Por Rodrigo Alves, jornalista
A relação entre o governo Lula e o Grupo Globo merece uma
discussão que não pode ser reduzida à audiência ou à linha editorial. Entre
janeiro de 2023 e 15 de junho de 2026, o grupo recebeu R$ 267,1 milhões em
publicidade diretamente da Secretaria de Comunicação Social da Presidência,
equivalente a 25,6% de toda a verba publicitária da Secom no período. O valor
foi mais que o dobro dos R$ 122,6 milhões destinados ao Grupo Record. E a conta
não termina aí: o Tribunal de Contas da União acompanha também contratos de
publicidade da Secom, Banco do Brasil, Caixa e Correios. Em 2025, somente BB e
Caixa tinham previsões de R$ 750 milhões e R$ 468,1 milhões, respectivamente,
para publicidade.
Ao mesmo tempo em que o dinheiro público alimenta um
gigantesco mercado de publicidade institucional, celebridades conhecidas do
público também aparecem em campanhas de empresas estatais. Paulo Vieira, “artista”
ligado à Globo e declarado apoiador de Lula, estrelou campanhas da Caixa,
incluindo ações da Mega da Virada e da campanha “Tudo em Dia”, voltada à
renegociação de dívidas. Em 2026, Vieira também esteve no desfile de 7 de
Setembro ao lado de Lula e é identificado publicamente como apoiador do
presidente. Fernanda Montenegro, por sua vez, declarou apoio a Lula na eleição
de 2022 e participou de vídeo de apoio à candidatura do petista. Já Camila
Pitanga foi escolhida para estrelar campanha institucional da Petrobras sobre
transição energética. Nada disso constitui, por si só, irregularidade: artistas
podem apoiar candidatos e participar legitimamente de campanhas publicitárias.
A questão é outra: quanto o Estado gasta, quais critérios utiliza para escolher
seus veículos e seus garotos-propaganda e qual é o retorno efetivo de cada
campanha?
É nesse ambiente que a GloboNews passou a ser alvo frequente
de críticas de setores da direita. A entrevista desta terça-feira (6) de Lucas
Pavanato, deputado eleito por São Paulo com votação histórica, tornou-se um
exemplo desse confronto. O parlamentar foi pressionado o tempo todo pelos pseudojornalistas
isentos sobre suas posições em relação a Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira,
Alexandre de Moraes e ao STF com Vorcaro, em nenhum momento perguntaram sobre a
sua eleição, ou o que pretende fazer na câmara federal. Para um garoto de 28
anos, Pavanato se saiu muito bem, respondeu defendendo abertamente o
impeachment de Moraes e reafirmando que pretende levar ao Congresso uma agenda
de forte oposição ao Supremo. Para seus apoiadores, a entrevista mostrou jornalistas
tentando enquadrar um representante de uma nova direita que chega ao Congresso
com milhões de votos; para seus críticos, foi apenas uma entrevista política
dura, algo absolutamente normal em uma democracia. O ponto central, portanto,
não é impedir perguntas difíceis, é saber se a mesma intensidade é aplicada a
políticos de esquerda e de direita. Horas antes, no Estudio I, na mesma
GloboNews, a primeira mulher trans eleita no Brasil, Erika Hilton, concedia uma
entrevista light cercada por cinco jornalistas fazendo perguntas leves e
deixando o tempo para ela falar a vontade sem questionamentos difíceis relativos
a Lula, Vorcaro e STF
Outro episódio que ganhou repercussão nas redes foi o vídeo
publicado por Sandra Annenberg após a votação. A apresentadora da Globo
apareceu emocionada falando sobre o significado do voto, lembrando que votou
pela primeira vez em 1989 e classificando a eleição como uma “festa da
democracia”. No encerramento, disse esperar que “daqui a quatro anos estejamos
lá de novo”. A frase provocou interpretações políticas nas redes, especialmente
entre eleitores de direita. Annenberg deu a entender em entrelinhas que uma
eventual vitória de Flávio Bolsonaro impediria novas eleições em 2030, como se
no final do governo de seu pai não tivesse tido eleição. O episódio revela,
isso sim, como declarações de jornalistas conhecidos podem ganhar enorme
dimensão política em uma eleição polarizada.
A questão maior está justamente na combinação desses
elementos: um dos maiores grupos de comunicação do país recebe centenas de
milhões de reais em publicidade federal, artistas associados à emissora
participam de campanhas de estatais e alguns deles manifestam abertamente apoio
ao governo, enquanto parte do público identifica uma cobertura jornalística
mais hostil à direita. Receber publicidade não significa vender opinião
editorial, assim como apoiar Lula não significa que um jornalista ou artista
esteja agindo em nome da Globo. Mas, diante de cifras tão elevadas, a cobrança
por transparência é absolutamente legítima.
Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, portanto, a discussão
sobre publicidade estatal não deveria ser simplesmente “tirar dinheiro da
Globo”. O próximo governo deveria fazer algo mais sério: abrir a caixa-preta da
publicidade pública e estabelecer critérios objetivos, auditáveis e iguais para
todos os veículos. Quanto cada emissora recebeu? Quanto cada jornal? Quanto
cada portal? Quanto cada rádio? Qual audiência justificou o investimento? Qual
foi o custo por pessoa alcançada? Quais agências receberam as contas? E quais
critérios determinaram a escolha?
Se a Globo não é mais tão eficiente como antigamente como
seus números de audiência indicam, que receba pelo resultado. Se outros
veículos também entregam resultado como a CNN Brasil, que segue a frente da
Globonews como canal de noticias mais visto no Brasil, que recebam
proporcionalmente. O que não pode existir é dinheiro público distribuído sem
transparência ou usado como instrumento de aproximação entre governo e
imprensa. A liberdade editorial da Globo deve ser preservada, inclusive quando
sua cobertura incomoda a direita. Mas a mesma liberdade exige uma
contrapartida: o dinheiro do contribuinte precisa ser tratado como dinheiro do
contribuinte, e não como extensão do poder político de ocasião.
A discussão sobre o período que levou Jair Bolsonaro à
prisão não pode ser reduzida a Lula, Alexandre de Moraes ou ao STF. Para uma
parcela expressiva da direita brasileira, decisões judiciais, atuação política
e ambiente de opinião pública se combinaram durante anos em um processo que
consideram marcado por excessos e falta de equilíbrio. A Globo, como maior
grupo de comunicação do país, teve enorme capacidade de influenciar a formação
da opinião pública nesse período e, por isso, não pode simplesmente deixar esse
capítulo para trás como se tivesse sido apenas uma espectadora dos
acontecimentos.
Isso não significa afirmar que a Globo tenha determinado
decisões judiciais ou que seja responsável juridicamente pela prisão de
Bolsonaro. Significa reconhecer o peso que uma organização jornalística desse
tamanho exerce na construção da narrativa nacional. Quando um grupo recebe
centenas de milhões de reais em publicidade federal e, ao mesmo tempo, ocupa
posição dominante na televisão, no jornalismo e no debate público, a sociedade
tem o direito de cobrar transparência, pluralidade e critérios objetivos. Influência
traz responsabilidade. Dinheiro público também.
A mensagem para o próximo governo deveria ser simples: acabou
a era do dinheiro público distribuído sem transparência e com ideologia
política.