Cientista Político avalia salto de 2% para 11% nas intenções de votos para Augusto Cury

Elias Tavares avalia que salto de 2% para 11% na pesquisa BTG/Nexus revela espaço para candidaturas de tom mais moderado.

O crescimento de Augusto Cury na mais recente pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira, 31 de agosto, chama atenção não apenas pelo tamanho da oscilação, mas pelo que pode representar no comportamento do eleitorado brasileiro.

Na avaliação do cientista político Elias Tavares, o salto de 2% para 11% coloca Cury em um novo patamar na disputa e indica que há uma parcela do eleitorado buscando uma alternativa ao ambiente de confronto permanente que marcou os últimos ciclos eleitorais.

“Mais importante do que olhar apenas para os 11% é entender o que esse número pode estar dizendo sobre o eleitor. Cury aparece com uma comunicação mais serena, menos agressiva e com uma postura de moderação. Isso pode estar encontrando espaço entre eleitores cansados da polarização e do conflito permanente”, analisa Tavares.

O especialista ressalta, no entanto, que o crescimento não deve ser interpretado automaticamente como uma transferência direta de votos de outros candidatos. Na mesma rodada, Flávio Bolsonaro recuou quatro pontos, Lula caiu dois e Romeu Zema também perdeu dois pontos.

“A pesquisa mostra movimentos simultâneos, mas não permite afirmar que esses votos migraram diretamente para Cury. O que podemos observar é que o crescimento dele parece atravessar diferentes segmentos e não ficar restrito a um único campo ideológico”, explica.

Para Elias Tavares, o principal diferencial de Cury até aqui está na forma de comunicação.

“Ele fala baixo, evita o confronto direto e tenta transmitir equilíbrio. Em uma eleição marcada por discursos muito duros, esse contraste chama atenção. O eleitor não necessariamente está aderindo a todo o conteúdo apresentado, mas pode estar reagindo positivamente ao estilo”, avalia.

Apesar do avanço, o cientista político aponta que a candidatura ainda enfrenta um desafio importante: transformar conceitos em propostas objetivas de governo.

“Nos debates e também na entrevista ao Jornal Nacional, ainda ficou evidente uma dificuldade em apresentar respostas mais concretas para temas como economia, políticas públicas e gestão. Ser moderado pode ajudar a abrir espaço eleitoral, mas não é suficiente para sustentar uma candidatura presidencial”, afirma.

Segundo Tavares, a partir dos 11%, o cenário muda para Augusto Cury.

“Até agora, ele podia crescer como novidade. A partir do momento em que alcança dois dígitos, passa a ser mais observado, mais confrontado e também mais atacado pelos adversários. O verdadeiro teste começa agora”, destaca.

Na avaliação do especialista, o movimento reforça uma questão que deve ganhar peso ao longo das próximas semanas: existe um eleitorado disposto a ouvir candidaturas com menos agressividade e mais ponderação.

“O crescimento de Cury pode ser momentâneo ou pode se consolidar. Mas o dado já deixa uma mensagem importante: existe espaço para uma comunicação política menos baseada no grito. A dúvida agora é qual é o tamanho desse espaço”, conclui Elias Tavares.

Sobre Elias Tavares

Elias Tavares é cientista político, especialista em comunicação eleitoral, comportamento do eleitor e marketing político. É professor de Pós-Graduação da Faculdade Damásio e atua na análise de cenários eleitorais, pesquisas de opinião, estratégias de campanha, comunicação política e formação de opinião pública.


Dica do editor - Conheça este projeto sobre troca de milhas por dinheiro. Câmara já aprovou a proposta.


Dica do editor - Conheça este projeto sobre troca de milhas por dinheiro. Câmara já aprovou a proposta.

Um projeto aprovado na Câmara no dia 13 de agosto (Projeto de Lei 3083/2026) permite a venda de milhas e pontos e pode mudar o que acontece com o que o consumidor acumula em programas de fidelidade. O próximo passo é a proposta ser votada no Senado, mas ainda não há acordo. Conforme o Estadão mostrou, o projeto pode criar uma reserva de mercado e acendeu um alerta entre empresas do setor, especialmente em companhias aéreas. Atualmente não existe uma lei dizendo como as empresas devem trabalhar com os pontos, e cada programa tem regras próprias. Em paralelo, o Judiciário toma algumas decisões. Em agosto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que milhas aéreas e pontos de programas de fidelidade podem ser usados como penhora para pagamento de dívidas.

CLIQUE AQUI para saber tudo sobre o projeto aprovado na Câmra.




A anistia

 A Pesquisa BTG/Nexus divulgada no dia 31 de agosto, segunda-feira, continua demonstrando polarização clara entre Lula e Flávio Bolsonaro, com números parecidos aos de todas as demais pesquisas publicadas durante a segunda metade de agosto, sempre apresentando empate técnico, ora com Lula na frente e ora com Fláviona liderança.

A pesquisa BTG/Nexus, no entanto, apresenta uma novidade importante no caso da disputa de 1o turno, porque pela primeira vez um candidato de fora da polarização chega à casa dos dois dígitos.

Trata-se do médico, político e escritor de livros de autoajuda Augusto Cury, do inexpressivo Avante, que alcançou 11%. É  primeira vez que um terceiro candidato aparece com dois dígitos.

Os fãs da 3a. Via, que já apostaram em Eduardo Leite, ficaram eufóricos.

Eis o que mostrou BTG/Nexus

1o turno

Lula, 37%
Flávio, 31%
Augusto Cury, 11%
Caiado, 6%

Os demais pontuaram menos de 5%

No 2o turno, Lula apresentou 46% e Flávio registra 45%.

A pouco mais de um mês das eleições, esta é a grande novidade demonstrada pelas pesquisas. 

A transição

No meu blog www.polibiobraga.com.br, analisei em apenas duas ocasiões as reuniões inesperadas que o presidente Donald Trump manteve com personalidades brasileiras não bolsonristas no decorrer de agosto: com Lula, pelo telefone, dia 21 de agosto, e com o banqueiro André Esteves, dono do BTG, nem dez dias depois, no dia 30, um sábado de tarde, O banqueiro André Esteves, dono do banco BTG, um dos 10 bilionários do Brasil, segundo Fortes, esteve com o presidente Trump no sábado, tudo nos arredores de Washington, no Trump National Golf Club. Apenas dois dias depois, André Esteves jantou com Lula e colegas banqueiros e empresários convidados pelo líder do PT. Antes de viajar, segundo Igor Gadelha, do site Metrópoles, André Esteves comunicou ao Planalto o que faria. Igor Gadelha falou numa agenda anódina e que não parece real. A viagem e a reunião foram surpreendentes, como foi surpreendente e longo telefonema ocorrido dia 21 de agosto entre Lula e Trump e que ainda não foi compreendido por completo.

E o conteúdo das conversas de Trump com Lula e Esteves ? É difícil saber de verdade o conteúdo principal do que foi flado. É que somente um dos interlocutores revelou detalhes do que foi conversado durante 1h20min, ou seja, Lula da Silva, e ainda assim a conta-gotas e sempre edulcorando questões polêmicas e cuja versão sempre o favorecem.

A Casa Branca nada falou até agora.

O banqueiro referiu-se a generalidades e o governo brasileiro vazou temas sobre o tarifaço, a retomada de negociações sobre tarifas, a questão da guerra entre Ucrânia e Rússia, tocando de leve alguns termos vgos sobre as eleições. 

Como se sabe, o governo Trump já avisou que só reconhecerá o resultado do pleito se constatar que elas ocorrerão de modo legal, com liberdade, justos e transparentes.

O site Metrópoles revelou que foi Trump quem tomou a iniciativa de falar sobre as eleições, o que é duvidoso. Estou convencido de que foi Lula quem tomou a iniciativa e quis tranquilizar Trump, garantindo uma transição, o que dispensaria envolvimento americano nas eleições.

Meu entendimento é de que o banqueiro André Esteves foi tratar da mesma questão, com o objetivo de buscar entendimentos políticos e tranquilizar o governo norte-americano em relação ao cenário interno brasileiro.

Garantia de transição

 A movimentação do presidente brasileiro e do banqueiro buscaria assegurar estabilidade institucional e evitar maiores atritos externos ou interferências nas eleições.

Eu não me surpreenderia um acerto capaz de garantir a ´proclamação da vitória de Flávio Bolsonaro, caso ele vença nas urnas, o que resultaria de imediato num acerto entre vencedores e perdedores, cujo vetor principal seria uma imediata anistia ampla, geral e irrestrita, portanto válida para os dois lados, ainda durnte o governo Lula.

Neste caso, Jair Bolsonaro subiria  rampa junto com o vitorioso filho.

Endividamento das famílias vai a 82% e bate recorde histórico

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho de 2026, o maior percentual da série histórica. 

O comprometimento médio da renda dos endividados chegou a 29,5%, considerado alto sobre o orçamento familiar.

O custo do crédito acrescenta outra camada a esse cenário. Segundo o Banco Central, a taxa média de juros do crédito livre destinado às pessoas físicas chegou a 64% ao ano em junho, aumento de 4,6 pontos percentuais em 12 meses. A inadimplência dessa carteira atingiu 7,6%, enquanto a taxa Selic está em 14% ao ano desde agosto, mantendo condições restritivas para novos financiamentos.

