A Delegada Andrea Matos já tinha opinião formada quando me interrogou sobre meu suposto crime de homofobia

Concluída a parte cartorial, inicial, do interrogatório, a qualificação, tudo no dia 25 de maio de 2021 no âmbito da Delegacia de Combate à Intolerância, Porto Alegre, foi a vez de ouvir a verdadeira inquisidora da tarde, a Delegada Andrea Matos, que acabara de adentrar ao recinto. 


Eu já tinha pesquisado tudo sobre a Delegada e sabia que ela não estava do meu lado ao me ouvir sobre o Boletim de Ocorrência registrado contra mim por suposto crime de homofobia, conforme registro feito pela ONG Somos, cujos dirigentes são ligados ao PSOL e às deputadas Luciana Genro e Fernanda Melchiona, mas não só. Andrea já tinha opinião formada e quis apenas cumprir o rito, porque em menos de 15 dias concluiu o inquérito e me indiciou como criminoso - um horrível ser homofóbico que precisa ser enfiado na cadeia para retirá-lo do saudável convívio social.


Estava comigo o Dr. Pedro Lagomarcino.


A Delegada foi direto ao ponto:


Delegada: Olá, tudo bem ? 

Advogado: Olá, boa tarde. Tudo bem ? 


 Delegada: O senhor é Advogado ? 

Advogado: Sim! Sou Advogado do Políbio. Isto. 


Delegada: Primeiramente, obrigada senhor Advogado, pela sua presença.  A ideia, Jornalista, é conversar com o senhor, entender o que aconteceu...o que que o senhor quis dizer quando escreveu aquilo...enfim, basicamente isso.   

Políbio: A senhora quer que eu explique o que eu quis escrever, é isso? 


Delegada: Ahmm. Justamente. Isso que eu gostaria que o senhor falasse. 

Políbio: Bom, o que eu tenho a declarar sobre isso é que o texto é autoexplicativo. 


Delegada: O senhor quis dizer o que está escrito ali ? 

Políbio: É exatamente aquilo ali; é o que está escrito no meu texto, não na denúncia. 


Delegada: Não, claro ! No seu texto, justamente. E o senhor acredita que tenha feito uma declaração de cunho homofóbico ? 

Políbio: Em absoluto! Não fiz. Não é esse o sentido. 


Delegada: Não é esse o sentido .... Então, até desculpa algumas perguntas, elas terão um tom até meio retórico, mas eu gostaria de entender exatamente o que o senhor quis dizer. Tá, não foi a intenção, mas o que o senhor acha que levou a crer que essa seria a intenção.  

Políbio: Na minha atividade como jornalista - eu sou jornalista polêmico - volta e meia as pessoas não fazem uma análise léxica do meu texto e interpretam sempre de uma maneira incorreta. E eu acho que foi o que aconteceu. 


Delegada: E a questão da comparação...da aparente comparação com a zoofilia ? 

Políbio: Não existe essa comparação no texto. 


Delegada: Não existe essa comparação ... 

Políbio: Não existe, ela saiu da cabeça dos  extremistas de esquerda que me denunciaram. É só dar uma olhadinha no advérbio atemporal que foi usada, porque é evidente que não existe essa conexão. 


Delegada: É por que o senhor citou, então, a zoofilia ? 

Políbio: Como eu poderia ter citado qualquer outra coisa ali. 


Delegada: Então não teve nenhuma comparação de ordem moral ? 

Políbio: Não, não. O texto não é comparativo. Não há nexo comparativo no texto. Qualquer análise léxica pode demonstrar que não é assim: o advérbio não é utilizado para efeitos de comparação, de modo. Estas pessoas horríveis que entenderam de maneira diferente e fizeram essa comparação, é porque provavelmente não estudaram muito bem o português, entende ? 


Delegada: Mas se a gente pega aqui, ó: vamos pegar os comentários, tá ? Isso aqui o senhor não tem controle, né? Isso aqui as pessoas escrevem o que elas querem. 

Políbio: Não, não tenho controle sobre isso aí e nem é responsabilidade legal minha ser responsável pelo que é publicado como opinião de leitor.


Delegada: Justamente. 

Políbio: Eu não censuro os meus comentários e mesmo que censurasse, a responsabilidade por eles não é minha, segundo dispõe claramente o Marco Civil da Internet.. 


Delegada: Sim, sim. E também não é um dever do senhor, mas pelo que a gente percebe aqui, grande parte das pessoas, ali, corroboraram com o que foi escrito. O senhor entende que as pessoas corroboraram, quanto as pessoas que criticaram o que foi escrito, que ambos os grupos não entenderam o que o senhor quis dizer. 

Políbio: Olha, sinceramente...deixa eu dizer duas coisas a respeito disso: 

Primeiro, eu não leio todos os comentários e eu não sei nem do que a senhora está falando. 


Delegada: O senhor quer dar uma olhada? 

Políbio: Não quero não. Isto não me interessa.


