Artigo, Percival Puggina - O AI-5 no espelho e a prisão de Bolsonaro

 Artigo, Percival Puggina - O AI-5 no espelho e a prisão de Bolsonaro

O autor é editor do Blog do Puggina.

 Não é porque algum professor me contou que conheço a história dos governos militares, mas porque estive bem vivo, jovem e atento no decurso dos acontecimentos.

Entrei na faculdade de Arquitetura da UFRGS aos 19 anos, em março de 1964 (remember the date?) e já atuava na política estudantil havia cinco anos. Quando o AI-5 foi editado, no dia 13 de dezembro de 1968, eu tinha terminado os cinco anos do curso, estava esperando os registros profissionais e ia casar.

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 A desembargadora Solange Salgado da Silva, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), revogou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, detido pela Polícia Federal quando tentava deixar o país. A magistrada havia mantido a prisão inicialmente, mas reconsiderou o entendimento dias depois e aplicou medidas cautelares.


A atuação de Solange foi alvo de investigações de grande porte durante sua passagem pela Associação dos Juízes Federais da 1ª Região (Ajufer). Em 2010, uma auditoria interna determinada pela então corregedora nacional Eliana Calmon identificou a contratação de 45 empréstimos simulados junto à Fundação Habitacional do Exército (FHE/Poupex), totalizando cerca de R$ 6 milhões.


Os contratos foram assinados por ex-presidentes da Ajufer — entre eles Moacir Ferreira Ramos, Solange Salgado, Charles Renaud e Hamilton Dantas. Segundo relatório da FHE, as operações causaram prejuízo superior a R$ 20 milhões. A auditoria apontou ainda o uso não autorizado de dados cadastrais de magistrados, movimentações por contas de terceiros, depósitos relacionados a empresas e repasses considerados suspeitos.


Em abril de 2011, quarenta juízes federais solicitaram abertura de investigação disciplinar ao TRF-1, afirmando que seus nomes teriam sido usados “de forma irresponsável, temerária e fraudulenta”. O então corregedor, desembargador Cândido Ribeiro, instaurou processo administrativo e registrou que os ex-presidentes da entidade — incluindo Solange — haviam assinado contratos classificados como fraudulentos.


O processo disciplinar resultou na aplicação da pena de disponibilidade à magistrada. Posteriormente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anulou a punição por ausência de quórum qualificado, encerrando o procedimento sem alterar as conclusões das auditorias.


No caso mais recente envolvendo o Banco Master, Solange Salgado primeiro manteve a prisão preventiva dos investigados, citando riscos ao andamento da investigação. Dias depois, reviu sua própria decisão e substituiu a prisão por medidas cautelares.


As acusações registradas nas auditorias internas da Ajufer e nos relatórios da FHE — incluindo empréstimos simulados, contratos fraudulentos e uso indevido de dados de magistrados — permanecem documentadas como parte do histórico funcional da desembargadora.




Artigo, especial, Ives Gandra Martins - As mensagens do Legislativo

O Senado Federal aprovou, para um novo mandato, o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. A votação foi apertadíssima: ele precisava de 41 votos e obteve 45. De certa forma, essa votação foi, a meu ver, um recado à Suprema Corte.

Tenho com Paulo Gonet uma amizade de mais de 30 anos. Sempre o admirei como professor e como diretor do Instituto de Direito Público (IDP), fundado pelo Ministro Gilmar Mendes. De ambos recebi o título de Professor Honoris Causa do Instituto de Direito Público, o que muito me honrou.

Paulo Gonet é um profundo conhecedor do Direito Público no Brasil, um grande jurista e uma nobre figura, com sólidas convicções religiosas, razão pela qual entendo que a votação apertada tenha sido uma indireta do Congresso ao Supremo Tribunal Federal.

Ocorre que, merecidamente, ele foi indicado Procurador-Geral da República pelo Ministro Gilmar Mendes, com apoio total dos onze Ministros do Supremo.

Contudo, a linha que o Supremo Tribunal Federal adotou, de ser também legislador —, ou seja, de substituir o Poder Legislativo em muitos momentos (desde o artigo 19 do Marco Civil da Internet, passando pela anencefalia, marco temporal das drogas e pelo casamento de homossexuais, que são matérias de competência do Legislativo) — é o que causa um desconforto muito grande ao Legislativo.

