Minha luta
Eu nasci em Blumenau, me criei em Jaraguá do Sul, vivi em Florianópolis, no Rio, depois de novo em Jaraguá do Sul e em seguida em Florianópolis mais suma vez, de onde sai no dia 31 de março de 1964 para Porto Alegre, onde fiz família, me graduei em Direito e faço jornalismo há 62 anos, considerando-se 2026 incluído.
O "Adolfo" que carrego no nome veio do meu avô materno, Adolfo Radtke, pai da minha mãe, filha de colonos alemães de Blumenau, do Morro do Aipim, às margens do rio Itajaí Açu. Já o "Políbio", herdei do meu avô paterno, um cearense de cabeça chata, marido da paraense Elisa, minha avó.
Não conheci nenhum dele, a não ser Adolfo e Rosa, ainda assim através de uma foto esmaecida pelo tempo.
E assim me tornei Políbio Adolfo Braga.
Meu pai, Lauro, um cearense que virou catarinense ao se casar com a operária da Hering, Maria Magdalena, foi entregue ainda criança para os padrinhos. O casal mudou para o Espírito Santo e de lá meu pai fugiu criança para o Rio, virou engraxate, ficou conhecido dos senadores do Palácio Monrou e o capixaba Charles Lindbergh encaixou-o numa vaga de Auxiliar de Veterinária do Ministério da Agricultura. Foi nesta condição que acabou em Santa Catarina, numa missão do Ministério da Agricultura, focada no combate à febre aftosa que atingia o escasso rebanho bovino dos colonos do Vale do Itajaí.
Não sei nada dos antepassados dos meus pais.
Até tentei armar minha árvore genealógica.
Em 1962 levei meu pai ao Ceará para rever os padrinhos, seus pais de criação, que ele não via desde os 12 anos de idade, mas a viagem foi um fiasco porque as fantasias que meu pai contava em casa não se confirmaram no Ceará. No caso da minha mãe, mais tarde fui algumas vezes até a Alemanha, tentei encontrar os antepassados, mas nem ela e nem parente algum sabiam de fato de onde eram os Radtke do meu avô e os Barth da minha avó materna. Muitas vezes, década de 60 e 70, examinei os catálogos telefônicos de Bonn e de Hannover, mas foi apenas tempo perdido.
Eu nunca aprendi a língua alemã, embora minha mãe fosse fluente no idioma e o alemão era uma língua de uso corrente em Jaraguá e em Blumenau, como de resto em todas as regiões de colonização.
Cresci numa Jaraguá do Sul de cinco mil habitantes na década de 1940, um lugar onde não existia uma única calçada para contar história. Era tudo colônia de filhos e netos de imigrantes alemães, italianos, poucos poloneses e húngaros, além de meia dúzia de moradores afrodescedentes. Mais poeira e lama. Minha família era muito pobre, e minha infância foi vivida perto de um campinho de futebol de terra batida. Se hoje me chamam de brigão no jornalismo e na política, a verdade é que sempre fui brigão. Todos os dias eu saía no soco com alguém naquele campinho. Eu me achava o dono da bola; jogava no gol — era um goleiro péssimo, diga-se de passagem —, mas quando a coisa não ia do meu jeito, pegava a bola debaixo do braço e saía correndo enquanto os outros guris vinham atrás para me dar um pau.
Achava-me imbatível. Batia em todo mundo até o dia em que um guri me desafiou. Lembro-me como se fosse hoje: olhei para ele com desdém e disse: "Não quero bater em ti porque vou te quebrar todo". O garoto insistiu, fomos para a briga e tomei uma surra histórica. Ali aprendi uma lição fundamental para o restante da minha vida: eu também podia apanhar. Não deixei de brigar — continuo brigando até hoje —, mas passei a brigar com muito mais cautela e estratégia.
Comecei a trabalhar cedo, aos 14 anos. Tudo começou no dia em que meu pai não tinha dinheiro para me comprar uma bola de futebol decente, e quando pedi uma para ele, a resposta foi curta e direta: "Vai trabalhar para comprar". Consegui meu primeiro emprego numa fábrica de flores. Não me tirou pedaço nenhum; pelo contrário, foi uma experiência excelente. O desfecho é que fui posto no olho da rua porque bati na filha do dono. Eu tinha 14 anos,, e a guria foi me provocar justo onde eu estava trabalhando. Não deu outra: dei-lhe uma bofetada e rodei.
O gosto pela escrita também nasceu nessa época.
O caso começou quando minha irmã Elisa Rosa ia se casar. Eu gostava demais dela e resolvi escrever um artigo em sua homenagem. Esse texto foi publicado no Correio do Povo, um jornalzinho local de Jaraguá que existe até hoje.
No colégio, tirava ótimas notas em redação, mas nunca fui um bom aluno.
Terminado o curso ginasial, os irmãos maristas do colégio onde eu estudava , o Ginásio São Luiz, me entregaram o diploma e me expulsaram no mesmo dia. O motivo ? No discurso de formatura, na condição de orador da turma, desferi um ataque severo contra a conduta dos próprios religiosos. Eles não tiveram como me negar o diploma, mas me mandaram embora.
Foi ali, em Jaraguá, que a primeira parte da minha vida se encerrou.
Peguei minhas poucas coisas e fui para Joinville estudar e trabalhar.
O Lider Estudantil e a Mudança para o Rio
Cheguei em Joinville aos 17 anos, 1958, para conseguir um emprego, me alistar no Exército, no 13o Batalhão de Caçadores, e iniciar as aulas do que na época era conhecido como colegial, atualmente, 2026, equivalente ao 1o ano do ensino médio. Como teria que trabalhar de dia para conseguir renda e pagar os estudos, fui parar no único curso colegial disponível para o horário noturno, o curso de Contabilidade, no único colégio masculino da cidade, o Bom Jesus, que era e ainda é laico, mas na época bastante ligado à comunidade luterana.