“A educação financeira não resolve sozinha fatores como juros altos, renda, inflação ou condições de crédito, mas ajuda as pessoas a compreender melhor o impacto dessas variáveis sobre o próprio orçamento. Quando o dinheiro fica mais caro e uma parcela maior da renda já está comprometida, conhecer juros, organizar despesas e avaliar o uso do crédito permite tomar decisões com mais informação”, afirma Nathalia Arcuri, jornalista e fundadora da Me Poupe!, ecossistema de educação financeira.

O desempenho do comércio reforça que os efeitos não são uniformes. Segundo o IBGE, o volume de vendas do varejo brasileiro cresceu 1,9% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, mas recua 0,4% no segundo trimestre diante dos três primeiros meses. Em junho, o varejo restrito avança 0,5% sobre maio, enquanto o ampliado registra queda de 1%.

“Quando falamos sobre o momento do varejo, precisamos olhar para uma relação que envolve famílias, empresas, sistema financeiro e ambiente econômico. Um consumidor com parte relevante da renda comprometida naturalmente encontra menos espaço para novas compras, principalmente aquelas financiadas, mas essa é uma peça de um cenário muito maior. Para as pessoas, educação financeira significa aumentar a capacidade de atravessar esses ciclos com planejamento e autonomia”, comenta Fernando Schmitt, CEO da Me Poupe!.

Além das condições econômicas, o setor atravessa mudanças na forma de pesquisar e comprar. Comércio eletrônico, marketplaces, comparação de preços e integração entre lojas físicas e canais digitais ampliam a concorrência e alteram a relação com o público. Cada varejista também enfrenta condições próprias de estrutura financeira, custos, estoque, operação e estratégia, fatores que ajudam a explicar desempenhos diferentes dentro de um mesmo ambiente econômico.

Sobre a Me Poupe! - A Me Poupe! foi fundada em 2015 por Nathalia Arcuri, jornalista, que percebeu a necessidade de quebrar barreiras de linguagem e democratizar o acesso à educação financeira no Brasil. Depois de fazer sucesso com um blog e um canal no YouTube, hoje a Me Poupe! é uma empresa com foco em liberdade financeira massificada e acessível pelo objetivo de colocar o poder do dinheiro nas mãos de todos. Um ecossistema financeiro que une humor, informação, tecnologia e vários especialistas treinados para ensinar que todos podem ser livres financeiramente. 

Artigo, especial, Carlos Eduardo Bellini Borenstein - Flávio foi mais eficiente que Lula no início do horário eleitoral

Cientista Político da Arko Advice pesquisas

carloseduardo@arkoadvice.com.br

O início do horário eleitoral é um marco importante da campanha. Apesar das redes sociais serem um meio relevante para os eleitores terem acesso à informação política, a televisão ainda preserva sua relevância nas campanhas. Por isso, o horário eleitoral é um espaço estratégico de comunicação com o eleitorado que ainda está indeciso e será o fiel da balança no pleito. 

Nos primeiros programas do horário eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi mais eficiente que o presidente Lula (PT) na comunicação com o eleitorado estratégico. 

Flávio apostou na comparação de dois Brasis, explorando o sentimento de mudança, consequência do aumento da violência e do endividamento das famílias, criando um ambiente de pessimismo em relação à economia. O senador também buscou quebrar resistências no eleitorado feminino, apostando em sua esposa, Fernanda, que apareceu na propaganda dizendo que “Flávio é Bolsonaro moderado”. 

No programa do PT, chamou atenção o ataque antecipado a Flávio. A campanha de Lula aproveitou o fato da propaganda de Flávio ter ido ao ar antes e veiculou, nas cores cinza e preto, ataques a Flávio explorando o tema do Banco Master. Somente após esse ataque é que o nome de Lula passou a ser exigido.

Embora as campanhas costumem utilizar essa estratégia para mascarar o autor da campanha negativa, o ataque no primeiro programa pode indicar que Flávio Bolsonaro está avançando nas pesquisas. 

O programa eleitoral de Lula falou mais do passado que do futuro. A estratégia foi explorar, através de apelos emocionais, misturando imagens do início da trajetória política do presidente com o Lula de hoje, o vínculo com os segmentos de menor renda, base social do lulismo. O PT apostou na agenda da defesa da soberania e dos programas sociais, dando espaço também para a primeira-dama Janja. 

Apesar de Lula ter falado “em salto de qualidade” e apostado no slogan “pronto para mais”, o apelo dessa mensagem pode ser limitado, já que diante da falta de uma agenda de futuro, Lula está apostando em fórmulas do passado. Embora tenha funcionado na eleição de 2022, a conjuntura mudou, já que hoje é o governo Lula – e não a gestão Jair Bolsonaro – que será “julgada” pelos eleitores nas urnas. 

Por enquanto, a campanha negativa do PT contra Flávio é ancorada em denúncias antigas, sem apresentar fatos novos. Lula, por outro lado, precisará explicar as investigações contra Lulinha e o aumento do custo de vida e da violência. Não por acaso, busca evitar que a campanha seja um plebiscito de seu governo.

Caso Flávio consolide a imagem de “Bolsonaro moderado”, e resista a campanha negativa, o debate sobre o governo Lula pode se impor, sendo o centro da agenda eleitoral.


Carta Aberta, Flávia Ferronato - Oi, Roberta. Não deixa o Lula te chamar de Pilantra.

Flávia Ferronato é advogada, Porto Alegre.

Oi Roberta, tudo bem?

Vi que você deletou seu perfil, mas vou tentar mesmo assim…

Sei que você só está utilizando tornozeleira e pode assistir TV tranquilamente.

Infelizmente (pra vc) você não está na Suíça, então, sugiro que você sintonize nos canais de notícia para ver o que o papai Lula falou ao seu respeito.

Menina, ele te chamou de PILANTRA!!

Logo você, quase nora dele…

Disse, inclusive, que nunca te viu na vida…

Ou seja querida, todas aquelas fotos agarradinhas com o Lula, não significou nada pra ele.

Sim, você foi usada e abandonada no momento que mais precisava de apoio, como todo macho tóxico faz.

Não permita ser tratada como lixo! Mostre seu empoderamento!! Mostre que mulheres não podem ser tratadas assim!!

Delate esses misóginos!! Entregue um por um!! Mostre o poder feminino de acabar com a vida de machos escrotos!!

Nós estaremos aqui pra te apoiar!!

Flávia Ferronato. Advogada.

Artigo, especial, Marcus Vinicius Gravina - Lula vx F. Bolsonaro

Marcus Vinicius Gravina é advogado e escritor, RS.


Para onde o povo brasileiro for irá pisar na lama.


De um lado ela estará mais densa e movediça. 


A escolha será nossa, antes das eleições de outubro. 


Ouvi a entrevista de ambos. A soma dos dois nos dá a média medíocre da qualidade dos brasileiros.


Um prometeu o aumento de ministérios e a criação de uma nova força militar nacional, certamente para protegê-lo, nos moldes da guarda do Vaticano (pode rir) enquanto o outro disse que reduzirá gastos, a começar pela extinção de ministérios. 


O Bolsonaro se mostrou impertubavel, manteve a postura, em contraste com o outro com o ranço e ataques de sempre, inclusive mentindo que não conhecia uma implicada em sociedade com seu filho, visto abraçado nele em dezenas de fotos públicas. 


A dupla da Globo, ao contrário do entrevistado de ontem, demonstrou ansiedade e irritação. 


Interrompeu várias vezes as respostas do candidato para atraí-lo para a entrada de um "brete" como se faz com o gado para ser vacinado. 


Meu repúdio à tendência mercenária da Globo, ao atribuir ao Bolsonaro, pai, o golpe que não existiu.


O que foi apontado como preparação do golpe e as referências de alguns comandantes, não passou de uma consulta obrigatória do presidente da República diante  do disposto no art.142 da CF. 


A tomada de decisão para o emprego das forças armadas é competência exclusiva do Presidente, desde que ouvida as forças   armadas. Isto é, a intervenção militar nas ruas em defesa da segurança e ordem públicas. 


Os protestos nas ruas e diante dos quartéis, em todo o Brasil, recomendavam estudos estratégicos para o enfrentamento.


Chamar isto de trama golpista é querer esconder  quem deu o golpe e está no poder e não quer que falem do assalto aos velhinhos do INSS e de algumas mortes  .


Quando a Globo irá entrevistar a Polícia Federal sobre quem mandou matar Jair Bolsonaro?

Artigo, Silvio Lopes - A hora chegará

Sílvio Lopes, jornalista, economista e palestrante 

Contato: 51. 998 7

     Tenho insistido naquilo que para mim constitui a maior tragédia da nação brasileira, promovida, é claro, pela ação deletéria de um partido e seus aliados: a tomada política- institucional das chamadas " forças vivas" da sociedade. Não há, pelo visto, uma instituição sequer que tenha se salvado dessa "fraude política" devastadora. 


