tornar viável a empresa, o empregador será forçado a demitir empregados antigos para contratar novos com salários mais baixos. E os demitidos, é óbvio, quando encontrarem novo emprego, vão ganhar menos.

Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, diz que, com o aumento do custo do trabalho que o governo propõe, as empresas inevitavelmente vão buscar formas de adaptação. Segundo ele, "Empresas são estruturas ágeis e maleáveis. Elas tentam se ajustar aos incentivos e às restrições que vão aparecendo."

Mas, no mundo da fantasia, gente que nunca teve uma carteira assinada, que só sabe fazer "enfrentamento" e não sabe o que é perder o sono por preocupação de como pagar a folha dos empregados nem tem ideia do que é correr risco, gente que, em gabinetes climatizados, se dedica a teorizar sobre como os outros devem viver e não esconde seus preconceitos contra empreendedores, esse tipo de gente está tratando o eleitor como inseto e tentando pescar-lhe o voto com a promessa de uma vida mais folgada: pura demagogia, porque isso não se alcança apenas legislando.

Será magnífico o dia em que todas as pessoas possam decidir a jornada de trabalho que vão cumprir. Vários países já conseguiram isso. Só que não foi de um dia a outro. Todos tomaram, antes, medidas que melhoraram a produtividade e tornaram viável a mudança. Mas o governo do PT não sabe nem se interessa em como aumentar a produtividade, porque isso, para a esquerda, é papo de capitalista.

Claro, não dá para ignorar que há muitos brasileiros trabalhando em más condições, uma realidade que não tem chance de mudar senão por meio de várias medidas, que implicam encarar a economia com cérebro adulto, não de grêmio estudantil, e ações de qualificação de mão-de-obra. Nada disso está no ideário da esquerda, que só pensa em "tomar o poder".

O prezado leitor sabe que um número crescente de empresas brasileiras está migrando para o Paraguai? E sabe por quê? É porque lá o custo do trabalho é muito menor, sem o excesso de impostos que o empregador tem de pagar no Brasil, e a burocracia é menos travada. Esses são só dois, entre outros atrativos para quem quer empreender no Paraguai.

No entanto, no discurso de campanha, mostrando que se opõe às mudanças que o país precisa, Lula ataca seu adversário que quer reduzir tributos. Ele não sabe, ou não quer saber, que é letal a combinação de uma redução impositiva da jornada de trabalho (tanto pior quanto menor a empresa) e uma carga tributária exacerbada como a que já temos.

Como não ver, no gato-pescador enganando o peixe, a imagem do populismo e suas promessas ilusórias? Resta, a quem não quiser ser engrupido, observar com distanciamento e refletir com vagar.


Leia coluna anterior sobre o tema aqui:

https://blogdopolibiobraga.blogspot.com/2026/06/artigo-especial-renato-santana-pesca-de.html



Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.

E-mail releituras21@gmail.com

Artigo, especial, Carlos Eduardo Borenstein - Entenda por que razão não foi a esquerda quem venceu em Porto Alegre


O autor é cientista político e consultor da Arko Advice
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Setores de esquerda no RS celebram o fato de Lula, Juliana e Manuela terem conquistado mais votos válidos que seus adversários em Porto Alegre. 

No entanto, uma análise mais detalhada dos dados eleitorais na capital gaúcha sugere que o resultado foi mais favorável à direita.

Vejamos: Lula teve 48,57% dos votos válidos em Porto Alegre. Flávio registrou 41,86%. Renan Santos (3,11%); Ronaldo Caiado (2,58%); Augusto Cury (2,97%); e Romeu Zema (0,52%) somam 9,18%. 

Ou seja, a votação dos adversários de Lula contabilizou 51,04%, superando o presidente.

CLIQUE AQUI para ler mais.