Jaraguá do Sul não tinha ensino médio, eu teria que ir embora, minha família era muito pobre e eu teria que trabalhar e pagar pelos estudos.
Durante muitos meses fiz de trem, lerdas Marias Fumaças, e de litorina, o percurso de 1 hora entre Jaraguá do Sul e Joinville, 48 quilômetros, mas apenas aos finais de semana e sempre para visitar meus pais. As litorinas eram trens de passageiros leves e automotrizes, geralmente de uma só unidade, possuíam motor próprio e não precisavam de uma locomotiva separada para puxá-las. Criadas na década de 1930 na Itália, elas serviam para ligar pequenas e médias cidades de forma rápida, prática e barata. O nome surgiu como um apelido após o modelo ser apresentado na cidade italiana de Littoria (atual Latina), sem relação direta com o mar.
No começo daquele ano, 1958, morei com um irmão e, mais tarde, fui para uma pensão.
Eu era bom de datilografia — com 15 anos, aprendi a dedilhar com os dez dedos num Remington comprada pelas freiras —, peguei uma bicicleta emprestada e, em dois dias, depois de bater na porta de dezesseis empresas, consegui emprego. Fui contratado como faturista na Malharia Arp, onde trabalhei por três anos. Na mesma época, convidado por Augusto Sílvio Prodel — o único intelectual que Jaraguá do Sul já produziu e exportou para Joinville — passei também a colaborar com o Jornal de Joinville, na época um dos diários que o mago Assis Chateaubriand montou para os Diários Associados em todo o País.
No ano seguinte, 1959, uma participação exitosa num concurso público municipal de oratória, fiquei conhecido rapidamente pelos estudantes de Joinville e isto me levou à presidência da União Joinvillense dos Estudantes Secundários, a UJES.
Na época, 1960, aproximava-se a eleição para o governo de Santa Catarina: Celso Ramos pelo PSD, contra Irineu Bornhausen pela UDN.
Eu detestava a UDN, não apenas porque minha família fazia oposição ao Partido, mas desde que fui obrigado pela direção do Ginásio São Luiz a comparecer ao velório do ex-Prefeito Arthur Muller, o maior líder udenista da minha cidade, Jaraguá do Sul, e até obrigado a tocar as mãos do defunto.
Como meu pai era ligado ao PSD, o pessoal do Partido me procurou com uma proposta: queriam que os estudantes organizassem uma campanha forte em favor da criação de um ginásio público em Joinville. Havia uma lei que mandava criar o colégio, mas os governadores anteriores a ignoravam. A lei era de autoria de um Deputado do PTB, Agostinho Mignoni, que se notabilizou em Joaçaba, Oeste de Santa Catarinas, ao ser preso durante manifestações de protesto, resultou torturado e nas suas costas nuas, solados criminosos usaram a baioneta para gravar esta frase monstruosa:
- A PM é a maior.
Mais tarde fiquei amigo e aliado de Mignoni.
A pauta era perfeita para os estudantes e servia aos interesses eleitorais de Celso Ramos. Eles me usaram, mas eu também os usei.
Fizemos um barulho enorme e Celso Ramos venceu a eleição. Logo após a posse, os mesmos políticos que tinham me procurado, iniciaram uma conversa dissuasória e disseram: "Ó, agora você fica quieto porque nós já ganhamos a eleição". Respondi imediatamente: "Não, agora eu quero o colégio público". Ameaçaram falar com o meu pai, e eu desdenhei:
- Podem falar até com a minha mãe, não vou parar".
O colégio particular, laico, de Joinville, o Bom Jesus, onde eu estudava, me expulsou, pois a criação de um colégio público criaria concorrência direta para eles. Pensaram que me calariam, mas a resposta foi o oposto: elegi-me vice-presidente e secretário-geral da união dos estudantes de toda Santa Catarina, no âmbito de uma aliança que costurei com um amigo que fiz na época e que mantenho até hoje, no caso o atual Advogado de Joaçaba, Oreste Vidal Guerreiro. Em 2026, como editor, publiquei o livro "Minhas Memórias", do próprio Oreste Vidal Guerreiro.
Só saí de Joinville no dia em que o governador Celso Ramos foi pessoalmente dobrar os joelhos e colocar a pedra fundamental do ginásio público.
Eu já tinha sido posto para fora do emprego e também do colégio.
A batalha pelo ensino público custou mais caro, porque passei a ser visto como "comunista" e "agitador". Um dos meus detratores foi o bispo Dom Gregório Warmeling, que num sermão de domingo, na igreja matriz, não me poupo, chamando-me de comunista, que na época eu considerava extrema injúria. Indignado, procurei um advogado da cidade, o Dr. Carlos Adauto Vieira, porque minha ideia era processar Dom Gregório por injúria, calúnia e difamação, mas ele me desanimou:
- Chamar alguém de comunista não é crime. O que podes fazer é chamá-lo de hipócrita que não respeita o próprio celibato.
Fiquei perplexo:
- Aí, é ele quem me processa.
O dr. Adauto terminou a conversa da seguinte forma:
- Teremos como provar, mas antes disto ele buscará um acordo contigo.
Foi o que aconteceu.
E fui embora de Joinville para nunca mais voltar.
Em 1962, morando, trabalhando e fazendo política estudantil em Florianópolis, fui eleito presidente da União Brasileira de Estudantes Secundários (UBES) e mudei-me para o Rio de Janeiro. Me acomodei na sede da UNE, na Praia do Flamengo 198. O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) na época era o jovem José Serra. Vivia ali a minha "segunda vida": a de liderança estudantil de projeção nacional, imerso no efervescente cenário político do governo João Goulart.
Eu me alinhava ao que se chamava de "esquerda independente". Nunca fui comunista de carteirinha, embora meu aliado natural nas lutas estudantis fosse o PCB.