     Os antigos e tradicionais conceitos e suposições  que tornaram legítimas as nossas instituições, foram( e estão sendo), corroídos. No dizer do poeta americano George Cabot Lodge, " eles estão desaparecendo diante de uma realidade mutável, e sendo substituídos por conceitos diferentes, até agora malformados, contraditórios e, sobretudo, perturbadores".


     O Brasil, prá surpresa de ninguém, se apresenta como típico exemplo dessa total inversão  de valores que corrói o tecido social e institucional, base para uma sociedade  madura, livre e próspera. Um verdadeiro Armagedon bíblico aqui se instalou. O futuro que almejávamos para do Brasil, ficou...no seu passado. Isso é notável e, ao mesmo tempo, aterrorizante.


      O que seria normal na vida do brasileiro comum, como nós (levar a vida com energia e desfrutando de sua maravilha multiesplendorosa ante as expectações de possibilidades ilimitadas que fazem o espírito vibrar de esperança), tem sido rodeado se desilusões e desesperanças no futuro do Brasil. Dando razão à observação de Shopenhauer de que a vida não passa de " um processo de desilusão..."

    

      Mas temos de  manter a esperança. E nutrir a indignação diante das mentiras e da avassaladora opressão que cerca a sociedade, mas sem jamais abrir mão da coragem para a ação  libertadora. Enquanto( ainda) há tempo...Afinal, como disse o filósofo espanhol Miguel Unamuno, " somos mais pais de nosso futuro, do que filhos do nosso passado". E, ademais, essas mentes reptilianas dos idiotizados ideológos esquerdopatas, não irão nos resistir. Jamais!



Livro - Mein Kampf

 Atualizações

12/08/26
13/08/2026
23/08/2026
28/08/2026
31/08/2026

Minha luta

Eu nasci em Blumenau, me criei em Jaraguá do Sul, vivi em Florianópolis, no Rio, depois de novo em Jaraguá do Sul e em seguida em Florianópolis mais suma vez, de onde sai no dia 31 de março de 1964 para Porto Alegre, onde fiz família, me graduei em Direito e faço jornalismo há 62 anos, considerando-se 2026 incluído.

 O "Adolfo" que carrego no nome veio do meu avô materno, Adolfo Radtke, pai da minha mãe, filha de colonos alemães de Blumenau, do Morro do Aipim, às margens do rio Itajaí Açu. Já o "Políbio", herdei do meu avô paterno, um cearense de cabeça chata, marido da paraense Elisa, minha avó.

Nunca vi nenhum deles, a não ser Adolfo e Rosa, já idosos, ainda assim através de uma foto esmaecida pelo tempo.

E assim me tornei Políbio Adolfo Braga.

Meu pai, Lauro, um cearense que virou catarinense ao se casar com a operária da Hering, Maria Magdalena, foi entregue ainda criança para os padrinhos, que moravam em Fortaleza. O casal mudou mais tarde para o Espírito Santo e de lá meu pai, com 13 anos, fugiu  para o Rio, virou engraxate, ficou conhecido dos senadores do Palácio Monroe e o capixaba Charles Lindenberg encaixou-o numa vaga de Auxiliar de Veterinária do Ministério da Agricultura. Foi nesta condição que acabou em Blumenau, Santa Catarina, numa missão do Ministério da Agricultura, focada no  combate à febre aftosa que atingia o escasso rebanho bovino dos colonos do  Vale do Itajaí.

Depois de casados, Lauro e Magdalena, com três filhos no colo, mudaram para Jaraguá do Sul, onde viveram, formaram uma família com mais três filhos, morreram e estão ali sepultados. Meu pai voltou a casar depois da morte da minha mãe e teve outros dois filhos.

Não sei nada dos antepassados dos meus pais. Apesar disto, conheci os três irmãos homens e a única irmã da minha, no caso José, Fritz, Franz e Ana. A respeito dos irmãos do meu pai, só fiquei sabendo do nome de um deles, Washington, que teria se matado com um tiro no peito, no interior de Minas, durante a Revolução de 30. Ainda criança, fiquei sabendo que meu irmão mais velho (somos oito irmãos), Toni, que no iício da década de 50 serviu na FAB, conheceu a família de um dos irmãos do meu pai. Lembro da foto de dois priminhos sentados no pé da escada de uma das favelas dos morros cariocas.

Foi só.

Até tentei armar minha árvore genealógica.

Com este objetivo, em 1963 levei meu pai ao Ceará para rever os padrinhos, seus pais de criação, que ele não via desde os 13 anos de idade. O casal já estava bem velhinho. Da casa os padrinhos, durante 15 dias visitamos parentes distantes. Meu pai não conseguiu reconhecer ninguém, nem mesmo Fortaleza. Ele saiu dali em 1913 e nunca mais voltou. Me arrependi de tê-lo levado ao Ceará. Suas memórias nunca mais foram as mesmas a partir dessa viagem.

Quando o avião levantou vôo do aeroporto de Fortaleza, de volta para o Sul, eu e meu pai sentimos que não voltaríamos mais ali. Uma página importante da vida dele tinha virado: a volta ao lar da infância fora apenas melncólica, mas para mim serviu para desfazer mitos que ele nos contava com verdades. Nada de grave, mas apenas pequenas alterações  de rota na história de um rapaz que fugira cedo de casa para a cidade grande e que nunca mais voltaria a ela.

 No caso da minha mãe, mais tarde fui algumas vezes até a Alemanha, tentei encontrar os antepassados, mas nem ela e nem parente algum sabiam de fato de onde eram os Radtke do meu avô e os Barth da minha avó materna. Muitas vezes, décadas de 60 e 70, examinei os catálogos telefônicos de Bonn e de Hannover, mas foi apenas tempo perdido.

Eu nunca aprendi a língua alemã, embora minha mãe fosse fluente no idioma e o alemão era uma língua de uso corrente em Jaraguá e em Blumenau, como de resto em todas as regiões de colonização.

Minha mãe e meu pai não chegaram  completar o 2o ano do fundamental, que na época era conhecido como curso primário, formatado para um total de 4 anos.

Cresci numa Jaraguá do Sul de cinco mil habitantes na década de 1940, um lugar onde não existia uma única calçada para contar história. Eram tudo colônias de filhos e netos de imigrantes alemães, italianos, poucos poloneses e húngaros, além de meia dúzia de moradores afro-descedentes, todos espalhados nas margens dos rios Itapocuzinho e Jaraguá, mais os morros do extenso Vale do Itapocu,  duas horas de Blumenau e uma hora de Joinville. 

Nas monções, os dois rios provocavam enchentes memoráveis, pelo menos na minha memória e na memória da garotada da época, que aproveitava os dias de cheia do rio Itapocuzinho para enfiar balaios nas bocas de lobo e apanhar cardumes inteiros de cará, jundiás e até alguns cascudos expulsos das suas tocas. E depois era tratar de jogar bola em campinhos encharcados, além de chapinhar na lama dos lodaçais dos quintais das casas. 

Era neste rio Itapocuzinho que navegávamos em jangadas que nós mesmos construíamos com troncos de bananeira, todos presos com bambus roliços e cipós do meio do mato.

Jaraguá do Sul, na década de 1950 era isto e mais poeira e lama. 

Minha família era muito pobre, católica, e minha infância foi vivida perto de um campinho de futebol de terra batida. Na minha casa alugada, logo depois da II Guerra, ouvíamos histórias mal contadas pelo meu pai Lauro e as fantasias deliciosas, tomadas como verdadeiras, como as narrativas da minha mãe sobre potes de ouro existentes nas pontas coloridas dos arco-íris, mas só para quem conseguisse chegar até lá.

Se hoje me chamam de brigão no jornalismo e na política, a verdade é que sempre fui brigão. Todos os dias eu saía no soco com alguém daquele campinho existente ao lado da minha casa. Eu me achava o dono da bola; jogava no gol — era um goleiro péssimo, diga-se de passagem —, mas quando a coisa não ia do meu jeito, pegava a bola debaixo do braço e saía correndo enquanto os outros guris vinham atrás para me bater e tomar a bola.

Achava-me imbatível, mas principalmente escorado na ajuda de dois irmãos mais velhos, Antonio e Claudio, que eram bons de briga. 

 Batia em todo mundo, até o dia em que um garoto me desafiou. Lembro-me como se fosse hoje: olhei para ele com desdém e disse: "Não quero bater em ti porque vou te quebrar todo". O garoto insistiu, fomos para a briga e tomei uma surra histórica. Ali aprendi uma lição fundamental para o restante da minha vida: eu também podia apanhar. 

Comecei a trabalhar cedo, aos 14 anos. 

Tudo começou no dia em que meu pai não tinha dinheiro para me comprar uma bola de futebol, e quando pedi uma para ele, a resposta foi curta e direta: "Vai trabalhar para comprar". Consegui meu primeiro emprego numa fábrica de flores. Não me tirou pedaço nenhum; pelo contrário, foi uma experiência excelente.

O gosto pela escrita também nasceu nessa época. 

Meu caso com o jornalismo começou quando minha irmã Elisa Rosa ia se casar. Foi em 1957 e eu tinha 16 anos. Eu gostava demais dela e resolvi escrever um artigo em sua homenagem. Esse texto foi publicado no Correio do Povo, um jornalzinho local de Jaraguá que existe até hoje. 