Delegada: Não quer olhar…

Políbio: Não. Então a primeira é que eu não leio todos os comentários e segundo, os investigados ou denunciados não são eles, mas sou eu, não ?


Delegada: Eu fiz uma pergunta pro senhor e o senhor tem a liberdade de responder ou não. Então o senhor disse que não lê os comentários, que não bloqueia os contatos, eu não estou fazendo nenhuma análise com relação ao que o senhor está falando, estou sendo objetiva. 

Polibio: Cada comentário desses, a pessoa que fez a crítica é responsável por ele, mesmo que seja mínima a opinião. Ora, basta peticionar em juízo e quebrar o protocolo da internet que vai chegar ao autor, entende ?


Delegada: Então bom, o Senhor não lê, não bloqueia e não é responsável pelas opiniões de terceiros. Vamos ver como transcreveremos o que conversamos até aqui:  


O declarante afirma que o seu texto é autoafirmativo/autoexplicativo. Garante que não teve a intenção que o seu texto fosse interpretado como sendo homofóbico. 


Perguntado sobre a comparação com a zoofilia, responde que não houve esse tipo de comparação no seu texto. Perguntei sobre ter citado a zoofilia, responde que não há nenhum motivo específico para o uso do termo “ zoofilia”. Garante que não há comparação no uso de advérbios que permitam tal comparação com a zoofilia. 


O declarante afirma que tal observação somente poderia ser realizado por pessoas com dificuldade na língua portuguesa. Perguntado sobre as pessoas comentarem no seu texto e interpretar como sendo termo homofóbico, responde que não lê e que não é responsável pelos comentários. 


Delegada: O senhor tem mais alguma coisa para falar sobre isso ou alguma observação que o senhor quer que conste aqui no depoimento? 

Políbio: Não. A senhora quer saber mais alguma coisa ? Pode perguntar. 


Delegada: Não, na verdade eu queria saber realmente se havia alguma relação .... esse termo, zoofilia, me chamou atenção, né...Se pode levar a entender, não estou dizendo pelo entendimento meu, mas de que existe alguma relação com a zoofilia. O senhor disse que não. 

Políbio: Isto lhe chamou atenção ? Também ? 


Delegada: Acho que não cabe a mim responder esse tipo de pergunta. Na verdade é o que vem na denúncia, não estou falando da minha interpretação, a minha interpretação aqui, neste momento, nem cabe. 

Políbio: Ah, tá. 


Delegada: Eu estou falando do teor da denúncia, enfim.  

Políbio: Foi o que lhe chamou atenção, né ? Tem outras colocações ali, mas o que lhe chamou atenção foi isso, né ? 


Delegada: Não estou falando que me chamou atenção, eu tenho que perguntar o que chamou atenção da pessoa que fez a denúncia. Segundo a alegação, seria com relação ao termo homossexualismo, se isso denotaria algum tipo de patologia. 

Políbio: Aquele negócio da Organização Mundial da Saúde, a OMS, né? Ah, tá. 


Delegada: Na visão do senhor, eu quero saber na visão do senhor, usar esse termo homossexualismo com o final “ ismo”. Isto denotaria uma ideia de que a opção sexual seria uma doença? 

Políbio: Eu não quero falar sobre esse assunto. Acho que é irrelevante. Gostaria que registrasse que na minha opinião isso é irrelevante, eu não vou entrar numa discussão científica, tá ? 

Delegada: Tudo bem. 


Delegada: Eu acho que é isto. Mais alguma coisa? 


Advogado: Eu gostaria, apenas, de registrar, se a senhora me permitir, Delegada, que ele destacou no final do texto, foi um grande parágrafo em que ele trouxe todos os dados em relação ao que ocorre na realidade e isso não foi pontuado, pelo menos não nas perguntas da senhora, com o devido respeito, mas ele faz um relato sobre todo histórico que existe de agressão exatamente a essa comunidade. Então, nessa questão, o jornalista deixa claro que o texto é autoexplicativo. Ao meu ver, isso é importantíssimo. 

Delegada: Então, tá. Vou ajustar. 


Advogado: Que a denúncia, na verdade, ela se debruça sobre essas marcações que estão em rosa, né. 

Delegada: Sim, justamente por isto que nós marcamos aqui, não é uma opinião nossa, é o que chegou pra nós. 


Delegada: Acho que é isso. Por mim é isso. Se não tiver mais nada a acrescentar…Mais nada a acrescentar ? 

Políbio: Não tenho nada a acrescentar. 


Delegada: Qualquer coisa, a gente volta a entrar em contato.


A Delegada Andrea Matos nunca voltou a entrar em contato.


Apenas duas semanas depois, no dia 11 de junho de 2021, Andrea Matos produziu três enxutas páginas para me acusar como violador do art. 20, parágrafo 2o da Lei 7.716/89 e me indiciar como incurso no crime de homofobia, portanto dando início a um processo destinado a me enfiar na cadeia.

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