No final do mandato na UBES, 1963, fui convidado e viajei para Cuba, que 4 anos antes tinha mudado de regime. Queria conhecer e conheci Sierra Maestra. Muitos anos depois, voltei duas vezes a Cuba., mas eu já não era mais o mesmo.
Depois de Cuba, voltei para Jaraguá do Sul e em seguida para Florianópolis.
Para mim, tudo mudou na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, ano no qual eu tinha voltado a estudar, trabalhava em jornal e assessorava o Deputado Paulo Wright, que mais tarde virou comunista da linha chinesa, foi capturado e assassinado pelo regime militar, sem que seu corpo jamais tenha sido encontrado.
Quando o levante militar iniciou em Minas, não pensei duas vezes: peguei um ônibus em Florianópolis, onde morava e trabalhava e embarquei para o Rio Grande do Sul.
Mas a realidade de 64 era abissalmente diferente de 61.
Em 61, eu morava e era agitador estudantil em Joinville, o governo Jânio Quadros era conservador, enquanto em 64 o governo Jango era de esquerda, rumava com certeza para um regime comunista e a economia estava terrivelmente degradada. O mais importante: em 61, Leonel Brizola era o governador do Rio Grande do Sul e comandava a Cadeia da Legalidade a partir do Palácio Piratini; em 64, Brizola era apenas deputado federal pela Guanabara e o governador gaúcho era seu arqui-inimigo, Ildo Meneghetti. Não havia base institucional de apoio. A resistência armada evaporou-se antes de começar.
Em 1961, com a renúncia de Jânio, e em 1964, mais tardce, com a queda de Jango, o cenário internacional era o de Guerra Fria, o configurava um cenário geopolítico fatal para a esquerda brasileira e seus aliados, já que o chamado sistema dependia da boa vontade do poderio político e militar do Governo dos Estados Unidos, do qual era aliado fiel.
As Prisões na Ditadura e o Início da Carreira Jornalística
Sem poder retornar a Santa Catarina, onde minha prisão já fora decretada, passei dois anos clandestino em Porto Alegre.
No dia 31 de março de 1964, ao perceber pelo noticiário da Rádio Diário da Manhã,sob controle da UDN, que o General Mourão Filho levantra em armas a IV Divisão do Exército, Juiz de Fora, Minas, achei melhor procurar o Deputado Paulo Wright, com quem trabalhava, consegui passagens e viajei para Porto Alegre, onde já estavam Jango e Brizola, ao que parecia num movimento de resistência. Comigo, vijaram dois líderes estudantes universitários, Francisco Mastella, mais tarde eleito Deputado Estadual, e Ivo Eckiert.
Na manhã do dia 1o de abril de 1964, ao desembarcarmos do ônibus, fomos até a Prefeitura de Porto Algre, onde rsistia o Prefeito Sereno Chaise, que depois seria preso e cassado. Ao descermos a Avenida Borges de Medeiros, fumaça de bombas de gás lacrimogênio espoucavam para dissuadir qualquer resistência. Acabamos, o trio, escondidos jum tambo de leite localizado nas cercanias do Aeroporto, tudo com a ajuda do professor Francisco Fiori e do estudante Newton Cardoso.
Francisco Mastella e Ivo Eckiert resolveram voltar para Santa Catarina. Lá foram presos, interrogados e libertados.
Eu fui parar na casa da Juventude Universitária Católica (JUC 3), na descida da rua Mostardeiro. A Polícia do regime me procurava no Brasil inteiro.
Em 1966, finalmente me pegaram.
Fui levado para Curitiba, onde passei seis meses encarcerado. Aquela ainda era uma fase "romântica" da repressão: não cheguei a apanhar. O carcereiro era um sujeito curioso que passava as noites discutindo filosofia através das grades da cela.
Antes das minhas prisões, eu já havia conhecido a Raquel. Ela era filha de um estivador comunista, e nós dois compartilhávamos das mesmas ideias de esquerda na juventude. Assim que saí da cadeia em Curitiba, fui procurá-la para saber se continuava solteira. Em três meses estávamos casados. Digo sempre, em tom de brincadeira, que depois que me casei nunca mais fui preso pela ditadura — provavelmente achavam que um homem casado não causaria mais problemas. Antes de csar fui preso várias vezes. Minha última detenção no regime militar ocorreu por ocasião da tentativa de sequestro do cônsul americano em Porto Alegre. Eu não tinha a menor participação naquele plano terrorista, mas os sujeitos que tentaram executar a ação moravam na mesma casa que eu. Quando eles quiseram me contar o que pretendiam fazer, cortei na hora: "Não me contem nada, porque não concordo com essa ação e, se me levarem para o pau de arara e me torturarem, eu vou contar tudo! Eu não resisto à tortura!".
Quando a polícia estourou o lugar, fui parar na prisão como o primeiro da lista. Ninguém acreditava que eu morava com eles e não sabia dos detalhes. Quem me tirou do calabouço foi o jornalista Alberto André. Ele liderou uma comitiva da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) até o gabinete do Secretário de Segurança Pública, o general Jaime Mariath, e exigiu minha libertação. O general olhou para mim e disse: "Olha, o dr. Alberto André e esses jornalistas estão pedindo para soltar o senhor. Vou soltar, mas eles estão assumindo total responsabilidade pelo que o senhor fizer daqui para frente. Se for preso de novo, trago todos eles para a cadeia junto com o senhor".
Paralelamente a esses sobressaltos políticos, minha carreira no jornalismo profissional dava os primeiros passos acidentados.
Em Florianópolis, 1960, passei a escrever para o Diário da Tarde, de propriedade do deputado Osmar Cunha, PSD. Era um jornalzinho modesto.. Eu carregava o chumbo de carrinho de mão pela rua Felipe Schmidt em direção às máquinas.
