Artigo, Marcelo Aiquel - A hipocrisia dos imbecis

     Nem todo imbecil é hipócrita. Mas todo hipócrita é um imbecil.

      Hoje, 30/12, último dia do ano em que a Lava Jato estraçalhou o âmago do PT – o partido da ética e da moral – me deparei com muita gente (sem noção, naturalmente) exultante com uma notícia publicada no site da Folha de SP. Conta esta notícia que o senador Aécio Neves teria sido acusado de receber propina. O acusador é um dos que fez a delação premiada na PF e na Justiça Federal.
      A petralhada ensandecida fez festa, jogou foguetes, e correu para as redes sociais para detonar seu revanchismo gritando: “E agora, os “coxinhas” vão falar o quê”?
      Mesmo não me considerando um “coxinha” (adjetivo pejorativo que os filhotes de ladrões colocaram naqueles que querem justiça para quem roubou – e rouba – o país), não posso permitir  que tamanha hipocrisia passe batida.
      E começo perguntando a estes pobres coitados fanáticos pelo Lulismo: Ué, agora delação é valida?
      Quando eram os petistas denunciados, os delatores seriam mentirosos a serviço de um golpe. E agora? Continua sendo golpe?
      O que esta gente fanática não imagina é que a esmagadora maioria que pede justiça, exige que ela seja imposta a todos. Independente de cor, raça, credo, ideologia ou partido.
      Mas, tudo bem. Aceito democraticamente a denúncia que tanto alegrou aos chacais de plantão. Desde que as outras delações e seus acusados também sejam investigados.
      E que tal começarmos pelo raivoso ex presidente Lula? Aquele que só quer a paz, mas ameaça as “zelites brancas” com o exército do companheiro Stédile?
      Me serve deste jeito.
Iniciemos com a Rosemeri Noronha e suas viagens e contas secretas, tá legal?
      Será a grande esperança de um novo ano (2016) melhor para o Brasil!

      Com a palavra os pró PT...