No colégio, tirava boas notas em redação, mas nunca fui um bom aluno.

Terminado o curso ginasial, os irmãos maristas do colégio onde eu estudava , o Ginásio São Luiz, me entregaram o diploma e me expulsaram no mesmo dia. O motivo ? No discurso de formatura, na condição de orador da turma, desferi um ataque severo contra a conduta dos próprios religiosos. Eles não tiveram como me negar o diploma, mas me dispensaram.

Foi  em Jaraguá, que a primeira parte da minha vida se encerrou. 

Peguei minhas poucas coisas e fui para Joinville estudar e trabalhar.

O Lider Estudantil e a Mudança para o Rio

Cheguei em  Joinville com 17 anos incompletos, 1958, para conseguir um emprego, me alistar no Exército, no 13o Batalhão de Caçadores, e iniciar as aulas do que na época era conhecido como colegial, atualmente, 2026, equivalente ao 1o ano do ensino médio. Como teria que trabalhar de dia para conseguir renda e pagar os estudos, fui parar no único curso colegial disponível para o horário noturno, o curso de Contabilidade, no único colégio masculino da cidade, o Bom Jesus, que era e ainda é laico, mas na época bastante ligado à comunidade luterana. No 13o, os militares não quiseram saber de conversa e me mandaram embora com um certificado de 3a. categoria, ou seja, de dispensa.

Jaraguá do Sul não tinha ensino médio, minha família era muito pobre e eu teria que ir embora, trabalhar e pagar pelos estudos.

Durante muitos meses fiz de trem, lerdas Marias Fumaças, e  de litorina, o percurso de 1 hora entre Jaraguá do Sul e Joinville, 48 quilômetros, mas apenas aos finais de semana e sempre para visitar meus pais. Eu preferia as litorinas, que eram trens de passageiros leves e automotrizes, geralmente de uma só unidade, possuíam motor próprio e não precisavam de uma locomotiva separada para movê-las. Criadas na década de 1930 na Itália, elas serviam para ligar pequenas e médias cidades de forma rápida, prática e barata. O nome surgiu como um apelido após o modelo ser apresentado na cidade italiana de Littoria (atual Latina), sem relação direta com o mar.

 No começo daquele ano, 1958, morei com um irmão e, mais tarde, fui para uma pensão. 

Eu era bom datilógrafo — com 15 anos, aprendi a dedilhar com os dez dedos numa Remington comprada pelas freiras de Jaraguá do Sul, as únicas que mantinham cursos pagos de datilografia  —, peguei uma bicicleta emprestada e, em dois dias, depois de bater na porta de dezesseis empresas, consegui emprego. Fui contratado como faturista da Malharia Arp, onde trabalhei por três anos, até ser posto para a rua. Na mesma época, convidado por Augusto Sílvio Prodohl — o único intelectual que Jaraguá do Sul já produziu e exportou para Joinville — passei também  a colaborar com o Jornal de Joinville, na época um dos diários que o mago Assis Chateaubriand montou para os Diários Associados em todo o País. Augusto Sylvio escreveu vários livros. O de maior sucesso foi O Engenheiro Misael, publicado em 1956.

No ano seguinte, 1959, uma participação exitosa num concurso público municipal de oratória, fiquei conhecido rapidamente pelos estudantes de Joinville e isto me levou à presidência da União Joinvillense dos Estudantes Secundários, a UJES. Um dos concorrentes impugnou os resultados, alegando que eu declamei uma poesia e não pronunciei um discurso próprio.

Na época, 1960, aproximava-se a eleição para o governo de Santa Catarina: Celso Ramos pelo PSD, contra Irineu Bornhausen pela UDN. 

Eu detestava a UDN, não apenas porque minha família fazia oposição ao Partido, mas desde que fui obrigado pela direção do Ginásio São Luiz a comparecer ao velório do ex-Prefeito Arthur Muller, o maior líder udenista da minha cidade, Jaraguá do Sul, e até obrigado a tocar as repulsivas mãos do defunto.

Como meu pai era ligado ao PSD, o pessoal do Partido me procurou com uma proposta: queriam que os estudantes organizassem uma campanha forte em favor da criação de um ginásio público em Joinville. Havia uma lei que mandava criar o colégio, mas os governadores anteriores a ignoravam. A lei era de autoria de um Deputado do PTB, Agostinho Mignoni, que se notabilizou em Joaçaba, Oeste de Santa Catarinas, ao ser preso durante manifestações de protesto, resultou torturado e nas suas costas nuas, solados criminosos usaram a baioneta para gravar esta frase monstruosa:

- A PM é a maior.

Mais tarde fiquei amigo e aliado de Mignoni.

 A pauta era perfeita para os estudantes e servia aos interesses eleitorais de Celso Ramos. Eles me usaram, mas eu também os usei.

Fizemos um barulho enorme e Celso Ramos venceu a eleição. Logo após a posse, os mesmos políticos que tinham me procurado, iniciaram uma conversa dissuasória e disseram: "Ó, agora você fica quieto porque nós já ganhamos a eleição". Respondi imediatamente: "Não, agora eu quero o colégio público". Ameaçaram falar com o meu pai, e eu desdenhei: 

- Podem falar até com a minha mãe, não vou parar".

O colégio particular, laico,  de Joinville, o Bom  Jesus, onde eu estudava, me expulsou, pois a criação de um colégio público criaria concorrência direta para eles. Pensaram que me calariam, mas a resposta foi o oposto: elegi-me vice-presidente e secretário-geral da união dos estudantes de toda Santa Catarina, no âmbito de uma aliança que costurei com um amigo que fiz na época e que mantenho até hoje, no caso o atual Advogado de Joaçaba, Oreste Vidal Guerreiro. Em 2026, como editor, publiquei o livro "Minhas Memórias", do próprio Oreste Vidal Guerreiro.

Só saí de Joinville no dia em que o governador Celso Ramos foi pessoalmente dobrar os joelhos e colocar a pedra fundamental do ginásio público.

Eu já tinha sido posto para fora do emprego e também do colégio.

A batalha pelo ensino público custou mais caro, porque passei a ser visto como "comunista" e "agitador". Um dos meus detratores foi o bispo Dom Gregório Warmeling, que num sermão de domingo, na igreja matriz, não me poupou, chamando-me de comunista, algo que na época eu considerava extrema injúria. Indignado, procurei um advogado da cidade, o Dr. Carlos Adauto Vieira, porque minha ideia era processar Dom Gregório por injúria,  calúnia e difamação, mas ele me desanimou:

- Chamar alguém de comunista não é crime. O que podes fazer é chamá-lo de hipócrita que não respeita o próprio  celibato.

Fiquei perplexo:

- Aí, é ele quem me processa.

O dr. Adauto terminou a conversa da seguinte forma:

- Teremos como provar, mas antes disto ele buscará um acordo contigo.

Foi o que aconteceu.

O sistema me dispensou depois que realizei uma bem sucedida Marche au Flambeaux, tudo para protestar contra uma inacreditável consulta popular bancada pelos controladores da poderosa Fundição Tupi, ligad aos udenistas, e destinada a me remover da presidência da UJES. Tudo acabou em quebra-quebra. Joinville resultou ocupada pela PM de Celso Ramos.

Era hora de ir embora de Joinville para nunca mais voltar.

Em 1962, morando, trabalhando e fazendo política estudantil em Florianópolis, fui eleito presidente da União Brasileira de Estudantes Secundários (UBES), tudo no decorrer de um movimentadíssimo congresso nacionl realizado em Passo Fundo, Rio Grande do Sul. Na disputa, derrotei o líder estudantei gaúcho Aloísio Parguassu,, que mais tarde viria a ser meu amigo e Deputdo Federal. Eleito, mudei para o Rio de Janeiro. Me acomodei na sede da UNE, na Praia do Flamengo 198. O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) na época era o jovem José Serra. 

Vivi ali a minha "segunda vida"

 A vida de liderança estudantil de projeção nacional, imerso no efervescente, explosivo, revolucionário e cambaleante cenário político do governo João Goulart.

Eu me alinhava ao que se chamava de "esquerda independente". Nunca fui comunista de carteirinha, embora meu aliado natural nas lutas estudantis fosse o PCB. 

No final do mandato na UBES, 1963, fui convidado e viajei para Cuba, que 4 anos antes tinha mudado de regime. Queria conhecer e conheci Sierra Maestra, ciceroneado pelo então Ministro da Educação, Armando Art. Sierra Maestra foi onde operou o Quartel General dos barbudos guerrilheiros de Fidel Castro.

Muitos anos depois, voltei duas vezes a Cuba., mas eu já não era mais o mesmo e Cuba era outra e pior.

Depois de Cuba, voltei para Jaraguá do Sul e em seguida para Florianópolis. 

