Artigo, J. M. Cardoso e Silva - A passividade não é própria do cristão

Mais importante do que ser devoto é ter o coração puro e a coragem de olhar de modo honesto para si mesmo e para o próximo. É como traduzo a inquietação que tenho nestes dias, diante de manifestações políticas e refletindo sobre qual deve ser o papel de um cristão na sociedade. Somos muitos: evangélicos, católicos e kardecistas. O quanto ressoam em nossas vidas as palavras do Evangelho?

"Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7: 15,16). Que sentido encontramos em tais palavras?

Os fatos se precipitam e, a meu ver, afrontam a crença autêntica dos que pretendem, com maior ou menor devoção - ou sem ela - viver de acordo com os valores cristãos.

Confesso que vi com tristeza, quando a esposa do presidente da República e candidato a reeleição, Sra. Rosângela da Silva (Janja), durante uma cerimônia no Palácio do Planalto, exibiu-se com um símbolo muito caro para os irmãos católicos: uma medalha de Nossa Senhora Aparecida.

Mas ela não tem o direito de manifestar o que quiser? Em absoluto, não é essa a questão. O lobo não fica manso ao vestir uma pele de cordeiro, assim como uma pessoa não muda de fé ao trocar os adereços com que se apresenta aos outros. Há quatro anos, ao Fantástico, da Rede Globo, a mesma senhora declarou: "Ser ligada a uma religião de matriz africana só me dá orgulho." Fique claro, nós respeitamos a sua opção religiosa assim como, incondicionalmente, respeitamos as pessoas que não têm fé alguma.

Olhemos com honestidade para nós mesmos e para os fatos. Dias antes de ela produzir sua imagem com aquele símbolo católico, o adversário do seu marido foi, injusta e falsamente, acusado de querer cancelar o título de "padroeira do Brasil" que a tradição católica atribui a Nossa Senhora Aparecida. Todos os brasileiros com um pouco de qualificação intelectual sabem que a acusação é falsa. Ela também sabe que a acusação é falsa. Estamos diante de um caso em que a "motivação", que pertence ao íntimo de uma pessoa, pode ser apontada: o símbolo católico usado como adereço pela primeira-dama não foi um ato de fé, mas um ato eleitoreiro.

Quando somos honestos ao examinar nossas próprias motivações e buscamos a verdade para iluminar o caminho, ganhamos imunidade contra a mentira. Aprendamos a ver e ouvir desapaixonadamente o que nos dizem. Há muitos anos, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, advertiu: "O PT procura os evangélicos de 4 em 4 anos. O restante do tempo, luta contra os valores e princípios que nós defendemos. Não vamos cair nessa."

Mas não só os evangélicos são assediados pelos políticos do PT em busca de voto. Em 2010, por ocasião de tradicionais festejos católicos, a então candidata à presidência Dilma Rousseff visitou a Basílica de Nossa Senhora Aparecida e assistiu a uma missa para mais de 15 mil fiéis. "Queria estar aqui por causa de um problema recente em minha vida, que prefiro não comentar", disse ela à imprensa após sair da igreja.

Aliás, em 2010, para ter o voto dos evangélicos, Dilma disse ser contra o aborto (tema caro para os cristãos) e foi acusada por adversários de ser incoerente, porque defendia, até há pouco, o direito ao aborto.

Em 2014, buscando a reeleição, Rousseff participou de uma cerimônia num Congresso Nacional de Mulheres da Assembleia de Deus. Fez um discurso cheio de frases piedosas, inclusive citando um salmo de David. Já havia, dias antes, participado da inauguração do "Templo de Salomão", obra de grande repercussão popular da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em 2018, os candidatos do PT eram Fernando Haddad e Manuela d'Ávila. E foram registradas imagens dos dois, que, em campanha eleitoral, foram a uma igreja católica, assistiram à missa e pareciam rezar.

Muito mais pode ser lembrado com pessoas que jamais são vistas em local de fé. Mas fiquemos apenas com isto, de 2022. Lula propôs ao PT, como estratégia de retomar o poder, criar "núcleos evangélicos". Ele teria tido a ideia enquanto esteve preso, condenado na Lava Jato. Na cadeia, ele viu pastores evangélicos na TV e imaginou o estratagema.

Em 2026, além de tantas manifestações sobre as quais devemos refletir, temos a atitude da primeira-dama, que pessoas de boa vontade, mesmo não católicas, devem reconhecer como ofensiva. Há um simbolismo oculto no que vimos: o Brasil tem estado alinhado com países em que a fé cristã é desrespeitada. Já denunciamos isso. Hoje, o que há no Brasil é uma espécie de deboche. O que virá depois, se não reagirmos?


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