Artigo, especial, Carlos Eduardo Borenstein - Conheça os resultados eleitorais que favoreceram a esquerda em Porto Alegre

Setores de esquerda no RS celebram o fato de Lula, Juliana e Manuela terem conquistado mais votos válidos que seus adversários em Porto Alegre. No entanto, uma análise mais detalhada dos dados eleitorais na capital gaúcha sugere que o resultado foi mais favorável à direita.


Vejamos: Lula teve 48,57% dos votos válidos em Porto Alegre. Flávio registrou 41,86%. Renan Santos (3,11%); Ronaldo Caiado (2,58%); Augusto Cury (2,97%); e Romeu Zema (0,52%) somam 9,18%. Ou seja, a votação dos adversários de Lula contabilizou 51,04%, superando o presidente.


Na eleição ao governo estadual, Juliana Brizola teve 45,78% dos votos válidos. Luciano Zucco obteve 43,94%. Gabriel Souza somou 8,06%. Marcelo Maranata atingiu 1,87%. Somados, Zucco, Gabriel e Maranata tiveram 53,87%, superando a votação de Juliana.


Na disputa ao Senado, Manuela D’Ávila obteve 24,06% dos votos válidos. Marcel Van Hattem somou 23,45%. Paulo Pimenta atingiu 23,43%. Sanderson registrou 22,91%. Germano Rigotto ficou com 3,23%. Frederico Antunes teve 1,62%.


O campo de esquerda – Manuela e Pimenta – somaram 47,49% dos votos válidos contra 46,36% da direita – Van Hattem e Sanderson. Se considerarmos que Frederico é ligado mais à direita que ao centro, Van Hattem, Sanderson e Frederico somaram 47,98%, superando a votação de Manuela e Pimenta.


A análise desses números sugere que Flávio Bolsonaro poderá vencer o segundo turno da eleição presidencial em Porto Alegre. Mais do que isso, a direita tem boas possibilidades, a depender da conjuntura política dos próximos anos, de manter o comando da capital gaúcha em 2028.

Onde venceu cada um

 Onde Lula (PT) venceu (47 dos 72 bairros analisados)

  • Centro e Região Central: Venceu no Centro Histórico (62%), Cidade Baixa (67%), Bom Fim (65%), Santana, Menino Deus e Independência.
  • Periferia e Zonas Sul/Leste: Liderou com ampla margem na Restinga (64%), Lomba do Pinheiro, Partenon, Bom Jesus (68%), Mário Quintana, Rubem Berta, Cristal e Cavalhada. 
  • Zonas Eleitorais de maior força: Teve seus melhores desempenhos em regiões como a 159ª Zona Eleitoral (Partenon e Lomba do Pinheiro) e na 1ª Zona Eleitoral. 
Onde Flávio Bolsonaro (PL) venceu
  • Zona Norte e Noroeste: O candidato do PL levou vantagem em bairros como o Sarandi e em trechos da zona norte/noroeste da capital.
  • Desempenho geral: Flávio Bolsonaro somou 41,86% na cidade inteira, vencendo em zonas eleitorais específicas de perfil mais conservador na porção norte (como a 111ª e 112ª Zonas Eleitorais, onde pontuou 50,10% e 48,25%,

Britto vê uma Nova República esgotada, mas simplifica as causas da mudança política

O ex-governador do Rio Grande do Sul Antônio Britto avalia que o Brasil atravessa uma transformação política e institucional capaz de encerrar o ciclo iniciado com a redemocratização. “Tá acabando a Nova República. Acaba agora. Daqui a três semanas acaba a Nova República”, afirmou durante a 98ª edição da Coonline, confraria virtual formada por jornalistas veteranos. Ex-jornalista, deputado federal e ministro da Previdência Social, Britto analisou o resultado do primeiro turno, o desempenho de Lula, o avanço do conservadorismo e os desafios que aguardam o próximo presidente. 