Para mim, tudo mudou na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, ano no qual eu tinha voltado a estudar, trabalhar em jornal e assessorar o Deputado Paulo Wright, que tinha dupla nacionalidade, brasileira e americana, irmão do pastor presbiteriano Jaime Wrightg que mais tarde virou comunista da linha chinesa. Ele esteve exilado em Cuba, voltou de lá em 1972, foi capturado e assassinado pelo regime militar, sem que seu corpo jamais tenha sido encontrado. Na clandestinidade, Paulo chegou a me procurar em Porto Alegre, mas não era mais o homem que eu tinha conhecido. Com o livrinho vermelho em mãos, tentou me atrair para a Ação Popular, tentei dissuadi-lo, mas tive que repeli-lo.

Quando o levante militar iniciou em Minas, em 31 de março de 1964. não pensei duas vezes: peguei um ônibus em Florianópolis, onde morava e trabalhava e embarquei para o Rio Grande do Sul, onde achei que seria possível resistir na defesa da legalidade.

Mas a realidade de 64 era abissalmente diferente de 61. 

Em 61, eu morava e era agitador estudantil em Joinville, o governo Jânio Quadros era conservador, enquanto em 64 o governo Jango era de esquerda, rumava com certeza para um regime comunista e a economia estava terrivelmente degradada. O mais importante: em 61, Leonel Brizola era o governador do Rio Grande do Sul e comandava a Cadeia da Legalidade a partir do Palácio Piratini; em 64, Brizola era apenas deputado federal pela Guanabara e o governador gaúcho era seu arqui-inimigo, Ildo Meneghetti. Não havia base institucional de apoio. A resistência armada evaporou-se antes de começar.

Em 1961, com a renúncia de Jânio, e em 1964, mais tarde, com a queda de Jango, o cenário internacional era o de Guerra Fria, configurava um quadro geopolítico fatal para a esquerda brasileira e seus aliados, já que o chamado sistema era umbilicalmente ligado ao poderio político e militar do Governo dos Estados Unidos, do qual era aliado fiel.

E foi aí que começou a minha terceira vida, a atual

Sem poder retornar a Santa Catarina, onde minha prisão já fora decretada, passei dois anos clandestino em Porto Alegre. O jornal onde eu trabalhava em Florianópolis, a Folha Catarinense, que era empreendimento bancada pelo PCB do Prestes (O Partidão, de Luiz Carlos Prestes) sem carteira assinada, embora profisisonalmente, tinha sido empastelado nas primeiras horas do dia 1o de abril de 1964 e todo mundo tinha fugido ou sido preso.

No dia 31 de março de 1964, percebi pelo noticiário da Rádio Diário da Manhã, sob controle da UDN, que o General Mourão Filho levantra em  armas a IV Divisão do Exército, Juiz de Fora, Minas. Eram 14h da tarde e  o noticiário, na época, era transmitido por alto-falantes instalados na principal praça da Capital. Eu estava ali com meu pai, que tinha viajado de Jaraguá do Sul para me ver. Mandei meu pai voltar pra casa e achei melhor procurar o Deputado Paulo Wright, com quem trabalhava. Paulo tinha gabinete na Assembleia. Procuramos o Presidente Ivo Silveira, que alcançou o dinheiro para as passagens. Consegui embgarcar na mesma noite e viajei para Porto Alegre, onde já estavam Jango e Brizola, ao que parecia ser um movimento de resistência. Comigo, viajaram dois líderes estudantes universitários, Francisco Mastella, mais tarde eleito Deputado Estadual, e Ivo Eckiert. 

Na manhã do dia 1o de abril de 1964, ao desembarcarmos do ônibus, fomos até a Prefeitura de Porto Alegre, onde resistia o Prefeito Sereno Chaise, PTB, que depois seria preso e cassado. Ao descermos a Avenida Borges de Medeiros, bombas de gás lacrimogênio espocavam para dissuadir qualquer resistência. Acabamos, o trio, escondidos num tambo de leite localizado nas cercanias do Aeroporto, tudo com a ajuda do professor Francisco Fiori e do estudante José Newton Machado. Fiori era professor da UFRGS, ligado à Ação Popular, a AP, que na época era aparelho político da Igreja Católica, mas Machado era homem do PTB.

Após alguns dias, comprando o jornal oposicionista Correio da Manhã todos os dias no aeroporto, que ficava perto do tambo de leite, Francisco Mastella e Ivo Eckiert resolveram voltar para Santa Catarina. Lá foram presos, interrogados e libertados.

Anos mais tarde, em 1968, o destino me levou à chefia de redação da sucursal do Correio da Manhã em Porto Alegre.

Eem abril de 1964, sem a companhia de Eckert e Mastella, saí do esconderijo do tambo de leite e fui parar na casa da Juventude Universitária Católica (JUC 3), na descida da rua Mostardeiro, no elegante bairro Moinhos de Vento. 

A Polícia do regime me procurava no Brasil inteiro, enquanto eu trabalhava, praticamente clandestino, em jornais como A Plateia, Livramento, Zero Hora e Rádio Gaúcha, Porto Aleagre.

Em 1966, finalmente me pegaram. 

Fui levado por uma patrulha militar da Polícia do Exército, Porto Alegre, para Curitiba, onde passei seis meses encarcerado. Aquela ainda era uma fase "romântica" da repressão: não cheguei a apanhar, mas viajei algemado até Caxias do Sul, onde o Sargento Kowalsky e os dois soldados que faziam a custódia, entenderam que eu não era perigoso e soltaram as amarras. Na viagem de 12 horas até Curitiba, só fizemos refeições e paradas em uartéis do Exército.

Em todos os quartéis, o sargento e os dois soldados eram saudados efusivamente como heróis nacionais.

Antes das minhas prisões, eu já havia conhecido a Raquel. Ela era filha de um estivador comunista, e nós dois compartilhávamos das mesmas ideias de esquerda na juventude. Assim que saí da cadeia em Curitiba, fui procurá-la para saber se continuava solteira. Em três meses estávamos casados. Digo sempre, em tom de brincadeira, que depois que me casei nunca mais fui preso pela ditadura — provavelmente achavam que um homem casado não causaria mais problemas. Antes de csar fui preso várias vezes. Minha última detenção no regime militar ocorreu por ocasião da tentativa de sequestro do cônsul americano em Porto Alegre. Eu não tinha a menor participação naquele plano terrorista, mas os sujeitos que tentaram executar a ação moravam na mesma casa que eu. Quando eles quiseram me contar o que pretendiam fazer, cortei na hora: "Não me contem nada, porque não concordo com essa ação e, se me levarem para o pau de arara e me torturarem, eu vou contar tudo! Eu não resisto à tortura!".

Quando a polícia estourou o lugar, fui parar na prisão como o primeiro da lista. Ninguém acreditava que eu morava com eles e não sabia dos detalhes. Quem me tirou do calabouço foi o jornalista Alberto André. Ele liderou uma comitiva da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) até o gabinete do Secretário de Segurança Pública, o general Jaime Mariath, e exigiu minha libertação. O general olhou para mim e disse: "Olha, o dr. Alberto André e esses jornalistas estão pedindo para soltar o senhor. Vou soltar, mas eles estão assumindo total responsabilidade pelo que o senhor fizer daqui para frente. Se for preso de novo, trago todos eles para a cadeia junto com o senhor".

Paralelamente a esses sobressaltos políticos, minha carreira no jornalismo profissional dava os primeiros passos acidentados. 

Em Florianópolis, 1960, passei a escrever para o Diário da Tarde, de propriedade do deputado Osmar Cunha, PSD. Era um jornalzinho modesto.. Eu carregava o chumbo de carrinho de mão pela rua Felipe Schmidt em direção às máquinas.

Certo dia, um terrível acidente tirou a vida dos três únicos jornalistas que compunham a redação. Fiquei absolutamente sozinho. O deputado, que estava em Brasília — vir de Brasília naquela época demorava o equivalente a vir da China —, ligou desesperado dizendo que eu tinha de assumir a chefia do jornal. Eu não sabia nada daquilo, mas assumi junto com a ajuda do colunista social.

Minha estreia na chefia foi catastrófica: escrevi um artigo injurioso, atacando o comandante do 14º Batalhão de Caçadores. /Depois disto, minha carreira de Diretor Geral acabou ali. Tive de me esconder na então inacessível Praia dos Ingleses, praia isolada, até o deputado voltar de Brasília e me demitir sumariamente no momento em que pisou na cidade.

No dia 1o de abril de 1964 cheguei a Porto Alegre para resistir, como já tinha feito com a Legalidade em 1961, mas desta vez o tiro saiu pela culatra. Como estava clandestino e sem dinheiro, procurei trabalha em algjuma redação. Fui contratado pela Zero Hora sob o pseudônimo de Adolfo Braga. Para disfarçar a fisionomia, passei a usar um óculos de grau sem precisar e deixei crescer um bigodinho. O pesadelo é que o meu chefe de redação era o delegado de polícia Wuilde Pacheco — um homem do regime que trabalhava com uma metralhadora em cima da mesa. Na redação, trabalhavam nomes brilhantes como Tarso de Castro, Marcos Faermann e João Souza. Mas olhando para aquela metralhadora diariamente, pensei: "Daqui a pouco esse cara descobre quem eu sou e me dá um tiro".