Denise Neumann, jornal Valor: Por que a inflação não cai

27 de novembro de 2015

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Ela voltou. A prévia do índice oficial de inflação ao consumidor, o IPCA, alcançou 10,28% nos 12 meses encerrados em novembro, retornando aos dois dígitos pela primeira vez desde 2003. No orçamento das famílias, essa média esconde uma conta de luz 53% mais cara e um aumento de 18% na gasolina, enquanto o preço do trivial feijão com arroz subiu 19%, na média, e o do sapato feminino (acredite, se quiser) não aumentou nos últimos 12 meses.
Os economistas conseguem explicar parte do retorno à inflação de 10%, mas há um pedaço e uma dinâmica que os desafiam. E esse pedaço não conhecido é fundamental para determinar o que o Banco Central (BC) deve ou não deve fazer na tarefa de trazer a inflação brasileira para a meta de 4,5% ao ano. Além do desconhecido, o debate sobre inflação e política monetária ganhou um adendo, que talvez represente um problema maior do que o do nível de preços. Se o Brasil estiver (ou entrar) na chamada “dominância fiscal”, subir os juros passa a ser não apenas ineficiente, mas contraproducente.
O Valor pediu a três economistas – Salomão Quadros, superintendente-adjunto de Inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV); Carlos Viana de Carvalho, professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); e Nelson Marconi, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eesp-FGV) e vice-presidente da Associação Keynesiana Brasileira – para escreverem pequenos artigos com uma dupla questão básica: por que a inflação não cede no Brasil e como fazê-la ceder? Para um quarto economista – Tiago Berriel, professor da PUC-Rio e responsável pela análise macroeconômica na Pacífico Gestão de Recursos – o pedido foi para discutir os desafios colocados para a política monetária se o país estiver em dominância fiscal.
A parte conhecida da inflação de 2015 é a correção dos preços administrados, o repasse cambial, a manutenção de regras de indexação e o efeito dos erros de política monetária do passado recente, que afetam as expectativas quanto à inflação futura porque levam os agentes a desconfiar da ação do BC. O peso de cada uma dessas variáveis na inflação de 10% divide aos economistas, que também consideram controversa a razão pela qual a inflação subiu tanto em um quadro tão recessivo.
Nas aulas que dá na PUC-Rio, Carvalho tem se deparado com o desafio de discutir por que a inflação acelerou o ritmo se o Produto Interno Bruto (PIB) está caindo 3%, se o Banco Central corretamente já apertou os juros e se a taxa de desemprego aumentou em três pontos percentuais. Os livros-texto de economia sugerem o contrário, como acontece na zona do euro, onde o Banco Central Europeu concentra esforços para tirar a região da dobradinha deflação-estagnação. “É difícil montar esse quebra-cabeça do Brasil”, diz Carvalho.
Nesse desafio, além de apontar para erros das políticas macroeconômica e monetária (com reflexos na perda de credibilidade da direção do BC) no passado recente, Carvalho chama atenção para duas linhas novas de pesquisa. Uma sugere que o repasse cambial tem sido subestimado (não só no Brasil) e a outra relaciona crise econômica e reação de empresas mais frágeis financeiramente.
Uma das principais pressões sobre a inflação deste ano vem dos preços administrados, o que inclui energia, transporte público e gasolina, entre outros itens. Esse grupo responde por quase um terço da inflação de 10%. O aumento é tão expressivo porque no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff tarifas públicas foram usadas para segurar a inflação enquanto se tentava baixar os juros, mesmo sem a inflação controlada.
Para além da conta dos administrados, Salomão Quadros, do Ibre, lista a persistência da inflação, a “taxa de sacrifício” e o repasse cambial. Para ele, o setor de serviços é o retrato perfeito da resistência, pois a alta dos preços se mantém levemente acima de 8%, ponto em que já estava no ano passado, apesar da recessão. Essa situação, diz ele, está associada à regra da correção do salário mínimo, que garante a inflação passada mais o crescimento real do PIB de dois anos antes (quando existe). “O setor de serviços vai começar 2016 com um aumento no custo de mão de obra superior a 10%”, pondera Quadros. “Como desacelerar a inflação com esse custo?”
A indexação é o ponto central da avaliação de Marconi. Os preços dos bens e serviços que não podem ser trocados com o exterior andam acima dos demais desde meados de 2004, diz ele, que também aponta a regra de correção do salário mínimo pela inflação como a grande causa dessa situação. “Vai ser preciso mexer nessa regra.”
Em trabalho recente, Marconi cruzou a inflação de bens não comercializáveis e o custo unitário do trabalho e concluiu que andam juntos. Portanto, para que a inflação desse grupo caia, é preciso que o custo do trabalho diminua, o que só pode ser feito com duas variáveis: uma queda do salário real ou ganhos de produtividade. Nos últimos 12 meses, o emprego na indústria caiu 5,4% e a produção encolheu 8,2%, o que indica uma queda de 3% na produtividade, enquanto o salário médio caiu apenas 0,7%. Como ele caiu bem menos que a produtividade, o custo unitário do trabalho (a quantidade de trabalho necessária para produzir uma unidade de produto), subiu, pressionando os custos.
Nessa situação em que a produção cai mais rápido que o emprego, a queda de produtividade é ainda maior e só poderia ser revertida com mais investimento, o que também não está no radar. “Por isso, apenas com redução do salário real você reverte esse movimento. E para isso precisa mexer na regra de indexação dos salários à inflação”, pondera Marconi, lembrando que para o mínimo ela é lei.