Para o ex-governador, a eleição não deve ser interpretada apenas como uma disputa entre duas candidaturas. O resultado também expressa mudanças acumuladas na sociedade brasileira, o desgaste de forças políticas tradicionais e a dificuldade das instituições de preservar a capacidade de produzir consensos. Na sua avaliação, os valores associados à redemocratização continuam relevantes, mas perderam parte da força mobilizadora que tiveram nas últimas quatro décadas. 

Lula perdeu o primeiro turno, avalia Britto 

Ao comentar o desempenho dos candidatos, Britto fez uma distinção entre a votação obtida por Flávio Bolsonaro e o resultado alcançado por Lula. “Eu não acho que o Flávio ganhou o primeiro turno. Eu acho que o Lula perdeu o primeiro turno”, afirmou. 

Na avaliação do ex-governador, o resultado foi influenciado pelo crescimento do antipetismo nos últimos dias da campanha, pela migração de eleitores de candidaturas menos competitivas e pela dificuldade do presidente de apresentar uma mensagem convincente de futuro. O movimento teria antecipado a polarização que se consolidaria no segundo turno. 

Britto considera que a votação de Flávio Bolsonaro não representa necessariamente uma adesão entusiasmada de todo o eleitorado à sua candidatura. Uma parcela expressiva dos votos, segundo sua interpretação, teria sido mobilizada pela rejeição ao PT. O antipetismo funcionaria, assim, como elemento de aproximação entre eleitores com diferentes posições políticas, mas que compartilham resistência ao atual governo. 

O ex-governador também apontou problemas na condução da campanha petista. “A campanha do Lula foi uma campanha muito descoordenada no primeiro turno”, declarou. Para ele, o presidente não conseguiu transformar a experiência acumulada em seus mandatos anteriores em uma narrativa capaz de renovar expectativas e ampliar o apoio para além de sua base tradicional. 

Governo perdeu apoio de eleitores independentes 

Um dos principais pontos da análise de Britto é a dificuldade de Lula de preservar a coalizão política que o levou à vitória em 2022. Naquela eleição, a candidatura petista reuniu setores da esquerda, forças de centro e eleitores que, embora não se identificassem com o PT, consideravam importante impedir a continuidade do governo Jair Bolsonaro. 

Segundo Britto, essa frente perdeu amplitude durante o atual mandato. O governo teria passado a ser percebido como excessivamente identificado com o PT, reduzindo sua capacidade de dialogar com segmentos independentes e moderados da sociedade. 

O ex-governador também descreveu a administração federal como politicamente desgastada e dependente de realizações do passado. Na sua avaliação, a lembrança dos resultados dos primeiros governos Lula não substitui a apresentação de propostas capazes de responder às expectativas atuais da população. 

A dificuldade seria especialmente relevante em uma eleição polarizada, na qual a rejeição a um candidato pode ser tão determinante quanto a identificação com o adversário. Para Britto, o governo não conseguiu construir uma mensagem suficientemente ampla para neutralizar o crescimento do antipetismo. 

Desgaste institucional também influencia o cenário 

A avaliação de Britto inclui o desgaste do Supremo Tribunal Federal (STF) como um dos elementos que contribuíram para o ambiente político. Na sua interpretação, decisões e controvérsias envolvendo a Corte passaram a ser associadas por parte do eleitorado ao governo Lula, mesmo quando não havia responsabilidade direta do presidente. 

Essa percepção, segundo o ex-governador, ajudou a reforçar a rejeição ao PT em determinados segmentos da sociedade. O fenômeno demonstra, na sua análise, como a avaliação do governo pode ser afetada por controvérsias envolvendo outras instituições. 

Britto também chama atenção para a necessidade de distinguir o conservadorismo democrático de posições autoritárias. Na sua avaliação, tratar todos os eleitores conservadores como adversários da democracia é um erro político, porque pode afastar setores que poderiam dialogar com outras correntes partidárias. 

O avanço do bolsonarismo, nessa perspectiva, não se limita ao desempenho eleitoral da família Bolsonaro. Representa também a ocupação de espaços antes associados a outras correntes da direita e, mais recentemente, a segmentos do centro político. 

