LIVRO III - A Minha Luta

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12/08/26
13/08/2026
230/08/2026

Minha luta

Eu nasci em Blumenau, me criei em Jaraguá do Sul, vivi em Florianópolis, no Rio, depois de novo em Jaraguá do Sul e em seguida em Florianópolis mais suma vez, de onde sai no dia 31 de março de 1964 para Porto Alegre, onde fiz família, me graduei em Direito e faço jornalismo há 62 anos, considerando-se 2026 incluído.

 O "Adolfo" que carrego no nome veio do meu avô materno, Adolfo Radtke, pai da minha mãe, filha de colonos alemães de Blumenau, do Morro do Aipim, às margens do rio Itajaí Açu. Já o "Políbio", herdei do meu avô paterno, um cearense de cabeça chata, marido da paraense Elisa, minha avó.

Nunca vi nenhum deles, a não ser Adolfo e Rosa, já idosos, ainda assim através de uma foto esmaecida pelo tempo.

E assim me tornei Políbio Adolfo Braga.

Meu pai, Lauro, um cearense que virou catarinense ao se casar com a operária da Hering, Maria Magdalena, foi entregue ainda criança para os padrinhos. O casal mudou para o Espírito Santo e de lá meu pai, com 13 anos, fugiu  para o Rio, virou engraxate, ficou conhecido dos senadores do Palácio Monroe e o capixaba Charles Lindenberg encaixou-o numa vaga de Auxiliar de Veterinária do Ministério da Agricultura. Foi nesta condição que acabou em Santa Catarina, numa missão do Ministério da Agricultura, focada no  combate à febre aftosa que atingia o escasso rebanho bovino dos colonos do  Vale do Itajaí.

Não sei nada dos antepassados dos meus pais. Apesar disto, conheci os três irmãos homens e a única irmã da minha, no caso José, Fritz, Franz e Ana. A respeito dos irmãos do meu pai, só fiquei sabendo do nome de um deles, Washington, que teria se matado com um tiro no peito, no interior de Minas, durante a Revolução de 30. Ainda criança, fiquei sabendo que meu irmão mais velho (somos oito irmãos), Toni, que no iício da década de 50 serviu na FAB, conheceu a família de um dos irmãos do meu pai. Lembro da foto de dois priminhos sentados no pé da escada de uma das favelas dos morros cariocas.

Foi só.

Até tentei armar minha árvore genealógica.

Com este objetivo, em 1962 levei meu pai ao Ceará para rever os padrinhos, seus pais de criação, que ele não via desde os 13 anos de idade, mas a viagem foi um fiasco porque as fantasias que meu pai contava em casa não se confirmaram no Ceará. No caso da minha mãe, mais tarde fui algumas vezes até a Alemanha, tentei encontrar os antepassados, mas nem ela e nem parente algum sabiam de fato de onde eram os Radtke do meu avô e os Barth da minha avó materna. Muitas vezes, décadas de 60 e 70, examinei os catálogos telefônicos de Bonn e de Hannover, mas foi apenas tempo perdido.

Eu nunca aprendi a língua alemã, embora minha mãe fosse fluente no idioma e o alemão era uma língua de uso corrente em Jaraguá e em Blumenau, como de resto em todas as regiões de colonização.

Minha mãe e meu pai não chegaram  completar o 2o ano do fundamental, que na época era conhecido como curso primário, formatado para um total de 4 anos.

Cresci numa Jaraguá do Sul de cinco mil habitantes na década de 1940, um lugar onde não existia uma única calçada para contar história. Era tudo colônias de filhos e netos de imigrantes alemães, italianos, poucos poloneses e húngaros, além de meia dúzia de moradores afrodescedentes, todos espalhados nas margens dos rios Itapocuzinho e Jaraguá, mais os morros do extenso Vale do Itapocu,  2 horas de Blumenau e uma hora de Joinville. 

Nas monções, os dois rios provocavm enchentes memoráveis, pelo menos na minha memória e na memória da garotada da época, que aproveitavam os dias de cheia para enfiar balaios nas bocas de lobo e apanhar cardumes inteiros de cará, jundiás e até alguns cascudos expulsos das suas tocas. E depois era tratar de jogar bola em campinhos enxarcados, além de chapinhar na lama dos lodaçais dos quintais das casas. 

Jaraguá do Sul, na década de 1950 era isto e mais poeira e lama. 

Minha família era muito pobre, e minha infância foi vivida perto de um campinho de futebol de terra batida. 

Se hoje me chamam de brigão no jornalismo e na política, a verdade é que sempre fui brigão. Todos os dias eu saía no soco com alguém daquele campinho. Eu me achava o dono da bola; jogava no gol — era um goleiro péssimo, diga-se de passagem —, mas quando a coisa não ia do meu jeito, pegava a bola debaixo do braço e saía correndo enquanto os outros guris vinham atrás para me bater e tomar a bola.