Quem me salvou foi o jornalista Hélio Gama, que tinha conseguido uma vaga na Rádio Gaúcha, mas no mesmo dia foi chamado  para integrar a equipe fundadora da revista Veja. Ele preferiu ir para São Paulo e me ofereceu sua vaga na Gaúcha. Aceitei na hora. Fiquei bem longe da metralhadora do delegado. Meu chefe direto era Dilamar Machado, homem de esquerda do PTB. Dilamar Machado foi depois Vereador de Porto Alegre, deputado estadual e Secretário de Estado.

Logo na primeira noite na rádio, o chefe do Dilamar, Ivan Castro, me ligou às dez da noite dando ordens sobre uma notícia. Respondi de pronto: "Não vou fazer coisa nenhuma! Meu chefe é o Dilamar!". Ele esbravejou que era o diretor e que ia me botar na rua, e eu rebati: "Bota nada!". Eu nem sabia quem ele era. Essa foi a tônica da minha vida nas redações: entrei e saí da Rádio Gaúcha cinco vezes; da Zero Hora, seis vezes; do Correio do Povo, umas dez vezes; da TV Piratini e da Band, outras tantas. Sempre brigado, ou porque pediam a minha cabeça, ou porque eu mandava os donos às favas.

Minha experiência mais duradoura e completa foi no  grupo RBS, da Família Sirotsky. Por ali trabahei na Rádio Gaúcha, na RBS TV, no Ano Econômico e no jornal Zero Hora, tudo entre os anos de 1964 e 1986.

Durante os anos em que fui editor da página mais importante de Zero Hora, o Informe Especial, vivenciei na pele o cinismo das grandes empresas de comunicação. Eu apurava, redigia e entregava a página pronta ao diretor-editor Lauro Schirmer. No dia seguinte, abria o jornal e via que metade das notas que eu tinha escrito tinham sido cortadas e, no lugar delas, constavam notas que eu jamais escrevera, defendendo posições diametralmente opostas ao meu pensamento.

Quando ia reclamar com a direção, a resposta era descarada: "Mas Políbio, é assim mesmo. A coluna não é assinada, tu és apenas um dos redatores e essa é a linha editorial do jornal". Eu esbravejava: "Como, redator v? Eu sou o editor da página!". Cortavam notas contra empresas que anunciavam no jornal e proibiam ataques a políticos estimação da direção. Na RBS, o jornalista de opinião tinha, como acontece até hoje, de adivinhar o rumo do vento, tudo para não pisar nos calos dos patrocinadores e dos aliados do poder.

Ainda nos tempos de Maurício Sirotsky Sobrinho, houve uma convenção de editores com os editores, em Santa Maria e eu fui chamado a participar. Durante os debates, foi criada uma comissão para unificar a linguagem de todos os veículos do grupo, composta por mim, Carlos Bastos, Lauro Schirmer e Roberto Appel. Fiquei como relator. Após quatro horas de discussões estéreis e que não chegavam a lugar algum, peguei o papel e redigi um relatório definitivo, de apenas duas cínicas linhas:

"A linha editorial dos diversos veículos da RBS será estabelecida diariamente no início da manhã, numa reunião entre o editor-chefe de Zero Hora e o proprietário, senhor Maurício Sirotsky Sobrinho. Ponto. Acabou."

O relatório foi aprovado por unanimidade. E digo sem nenhum pudor: essa é a gênese real da linha editorial de absolutamente todos os grandes veículos de comunicação do Brasil. O resto é conversa para boi dormir.

O jornal Zero Hora até chegou a elaborar um elegante Código de Ética, mas no fundo é como o cãozinho da RCA Victor: vale a voz do dono.

Episódio exemplar da voz decisiva, anos mais tarde comprovei numa conversa que tive com o brilhante jornalista Paulo Henrique Amorim. Nós estávamos num táxi. Eu acompanhava Paulo Henrique ao Aeroporto de Porto Alegre conversávamos sobre nossas atividades. Na época, ele era colunista de O Globo e eu de Zero Hora. Quando reclamei da interferência da direção no meu trabalho, Paulo Henrique falou com aquele sotaque carregado de carioca:

- Não esquenta. Uma vez, fui reclamar com o dr. Roberto Marinho no seguinte tom queixoso: "Dr. Roberto, mexeram na minha coluna". Ele nem me olhou e respondeu curto e grosso, escandindo cada palavra para não deixar dúvida sobre seu estado de ânimo: "Sua coluna ? Fique sabendo que eu sou o dono do jornal, portanto dono da sua coluna".


O Bastidor do Poder, Brizola, Collares e a Ruptura

Se há algo que aprendi ao longo de décadas circulando nos bastidores da política e da imprensa é que o jornalismo tradicional brasileira sempre viveu  numa simbiose hipócrita com o poder. Ao longo da minha carreira, atuei como jornalista e como agente político. Transitei entre redações e gabinetes governamentais. Cheguei a ser consultor jurídico do Banerj, Rio de Janeiro, nomeado por Leonel Brizola. Antes disto, junho de 1988, fui Secretário da Indústria e Comércio, Secretário da Fazenda, sendo que em 1992 assumi a chefia da Casa Civil no governo estadual de Alceu Collares (PDT).

O episódio da saída ruidosa da Casa Civil, 1992, significou o fim da minha atividade em governos.

Alceu Collares era um mestre na arte da hipocrisia política. Numa determinada manhã, ele me chamou ao seu gabinete no Palácio Piratini, tirou um papel da gaveta e disse que havia recebido um "dossiê anônimo" com denúncias contra mim. Queria que eu investigasse o caso. Olhei bem para a cara dele, peguei o documento e disse de cara: "Não vou tocar nisso aí. Eu conheço o teu jogo, Collares. Sei perfeitamente que foi você quem mandou a P-2 da Brigada Militar armar esse dossiê contra mim. Estou me demitindo do cargo agora. Vou sair desta sala e vou te denunciar para a imprensa".

Ele se levantou furioso: "Eu sou o governador e você me respeita!". Retruquei na mesma moeda: "Desde quando vou te respeitar? Tu não te dás ao respeito!". Saí do gabinete, chamei os repórteres no corredor do Piratini e escancarei a manobra. As acusações do tal dossiê eram ridículas: diziam que eu tinha concedido uma passagem de ônibus para o presidente da Fracab ir a um congresso no Rio de Janeiro e que tinha feito um churrasco de aniversário num clube da Brigada Militar com verba pública. Tudo armação barata da P-2.

O Governador já tinha feito exatamente a mesma canalhice com outros companheiros do PDT: armou dossiês falsos contra Milton Zuanazzi na CRT, contra Leonid Streliaev na TVE, contra o professor Eduardo Dutra Aydos na Fundação de Recursos Humanos, contra Aldo Pinto na Secretaria da Agricultura e contra Newton Alves na Cohab. O modus operandi era sempre o mesmo: ele fabricava a acusação via serviço de inteligência e espalhava notinhas caluniosas nos jornais através de jornalistas chapa-branca que se prestavam ao serviço de recusa do governo de plantão. Um desses jornalistas era da RBS. Na época, levei a denúncia documentada ao Diretor de Redação da época, o jornalista Augusto Nunes, atraído pela Família Sirotsky ao Rio Grande do Sul para transformar o diário Zero Hora num grande jornal do Brasil, o que conseguiu. 


A Ilusão da Esquerda e o Surmento do Petismo

Muita gente me pergunta como um homem que passou a juventude na esquerda, combatendo a ditadura e sofrendo prisões, tornou-se um dos mais ferrenhos opositores da esquerda e do Partido dos Trabalhadores. A resposta é simples: até os meus quarenta anos, eu acreditava genuinamente que a esquerda lutava por liberdade, por pluralismo e pelo restabelecimento do Estado Democrático de Direito. ILUSÃO.

A minha grande decepção não foi uma mudança repentina de valores individuais, mas a constatação fática de que a esquerda brasileira carrega em seu DNA um viés autoritário, incapaz de conviver com o contraditório e com a imprensa livre. Quando combatíamos o regime militar, eu estava ao lado da esquerda não-armada defendendo a liberdade de expressão. Pensei que eles queriam o mesmo. Tolo engano. Na verdade, eles não queriam destruir a ditadura para instalar a democracia; queriam derrubar a ditadura militar para colocar no lugar uma ditadura de esquerda. Eu não queria ditadura nenhuma.

A história do Brasil nos mostra que governos de centro ou de esquerda tradicional do passado não agiam com o fel e o aparelhamento destrutivo que o PT introduziu no País. Getúlio e Jango enfrentaram oposições ferozes de jornais e rádios, mas jamais orquestraram uma patrulha sistemática para estrangular financeiramente veículos ou cassar o sustento de jornalistas. Eles não cortavam publicidade oficial de jornais para exigir a demissão de críticos, não usavam a polícia para intimidar repórteres nem acionavam a máquina do Judiciário em bloco para falir profissionais.

O PT, não. O PT transformou a gestão pública num trator de perseguição ideológica. E tudo isso não começou em Brasília com o governo Lula em 2003; começou muito antes, no dia 1º de janeiro de 1989, quando Olívio Dutra assumiu a Prefeitura de Porto Alegre.