Conservadorismo avança e muda a agenda política 

Para Britto, o fortalecimento da direita está relacionado a transformações sociais que parte das elites políticas e intelectuais demorou a compreender. O ex-governador considera que a sociedade brasileira sempre apresentou características mais conservadoras do que algumas interpretações predominantes no debate público admitiam. 

Entre os fatores que ajudam a explicar essa mudança, ele destaca o peso econômico e cultural do agronegócio, a influência das pautas religiosas e a centralidade da segurança pública nas preocupações da população. 

A violência e a criminalidade, em particular, teriam aberto espaço para o avanço de discursos conservadores, diante da dificuldade de setores da esquerda e da social-democracia de oferecer respostas percebidas como eficazes por parte do eleitorado. 

Essa mudança também afeta a distribuição de forças no Congresso Nacional. O fortalecimento de bancadas e lideranças conservadoras amplia a pressão por alterações legislativas e modifica as condições de negociação do governo federal, independentemente de quem ocupe a Presidência da República. 

Britto ressalta, porém, que a direita não constitui um bloco homogêneo. A distinção entre conservadores democráticos e grupos que defendem posições autoritárias é fundamental para compreender a nova configuração política e as possibilidades de diálogo institucional. 

Flávio Bolsonaro é favorito, mas Lula ainda pode reagir 

Apesar do diagnóstico desfavorável ao presidente, Britto não considera a disputa definida. Na sua avaliação, Flávio Bolsonaro parte de uma posição favorável, mas Lula ainda dispõe de condições para reduzir a diferença no segundo turno. 

“Eu acho que hoje o Flávio é obviamente favorito, mas acho que o Lula tende a diminuir, no mínimo a diminuir a diferença”, afirmou. 

O ex-governador prevê uma campanha mais agressiva, com os dois lados concentrados em explorar as fragilidades do adversário. Na sua interpretação, o PT deverá buscar mobilizar eleitores preocupados com a preservação de direitos sociais e programas governamentais, além de questionar a trajetória política do candidato do PL. 

A questão central será a capacidade de cada candidatura de conquistar eleitores que não se identificam plenamente com nenhum dos dois campos. Nesse cenário, a rejeição aos candidatos, a avaliação do governo e a disposição para participar da votação podem influenciar o resultado. 

Britto também chama atenção para a abstenção. Ele questiona se Lula ou Flávio Bolsonaro conseguirão mobilizar eleitores que deixaram de votar por desencanto com a política, desinteresse pela disputa ou rejeição às alternativas apresentadas. 

A possibilidade de mudança no comportamento eleitoral, portanto, impede que o resultado seja tratado como definido antecipadamente. Embora o ex-governador identifique vantagens para Flávio Bolsonaro, sua análise preserva a possibilidade de reação de Lula. 

O significado do fim da Nova República 

A declaração de Britto sobre o encerramento da Nova República constitui o eixo mais amplo de sua análise. O conceito remete ao período de transição democrática, à Constituição de 1988 e à consolidação das eleições presidenciais diretas, depois de duas décadas de regime militar. 

Para o ex-governador, os valores que sustentaram esse processo continuam válidos, mas perderam parte de sua capacidade de mobilizar a sociedade e organizar consensos entre diferentes forças políticas.

“Todos esses sonhos continuam verdadeiros, mas eles se gastaram como utopia”, afirmou. 

A interpretação de Britto não significa necessariamente que a democracia brasileira esteja chegando ao fim. Seu diagnóstico aponta para o esgotamento de um modelo de representação e de funcionamento institucional que predominou desde a redemocratização, diante de uma sociedade transformada pelas redes sociais, por novas identidades políticas e pelo enfraquecimento da confiança nas instituições. 