Achava-me imbatível. Batia em todo mundo, até o dia em que um garoto me desafiou. Lembro-me como se fosse hoje: olhei para ele com desdém e disse: "Não quero bater em ti porque vou te quebrar todo". O garoto insistiu, fomos para a briga e tomei uma surra histórica. Ali aprendi uma lição fundamental para o restante da minha vida: eu também podia apanhar. 

Comecei a trabalhar cedo, aos 14 anos. 

Tudo começou no dia em que meu pai não tinha dinheiro para me comprar uma bola de futebol, e quando pedi uma para ele, a resposta foi curta e direta: "Vai trabalhar para comprar". Consegui meu primeiro emprego numa fábrica de flores. Não me tirou pedaço nenhum; pelo contrário, foi uma experiência excelente.

O gosto pela escrita também nasceu nessa época. 

Meu caso com o jornalismo começou quando minha irmã Elisa Rosa ia se casar. Foi em 1957 e eu tinha 16 anos. Eu gostava demais dela e resolvi escrever um artigo em sua homenagem. Esse texto foi publicado no Correio do Povo, um jornalzinho local de Jaraguá que existe até hoje. 

No colégio, tirava ótimas notas em redação, mas nunca fui um bom aluno.

Terminado o curso ginasial, os irmãos maristas do colégio onde eu estudava , o Ginásio São Luiz, me entregaram o diploma e me expulsaram no mesmo dia. O motivo ? No discurso de formatura, na condição de orador da turma, desferi um ataque severo contra a conduta dos próprios religiosos. Eles não tiveram como me negar o diploma, mas me dispensaram.

Foi  em Jaraguá, que a primeira parte da minha vida se encerrou. 

Peguei minhas poucas coisas e fui para Joinville estudar e trabalhar.

O Lider Estudantil e a Mudança para o Rio

Cheguei em  Joinville aos 17 anos, 1958, para conseguir um emprego, me alistar no Exército, no 13o Batalhão de Caçadores, e iniciar as aulas do que na época era conhecido como colegial, atualmente, 2026, equivalente ao 1o ano do ensino médio. Como teria que trabalhar de dia para conseguir renda e pagar os estudos, fui parar no único curso colegial disponível para o horário noturno, o curso de Contabilidade, no único colégio masculino da cidade, o Bom Jesus, que era e ainda é laico, mas na época bastante ligado à comunidade luterana. No 13o, os militares não quiseram saber de conversa e me mandaram embora com um certificado de 3a. categoria, ou seja, de dispensa.

Jaraguá do Sul não tinha ensino médio, minha família era muito pobre e eu teria que ir embora, trabalhar e pagar pelos estudos.

Durante muitos meses fiz de trem, lerdas Marias Fumaças, e  de litorina, o percurso de 1 hora entre Jaraguá do Sul e Joinville, 48 quilômetros, mas apenas aos finais de semana e sempre para visitar meus pais. Eu preferia as litorinas, que eram trens de passageiros leves e automotrizes, geralmente de uma só unidade, possuíam motor próprio e não precisavam de uma locomotiva separada para movê-las. Criadas na década de 1930 na Itália, elas serviam para ligar pequenas e médias cidades de forma rápida, prática e barata. O nome surgiu como um apelido após o modelo ser apresentado na cidade italiana de Littoria (atual Latina), sem relação direta com o mar.

 No começo daquele ano, 1958, morei com um irmão e, mais tarde, fui para uma pensão. 

Eu era bom datilógrafo — com 15 anos, aprendi a dedilhar com os dez dedos num Remington comprada pelas freiras de Jaraguá do Sul —, peguei uma bicicleta emprestada e, em dois dias, depois de bater na porta de dezesseis empresas, consegui emprego. Fui contratado como faturista na Malharia Arp, onde trabalhei por três anos. Na mesma época, convidado por Augusto Sílvio Prodel — o único intelectual que Jaraguá do Sul já produziu e exportou para Joinville — passei também  a colaborar com o Jornal de Joinville, na época um dos diários que o mago Assis Chateaubriand montou para os Diários Associados em todo o País. Augusto Silvio escreveu um livro de pouco sucesso, embora famoso, O Engenheiro Misael.

No ano seguinte, 1959, uma participação exitosa num concurso público municipal de oratória, fiquei conhecido rapidamente pelos estudantes de Joinville e isto me levou à presidência da União Joinvillense dos Estudantes Secundários, a UJES. 

Na época, 1960, aproximava-se a eleição para o governo de Santa Catarina: Celso Ramos pelo PSD, contra Irineu Bornhausen pela UDN. 

Eu detestava a UDN, não apenas porque minha família fazia oposição ao Partido, mas desde que fui obrigado pela direção do Ginásio São Luiz a comparecer ao velório do ex-Prefeito Arthur Muller, o maior líder udenista da minha cidade, Jaraguá do Sul, e até obrigado a tocar as mãos do defunto.