Outra influência sobre a inflação vem do câmbio. Pelo modelo do BC, cada 10% de desvalorização do real tem um impacto de 0,3 a 0,5 ponto percentual na inflação ao consumidor no prazo de um ano, dependendo do nível de atividade e outras variáveis.
Carvalho, da PUC, conta que pesquisas recentes conduzidas por um grupo de economistas – Alberto Cavallo, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Brent Neiman, da Universidade de Chicago e do Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos (NBER) e Roberto Rigobon, do MIT e do NBER – indica que o repasse das depreciações cambiais no Brasil e no mundo é muito mais intenso do que se imaginava. Eles propuseram uma nova abordagem à questão e investigaram preços dos mesmos produtos em diferentes países (via sites de grandes redes) e fizeram uma análise ao longo dos anos, cruzando com a desvalorização (ou valorização) das moedas. “A pesquisa sugere repasse de quase um para um”, diz Carvalho.
Todos sabem que os preços no Brasil são sempre mais caros, pondera Carvalho. O que a nova metologia sugere é que a diferença tem sido constante, qualquer que seja o câmbio. Os estudos já publicados (ver endereço no final) não abrangem o Brasil, mas o país foi incluído em uma pesquisa em andamento, que Carvalho conheceu. “O repasse no Brasil é como no mundo, e em ambos mais intenso do que a literatura indicava”, explica o professor da PUC.
Para Quadros, a recessão atrasa, mas não impede o repasse do câmbio ao valor cobrado dos bens. No atacado – que compõe 60% dos índices gerais de preços (IGPs) calculados pelo Ibre – isso ocorre ao longo do tempo nos itens industriais e mais rapidamente nos agrícolas. Quadros lembra que a desvalorização já passa de 70% desde meados do ano passado. Nos últimos 12 meses, os itens mais sensíveis ao câmbio dentro do IPA industrial subiram 13,6% (insumos) e 11,4% (bens finais). Aparentemente, a comparação pode sugerir um repasse pouco intenso, mas o economista do Ibre lembra que várias commodities ficaram mais baratas em dólar no último ano. O petróleo caiu 53% e os metais, quase 30%.
Os repasses do câmbio à inflação, diz Quadros, não são automáticos e dependem de outras variáveis, inclusive a confiança. No IPA industrial, reajustes referentes ao câmbio apareceram no início de 2015, mais concentrados em janeiro e fevereiro. Depois arrefeceram e voltaram com força no terceiro trimestre, quando houve a percepção “de que havia-se perdido o controle do câmbio”.
Carvalho, da PUC, chama atenção para outro estudo que pode ajudar a entender o aumento dos preços em um contexto de recessão. Nos EUA pós-crise de 2008/2009, foi identificado (em pesquisa conduzida por Simon Gilchrist, da Universidade de Boston e do NBER, Raphael Schoenle, da Universidade de Brandeis, e Jae W. Sim e Egon Zakrajsek, do Federal Reserve) que firmas mais frágeis aumentaram mais os preços em relação às firmas mais fortes financeiramente. “As firmas menores não conseguem baixar seus preços, o que as grandes conseguem, e o efeito é uma queda menor no nível geral de preços, apesar da recessão”, resume Carvalho, olhando para a pesquisa, restrita aos EUA.
Para Marconi, Quadros, Carvalho e Tiago Berriel, o Brasil não está fadado a conviver com inflação alta. Política monetária correta, fiscal ajustado e quebra de regras de indexação podem levar à inflação à meta. Quadros lembra que em 2006 e 2007 o país teve taxas ao redor de 3% e 4%. Para os economistas, o BC errou na condução da política monetária no passado, o que ajuda a explicar a aceleração das projeções para o IPCA de 2016, já em 6,6 %, acima do teto da meta estabelecida.
Em agosto de 2011, o Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu ao baixar os juros quando a inflação em 12 meses estava em 7,2%. A Selic continuou em queda por 15 meses, sem a inflação convergir para a meta.
Hoje, o dilema que se coloca para o BC é mais complicado. O Brasil pode ou não estar em dominância fiscal. Mesmo que não esteja (os quatro economistas dizem que ainda não é possível cravar o diagnóstico), o certo é que a situação fiscal passou a ser um elemento que constrange a política monetária.
Tiago Berriel, da PUC, diz que existem hoje diferentes visões sobre dominância fiscal. Ele prefere aquela que diz que essa situação ocorre toda vez que os credores da dívida pública deixam de acreditar que serão gerados superávits primários suficientes, no futuro, para pagar a dívida. Essa situação leva o credor a se livrar do estoque de riqueza em seu poder, procurando outros ativos, o que aumenta a depreciação da moeda local, gerando mais inflação. Como a alta de juros alimenta a dívida, no momento em que os credores não acreditarem que ela será paga no futuro, elevar os juros só aumenta o tamanho do problema.
“Não é óbvio que estamos em dominância fiscal, mas é óbvio que esse é um problema, inclusive para o BC”, diz Berriel. Ele defende que o BC seja explícito sobre quanto a variável fiscal atrapalha sua tarefa de fazer a inflação convergir para a meta e faça coro com o grupo que pressiona por mudanças que revertam a trajetória explosiva da relação dívida/PIB, que ele considera que pode chegar em 80% entre 2018 e 2019. Além do erro de ceder a pressões em 2011/2012 e baixar os juros sem condições macroeconômicas que justificassem esse movimento, Berriel diz que o Copom tem errado ao tratar a questão fiscal de forma muito condescendente ao longo dos últimos anos.
Embora veja sinais de dominância fiscal a caminho, Berriel diz que mesmo um baixo superávit primário em 2016 pode estancar essa preocupação se medidas que indiquem solvência a médio prazo – como a adoção de uma idade mínima de 65 anos para a aposentadoria – forem apresentadas e aprovadas. Mesmo a perspectiva de uma mudança de governo pode ajudar, se um “novo” governo for visto como mais virtuoso na área fiscal. “É preciso mudar a expectativa”, resume.


