O autor é economista-chefe da Blue3 Investimentos. Ele traça consistente análise sobre a captura de Maduro e o impacto na economia.
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A ação militar praticada pelos Estados Unidos em território venezuelano (03), resultando na captura do presidente N. Maduro e sua esposa C. Flores, foi considerado pelas mídias, analistas e comentaristas como a conclusão de uma ação anunciada pelo presidente D. Trump contra o governo da Venezuela. Essa ação pode ser analisada por diversos vértices e pontos de vista. O objetivo deste material não é analisar por completo, nem especular a partir de orientações políticas ou no calor das notícias de mídia, mas tentar entender um pouco melhor os desdobramentos dessa ação em termos políticos, econômicos e jurídicos.
Para analisarmos o momento atual é necessário retornar há pouco menos de um ano, quando no início da segunda Administração Trump, foi alterado o enquadramento jurídico do narcotráfico, teve seu status alterado para terrorismo, que representou uma mudança profunda na forma como os Estados Unidos lidam com cartéis e organizações criminosas transnacionais. Ao transformar o tráfico em uma questão de segurança nacional, o governo ampliou significativamente os instrumentos de combate disponíveis, permitindo que medidas antes restritas ao enfrentamento de grupos como Al-Qaeda ou ISIS fossem aplicadas também contra redes de drogas. Essa mudança de status deu ao país o poder de congelar bens, aplicar sanções mais severas e, sobretudo, realizar operações militares fora de seu território sem depender de tratados de extradição ou da cooperação tradicional entre polícias.
Na prática, o narcotráfico deixou de ser visto apenas como crime organizado e passou a ser tratado como inimigo estratégico, o que abriu espaço para ações diretas em países latino-americanos, especialmente México, Colômbia e alegadamente a Venezuela, onde cartéis têm forte presença. Essa reclassificação fortaleceu a capacidade dos EUA de agir unilateralmente, justificando intervenções e operações extraterritoriais sob a lógica da luta contra o terrorismo. Ao mesmo tempo, gerou tensões diplomáticas, já que muitos governos da região consideraram a medida uma violação de soberania e alertaram para os riscos de militarização do combate às drogas. A importância dessa mudança está justamente no poder que ela confere à América, ao equiparar cartéis a grupos terroristas, os Estados Unidos passaram a ter respaldo legal para agir além de suas fronteiras, expandindo sua influência e capacidade de intervenção. Embora criticada por possíveis impactos sobre direitos humanos e pela falta de diálogo internacional, a estratégia marcou um reposicionamento da política externa americana, transformando o combate ao tráfico em um campo de ação global e reforçando o papel dos EUA como protagonista na definição das regras de segurança hemisférica.
Entretanto, a narrativa da Administração Trump na qual a Venezuela não apenas servia como rota de passagem para drogas, mas como país produtor, confronta-se com a realidade da produção que ocorre (de verdade) na Colômbia, concedendo-lhe uma narrativa de cúmplice direto do narcotráfico internacional. Embora o país não seja reconhecido como grande produtor de cocaína, a fragilidade institucional e a ausência de controle estatal transformaram seu território em corredor estratégico para o transporte de entorpecentes rumo ao Caribe, América Central e, posteriormente, aos Estados Unidos e à Europa. Essa condição foi explorada politicamente pelo governo norte-americano, que acusou N. Maduro e altos funcionários de participarem de esquemas de “narcoterrorismo”, chegando a formalizar indiciamentos contra eles.
Ao sustentar que a Venezuela estava envolvida não apenas na circulação, mas na facilitação ativa do tráfico, Trump reforçou a ideia de que o regime representava uma ameaça direta à segurança dos Estados Unidos. Essa reclassificação permitiu enquadrar o problema dentro da lógica da luta contra o terrorismo, ampliando os poderes legais e militares da América para agir além de suas fronteiras. Com isso, o narcotráfico deixou de ser tratado apenas como crime transnacional e passou a ser visto como inimigo estratégico, legitimando sanções, congelamento de bens e até a possibilidade de operações extraterritoriais. A importância dessa mudança está justamente no poder que ela conferiu aos EUA, ao transformar o tráfico em terrorismo, o país passou a ter respaldo jurídico para intervir em outros territórios, expandindo sua influência e reforçando sua posição como protagonista na definição das regras de segurança hemisférica.