Porto Alegre e o Rio Grande do Sul foram os laboratórios onde o PT testou a engenharia do autoritarismo e da censura oblíqua que mais tarde tentaria implantar no Brasil inteiro. As propostas de "controle social da mídia" e o natimorto "Conselho Nacional de Jornalismo", tentados pelo governo Lula no plano federal, nada mais foram do que a cópia amarelada daquilo que nós, jornalistas gaúchos, já havíamos enfrentado e combatido nos anos 1990 em Porto Alegre e no Palácio Piratini.

Quem estudou a história do comunismo — como eu estudei —, quem leu as biografias de Stalin e examinou as entranhas dos regimes totalitários na União Soviética, em Cuba ou na China (países que visitei diversas vezes), reconhece o figurino de imediato. Nesses países não existe imprensa livre; os jornalistas são reles funcionários do Estado e do Partido Único, e a informação é totalmente tutelada.

Quando vejo dirigentes petistas reclamando de suposta perseguição da mídia, sou obrigado a rir para não chorar. O que a esquerda realmente quer não é uma imprensa justa; quer uma imprensa totalmente amordaçada e curvada aos seus projetos de poder.

O Cerco e o Laboratório Petista em Porto Alegre (1989–1998)

A minha guerra contra o aparelhamento petista começou no primeiro mês da administração de Olívio Dutra na Prefeitura de Porto Alegre, em 1989. O governo municipal resolveu intervir brutalmente nas empresas de transporte coletivo da capital. Fiz críticas duríssimas àquela medida truculenta na minha coluna no Correio do Povo. A resposta do prefeito Olívio foi imediata: moveu uma ação judicial cível contra mim baseada na antiga Lei de Imprensa.

Antes de mover o processo, Olívio tentou me amansar. Convidou-me para um almoço no restaurante Treviso, no Mercado Público. Quando ele me ligou fazendo o convite, respondi no meu estilo meio brincalhão, meio sério: "Só aceito se tu te comprometeres a não me envenenar durante o almoço!". Tivemos uma conversa socialmente agradável — Olívio é um sujeito de trato pessoal afável quando fala de assuntos irrelevantes —, mas na política era implacável. O processo dele contra mim acabou caindo por um erro crasso do advogado dele, o doutor Marco Túlio de Rose, e nem chegou a ser julgado no mérito.

Logo em seguida, o Secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre, Caio Lustosa, me processou duas vezes consecutivas pela Lei de Imprensa por causa de notas críticas que publiquei. Na primeira, cometeu erro processual; na segunda, fui levado a julgamento e absolvido. Quando me preparei para voltar à carga contra a secretaria, a direção do Correio do Povo, amedrontada com o contexto político, censurou minhas notas dizendo que "já era demais".

A máquina de comunicação da Prefeitura de Porto Alegre foi transformada numa monstruosa engrenagem de propaganda e patrulhamento. Durante as quatro gestões petistas na capital (1989–2004), a Coordenação de Comunicação Social virou um feudo com mais de 110 profissionais, entre servidores, cargos em comissão e estagiários. Nomes como Félix Valente, Vera Spolidoro, Ilza do Canto e Ayrton Kanitz revezavam-se no comando desse aparelho.

No último ano do governo João Verle, a verba publicitária da prefeitura atingia o equivalente a mais de R$ 8 milhões de reais em valores atualizados. Esse dinheiro irrigava agências companheiras como  era torrado na produção de um único programete semanal de rádio e TV, o "Cidade Viva", produzido sucessivamente pela Cooperativa de Vídeo, Eixo Z, Radioativa e Competence. Era a utilização da máquina pública para construir uma hegemonia cultural e sufocar as vozes dissonantes.

Enquanto os grandes veículos de comunicação do centro do País — e parte da mídia paulista — fechavam os olhos ou aplaudiam o "modelo de Porto Alegre", nós, um pequeno grupo de jornalistas gaúchos, fazíamos o enfrentamento diário por nossa conta e risco. A maioria da imprensa tradicional gaúcha e das lideranças empresariais capitulou ou preferiu se omitir diante dos abusos, deixando a defesa da liberdade de expressão nas mãos de poucos profissionais que recusavam o cabresto.

O Terrorismo de Estado no Governo Olívio Dutra (1999–2002)

Se a experiência na Prefeitura foi o laboratório, a chegada de Olívio Dutra ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul, em 1999, representou a deflagração de uma guerra aberta contra a imprensa independente. O homem forte da comunicação do Palácio Piratini era o jornalista Guaracy Cunha, que se tornou o czar absoluto da área. Ele não apenas patrulhava o conteúdo dos jornalistas gaúchos, mas utilizava a verba publicitária do Estado como chibata para premiar os submissos e punir exemplarmente os críticos.

Como minha relação com o PT já era de hostilidade declarada desde 1989, a minha recepção no governo estadual foi a inclusão imediata do meu nome num verdadeiro Index da Secretaria de Comunicação do Governo. A inclusão nesse Index trazia consequências dramáticas para o meu trabalho diário:

  1. Fui proibido de receber qualquer release ou informação oficial de todas as secretarias e órgãos do governo estadual.
  2. Tive o acesso cortado a qualquer autoridade do Estado. Não adiantava solicitar entrevistas com secretários, diretores de autarquias ou com o governador: a porta estava trancada.
  3. Fui sumariamente banido da lista de convidados para todos os atos oficiais e não-oficiais. Solenidades, coletivas de imprensa, cafés da manhã ou almoços de trabalho: eu era considerado persona non grata.

Durante os quatro longos anos do Governo Olívio Dutra, não pisei no Palácio Piratini e nem em nenhuma repartição pública estadual. A única exceção ocorreu quando fui intimado a prestar depoimento numa Delegacia de Polícia da Polícia Civil, na condição de investigado.

O motivo da intimação? Escrevi uma nota denunciando perseguições políticas no Banrisul. Os diretores petistas do banco, irritados, acionaram o Ministério Público Estadual para forçar a Polícia a arrancar o nome da minha fonte. Compareci à delegacia constrangido. O delegado, de forma muito cortês, me disse: "Olha, Políbio, estou constrangido de te perguntar isso, mas recebi o pedido do Ministério Público e sou obrigado a cumprir".

Olhei para o delegado e respondi firmemente: "O senhor nem poderia me fazer essa pergunta. A Constituição Federal me garante categoricamente o direito ao sigilo da fonte". Ele insistiu que era sua obrigação formal perguntar, e eu, obviamente, não abri o sigilo. Não abro sigilo de fonte em hipótese alguma. (Nesse mesmo período conturbado, a Polícia Federal também me intimou a prestar depoimento para tentar me arrancar a fonte de uma reportagem que fiz sobre esquemas nos Correios, e mantive a mesma postura inabalável).

Mas a perseguição policial e governamental do PT não parou por aí. Guaracy Cunha e a cúpula do Piratini foram diretamente aos veículos de comunicação onde eu trabalhava para exigir a minha cabeça. Foram à direção da Rádio Bandeirantes e da Gazeta Mercantil e aplicaram uma chantagem financeira sórdida: cortaram 100% da publicidade estatal nesses dois veículos e condicionaram o retorno dos anúncios à minha imediata demissão.

Resultado: fui demitido simultaneamente e sucessivamente da Gazeta Mercantil e da Rádio Bandeirantes por pressão direta do Palácio Piratini. O mesmo terrorismo econômico foi praticado contra o Novo Jornal, de Caxias do Sul, para onde eu escrevia. O Governo Olívio asfixiou o jornal cortando todas as verbas publicitárias até obrigar o veículo a fechar as portas definitivamente.

A tática petista era a destruição total do indivíduo. O governo fez comigo tudo o que estava ao alcance da máquina estatal:

  • Cortou minhas fontes de suprimento de informação;
  • Cassou meus empregos no rádio e na imprensa escrita;
  • Intimou-me em delegacias policiais;
  • Moveu dezenas de processos judiciais cíveis e criminais para tentar me colocar na cadeia e tomar o meu patrimônio familiar através de indenizações pesadas.

A única coisa que faltou Olívio Dutra fazer comigo foi mandar me matar ou me trancar fisicamente numa cela, porque o resto ele tentou de tudo. E essa crueldade não foi aplicada só contra mim; estendeu-se a duas dezenas de profissionais corajosos, como Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto Simões Pires e José Barrionuevo.

No final do governo Olívio, a situação de sufocamento financeiro e profissional era tão desesperadora que eu costumava dizer, com meu humor ácido, que só não pedi socorro à Associação Protetora dos Animais porque o Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, liderado por Jair Krischke, acudiu a mim e aos colegas a tempo, dando-nos suporte moral e institucional para manter a dignidade.

O Desagravo na OAB e a Estratégia dos Processos em Massa

No dia 10 de dezembro de 2000, às 20 horas, vivi um dos momentos mais emblemáticos dessa resistência. O auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio Grande do Sul estava lotado por um público apreensivo e nervoso. Havia um clima de tensão palpável no ar, agravado pelo fato de o então presidente da OAB gaúcha, Nelson Batista, ter se recusado a compor a mesa e a ceder formalmente a casa, decidindo, na prática, agravar ainda mais os jornalistas perseguidos.