Jornal Valor - A fé nas diferenças


Por Patrick Cruz, 09/10/2015 às 05h00
Um dos homens mais poderosos da República na atualidade é Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados. Equilibrando-se entre a descoberta de contas bancárias na Suíça atribuídas a ele e seus familiares e o desejo de levar o governo à lona, em suas mãos poderá estar, por exemplo, o andamento de um eventual processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Cunha é evangélico. Em 2016, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) deve ser um dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, a maior metrópole do país. Feliciano é evangélico. Nos dias 22 e 23, mais de 2 mil políticos evangélicos deverão se reunir em Brasília para discutir sua atuação na vida pública, no primeiro congresso do gênero organizado pela Frente Parlamentar Evangélica. Todos são irmãos de fé, mas será que todos compartilham a mesma visão de mundo e do papel da religião?
Não é bem assim. O crescimento da população evangélica no país - e também da chamada bancada evangélica no Congresso - tem sido tratado por alguns analistas políticos e sociólogos muitas vezes como sinônimo de ascensão de um Brasil mais conservador. Mas, em paralelo, ascendem vozes que mostram: muitos não se sentem representados por essa ala. São líderes religiosos, pensadores e fiéis que, organizados em grupos, defendem bandeiras de tolerância social, política e religiosa, muitas vezes não associadas a esse grupo. "Eu não votei nessas pessoas que dizem falar em nome dos evangélicos. Não penso como eles, e muita gente do meio evangélico também não", diz Clemir Fernandes, pastor da Igreja Batista e sociólogo. "O mundo evangélico tem visões muito mais diversas do que essa agenda exclusivamente moralista."
Antônio Carlos Costa, pastor da Igreja Presbiteriana e presidente da organização não governamental Rio de Paz - conhecida por seus atos contra os assassinatos no país -, é outro representante desse segmento que começa a marcar uma posição distinta. "É muito evidente que boa parte da sociedade vê os evangélicos como uma coisa só, mas nem todos seguem esses verdadeiros 'coronéis da fé', que se dizem representantes de todos os evangélicos", diz. Costa foi um dos pastores que, em 2013, assinaram um manifesto contra a polêmica indicação de Marco Feliciano - notoriamente contrário ao casamento de pessoas do mesmo sexo - para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.
Uma das máximas sobre a relação dos evangélicos com a política é "irmão vota em irmão", expressão que batizou um dos livros do pesquisador evangélico Josué Sylvestre, ainda nos anos 80. Hoje, a chamada bancada evangélica tem 74 deputados federais e três senadores, de acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Mas não necessariamente esses 77 parlamentares falam em nome de seus 45 milhões de evangélicos.
Ronilso Pacheco, evangélico e estudante de teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), é uma das pessoas envolvidas no momento na estruturação do Entre Nós, plataforma que pretende mapear iniciativas sociais e políticas capitaneadas por evangélicos. A ideia é identificar os trabalhos com visão menos conservadora, mais "progressista", da sociedade - e, com isso, ajudar a diminuir o estigma que, segundo Pacheco e outros apoiadores da iniciativa, coloca evangélicos como essencialmente moralistas.
"Inicialmente, queremos mapear essas iniciativas. Muitas vezes são pequenos grupos, ou mesmo pessoas trabalhando sozinhas, mas sempre com o respeito às diferenças e ao diálogo - e são pessoas que não são vistas", afirma Pacheco. "No longo prazo, queremos ajudar a mudar a visão que se tem dos evangélicos, a mostrar a diversidade de opiniões [nesse grupo]." Entre os planos do Entre Nós está a organização de seminário para discutir como os evangélicos são retratados na imprensa.
Cunha, da ala mais "conservadora" dos evangélicos: a fiéis que dizem não ser representados por essa ala incomoda o uso de conteúdo religioso na elaboração de leis