Certo dia, um terrível acidente tirou a vida dos três únicos jornalistas que compunham a redação. Fiquei absolutamente sozinho. O deputado, que estava em Brasília — vir de Brasília naquela época demorava o equivalente a vir da China —, ligou desesperado dizendo que eu tinha de assumir a chefia do jornal. Eu não sabia nada daquilo, mas assumi junto com a ajuda do colunista social.
Minha estreia na chefia foi catastrófica: escrevi um artigo injurioso, atacando o comandante do 14º Batalhão de Caçadores. /Depois disto, minha carreira de Diretor Geral acabou ali. Tive de me esconder na então inacessível Praia dos Ingleses, praia isolada, até o deputado voltar de Brasília e me demitir sumariamente no momento em que pisou na cidade.
No dia 1o de abril de 1964 cheguei a Porto Alegre para resistir, como já tinha feito com a Legalidade em 1961, mas desta vez o tiro saiu pela culatra. Como estava clandestino e sem dinheiro, procurei trabalha em algjuma redação. Fui contratado pela Zero Hora sob o pseudônimo de Adolfo Braga. Para disfarçar a fisionomia, passei a usar um óculos de grau sem precisar e deixei crescer um bigodinho. O pesadelo é que o meu chefe de redação era o delegado de polícia Wuilde Pacheco — um homem do regime que trabalhava com uma metralhadora em cima da mesa. Na redação, trabalhavam nomes brilhantes como Tarso de Castro, Marcos Faermann e João Souza. Mas olhando para aquela metralhadora diariamente, pensei: "Daqui a pouco esse cara descobre quem eu sou e me dá um tiro".
Quem me salvou foi o jornalista Hélio Gama, que tinha conseguido uma vaga na Rádio Gaúcha, mas no mesmo dia foi chamado para integrar a equipe fundadora da revista Veja. Ele preferiu ir para São Paulo e me ofereceu sua vaga na Gaúcha. Aceitei na hora. Fiquei bem longe da metralhadora do delegado. Meu chefe direto era Dilamar Machado, homem de esquerda do PTB. Dilamar Machado foi depois Vereador de Porto Alegre, deputado estadual e Secretário de Estado.
Logo na primeira noite na rádio, o chefe do Dilamar, Ivan Castro, me ligou às dez da noite dando ordens sobre uma notícia. Respondi de pronto: "Não vou fazer coisa nenhuma! Meu chefe é o Dilamar!". Ele esbravejou que era o diretor e que ia me botar na rua, e eu rebati: "Bota nada!". Eu nem sabia quem ele era. Essa foi a tônica da minha vida nas redações: entrei e saí da Rádio Gaúcha cinco vezes; da Zero Hora, seis vezes; do Correio do Povo, umas dez vezes; da TV Piratini e da Band, outras tantas. Sempre brigado, ou porque pediam a minha cabeça, ou porque eu mandava os donos às favas.
Minha experiência mais duradoura e completa foi no grupo RBS, da Família Sirotsky. Por ali trabahei na Rádio Gaúcha, na RBS TV, no Ano Econômico e no jornal Zero Hora, tudo entre os anos de 1964 e 1986.
Durante os anos em que fui editor da página mais importante de Zero Hora, o Informe Especial, vivenciei na pele o cinismo das grandes empresas de comunicação. Eu apurava, redigia e entregava a página pronta ao diretor-editor Lauro Schirmer. No dia seguinte, abria o jornal e via que metade das notas que eu tinha escrito tinham sido cortadas e, no lugar delas, constavam notas que eu jamais escrevera, defendendo posições diametralmente opostas ao meu pensamento.
Quando ia reclamar com a direção, a resposta era descarada: "Mas Políbio, é assim mesmo. A coluna não é assinada, tu és apenas um dos redatores e essa é a linha editorial do jornal". Eu esbravejava: "Como, redator v? Eu sou o editor da página!". Cortavam notas contra empresas que anunciavam no jornal e proibiam ataques a políticos estimação da direção. Na RBS, o jornalista de opinião tinha, como acontece até hoje, de adivinhar o rumo do vento, tudo para não pisar nos calos dos patrocinadores e dos aliados do poder.
Ainda nos tempos de Maurício Sirotsky Sobrinho, houve uma convenção de editores com os editores, em Santa Maria e eu fui chamado a participar. Durante os debates, foi criada uma comissão para unificar a linguagem de todos os veículos do grupo, composta por mim, Carlos Bastos, Lauro Schirmer e Roberto Appel. Fiquei como relator. Após quatro horas de discussões estéreis e que não chegavam a lugar algum, peguei o papel e redigi um relatório definitivo, de apenas duas cínicas linhas:
"A linha editorial dos diversos veículos da RBS será estabelecida diariamente no início da manhã, numa reunião entre o editor-chefe de Zero Hora e o proprietário, senhor Maurício Sirotsky Sobrinho. Ponto. Acabou."
O relatório foi aprovado por unanimidade. E digo sem nenhum pudor: essa é a gênese real da linha editorial de absolutamente todos os grandes veículos de comunicação do Brasil. O resto é conversa para boi dormir.
O jornal Zero Hora até chegou a elaborar um elegante Código de Ética, mas no fundo é como o cãozinho da RCA Victor: vale a voz do dono.
Episódio exemplar da voz decisiva, anos mais tarde comprovei numa conversa que tive com o brilhante jornalista Paulo Henrique Amorim. Nós estávamos num táxi. Eu acompanhava Paulo Henrique ao Aeroporto de Porto Alegre conversávamos sobre nossas atividades. Na época, ele era colunista de O Globo e eu de Zero Hora. Quando reclamei da interferência da direção no meu trabalho, Paulo Henrique falou com aquele sotaque carregado de carioca:
- Não esquenta. Uma vez, fui reclamar com o dr. Roberto Marinho no seguinte tom queixoso: "Dr. Roberto, mexeram na minha coluna". Ele nem me olhou e respondeu curto e grosso, escandindo cada palavra para não deixar dúvida sobre seu estado de ânimo: "Sua coluna ? Fique sabendo que eu sou o dono do jornal, portanto dono da sua coluna".