Acredito, ainda, que essa mensagem do Poder Legislativo tenha também o presidente Lula comdestinatário, haja vista a indicação do futuro Ministro da Corte que irá substituir o Ministro Luís Roberto Barroso.

Conheço Jorge Messias. Ele é um candidato natural, de confiança do presidente Lula, bom advogado e com sólida formação cristã.

Tenho a sensação, entretanto, de que seu apadrinhamento também gera desconforto ao Senado Federal, que gostaria de ter como candidato o ex-presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, que foi muito alinhado com o presidente Lula, a ponto de colocar em discussão no Senado apenas aquilo que agradava o presidente petista. Ele tem livre trânsito no Senado e é o candidato do presidente do Legislativo.

Fato é que a votação apertada para um jurista brilhante como Paulo Gonet — por ele ter tido o apoio total do Supremo, o que gera grande desconforto a uma área considerável do Senado pela invasão de competência do STF em sua competência legislativa —, faz com que haja uma preocupação na indicação do futuro ministro do Supremo pelo presidente Lula. Ora, a atuação do Supremo, ao legislar naquilo que a Constituição manda ser competência exclusiva do Congresso Nacional (art. 49, inciso XI), é o ponto central dessa tensão.

Tal votação foi, portanto, um alerta e uma mensagem. Cabe agora ao Presidente da República negociar com os senadores, caso queira manter a candidatura de seu fiel escudeiro, Jorge Messias, que é um homem de convicções cristãs e de boa formação moral, mas que parece não ter no Senado o apoio que necessitaria para ser aprovado.

Pessoalmente, sempre pensei que, mesmo na época em que vivíamos um regime de exceção militar, os responsáveis indicavam nomes de professores de notável saber. Se analisarmos os que foram indicados naquele período — Moreira Alves, Oscar Dias Corrêa, Moacyr Amaral Santos, Thompson Flores, etc. —, perceberemos que eram todos titulares em grandes universidades do Brasil.

Perdemos um pouco esse critério de nomear grandes juristas, passando a indicar pessoas com atuação na área jurídica de conhecimento geral, menos de notável saber e mais de notório conhecimento por parte da população.

De qualquer modo, o presidente Lula deve ter sentido que terá que trabalhar para conseguir que seu candidato a ministro do Supremo venha a ser aprovado pelo Senado.

O episódio da votação de Paulo Gonet e a iminente indicação ao STF de Jorge Messias revelam uma grave falha na governança federal: a politização excessiva de instituições que deveriam primar pela técnica e impessoalidade. 

Ao insistir em um nome como Jorge Messias, notório por sua lealdade pessoal e política em detrimento de um perfil de "notável saber jurídico" inquestionável — critério histórico e de excelência —, o Governo Federal prioriza o alinhamento ideológico e a blindagem política dentro da Corte Suprema. Essa estratégia não apenas desrespeita o Senado, ao tentar impor um nome, como também mina a confiança pública na independência do Poder Judiciário, transformando a mais alta corte do país em um mero reflexo do Poder Executivo e perpetuando um ciclo de indicações que favorecem a proximidade em vez da competência supr apartidária, enfraquecendo o sistema de freios e contrapesos democrático. 

Vamos acompanhar o que acontecerá nos próximos meses dessa jogada exclusivamente política, que deveria ser apenas jurídica.

 

 Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Region al Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).


Artigo, especial - Marcus Vinicius Gravina - A Sabatina e o batismo

Marcus Vinicius Gravina é advogado, Caxias do Sul,RS.

OAB-RS 4949


A sabatina, para o STF, não é sessão de debates para a avaliação das condições essenciais do candidato. Muito menos, espaço para louvação ao indicado pelo presidente da República para ganhar “doce de coco”. 

Deve ser uma arguição pública para que o candidato ao cargo seja avaliado sobre as suas qualidades mais importantes, como a de sua integridade moral e fidelidade à Constituição Federal, coisa rara no momento.

Em uma única oportunidade, de duração fugaz, querem os poderosos, que se acredite na função cumprida pelo Senado: “missão dada é missão cumprida”.