O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil é um dos grandes fenômenos sociais do país nas últimas décadas. Em apenas 30 anos, entre 1980 e 2010, os adeptos passaram de 6,6% para 22,2% da população, segundo o IBGE. Ainda assim, os estudos sobre o tema não crescem na mesma proporção - e, com isso, levantamentos que exponham as nuances dos diferentes perfis de evangélicos são escassos. "Os evangélicos são heterogêneos, como heterogênea é a sociedade brasileira", observa Ricardo Mariano, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).
A ala mais "conservadora" dos evangélicos, representada por deputados como Eduardo Cunha e Marco Feliciano, é mais estridente. Sobram a eles o palanque dado pelos cargos que ocupam e a desenvoltura de políticos experientes. Aos eleitores evangélicos que dizem não se sentir representados por essa ala incomoda não apenas a oposição a temas tidos por esses congressistas como contrários à fé que professam, mas o próprio uso de conteúdo religioso na elaboração de projetos e leis.
O texto original da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata da maioridade penal é um exemplo disso. A PEC data de 1993 e foi elaborada pelo ex-deputado federal Benedito Domingos (PP-DF), pastor da Assembleia de Deus. Na justificativa para o projeto, Domingos citou passagens da "Bíblia" e três de seus personagens, Salomão, Davi e o profeta Ezequiel. Não havia estatísticas no texto que justificou a PEC.
Já entre alguns "progressistas" - em autocrítica feita em depoimentos colhidos pelo Valor -, a projeção política nunca foi uma prioridade. Está aí uma das origens, acreditam, do paralelo feito por muitos observadores políticos entre conservadorismo e a atuação política dos evangélicos: apenas uma ala tomou os palanques; a outra preferiu trabalhar um pouco mais em silêncio. Também está aí a força dos ditos conservadores, a despeito de mais vozes evangélicas se manifestarem como antagonistas: entre eles, há um esforço constante por exposição - e por exposição que mencione o fato de serem evangélicos.
Se há um crescente número de vozes que dizem não se sentir representadas por parte da bancada evangélica, fica evidente que, entre os evangélicos, as visões de mundo, políticas e sociais, são diversas como em qualquer outro estrato da população brasileira. Em 2002, a cientista política Simone Bohn, doutora em ciências sociais pela USP, publicou o artigo "Evangélicos no Brasil: perfil socioeconômico, afinidades ideológicas e determinantes do comportamento eleitoral". A pesquisadora mostrou que 39,6% dos católicos entrevistados eram contra o aborto em qualquer situação. Entre os evangélicos, a oposição era um pouco maior, de 46,7%. Simone registrou que os evangélicos eram "mais tradicionalistas" no tema, mas ressaltou: "É fundamental perceber que a postura antiaborto é comum a todos os segmentos religiosos".
A diferença mais significativa apareceu na pergunta sobre homossexualidade. Entre os evangélicos, 15,7% disseram considerar que as pessoas são livres para fazer suas escolhas sexuais. O percentual foi quase o dobro entre os católicos (31%). Ao mencionar a pesquisa, o professor Mariano complementa: "Nesse tema, os evangélicos apareceram como mais conservadores que a média, o que não quer dizer que os outros também não tenham se mostrado conservadores".
É verdade que, se faltam estudos que evidenciem os diferentes perfis de evangélicos, também falta que os grupos dissonantes se façam ouvir. "Há políticos que se manifestam como representantes do 'Brasil cristão', mas não falam em nome de todos. Apenas uma parte dos evangélicos concorda com eles", diz Rodrigo Franklin de Sousa, evangélico e professor do programa de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Os que discordam se calam, preferem se abster da política. Talvez seja o caso de uma mudança de postura."
Nem toda ação política exige voto na urna. Em 2002, membros e ex-membros da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (Abub) criaram a Rede Fale, mais uma iniciativa identificada com evangélicos que não se sentem representados pela chamada bancada evangélica. O grupo tem ramificações em pelo menos 13 Estados e realiza campanhas de conscientização, debates e petições sobre temas que vão de igualdade racial a justiça no comércio internacional. O Fale também já se manifestou oficialmente em debates públicos, como o ocorrido na eleição para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em 2013.