Nesse ambiente, os partidos tradicionais enfrentam dificuldades para representar grupos sociais cada vez mais fragmentados. Ao mesmo tempo, lideranças com forte presença nas redes e discursos de confronto ganharam espaço, alterando as formas de mobilização política e a relação entre representantes e eleitores. 

A eleição presidencial, nessa perspectiva, é uma manifestação de mudanças mais profundas, e não um acontecimento isolado. O resultado definirá o próximo presidente, mas não resolverá automaticamente os conflitos que vêm remodelando a política brasileira. 

Congresso será decisivo para o próximo governo 

Britto considera que a composição do próximo Congresso será determinante para o funcionamento do Executivo. Independentemente do resultado presidencial, o novo governo terá de negociar com parlamentares de perfil predominantemente conservador em temas importantes da agenda nacional. 

Entre as questões que poderão ganhar força estão as atribuições do Supremo Tribunal Federal, a legislação sobre costumes, as políticas ambientais e os direitos das minorias. A intensidade dessas mudanças dependerá da articulação entre as bancadas, da capacidade de negociação do Executivo e das condições institucionais para aprovar alterações legislativas. 

Em relação aos direitos sociais consolidados, como o décimo terceiro salário e os benefícios previdenciários, Britto considera menos provável uma retirada generalizada, em razão do elevado custo eleitoral que uma medida desse tipo poderia representar. Isso não elimina, contudo, a possibilidade de restrições orçamentárias, disputas sobre financiamento e dificuldades para ampliar políticas públicas. 

Uma eventual reeleição de Lula, segundo sua avaliação, seria marcada pela necessidade de reconstruir uma base parlamentar ampla em um ambiente menos favorável ao PT. O presidente teria de lidar com pressões fiscais, resistência no Congresso e dificuldades para recompor a aliança política que sustentou sua vitória em 2022. 

Uma vitória de Flávio Bolsonaro, por sua vez, também traria desafios institucionais. A relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário seria um dos pontos centrais, assim como o espaço ocupado pelos setores mais radicais do bolsonarismo dentro de uma eventual administração. 

Em ambos os cenários, o próximo presidente precisará administrar uma sociedade polarizada e um Congresso com interesses diversos, em um contexto de disputas sobre os limites e as atribuições das instituições. 

Disputa eleitoral vai além de Lula e Flávio 

A análise de Antônio Britto reúne três movimentos que se conectam: o desgaste político do governo Lula, a ampliação da influência conservadora e a perda de força dos consensos que marcaram o período posterior à ditadura militar. 

O ex-governador considera que o avanço da direita reflete tanto a rejeição ao PT quanto mudanças sociais e culturais que alteraram as prioridades de parte do eleitorado. Ao mesmo tempo, avalia que a dificuldade de renovação das mensagens políticas tradicionais contribuiu para reduzir a capacidade de mobilização de forças que tiveram protagonismo nas últimas décadas. 

A questão central, portanto, não se limita a quem vencerá a eleição presidencial. Também envolve a capacidade do próximo governo de construir maioria parlamentar, administrar as relações entre os Poderes e responder às demandas de uma sociedade que apresenta novas formas de participação e de conflito político. 

Na interpretação de Britto, o Brasil vive uma transição cujo alcance ultrapassa o mandato presidencial em disputa. A eleição poderá acelerar mudanças já em curso, mas o futuro da relação entre governo, Congresso e instituições dependerá das escolhas políticas e das negociações que ocorrerão nos próximos anos. 

Apesar de considerar Flávio Bolsonaro em posição favorável, o ex-governador evita antecipar o desfecho da disputa. “Eu tô velho demais para dar o jogo por jogado”, afirmou. 

A frase resume a cautela de Britto diante de uma eleição que, na sua leitura, combina incerteza eleitoral e transformação institucional. Mais do que definir o próximo presidente, o segundo turno colocará em evidência a nova configuração de forças que deverá orientar a política brasileira. 

Assista à entrevista completa de Antônio Britto no canal da Coonline no YouTube.