O Bastidor do Poder, Brizola, Collares e a Ruptura
Se há algo que aprendi ao longo de décadas circulando nos bastidores da política e da imprensa é que o jornalismo tradicional brasileira sempre viveu numa simbiose hipócrita com o poder. Ao longo da minha carreira, atuei como jornalista e como agente político. Transitei entre redações e gabinetes governamentais. Cheguei a ser consultor jurídico do Banerj, Rio de Janeiro, nomeado por Leonel Brizola. Antes disto, junho de 1988, fui Secretário da Indústria e Comércio, Secretário da Fazenda, sendo que em 1992 assumi a chefia da Casa Civil no governo estadual de Alceu Collares (PDT).
O episódio da saída ruidosa da Casa Civil, 1992, significou o fim da minha atividade em governos.
Alceu Collares era um mestre na arte da hipocrisia política. Numa determinada manhã, ele me chamou ao seu gabinete no Palácio Piratini, tirou um papel da gaveta e disse que havia recebido um "dossiê anônimo" com denúncias contra mim. Queria que eu investigasse o caso. Olhei bem para a cara dele, peguei o documento e disse de cara: "Não vou tocar nisso aí. Eu conheço o teu jogo, Collares. Sei perfeitamente que foi você quem mandou a P-2 da Brigada Militar armar esse dossiê contra mim. Estou me demitindo do cargo agora. Vou sair desta sala e vou te denunciar para a imprensa".
Ele se levantou furioso: "Eu sou o governador e você me respeita!". Retruquei na mesma moeda: "Desde quando vou te respeitar? Tu não te dás ao respeito!". Saí do gabinete, chamei os repórteres no corredor do Piratini e escancarei a manobra. As acusações do tal dossiê eram ridículas: diziam que eu tinha concedido uma passagem de ônibus para o presidente da Fracab ir a um congresso no Rio de Janeiro e que tinha feito um churrasco de aniversário num clube da Brigada Militar com verba pública. Tudo armação barata da P-2.
O Governador já tinha feito exatamente a mesma canalhice com outros companheiros do PDT: armou dossiês falsos contra Milton Zuanazzi na CRT, contra Leonid Streliaev na TVE, contra o professor Eduardo Dutra Aydos na Fundação de Recursos Humanos, contra Aldo Pinto na Secretaria da Agricultura e contra Newton Alves na Cohab. O modus operandi era sempre o mesmo: ele fabricava a acusação via serviço de inteligência e espalhava notinhas caluniosas nos jornais através de jornalistas chapa-branca que se prestavam ao serviço de recusa do governo de plantão. Um desses jornalistas era da RBS. Na época, levei a denúncia documentada ao Diretor de Redação da época, o jornalista Augusto Nunes, atraído pela Família Sirotsky ao Rio Grande do Sul para transformar o diário Zero Hora num grande jornal do Brasil, o que conseguiu.
A Ilusão da Esquerda e o Surmento do Petismo
Muita gente me pergunta como um homem que passou a juventude na esquerda, combatendo a ditadura e sofrendo prisões, tornou-se um dos mais ferrenhos opositores da esquerda e do Partido dos Trabalhadores. A resposta é simples: até os meus quarenta anos, eu acreditava genuinamente que a esquerda lutava por liberdade, por pluralismo e pelo restabelecimento do Estado Democrático de Direito. ILUSÃO.
A minha grande decepção não foi uma mudança repentina de valores individuais, mas a constatação fática de que a esquerda brasileira carrega em seu DNA um viés autoritário, incapaz de conviver com o contraditório e com a imprensa livre. Quando combatíamos o regime militar, eu estava ao lado da esquerda não-armada defendendo a liberdade de expressão. Pensei que eles queriam o mesmo. Tolo engano. Na verdade, eles não queriam destruir a ditadura para instalar a democracia; queriam derrubar a ditadura militar para colocar no lugar uma ditadura de esquerda. Eu não queria ditadura nenhuma.
A história do Brasil nos mostra que governos de centro ou de esquerda tradicional do passado não agiam com o fel e o aparelhamento destrutivo que o PT introduziu no País. Getúlio e Jango enfrentaram oposições ferozes de jornais e rádios, mas jamais orquestraram uma patrulha sistemática para estrangular financeiramente veículos ou cassar o sustento de jornalistas. Eles não cortavam publicidade oficial de jornais para exigir a demissão de críticos, não usavam a polícia para intimidar repórteres nem acionavam a máquina do Judiciário em bloco para falir profissionais.
O PT, não. O PT transformou a gestão pública num trator de perseguição ideológica. E tudo isso não começou em Brasília com o governo Lula em 2003; começou muito antes, no dia 1º de janeiro de 1989, quando Olívio Dutra assumiu a Prefeitura de Porto Alegre.
Porto Alegre e o Rio Grande do Sul foram os laboratórios onde o PT testou a engenharia do autoritarismo e da censura oblíqua que mais tarde tentaria implantar no Brasil inteiro. As propostas de "controle social da mídia" e o natimorto "Conselho Nacional de Jornalismo", tentados pelo governo Lula no plano federal, nada mais foram do que a cópia amarelada daquilo que nós, jornalistas gaúchos, já havíamos enfrentado e combatido nos anos 1990 em Porto Alegre e no Palácio Piratini.
Quem estudou a história do comunismo — como eu estudei —, quem leu as biografias de Stalin e examinou as entranhas dos regimes totalitários na União Soviética, em Cuba ou na China (países que visitei diversas vezes), reconhece o figurino de imediato. Nesses países não existe imprensa livre; os jornalistas são reles funcionários do Estado e do Partido Único, e a informação é totalmente tutelada.