"Nenhuma liderança religiosa ou política pode ser porta-voz dos evangélicos. Fazemos parte de um segmento extremamente plural", disse, por e-mail, a coordenação nacional do Fale - o grupo preferiu não destacar nenhum integrante em particular nesta reportagem. A coordenação reconhece que, em parte da comunidade evangélica, o "irmão vota em irmão" ainda está presente. "Algumas igrejas ainda são tratadas como curral [eleitoral]", afirma o grupo.
"A fé não pode ser tratada como moeda para se conseguir vantagens materiais ou simbólicas. É lamentável que a sede de poder seja ainda hoje uma tentação para muitas lideranças cristãs." As vantagens materiais, diz a coordenação, incluem a doação de terrenos para a construção de novos templos.
As igrejas evangélicas têm origem na Reforma Protestante, como ficou conhecida a cisão entre a Igreja Católica e o teólogo alemão Martinho Lutero, ocorrida em 1517. Lutero insurgiu-se contra o comércio de indulgências, a compra e venda de perdões pelos pecados que havia se tornado habitual nos meios católicos. Ao ler com atenção as "Escrituras", chamou a atenção de Lutero o texto da carta do apóstolo Paulo aos romanos, em que este afirma que a "salvação vem por meio da fé". Isso contrariava a doutrina católica de que a salvação era um resultado das boas obras, o que por sua vez fortalecia as vendas de indulgências. Ao reler a "Bíblia" e se insurgir contra o comércio da fé, Lutero valorizou um princípio hoje basilar para os protestantes - o do direito à livre interpretação dos textos bíblicos.
"A livre interpretação, que é a força do protestantismo, acabou desvirtuada", diz Antônio Carlos Costa, da Rio de Paz. "Já se usou a 'Bíblia' para justificar a segregação racial nos Estados Unidos e o apartheid na África do Sul." Esse desvirtuamento ajudou a cunhar a frase "a Bíblia é a mãe de todas as heresias", creditada ao teólogo protestante Júlio Andrade Ferreira, morto em 2001. Mas é também a livre interpretação que reitera as diferenças de pensamento que há entre os diferentes grupos de evangélicos no Brasil.
São três grandes denominações protestantes. As tradicionais - ou históricas -, conjunto que inclui batistas (a maior dessa ramificação no Brasil, com 3,7 milhões de pessoas), luteranos e presbiterianos, surgiram na Reforma Protestante ou logo depois dela. As pentecostais - entre as quais está a Assembleia de Deus, maior igreja evangélica do país, com mais de 12 milhões de fiéis -, nascidas nos Estados Unidos no início do século XX, reconhecem as manifestações do Espírito Santo. O terceiro grupo, surgido a partir da década de 60, é o das neopentecostais. Elas se diferem das pentecostais por uma maior liberdade de costumes e pela ênfase dada à teologia da prosperidade, segundo a qual qualquer desejo pode ser alcançado por meio da fé. Desse grupo, no Brasil, a maior é a Universal do Reino de Deus, com 1,8 milhão de fiéis.
Essa perspectiva histórica ajuda a explicar as diferentes visões de mundo que há também entre os evangélicos - e por que há segmentos com mais representação política que outros. Até o início dos anos 80, era incomum que os evangélicos entrassem na política. O quadro começou a mudar na segunda metade da década. Disseminou-se em meios evangélicos - em particular, na Assembleia de Deus - que a Assembleia Constituinte, que seria instalada em 1986, votaria leis que dariam mais benesses à Igreja Católica - e, por oposição, que tolheriam liberdades dos evangélicos.
Isso uniu parcela grande dos fiéis em torno da ideia de que era necessário ter representantes para defender seus direitos. O receio virou combustível para o crescimento das igrejas, em particular as pentecostais. "Desde o início do protestantismo, quanto mais os evangélicos apanham, quanto mais se sentem perseguidos, mais eles crescem", comenta Lidice Meyer Pinto Ribeiro, professora da pós-graduação em ciências da religião da Mackenzie.