Desde a campanha republicana, Donald Trump já sinalizava um interesse pragmático nas reservas petrolíferas venezuelanas. Sob a ótica geopolítica, uma eventual operação de captura marca uma escalada drástica nas tensões bilaterais, que se intensificaram desde fevereiro de 2025 com sanções severas, bloqueios navais e a designação de cúpulas do governo venezuelano como entidades terroristas. Analistas convergem para a ideia de que existem interesses econômicos críticos, o controle das maiores reservas de petróleo do mundo e a interrupção deliberada do fluxo de exportações para a China, que absorve cerca de 80% do volume venezuelano. Além disso, a ação visa desmantelar o eixo de influência russa e iraniana na região.
Esse movimento consolida a Doutrina Trump, cujas as declarações oficiais da administração afastam-se da retórica tradicional de 'promoção da democracia' e assumem um caráter de realismo político puro. O foco não é a reforma institucional da Venezuela, mas a necessidade de conduzir uma coordenação política direta sobre o país, tratando a segurança energética e a hegemonia regional como prioridades absolutas sobre as normas do direito internacional.
Pelos fundamentos da economia do petróleo com as dinâmicas de poder global, detalhando como a composição físico-química dos hidrocarbonetos sustenta o bloco geopolítico formado por Venezuela, Rússia, China e Irã. A viabilidade econômica do setor petrolífero venezuelano é indissociável da cooperação técnica com a Rússia e o Irã, formando uma simbiose baseada na complementaridade de densidades e refino.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, porém a natureza de seu recurso é predominantemente de crudos extra-pesados (com Grau API inferior a 10°). Este tipo de petróleo, embora abundante, possui baixa liquidez comercial por ser extremamente viscoso e rico em enxofre, exigindo um processo de diluição para que possa ser transportado por oleodutos e comercializado no mercado internacional.
Neste cenário, a Rússia e o Irã desempenham papéis econômicos críticos. O petróleo russo (padrão Urals ou ESPO) e os produtos iranianos possuem maior teor de pureza e baixa densidade. Ao misturar esses insumos ao óleo denso da Faixa do Orinoco, cria-se um "blend" comercializável que atende às especificações das refinarias globais. Sem a nafta russa e os condensados iranianos, o custo marginal de extração venezuelano subiria exponencialmente, tornando a operação economicamente inviável sob sanções. Essa troca não é apenas comercial, mas uma externalidade positiva para o bloco, que utiliza mecanismos de compensação (barter trade) para contornar o sistema financeiro baseado no dólar (SWIFT).
A China atua como grande destino final desta infraestrutura. Do ponto de vista do refino, as gigantes estatais chinesas (como a Sinopec e a CNPC) investiram décadas na adaptação de suas plantas de refino para processar exatamente óleos pesados e ácidos, que são vendidos com descontos significativos em relação ao Brent devido ao risco geopolítico e à complexidade de processamento. Para a economia chinesa, a dependência dessa complementação é estratégica, ao absorver cerca de 80% do volume venezuelano e grandes quotas do petróleo russo e iraniano, a China garante segurança energética a custos reduzidos, alimentando seu parque industrial enquanto internacionaliza o Yuan por meio de pagamentos em moedas alternativas. Em 2026, esse fluxo consolidou-se como um mercado paralelo robusto, onde o petróleo funciona como uma moeda política que sustenta balanças de pagamento fragilizadas pela pressão do Departamento de Tesouro dos EUA.
Portanto, a economia do petróleo neste eixo não opera sob a lógica pura de livre mercado, mas sob uma lógica de economia de guerra e resistência. A produção russa de óleos médios e leves complementa a densidade venezuelana, enquanto a capacidade de refino e o apetite financeiro da China provêm a liquidez necessária para manter os regimes em funcionamento. Para os EUA, sob a administração Trump, o controle sobre a Venezuela representaria não apenas uma vitória geopolítica, mas o controle do "botão de fornecimento" de um insumo que é vital para a competitividade industrial da China e para o equilíbrio das contas externas de Moscou e Teerã. A América têm interesses estratégicos na Venezuela centrados em recursos energéticos, influência geopolítica e segurança regional. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, compatíveis com as refinarias americanas no Golfo do México, o que impulsiona ações para garantir acesso e investimentos de empresas como a Chevron.