Com vinte minutos de atraso, Jair Krischke abriu os trabalhos da sessão de desagravo público aos doze jornalistas perseguidos pelo Governo Olívio Dutra. Cada um de nós — eu, Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto Simões Pires, José Barrionuevo e outros companheiros de luta — recebeu uma pomba de acrílico transparente, uma obra de arte belíssima concebida pelas mãos do artista plástico uruguaio Mario Cladera.

Aquele ato não era apenas uma cerimônia simbólica; era o grito de socorro de uma imprensa acossada pela sombra do autoritarismo estatal. Muitos outros profissionais do interior e da capital pagaram preços altíssimos, no anonimato, por acreditarem que podiam criticar o PT com a mesma liberdade com que criticavam qualquer outro governo democrático.

Derrotado nas urnas e desmascarado publicamente, o petismo mudou de tática nos anos seguintes: passou a utilizar a metralhadora de processos judiciais coordenados. Entre 2005 e 2006, fui vítima de um verdadeiro cerco jurídico orquestrado. A cada dois meses, brotava uma nova ação judicial contra mim. Cheguei a responder a 19 processos simultâneos!

A orquestração era evidente: os advogados das partes eram os mesmos, e os autores eram sempre figuras do PT, parlamentares ou entidades sindicais aparelhadas.

  • Tive processos movidos pelo deputado Frei Sérgio Göergen (PT) — caso em que me baseei numa fonte que se provou falsa, admiti o erro, mas fui condenado nas duas instâncias a indenização e pena de prisão, convertida por ser primário;
  • Fui processado por quatro diretores petistas do Banrisul;
  • Duas ações movidas pela organização do Fórum Social Mundial (fui absolvido no crime e condenado no cível);
  • Processos movidos pelo CPERS, pela agência de publicidade Intelig, pelo Sinttel (Sindicato dos Telefônicos) e por cinco diretores dos Correios do RS;
  • Recebi e-mails com ameaças veladas de processos vindas de Eliezer Pacheco (marido da deputada Maria do Rosário) e do ex-procurador-geral do município, Rogério Favretto, ambos instalados em cargos poderosos no Palácio do Planalto durante o governo Lula.

Diante dessa avalanche, tomei uma decisão radical que mudou minha vida: demiti meus advogados e passei a fazer a minha própria defesa em juízo. Como sou formado em Direito, percebi que os advogados que eu contratava estavam perdendo uma causa atrás da outra. Pensei comigo: "Se é para perder e ir para a cadeia, que seja comigo me defendendo! Pelo menos economizo dinheiro e não perco tempo". Assumi a minha defesa e o resultado foi surpreendente: passei a ganhar a esmagadora maioria das ações, somando absolvições sucessivas na primeira e na segunda instâncias.

A Reinvenção na Internet e a Criação do Portal

Quando o PT conseguiu me varrer simultaneamente da Gazeta Mercantil e da Rádio Bandeirantes, vi-me num momento de profundo isolamento profissional. Olhei para o mapa dos veículos de comunicação de Porto Alegre e perguntei a mim mesmo: "Para onde posso ir agora?".

A RBS não me contrataria nem com banda de música; a Caldas Júnior não me queria nem pintado de ouro; a Band fechara as portas. Os donos de jornais sabiam que, se me colocassem para dentro da redação, eu criaria uma confusão dos diabos em menos de 24 horas. Cheguei a considerar seriamente a hipótese de abandonar o jornalismo e me dedicar exclusivamente à advocacia.

Mas eu sou um homem ativo. Não tenho espaço para vitimismo na minha vida. Pode me acontecer a pior desgraça do mundo que eu não vou me deitar no chão para chorar ou achar que estou liquidado. Eu sempre caminho para a frente. E foi no meio desse cerco sufocante que enxerguei a luz de uma revolução tecnológica que estava apenas começando: a internet.

Minha história com a rede vem de longe. Quando surgiu o Via-RS — o primeiro provedor de internet do Rio Grande do Sul, há mais de uma década —, eu fui o primeiro jornalista gaúcho a assinar e manter uma coluna diária na internet. Se um dia alguém se der ao trabalho de escrever a história do jornalismo digital neste País, vai ter de encontrar o meu nome na gênese.

Anos mais tarde, quando eu ainda estava na Rádio Bandeirantes, o diretor Bira Valdez sugeriu que eu criasse um site para a emissora abrigar a minha coluna. Criei o projeto do zero. A coluna na página da Band começou a dar um retorno espetacular. Um dia, um leitor ligou para a rádio e perguntou: "Por que o Políbio não cria um sistema de assinatura para mandar essa coluna por e-mail?". Eu nem sabia como funcionava aquilo. Fui pesquisar, descobri a ferramenta do e-mail em massa e lancei a ideia. A resposta dos leitores superou todas as expectativas.

Quando rompi com a Bandeirantes — após o Bira Valdez passar a me assediar moralmente no ar para agradar ao governo Olívio que cortara as verbas da rádio —, levantei da mesa no meio do programa ao vivo, peguei meu casaco e minha pasta e nunca mais voltei. Quando vieram me oferecer o acerto financeiro, mandei uma resposta fulminante: "Peguem esse dinheiro e mandem para uma ONG de caridade ligada ao PT! Não quero esse dinheiro sujo do Palácio Piratini!". Levei a rádio para a Justiça do Trabalho e arranquei uma bolada.

Livre das amarras de patrões e de governos, fundei o meu próprio veículo: o site [www.polibiobraga.com](https://www.polibiobraga.com).br.

A internet me deu o que a grande mídia sempre me negou: LIBERDADE ABSOLUTA. Se antes as minhas denúncias eram limadas pelos diretores e editores medrosos dos jornais, agora o dono do negócio era eu mesmo. Lancei a minha newsletter diária, que atingiu a marca impressionante de mais de 90 mil assinantes diretos. Passei a publicar absolutamente tudo o que apurava. O volume e a gravidade das denúncias contra os desmandos do PT cresceram em progressão geométrica. Afinal, durante o governo Olívio, o que acontecia no Rio Grande do Sul era coisa para se escrever um livro por dia.

Ironicamente, a perseguição e o ódio do PT foram os melhores combustíveis para a minha carreira. Todas as vezes que eles conseguiram me colocar na rua de um veículo, fui para outro, ganhando o dobro; quando me fecharam as portas da imprensa tradicional, fui para a internet e construí minha independência financeira e editorial. Costumo dizer: se o PT ficasse mais vinte anos no poder me perseguindo, eu acabaria virando milionário! Eles me obrigaram a me reinventar.

Métodos de Trabalho, Ideologia e o Futuro

Hoje, olho para a minha mesa de trabalho abarrotada de documentos, relatórios e livros densos. Não consigo escrever uma única linha sobre qualquer assunto sem antes investigar a gênese, a origem histórica daquilo. Quantas vezes perdi a chance de dar um "furo" jornalístico apressado só porque me recusei a publicar antes de compreender profundamente a raiz do problema?

Defino meu estilo de trabalho com clareza: sou um jornalista minucioso, trabalhador, brigão e profundamente indignado com a degradação ética do Brasil. Vivo intensamente ao lado da minha esposa Raquel e acompanho com orgulho a trajetória dos meus dois filhos, Frederico e Pedro Mariano. Continuo escrevendo diariamente para o meu portal e assinando minha coluna no jornal O Sul, do grupo Pampa, onde encontrei espaço para trabalhar sem as amarras cínicas do passado.

Minha rotina de autopublicação no site hoje passa por um filtro curioso: escrevo absolutamente tudo o que quero, do jeito mais incisivo e visceral possível. Depois, sento na cadeira do editor, leio o meu próprio texto e começo a cortar os excessos. Aprendi a me autocensurar para não dar munição fácil aos canalhas, mas sem jamais perder a contundência.

Politicamente, não tenho pudor em dizer: dentro das categorias vigentes, sou um homem de direita. Minha bronca com o PT ultrapassou a esfera política tradicional e virou uma questão quase psiquiátrica: eles são ressentidos comigo e eu sou visceralmente ressentido com eles. Cheirou a militante ou dirigente petista perto de mim, a briga está formada no ato.

Assistimos no Brasil a uma degradação moral, ética e institucional sem precedentes. O cidadão de bem está encurralado pela impunidade, pela violência e pelo mal exemplo que vem de cima. Como dizia o Cardeal de Retz: "Quando os de cima se desmoralizam, os de baixo perdem o respeito". As elites políticas que governam o Brasil atual são as piores que já vi em toda a minha vida.

O brasileiro está exausto da inversão de valores, de bandido protegido e de discurso politicamente correto. Acredito firmemente na lei, na ordem e no cumprimento rigoroso das regras. Elas são para todos. 

Sou um sobrevivente das prisões da ditadura militar e do terrorismo econômico-judicial das ditaduras disfarçadas da esquerda. Nunca me vergaram. Continuo aqui, no meu escritório, de pé, firme, com a caneta  e o teclado afiados, sempre pronto para a próxima briga. Porque enquanto houver alguém querendo amordaçar a verdade, atentando contra a liberdade de expressão, eu não vou me calar.