O papel do Senado tem sido semelhante ao de um padre junto à pia batismal.  Dá uma borrifada na testa da criança e ela passa a fazer parte da Igreja, 

Jamais, deveria ser o que é hoje, um engodo. Transformou-se numa operação de compra e venda de votos, com vários tipos de moedas: emendas parlamentares e chantagens, do tipo deixar prescrever ações judiciais contra deputados e senadores da “comissão batismal”. 

Falo de processos que dormitam nos gabinetes de alguns ministros do STF para servirem de moeda de troca em situações como esta e preventivas ou salvadoras de pedidos de impeachment.

Há muito a cogitar sobre o ato destinado ao Senado. Diante das suspeitas de fortunas em dinheiro e bens de certos ministros no exterior, a sabatina teria que ser precedida da declaração de bens e rendas exigida pela Lei 8.730/93 e não somente no momento da posse, como ela prevê. 

Muito se saberá da idoneidade e caráter do candidato antes de ocupar a cadeira de ministro. Isto é, se os bens, eventualmente, possuídos no exterior foram declarados ou se estão em nome de suas esposas. Esta tarefa fiscalizadora é dever do Senado. Quando irá cumpri-la?

Em sabatinas, no meu tempo se tirava nota baixa ou até se “rodava”.

Não é garantia de aprovação. Já acontecia que alguns professores recebiam presentes antes delas para facilitar. Não há novidade no “beija mão”, de hoje. 

Deveria ser crime, peitar quem irá sabatinar o candidato ao STF.  Em nome dos cidadãos brasileiros os senadores têm o dever de aguardar o dia da sabatina para ter contato reservado com o candidato e não tomar cafezinho com quem irá pedir o seu voto.  Assemelha-se, a um constrangimento ilegal.  

Alguns ministros do STF que passaram pela mesma farsa, assumiram o compromisso de respeitar o Devido Processo Legal, e acatar o Princípio de Imparcialidade. Descumpriram e continuam insistindo na inconstitucionalidade de suas decisões e nada acontece. 

A obrigação de julgar os ministros do STF é do Senado. Ninguém está acima do Senado. Sabatina não é namoro.

Senhores Senadores, vocês estão no radar do povo brasileiro que quer, pacificamente, reagir a tanta infamia diária.  Cumpram a sua parte!

Caxias do Sul, 29.11.2025


Brasil não vai à guerra

A questão deste do militar e político imposto pelos Estados Unidos contra a ditadura que eu chamo de narco-cleptocomunista da Venezuela, ampliada hoje com a decisão de Trump de fechar o espaço aéreo do País, tem muito a ver conosco, brasileiros, por duas razões principais:

1o, porque existem quase 300 mil refugiados venezuelnos  no Brasil e a Operação Acolhida, lá no Acre, prossegue.

A diáspora de venezuelanos que escapam da ditadura de Maduro e da miséria econômica, é a maior de toda a América Latina. Já são 3,4 milhões. Não é pouco para uma população de 30 milhões. 

2o, porque o atual governo lulopetista brasileiro e seu Partido principal de apoio, o PT, morrem de amores pela ditadura venezuelna. O governo tem se mnifestado publicamente contra o cerco militar e político imposto por Trump. Lula disse isto pessolmente a Trump. Ele tem ficado quieto, no entanto, por interesse, ou seja, para se acertar no atual contencioso com os Estdos Unidos, mas gente sua, como o MST de Stédile, já organizam falanges de sem-terra para combater ao lado de Maduro.  

Eu espero que o próprio Stédile ganhe coragem e vá para lá combater os americanos. Ou o deputado Paulo Pimenta, a comunista Manuela D'Ávila e outros apoiadores de Maduro.

O presidente Trump disse, ontem, com todas as letras, que vai mandar tropas para entrar em território da Venezuela, de modo pontual, para atacar ninhos de narcotraficantes, porque segundo ele, o cerco naval imposto nas costas venezuelanas, já interrompeu 85% do tráfego que existia para levar cocaína para os Estados Unidos.

O bloqueio marítimo e agora aéreo, estão completos e só falta avançar por terra.

Eu imagino que realmente seja este o próximo passo dos Estados Unidos, já que o cerco naval poderosíssimo, a declaração sobre exclusão aérea e a decretação do cartel El Soles como organização terrorista internacional, foram atos preparatórios para operações em terra, tudo no caso de Maduro e seus asseclas não decidirem sair por bem.