O petróleo pesado venezuelano é prioritário para os EUA, com negociações secretas visando sua exploração apesar de sanções anteriores. Minerais estratégicos, como terras raras na região amazônica, também atraem interesse para ciclos tecnológicos futuros.Washington busca conter a presença chinesa (principal compradora de 80% do petróleo venezuelano) e russa, reinterpretando a Doutrina Monroe, Trump para limitar rivais no hemisfério ocidental. Isso inclui disputas por influência no Caribe e América do Sul.
Oficialmente, a ação combate o narcoterrorismo ligado ao regime de Maduro, mas há pretexto para mudança de governo e controle econômico. Trump planeja transição para tornar o país "rico e seguro" via parcerias americanas. Há várias opções sobre a mesa, do que pode ocorrer com a Venezuela, de uma eventual transição para um governo pró-Trump na Venezuela, à consolidação de um protetorado norte-americano, provocando um choque estrutural na economia global do petróleo, desmantelando o atual "Eixo de Evasão" e alterando os termos de troca com as potências orientais.
Do ponto de vista econômico, a principal mudança seria a substituição do subsídio geopolítico pelo valor de mercado. Atualmente, a China absorve cerca de 80% das exportações venezuelanas sob condições de "petróleo sancionado", o que implica descontos massivos para compensar o risco logístico e financeiro. Sob a égide de Washington, esse petróleo passaria a ser negociado a preços de mercado (indexados ao Brent ou WTI), eliminando a vantagem competitiva que hoje alimenta as refinarias chinesas.
Tecnicamente, a manutenção e reativação de poços na Faixa do Orinoco demandariam bilhões em perfuração, injeção de vapor e recuperação avançada de petróleo (EOR), priorizando campos como Ayacucho e Junín para dobrar a extração em 2-3 anos. Reconstrução de complexos como Paraguana e Amuay (capacidade 1,3 milhão bpd, paralisados) e oleodutos degradados custaria US$ 10-20 bilhões, permitindo processar óleo pesado venezuelano otimizado para refinarias americanas.
Expansão de portos em José e Punta Cardón para exportação, com dragagem e novos tanques, mais gasodutos para gás associado, totalizando US$ 30-50 bilhões em 5 anos via parcerias público-privadas lideradas por Chevron e Exxon. Entretanto, a interferência na logística de refino pode ser imediata. A necessidade de insumos russos e iranianos como a nafta e os condensados essenciais para diluir o óleo extra-pesado do Orinoco, seria extinta. Um governo alinhado aos EUA priorizaria a importação de diluentes das refinarias da Costa do Golfe (Texas e Louisiana), que são geograficamente mais próximas e tecnicamente mais eficientes. Esse movimento não apenas isola a Rússia de um importante mercado de derivados, como também privaria o Irã de seu principal parceiro de "trocas petrolíferas" no Ocidente, desmantelando a rede de navios-fantasma que hoje permite a esses países contornar sanções internacionais.
Para a China, o impacto pode ter desdobramento de vulnerabilidade energética. A perda do acesso preferencial e barato às reservas venezuelanas forçaria Pequim a buscar fornecedores alternativos, possivelmente aumentando sua dependência do Oriente Médio ou de rotas terrestres russas, ambas sujeitas a instabilidades ou maiores custos. Além disso, a Doutrina Trump utilizaria o controle da produção venezuelana como uma ferramenta de regulação de oferta global. Ao retomar investimentos de gigantes como Chevron e Halliburton e reativar campos subutilizados, os EUA poderiam inundar o mercado com petróleo eficiente, forçando uma queda nos preços internacionais para níveis próximos a USD$50,00 ou USD$60,00. Esse cenário pode ser economicamente devastador para a Rússia, cujo orçamento nacional depende de preços elevados para sustentar seu esforço de guerra e estabilidade interna.
A coordenação política mencionada pela administração Trump transformaria a Venezuela de um estado aliado ao eixo Pequim-Moscou em um ativo estratégico ocidental. A demanda dessas potências não desapareceria, mas elas perderiam a capacidade de ditar as regras do jogo energético na América Latina. O petróleo venezuelano deixa de ser um instrumento de resistência ideológica para se tornar um mecanismo de pressão econômica dos Estados Unidos, capaz de asfixiar as receitas de seus principais rivais globais enquanto garante segurança energética ao mercado norte-americano.
