O autor é advogado, engenheiro e escritor. Também foi presidente da Fiergs e representante brasileiro na OIT.
A recente eleição presidencial na Colômbia, confirmada por uma diferença inferior a um ponto percentual entre os candidatos, recolocou no centro do debate uma questão essencial: como saber se o resultado corresponde, de fato, à vontade dos eleitores?
A Colômbia utiliza cédulas de papel. O eleitor marca sua escolha e deixa um registro físico para o escrutínio. O resultado oficial decorre da conferência das atas e dos procedimentos legais de apuração. Em caso de dúvida fundamentada, há documentos a examinar e, nas hipóteses previstas, votos a recontar.
O voto em papel não é infalível. Pode haver erros humanos, votos anulados, extravios e manipulações. Mas oferece uma garantia tangível: o resultado não depende exclusivamente de programas, arquivos digitais e explicações técnicas inacessíveis à maioria dos eleitores
Isso importa ainda mais numa época de ataques — hackers —contra sistemas eletrônicos cada vez mais sofisticados. A possibilidade de invasão não prova, por si só, adulteração de votos, quando a infraestrutura eleitoral inclui cadastro, redes de transmissão, divulgação de resultados, bancos de dados e equipamentos. Uma falha em uma dessas etapas não equivale automaticamente a fraude.
O ponto central, porém, permanece: nenhum sistema digital é imune a ataques, erros de programação ou vulnerabilidades humanas. Quanto mais complexa a tecnologia, menos razoável é exigir que o eleitor confie em mecanismos que não pode ver ou conferir por meios independentes.
É nesse contexto que o debate brasileiro deve ser tratado com serenidade. Nas eleições presidenciais de 2022, as urnas eletrônicas estiveram no centro de controvérsia intensa. Houve acusações, desinformação e dúvidas de grande repercussão. As auditorias e missões internacionais de observação não identificaram prova de fraude significativa. Ainda assim, o debate mobilizou milhões de brasileiros e mostrou que confiança institucional não se impõe por decreto nem se constrói só com relatórios técnicos.
O Brasil dispõe de um sistema rápido, com testes de segurança, fiscalização, boletins de urna e registros eletrônicos do voto. Esses controles são relevantes, mas, numa eleição decidida por diferença mínima — como a deste ano proete ser —, serão suficientes para convencer o eleitor comum de que cada voto foi registrado e contado como deveria?
A experiência internacional recomenda cautela. Levantamento do International IDEA — Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral — indicou que apenas 34 dos 178 países pesquisados, cerca de 19%, utilizavam votação eletrônica em eleições nacionais ou subnacionais. A maioria preserva a cédula de papel, com contagem manual ou leitura por scanners.
O dado não condena a urna eletrônica brasileira. Mostra, porém, que o padrão mais difundido busca conciliar tecnologia e prova material: o eleitor vota em papel, a apuração é acelerada por leitura óptica e as cédulas ficam disponíveis para auditoria ou recontagem.
Não se trata de opor atraso e modernidade. Trata-se de encontrar a combinação capaz de oferecer eficiência, segurança, transparência e confiança pública. O resultado precisa ser correto, mas também verificável aos olhos de quem participou da escolha. Democracia não pode depender de fé cega, seja em pessoas, seja em máquinas.
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