Quando vejo dirigentes petistas reclamando de suposta perseguição da mídia, sou obrigado a rir para não chorar. O que a esquerda realmente quer não é uma imprensa justa; quer uma imprensa totalmente amordaçada e curvada aos seus projetos de poder.
O Cerco e o Laboratório Petista em Porto Alegre (1989–1998)
A minha guerra contra o aparelhamento petista começou no primeiro mês da administração de Olívio Dutra na Prefeitura de Porto Alegre, em 1989. O governo municipal resolveu intervir brutalmente nas empresas de transporte coletivo da capital. Fiz críticas duríssimas àquela medida truculenta na minha coluna no Correio do Povo. A resposta do prefeito Olívio foi imediata: moveu uma ação judicial cível contra mim baseada na antiga Lei de Imprensa.
Antes de mover o processo, Olívio tentou me amansar. Convidou-me para um almoço no restaurante Treviso, no Mercado Público. Quando ele me ligou fazendo o convite, respondi no meu estilo meio brincalhão, meio sério: "Só aceito se tu te comprometeres a não me envenenar durante o almoço!". Tivemos uma conversa socialmente agradável — Olívio é um sujeito de trato pessoal afável quando fala de assuntos irrelevantes —, mas na política era implacável. O processo dele contra mim acabou caindo por um erro crasso do advogado dele, o doutor Marco Túlio de Rose, e nem chegou a ser julgado no mérito.
Logo em seguida, o Secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre, Caio Lustosa, me processou duas vezes consecutivas pela Lei de Imprensa por causa de notas críticas que publiquei. Na primeira, cometeu erro processual; na segunda, fui levado a julgamento e absolvido. Quando me preparei para voltar à carga contra a secretaria, a direção do Correio do Povo, amedrontada com o contexto político, censurou minhas notas dizendo que "já era demais".
A máquina de comunicação da Prefeitura de Porto Alegre foi transformada numa monstruosa engrenagem de propaganda e patrulhamento. Durante as quatro gestões petistas na capital (1989–2004), a Coordenação de Comunicação Social virou um feudo com mais de 110 profissionais, entre servidores, cargos em comissão e estagiários. Nomes como Félix Valente, Vera Spolidoro, Ilza do Canto e Ayrton Kanitz revezavam-se no comando desse aparelho.
No último ano do governo João Verle, a verba publicitária da prefeitura atingia o equivalente a mais de R$ 8 milhões de reais em valores atualizados. Esse dinheiro irrigava agências companheiras como era torrado na produção de um único programete semanal de rádio e TV, o "Cidade Viva", produzido sucessivamente pela Cooperativa de Vídeo, Eixo Z, Radioativa e Competence. Era a utilização da máquina pública para construir uma hegemonia cultural e sufocar as vozes dissonantes.
Enquanto os grandes veículos de comunicação do centro do País — e parte da mídia paulista — fechavam os olhos ou aplaudiam o "modelo de Porto Alegre", nós, um pequeno grupo de jornalistas gaúchos, fazíamos o enfrentamento diário por nossa conta e risco. A maioria da imprensa tradicional gaúcha e das lideranças empresariais capitulou ou preferiu se omitir diante dos abusos, deixando a defesa da liberdade de expressão nas mãos de poucos profissionais que recusavam o cabresto.
O Terrorismo de Estado no Governo Olívio Dutra (1999–2002)
Se a experiência na Prefeitura foi o laboratório, a chegada de Olívio Dutra ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul, em 1999, representou a deflagração de uma guerra aberta contra a imprensa independente. O homem forte da comunicação do Palácio Piratini era o jornalista Guaracy Cunha, que se tornou o czar absoluto da área. Ele não apenas patrulhava o conteúdo dos jornalistas gaúchos, mas utilizava a verba publicitária do Estado como chibata para premiar os submissos e punir exemplarmente os críticos.
Como minha relação com o PT já era de hostilidade declarada desde 1989, a minha recepção no governo estadual foi a inclusão imediata do meu nome num verdadeiro Index da Secretaria de Comunicação do Governo. A inclusão nesse Index trazia consequências dramáticas para o meu trabalho diário:
- Fui proibido de receber qualquer release ou informação oficial de todas as secretarias e órgãos do governo estadual.
- Tive o acesso cortado a qualquer autoridade do Estado. Não adiantava solicitar entrevistas com secretários, diretores de autarquias ou com o governador: a porta estava trancada.
- Fui sumariamente banido da lista de convidados para todos os atos oficiais e não-oficiais. Solenidades, coletivas de imprensa, cafés da manhã ou almoços de trabalho: eu era considerado persona non grata.
Durante os quatro longos anos do Governo Olívio Dutra, não pisei no Palácio Piratini e nem em nenhuma repartição pública estadual. A única exceção ocorreu quando fui intimado a prestar depoimento numa Delegacia de Polícia da Polícia Civil, na condição de investigado.
O motivo da intimação? Escrevi uma nota denunciando perseguições políticas no Banrisul. Os diretores petistas do banco, irritados, acionaram o Ministério Público Estadual para forçar a Polícia a arrancar o nome da minha fonte. Compareci à delegacia constrangido. O delegado, de forma muito cortês, me disse: "Olha, Políbio, estou constrangido de te perguntar isso, mas recebi o pedido do Ministério Público e sou obrigado a cumprir".
Olhei para o delegado e respondi firmemente: "O senhor nem poderia me fazer essa pergunta. A Constituição Federal me garante categoricamente o direito ao sigilo da fonte". Ele insistiu que era sua obrigação formal perguntar, e eu, obviamente, não abri o sigilo. Não abro sigilo de fonte em hipótese alguma. (Nesse mesmo período conturbado, a Polícia Federal também me intimou a prestar depoimento para tentar me arrancar a fonte de uma reportagem que fiz sobre esquemas nos Correios, e mantive a mesma postura inabalável).