A indústria petrolífera dos EUA pode se beneficiar significativamente com maior acesso às reservas venezuelanas, especialmente o petróleo pesado compatível com refinarias do Golfo do México.
Empresas como a Chevron, já operando via joint ventures com a PDVSA (produzindo cerca de 200 mil barris/dia), ganhariam licenças ampliadas para explorar as maiores reservas mundiais, reconstruindo infraestrutura degradada e elevando exportações para os EUA. Com mudança de regime ou acordos, petroleiras americanas planejam injetar bilhões para restaurar poços e aumentar produção, reduzindo dependência de rivais como China (atual compradora de 80% do óleo). Isso estabilizaria suprimentos e lucratividade em um mercado volátil. A estratégia posiciona firmas como Chevron à frente de concorrentes (Exxon, ConocoPhillips), usando sanções como alavanca para contratos favoráveis e visão de longo prazo em ativos estratégicos. A indústria petrolífera dos EUA exigiria investimentos massivos em infraestrutura para elevar a produção venezuelana, que caiu de 3 milhões para cerca de 800 mil barris/dia devido à deterioração sob Maduro.
Assim, o mercado de petróleo e gás inicia janeiro de 2026 sob uma dinâmica de "tempestade perfeita", onde o superávit estrutural de oferta global colide com o choque geopolítico imediato causado pela captura de N. Maduro.
Nas próximas semanas, o mercado deve operar em um regime de alta volatilidade, mas com um viés de preço contido pelo excesso de produção dos países fora da OPEP+, como os próprios Estados Unidos, que atingiram níveis recordes de extração (cerca de 13,8 milhões de barris por dia). O Brent, que encerrou 2025 com sua pior performance anual desde a pandemia, deve orbitar a faixa de US$ 60 a US$ 65, refletindo um equilíbrio precário entre o temor de interrupções logísticas no Caribe e a realidade de um mercado bem abastecido. A atenção imediata dos operadores está voltada para a reunião virtual da OPEP+ em 4 de janeiro, onde o cartel, liderado pela Arábia Saudita e pela Rússia, deve reafirmar uma postura defensiva. A expectativa de consenso é a manutenção da pausa nos aumentos de produção para o primeiro trimestre, uma tentativa deliberada de evitar que o preço do barril rompa o suporte psicológico dos US$ 55 diante da desaceleração da demanda industrial na China.
No entanto, o anúncio de Donald Trump sobre a entrada imediata de gigantes petrolíferas americanas na Venezuela para restaurar a infraestrutura local introduz uma variável de longo prazo que pressiona os preços futuros para baixo, a perspectiva de que, em alguns anos, milhões de barris venezuelanos retornem ao sistema formal, eliminando o déficit de óleos pesados no Golfo do México. Simultaneamente, o cenário logístico nas próximas semanas enfrentará pressões de custo. O bloqueio naval e as operações militares no Caribe tendem a elevar os prêmios de seguro e frete marítimo, impactando diretamente as rotas que ligam a América do Sul aos portos americanos e europeus. Embora a produção venezuelana atual (em torno de 1,1 milhão de barris/dia) seja limitada para causar um choque de oferta global por si só, a interrupção súbita das exportações para a China e a Índia gera um rearranjo forçado nas refinarias asiáticas, que passarão a disputar cargas de óleo médio e pesado do Oriente Médio, sustentando temporariamente os preços no curto prazo.
Portanto, para o investidor e o analista de setor, as próximas semanas serão marcadas por uma dicotomia clara. No curto prazo, o "prêmio de guerra" e a incerteza política na Venezuela podem gerar picos especulativos que levam o Brent a testar os US$ 66,00. Contudo, os fundamentos econômicos, juros elevados nas economias desenvolvidas e o avanço da oferta do pré-sal brasileiro e da Guiana, sugerem que qualquer rali será breve. O mercado de 2026 parece estar migrando para um novo paradigma, onde o petróleo deixa de ser precificado pela escassez e passa a ser uma ferramenta de coordenação geopolítica sob a nova hegemonia energética norte-americana.