Vinícolas gaúchas querem redução de impostos para competir com vinhos chilenos e argentinos

A diferença de preços entre vinhos brasileiros e importados é um desafio para a vitivinicultura nacional e merece entrar na agenda econômica do próximo governo federal. Na Serra Gaúcha, produtores de marcas reconhecidas, como Miolo, Boscato, Pizzato e Casa Valduga, enfrentam a concorrência de rótulos importados que, em determinadas faixas de mercado, chegam às prateleiras por valores inferiores. Enquanto vinhos nacionais médios dessas marcas podem custar entre R$ 45 e R$ 90, conforme o rótulo e o estabelecimento, produtos de marcas como Concha y Toro, Casa Silva, Norton e Trapiche podem ser encontrados na faixa de R$ 25 a R$ 45. Os valores são referências indicadas para a comparação e variam conforme a safra, a linha, as promoções e a região de venda. 

A discussão, porém, não se resume à carga tributária. O preço final de uma garrafa inclui impostos federais e estaduais, custos de produção, embalagens, logística, distribuição, margens comerciais e condições de negociação com as redes supermercadistas. Além disso, vinhos importados podem se beneficiar de escala produtiva, acordos comerciais e estruturas de custos diferentes. Por isso, uma política de redução de preços para o vinho brasileiro precisaria avaliar toda a cadeia, identificando quais componentes mais pesam sobre o consumidor sem comprometer a arrecadação ou a sustentabilidade dos produtores nacionais. 

Próximo governo pode adotar cinco medidas para reduzir custos 

A primeira frente seria negociar com o Congresso Nacional e o governo do Rio Grande do Sul uma revisão da tributação incidente sobre a produção e a comercialização de vinhos nacionais, com atenção ao ICMS, além de avaliar os tributos federais e os efeitos da reforma tributária. A segunda seria criar mecanismos de crédito e incentivo à modernização das vinícolas, à compra de equipamentos, à automação e à redução dos custos de energia, garrafas, rolhas, embalagens e transporte. A terceira envolveria medidas para ampliar a escala de produção e facilitar a distribuição dos rótulos brasileiros, inclusive por meio de acordos comerciais com supermercados e redução de custos logísticos. 

A quarta medida seria estabelecer uma agenda permanente de competitividade para o setor, reunindo União, governo gaúcho, vinícolas, entidades representativas e varejistas para identificar os componentes que mais encarecem o produto nacional. A quinta seria estimular campanhas de valorização dos vinhos brasileiros e ampliar sua presença nas gôndolas, com melhores condições comerciais, degustações e espaço para rótulos de diferentes faixas de preço. A proposta não deve se limitar a proteger produtores: precisa também permitir que o consumidor encontre vinhos nacionais de qualidade a preços mais acessíveis. 

Concorrência internacional exige atenção 

O desafio tende a aumentar com as mudanças comerciais. O Chile já conta com tarifa de importação zerada no comércio com o Mercosul, conforme o acordo bilateral vigente desde 2015. Em paralelo, o acordo Mercosul-União Europeia prevê redução gradual das tarifas para vinhos europeus, ampliando a pressão competitiva sobre os produtores brasileiros. Nesse cenário, a revisão de custos e tributos internos ganha relevância para a Serra Gaúcha, que concentra centenas de vinícolas e tem peso econômico e turístico para o Rio Grande do Sul. 

O objetivo deve ser construir condições mais equilibradas de concorrência, sem presumir que todo o diferencial de preço decorra de impostos ou que uma redução tributária seja integralmente repassada ao consumidor. O governo poderá estabelecer metas de transparência, acompanhar preços e margens e negociar compromissos com o varejo para que eventuais benefícios cheguem às prateleiras. Fazer o vinho brasileiro caber melhor no bolso do consumidor é uma estratégia para fortalecer a indústria nacional, preservar empregos e valorizar a produção da Serra Gaúcha.