O temor que uniu parte dos evangélicos em torno da ideia de que era necessário ter representantes na política mostrou resultado nas urnas. Na eleição para a legislatura 1983-1986, 12 deputados federais evangélicos saíram vencedores, sendo 2 pentecostais. Na seguinte, para o período 1987-1990, foram 32 deputados - com 18 pentecostais, e, desses, 13 da Assembleia de Deus.
Houve novo clima de receio na eleição presidencial de 1989. Em seus discursos, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva expunha o plano de instalar um "socialismo democrático" no Brasil. Na era pré-queda do Muro de Berlim, com o histórico de supressão das liberdades religiosas na União Soviética e nos países sob sua influência, Lula era visto como "comunista" - e, como tal, supunha-se que também cercearia o direito de culto dos crentes. Mais uma vez grande parte dos evangélicos se uniu em uma causa política para assegurar a manifestação de sua fé.
"No segundo turno da eleição de 89, houve movimento anti-Lula entre os evangélicos", diz o cientista político Cesar Romero Jacob, professor da PUC-Rio. "E não deu outra: onde tinha mais igreja evangélica, o [Fernando] Collor [hoje senador pelo PTB-AL] levou mais votos." A rejeição a Lula entre os evangélicos ocorreu também nas eleições presidenciais de 1994 e 1998, afirma o professor. Ambas foram vencidas por Fernando Henrique Cardoso.
Jacob mapeou os resultados da eleição presidencial de 2002, na qual o evangélico Anthony Garotinho recebeu 15 milhões de votos e ficou em terceiro lugar. Essa eleição é um dos grandes exemplos de que a máxima "irmão vota em irmão" segue válida, raciocina o professor. Garotinho recebeu mais votos onde havia mais evangélicos pentecostais e repetidoras da Rede Record, controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal. Nas eleições para a Prefeitura do Rio, em 2004, e para o governo fluminense, em 2006, o também evangélico Marcelo Crivella - sobrinho de Macedo - teve grandes votações em áreas com forte concentração evangélica, segundo o levantamento de Jacob.
Doze anos depois, outro presidenciável evangélico não teve o mesmo sucesso. Pastor Everaldo (PSC) terminou a eleição de 2014 com 780 mil votos. Além de Everaldo não ter governado nenhum Estado, entre uma eleição e outra, pelas igrejas do país, o mantra que fortaleceu Garotinho, ex-governador do Rio, foi substituído pelo voto em "homens de bem", sem especificar o credo. O ponto de virada pode ter sido a CPI dos Sanguessugas, que investigou a máfia das ambulâncias.
Segundo o relatório da CPI, dos R$ 9 milhões pagos em suborno para que parlamentares direcionassem emendas para a compra de ambulâncias, 58% foram para os bolsos de evangélicos. Foi assim que, dos 50 deputados evangélicos que tentaram a reeleição em 2006, 32 foram rejeitados nas urnas. Dezoito se reelegeram, e os demais da bancada eram novatos. A legislatura 2007-2010 começou com 27 deputados federais a menos que a anterior.
Essa retrospectiva relativiza a ideia de que, se há alguns evangélicos no Congresso, eles falam em nome de todos - e uma ideia que não deixa de ser alimentada por parte desses congressistas. "Se muitas vezes eles [membros da bancada evangélica] discordam entre eles mesmos, imagine se há alguma chance de unanimidade", diz o pastor Clemir Fernandes. "É impossível falar em nome de todos os evangélicos."
Enxergar matizes nesse estrato do eleitorado e do Congresso exige um amadurecimento político do país que o maniqueísmo atual não deixa entrever. Mas as evoluções raramente ocorrem na velocidade que se deseja delas. "Quando vemos um deputado com um discurso bastante conservador, e o deputado é evangélico, o discurso é conservador, mas não necessariamente evangélico", diz Rodrigo de Sousa, da Mackenzie.
Entre os matizes, há o do deputado João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica - e um dos nomes que vêm à mente dos evangélicos que dizem não se sentir representados pela bancada que se identifica como tal. Nos dias 22 e 23, Campos será um dos anfitriões do 1º Congresso de Agentes Políticos Evangélicos do Brasil (Capeb). Segundo ele, o evento terá como foco a capacitação dos parlamentares, deputados estaduais, prefeitos e vereadores. O deputado espera pelo menos 2 mil pessoas no encontro.