Este é o método Trump.

O governo americano irá para o ataque terrestre a qualquer momento, mas antes disto, Trump falou pelo telefone  com Maduro, aconselhando-o a ir embora com a sua gente.]

É iminente a vez de um ataque pontual a algum ninho de narcotraficantes ou um ataque direto ao Palácio Miraflores, sacando dali o ditador Maduro e levando-o para Guantanamo.

Os Estados Unidos já fizeram algo parecido no Panamá.

Sim, os Estados Unidos invadiram o Panamá em 1989 com o objetivo de capturar o então ditador Manuel Noriega, em uma operação militar conhecida como "Operação Justa Causa". Noriega foi levado para os EUA, julgado e preso. 
A ação ocorreu na madrugada de 20 de dezembro de 1989, durante o governo do presidente George H.W. Bush.
E o Brasil ?
O governo Lula e seus aliados farão discursos e tirarão notas, mas nada além disto.
Nada de ir à guerra.


Artigo, especial, Dagoberto Lima Godoy - Poço de Lobato, tarifaço de Trump e a guerra de narrativas sobre o crime organizado

Dagoberto Lima Godoy é advogado e engenheiro, ex-presidente da Fiergs e ex-representante do Brasil na OIT.

A Operação Poço de Lobato, desencadeada contra o Grupo Fit/Refit, é mais do que uma ação fiscal de grande porte. Ela virou, em poucas horas, um capítulo da disputa política entre Brasília e Washington sobre quem, afinal, está sendo rigoroso — ou leniente — com o crime organizado.

Em suas declarações, o ministro Fernando Haddad explicitou um ponto politicamente explosivo: o crime organizado brasileiro estaria usando empresas constituídas no estado de Delaware, nos Estados Unidos, tratado na prática como paraíso fiscal, para viabilizar esquemas de lavagem de dinheiro e evasão. 

Ou seja: no momento em que o Brasil mostra os dentes contra um grande sonegador doméstico, aponta também o dedo para as fragilidades do sistema jurídico-financeiro americano.

Do outro lado da mesa, o governo Trump vem esticando o conceito de terrorismo. Na prática, “terrorismo” deixa de ser uma categoria relativamente bem delimitada e vira instrumento político elástico, capaz de justificar sanções financeiras pesadas e, no limite, ações militares.

Em 2025, emissários americanos vieram a Brasília pressionar para que o Brasil também classificasse PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo brasileiro recusou, sustentando que a legislação nacional reserva o conceito de terrorismo para ações com finalidade político-ideológica contra o Estado. Enquanto isso, no Congresso e em alguns governos estaduais, surgiram iniciativas em sentido oposto, muitas vezes em sintonia com a agenda de Washington. 

Temos, portanto, dois projetos em choque:

De um lado, Trump: expandir o rótulo de terrorismo para cartéis, gangues e facções, construindo base jurídica para uma “guerra total” contra o crime organizado na América Latina. 

Do outro, o governo Lula: insistir na distinção entre crime organizado e terrorismo, preservando a autonomia de enquadrar suas próprias facções segundo o direito interno.

É aqui que a operação contra o Grupo Fit ganha dimensão geopolítica. A forma como o caso foi comunicado coloca a operação dentro da disputa com os EUA.

Não estou dizendo que a investigação tenha sido “inventada” para responder às tarifas; o que me parece claro é que, uma vez deflagrada, ela passou a ser capitalizada politicamente como prova de firmeza interna e, ao mesmo tempo, como crítica às fragilidades externas.

No fundo, estamos assistindo menos a uma “guerra ao crime” e mais a uma guerra de narrativas. Trump precisa de inimigos externos suficientemente assustadores para justificar tarifas punitivas e expansão do aparato antiterror. O governo Lula, por sua vez, precisa provar que não é cúmplice do crime organizado — e encontrou, em Poço de Lobato, um caso exemplar para mostrar serviço e, de quebra, apontar falhas do governo americano. 

Tudo muito oportuno, no momento em que estão em curso negociações em torno do tarifaço aplicado por  Trump contra o Brasil.


O grupo dos 19

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