Mas a perseguição policial e governamental do PT não parou por aí. Guaracy Cunha e a cúpula do Piratini foram diretamente aos veículos de comunicação onde eu trabalhava para exigir a minha cabeça. Foram à direção da Rádio Bandeirantes e da Gazeta Mercantil e aplicaram uma chantagem financeira sórdida: cortaram 100% da publicidade estatal nesses dois veículos e condicionaram o retorno dos anúncios à minha imediata demissão.
Resultado: fui demitido simultaneamente e sucessivamente da Gazeta Mercantil e da Rádio Bandeirantes por pressão direta do Palácio Piratini. O mesmo terrorismo econômico foi praticado contra o Novo Jornal, de Caxias do Sul, para onde eu escrevia. O Governo Olívio asfixiou o jornal cortando todas as verbas publicitárias até obrigar o veículo a fechar as portas definitivamente.
A tática petista era a destruição total do indivíduo. O governo fez comigo tudo o que estava ao alcance da máquina estatal:
- Cortou minhas fontes de suprimento de informação;
- Cassou meus empregos no rádio e na imprensa escrita;
- Intimou-me em delegacias policiais;
- Moveu dezenas de processos judiciais cíveis e criminais para tentar me colocar na cadeia e tomar o meu patrimônio familiar através de indenizações pesadas.
A única coisa que faltou Olívio Dutra fazer comigo foi mandar me matar ou me trancar fisicamente numa cela, porque o resto ele tentou de tudo. E essa crueldade não foi aplicada só contra mim; estendeu-se a duas dezenas de profissionais corajosos, como Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto Simões Pires e José Barrionuevo.
No final do governo Olívio, a situação de sufocamento financeiro e profissional era tão desesperadora que eu costumava dizer, com meu humor ácido, que só não pedi socorro à Associação Protetora dos Animais porque o Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, liderado por Jair Krischke, acudiu a mim e aos colegas a tempo, dando-nos suporte moral e institucional para manter a dignidade.
O Desagravo na OAB e a Estratégia dos Processos em Massa
No dia 10 de dezembro de 2000, às 20 horas, vivi um dos momentos mais emblemáticos dessa resistência. O auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio Grande do Sul estava lotado por um público apreensivo e nervoso. Havia um clima de tensão palpável no ar, agravado pelo fato de o então presidente da OAB gaúcha, Nelson Batista, ter se recusado a compor a mesa e a ceder formalmente a casa, decidindo, na prática, agravar ainda mais os jornalistas perseguidos.
Com vinte minutos de atraso, Jair Krischke abriu os trabalhos da sessão de desagravo público aos doze jornalistas perseguidos pelo Governo Olívio Dutra. Cada um de nós — eu, Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto Simões Pires, José Barrionuevo e outros companheiros de luta — recebeu uma pomba de acrílico transparente, uma obra de arte belíssima concebida pelas mãos do artista plástico uruguaio Mario Cladera.
Aquele ato não era apenas uma cerimônia simbólica; era o grito de socorro de uma imprensa acossada pela sombra do autoritarismo estatal. Muitos outros profissionais do interior e da capital pagaram preços altíssimos, no anonimato, por acreditarem que podiam criticar o PT com a mesma liberdade com que criticavam qualquer outro governo democrático.
Derrotado nas urnas e desmascarado publicamente, o petismo mudou de tática nos anos seguintes: passou a utilizar a metralhadora de processos judiciais coordenados. Entre 2005 e 2006, fui vítima de um verdadeiro cerco jurídico orquestrado. A cada dois meses, brotava uma nova ação judicial contra mim. Cheguei a responder a 19 processos simultâneos!
A orquestração era evidente: os advogados das partes eram os mesmos, e os autores eram sempre figuras do PT, parlamentares ou entidades sindicais aparelhadas.
- Tive processos movidos pelo deputado Frei Sérgio Göergen (PT) — caso em que me baseei numa fonte que se provou falsa, admiti o erro, mas fui condenado nas duas instâncias a indenização e pena de prisão, convertida por ser primário;
- Fui processado por quatro diretores petistas do Banrisul;
- Duas ações movidas pela organização do Fórum Social Mundial (fui absolvido no crime e condenado no cível);
- Processos movidos pelo CPERS, pela agência de publicidade Intelig, pelo Sinttel (Sindicato dos Telefônicos) e por cinco diretores dos Correios do RS;
- Recebi e-mails com ameaças veladas de processos vindas de Eliezer Pacheco (marido da deputada Maria do Rosário) e do ex-procurador-geral do município, Rogério Favretto, ambos instalados em cargos poderosos no Palácio do Planalto durante o governo Lula.
Diante dessa avalanche, tomei uma decisão radical que mudou minha vida: demiti meus advogados e passei a fazer a minha própria defesa em juízo. Como sou formado em Direito, percebi que os advogados que eu contratava estavam perdendo uma causa atrás da outra. Pensei comigo: "Se é para perder e ir para a cadeia, que seja comigo me defendendo! Pelo menos economizo dinheiro e não perco tempo". Assumi a minha defesa e o resultado foi surpreendente: passei a ganhar a esmagadora maioria das ações, somando absolvições sucessivas na primeira e na segunda instâncias.
A Reinvenção na Internet e a Criação do Portal
Quando o PT conseguiu me varrer simultaneamente da Gazeta Mercantil e da Rádio Bandeirantes, vi-me num momento de profundo isolamento profissional. Olhei para o mapa dos veículos de comunicação de Porto Alegre e perguntei a mim mesmo: "Para onde posso ir agora?".
A RBS não me contrataria nem com banda de música; a Caldas Júnior não me queria nem pintado de ouro; a Band fechara as portas. Os donos de jornais sabiam que, se me colocassem para dentro da redação, eu criaria uma confusão dos diabos em menos de 24 horas. Cheguei a considerar seriamente a hipótese de abandonar o jornalismo e me dedicar exclusivamente à advocacia.