Campos foi o autor do projeto que ficou conhecido como "cura gay". O texto do projeto sugeria a suspensão de artigos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que impedem que profissionais da área participem de terapias para tentar alterar a orientação sexual de pacientes. Um dos principais palestrantes do Capeb será o pastor Silas Malafaia, voz ativa da ala mais conservadora dos evangélicos - que, de tão onipresente no mundo político, não raro é chamado de "deputado". "Qualquer interessado vai poder participar do congresso, mesmo não sendo evangélico", afirma o tucano. Outro dos palestrantes será Eduardo Cunha - se nada mudar no cenário político até lá.

MPT obtém condenação da Walmart (Nacional) ao pagamento de R$ 1 milhão por dano moral coletivo

TRT acolheu recurso ordinário do Ministério Público para determinar à empresa o cumprimento de obrigações de fazer relativas à segurança e medicina do trabalho
     O Ministério Público do Trabalho (MPT) obteve, recentemente, no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (Rio Grande do Sul) condenação da WMS Supermercados do Brasil Ltda. (Walmart) ao pagamento de R$ 1 milhão de indenização por dano moral coletivo. O montante será revertido ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O acórdão deu provimento a recurso ordinário do MPT e reformou sentença da 2ª Vara do Trabalho de Cachoeirinha. A sessão de julgamento da 5ª Turma teve sustentação oral da procuradora regional do Trabalho Silvana Ribeiro Martins. A ré também foi condenada, por unanimidade de votos, ao cumprimento de oito obrigações de fazer atinentes à segurança e medicina do trabalho. A pena de multa por descumprimento foi fixada em R$ 1 mil por dia por item descumprido, multiplicado pelo número de empregados prejudicados pela omissão. O valor será revertido ao FAT. A empresa tem nove bandeiras no Brasil, sendo quatro no Rio Grande do Sul: BIG, Nacional, Maxxi Atacado e Todo Dia.

     As obrigações consistem em: 1ª) realizar treinamentos aos trabalhadores, incluindo a capacitação admissional e periódica, quanto aos procedimentos que assegurem a eficiência das medidas de proteção coletiva e quanto ao correto uso dos equipamentos de proteção individual; 2ª) elaborar ordens de serviço sobre segurança e medicina do trabalho, dando ciência aos empregados; 3ª) informar aos trabalhadores dos riscos que possam originar-se nos locais de trabalho; 4ª) informar aos trabalhadores dos meios de prevenir e limitar os riscos que possam originar-se nos locais de trabalho e as medidas adotadas pela empresa; 5ª) fornecer aos trabalhadores, gratuitamente, equipamentos de proteção individual adequados ao risco da atividade, em perfeito estado de conservação e funcionamento, fiscalizando o seu uso e substituindo-o sempre que necessário; 6ª) fiscalizar diariamente a adoção das medidas de proteção coletiva e do uso dos equipamentos de proteção individual; 7ª) adequar os níveis de iluminação nos locais de trabalho com a NBR 5413; 8ª) e garantir que, nos locais de trabalho, as edificações obedeçam os requisitos técnicos, garantindo perfeita segurança aos trabalhadores.

Entenda o caso

     O MPT instaurou, em 2010, procedimento para apuração de acidente de trabalho fatal ocorrido nas dependências da ré. Em consequência da investigação, constatou que a vítima - Davi Moraes -, não era empregado, mas sim trabalhador avulso filiado ao Sindicato dos Trabalhadores no Comércio Armazenador e Movimentadores de Mercadorias em Geral de Triunfo e Canoas. A ré oferecia condições precárias de trabalho para seus empregados e trabalhadores avulsos e terceirizados. Não adotava qualquer medida de prevenção para evitar acidentes de trabalho.

     O procurador do Trabalho Luiz Alessandro Machado ajuizou ação civil pública (ACP) com pedido de antecipação de tutela. O Juízo da 2ª Vara do Trabalho de Cachoeirinha julgou os pedidos improcedentes, sob o fundamento de que as condutas prevencionistas já haviam sido tomadas pela ré, destacando que as medidas propostas pelo MPT na inicial, a fim de evitar que outros acidentes ocorressem, foram providenciadas tanto pelo Sindicato agenciador da mão de obra do empregado à época, quanto pela ré, tomadora de serviços.

     A procuradora do Trabalho Aline Maria Homrich Schneider Conzatti recorreu e postulou a reforma da decisão, sustentando que eram insuficientes os documentos juntados pela ré para confirmar que as medidas prevencionistas solicitadas foram tomadas. Participaram do julgamento os desembargadores Clóvis Fernando Schuch Santos (relator), Brígida Joaquina Charão Barcelos Toschi e Karina Saraiva Cunha.