Mas eu sou um homem ativo. Não tenho espaço para vitimismo na minha vida. Pode me acontecer a pior desgraça do mundo que eu não vou me deitar no chão para chorar ou achar que estou liquidado. Eu sempre caminho para a frente. E foi no meio desse cerco sufocante que enxerguei a luz de uma revolução tecnológica que estava apenas começando: a internet.
Minha história com a rede vem de longe. Quando surgiu o Via-RS — o primeiro provedor de internet do Rio Grande do Sul, há mais de uma década —, eu fui o primeiro jornalista gaúcho a assinar e manter uma coluna diária na internet. Se um dia alguém se der ao trabalho de escrever a história do jornalismo digital neste País, vai ter de encontrar o meu nome na gênese.
Anos mais tarde, quando eu ainda estava na Rádio Bandeirantes, o diretor Bira Valdez sugeriu que eu criasse um site para a emissora abrigar a minha coluna. Criei o projeto do zero. A coluna na página da Band começou a dar um retorno espetacular. Um dia, um leitor ligou para a rádio e perguntou: "Por que o Políbio não cria um sistema de assinatura para mandar essa coluna por e-mail?". Eu nem sabia como funcionava aquilo. Fui pesquisar, descobri a ferramenta do e-mail em massa e lancei a ideia. A resposta dos leitores superou todas as expectativas.
Quando rompi com a Bandeirantes — após o Bira Valdez passar a me assediar moralmente no ar para agradar ao governo Olívio que cortara as verbas da rádio —, levantei da mesa no meio do programa ao vivo, peguei meu casaco e minha pasta e nunca mais voltei. Quando vieram me oferecer o acerto financeiro, mandei uma resposta fulminante: "Peguem esse dinheiro e mandem para uma ONG de caridade ligada ao PT! Não quero esse dinheiro sujo do Palácio Piratini!". Levei a rádio para a Justiça do Trabalho e arranquei uma bolada.
Livre das amarras de patrões e de governos, fundei o meu próprio veículo: o site [www.polibiobraga.com](https://www.polibiobraga.com).br.
A internet me deu o que a grande mídia sempre me negou: LIBERDADE ABSOLUTA. Se antes as minhas denúncias eram limadas pelos diretores e editores medrosos dos jornais, agora o dono do negócio era eu mesmo. Lancei a minha newsletter diária, que atingiu a marca impressionante de mais de 90 mil assinantes diretos. Passei a publicar absolutamente tudo o que apurava. O volume e a gravidade das denúncias contra os desmandos do PT cresceram em progressão geométrica. Afinal, durante o governo Olívio, o que acontecia no Rio Grande do Sul era coisa para se escrever um livro por dia.
Ironicamente, a perseguição e o ódio do PT foram os melhores combustíveis para a minha carreira. Todas as vezes que eles conseguiram me colocar na rua de um veículo, fui para outro, ganhando o dobro; quando me fecharam as portas da imprensa tradicional, fui para a internet e construí minha independência financeira e editorial. Costumo dizer: se o PT ficasse mais vinte anos no poder me perseguindo, eu acabaria virando milionário! Eles me obrigaram a me reinventar.
Métodos de Trabalho, Ideologia e o Futuro
Hoje, olho para a minha mesa de trabalho abarrotada de documentos, relatórios e livros densos. Não consigo escrever uma única linha sobre qualquer assunto sem antes investigar a gênese, a origem histórica daquilo. Quantas vezes perdi a chance de dar um "furo" jornalístico apressado só porque me recusei a publicar antes de compreender profundamente a raiz do problema?
Defino meu estilo de trabalho com clareza: sou um jornalista minucioso, trabalhador, brigão e profundamente indignado com a degradação ética do Brasil. Vivo intensamente ao lado da minha esposa Raquel e acompanho com orgulho a trajetória dos meus dois filhos, Frederico e Pedro Mariano. Continuo escrevendo diariamente para o meu portal e assinando minha coluna no jornal O Sul, do grupo Pampa, onde encontrei espaço para trabalhar sem as amarras cínicas do passado.
Minha rotina de autopublicação no site hoje passa por um filtro curioso: escrevo absolutamente tudo o que quero, do jeito mais incisivo e visceral possível. Depois, sento na cadeira do editor, leio o meu próprio texto e começo a cortar os excessos. Aprendi a me autocensurar para não dar munição fácil aos canalhas, mas sem jamais perder a contundência.
Politicamente, não tenho pudor em dizer: dentro das categorias vigentes, sou um homem de direita. Minha bronca com o PT ultrapassou a esfera política tradicional e virou uma questão quase psiquiátrica: eles são ressentidos comigo e eu sou visceralmente ressentido com eles. Cheirou a militante ou dirigente petista perto de mim, a briga está formada no ato.
Assistimos no Brasil a uma degradação moral, ética e institucional sem precedentes. O cidadão de bem está encurralado pela impunidade, pela violência e pelo mal exemplo que vem de cima. Como dizia o Cardeal de Retz: "Quando os de cima se desmoralizam, os de baixo perdem o respeito". As elites políticas que governam o Brasil atual são as piores que já vi em toda a minha vida.
O brasileiro está exausto da inversão de valores, de bandido protegido e de discurso politicamente correto. Acredito firmemente na lei, na ordem e no cumprimento rigoroso das regras. Elas são para todos.
Sou um sobrevivente das prisões da ditadura militar e do terrorismo econômico-judicial das ditaduras disfarçadas da esquerda. Nunca me vergaram. Continuo aqui, no meu escritório, de pé, firme, com a caneta e o teclado afiados, sempre pronto para a próxima briga. Porque enquanto houver alguém querendo amordaçar a verdade, atentando contra a liberdade de expressão, eu não vou me calar.
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