Como meu pai era ligado ao PSD, o pessoal do Partido me procurou com uma proposta: queriam que os estudantes organizassem uma campanha forte em favor da criação de um ginásio público em Joinville. Havia uma lei que mandava criar o colégio, mas os governadores anteriores a ignoravam. A lei era de autoria de um Deputado do PTB, Agostinho Mignoni, que se notabilizou em Joaçaba, Oeste de Santa Catarinas, ao ser preso durante manifestações de protesto, resultou torturado e nas suas costas nuas, solados criminosos usaram a baioneta para gravar esta frase monstruosa:

- A PM é a maior.

Mais tarde fiquei amigo e aliado de Mignoni.

 A pauta era perfeita para os estudantes e servia aos interesses eleitorais de Celso Ramos. Eles me usaram, mas eu também os usei.

Fizemos um barulho enorme e Celso Ramos venceu a eleição. Logo após a posse, os mesmos políticos que tinham me procurado, iniciaram uma conversa dissuasória e disseram: "Ó, agora você fica quieto porque nós já ganhamos a eleição". Respondi imediatamente: "Não, agora eu quero o colégio público". Ameaçaram falar com o meu pai, e eu desdenhei: 

- Podem falar até com a minha mãe, não vou parar".

O colégio particular, laico,  de Joinville, o Bom  Jesus, onde eu estudava, me expulsou, pois a criação de um colégio público criaria concorrência direta para eles. Pensaram que me calariam, mas a resposta foi o oposto: elegi-me vice-presidente e secretário-geral da união dos estudantes de toda Santa Catarina, no âmbito de uma aliança que costurei com um amigo que fiz na época e que mantenho até hoje, no caso o atual Advogado de Joaçaba, Oreste Vidal Guerreiro. Em 2026, como editor, publiquei o livro "Minhas Memórias", do próprio Oreste Vidal Guerreiro.

Só saí de Joinville no dia em que o governador Celso Ramos foi pessoalmente dobrar os joelhos e colocar a pedra fundamental do ginásio público.

Eu já tinha sido posto para fora do emprego e também do colégio.

A batalha pelo ensino público custou mais caro, porque passei a ser visto como "comunista" e "agitador". Um dos meus detratores foi o bispo Dom Gregório Warmeling, que num sermão de domingo, na igreja matriz, não me poupo, chamando-me de comunista, que na época eu considerava extrema injúria. Indignado, procurei um advogado da cidade, o Dr. Carlos Adauto Vieira, porque minha ideia era processar Dom Gregório por injúria,  calúnia e difamação, mas ele me desanimou:

- Chamar alguém de comunista não é crime. O que podes fazer é chamá-lo de hipócrita que não respeita o próprio  celibato.

Fiquei perplexo:

- Aí, é ele quem me processa.

O dr. Adauto terminou a conversa da seguinte forma:

- Teremos como provar, mas antes disto ele buscará um acordo contigo.

Foi o que aconteceu.

O sistema me dispensou depois que realizei uma bem sucedida Marche au Flambeaux, tudo para protestar contra uma inacreditável consulta popular bancada pelos controladores da poderosa Fundição Tupi e destinada a me remover da presidência da UJES. Tudo acabou em quebra-quebra. Joinville resultou locupada pela PM de Celso Ramos.

Era hora de ir embora de Joinville para nunca mais voltar.

Em 1962, morando, trabalhando e fazendo política estudantil em Florianópolis, fui eleito presidente da União Brasileira de Estudantes Secundários (UBES) e mudei-me para o Rio de Janeiro. Me acomodei na sede da UNE, na Praia do Flamengo 198. O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) na época era o jovem José Serra. Vivia ali a minha "segunda vida": a de liderança estudantil de projeção nacional, imerso no efervescente cenário político do governo João Goulart.

Eu me alinhava ao que se chamava de "esquerda independente". Nunca fui comunista de carteirinha, embora meu aliado natural nas lutas estudantis fosse o PCB. 

No final do mandato na UBES, 1963, fui convidado e viajei para Cuba, que 4 anos antes tinha mudado de regime. Queria conhecer e conheci Sierra Maestra. Muitos anos depois, voltei duas vezes a Cuba., mas eu já não era mais o mesmo.

Depois de Cuba, voltei para Jaraguá do Sul e em seguida para Florianópolis. 

Para mim, tudo mudou na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, ano no qual eu tinha voltado a estudar, trabalhar em jornal e assessorar o Deputado Paulo Wright, que tinha dupla nacionalidade, brasileira e americana, irmão do pastor presbiteriano Jaime Wrightg que mais tarde virou comunista da linha chinesa. Ele esteve exilado em Cuba, voltou de lá em 1972, foi capturado e assassinado pelo regime militar, sem que seu corpo jamais tenha sido encontrado. Na clandestinidade, Paulo chegou a me procurar em Porto Alegre, mas não era mais o homem que eu tinha conhecido. Com o livrinho vermelho em mãos, tentou me atrair para a Ação Popular, tentei dissuadi-lo, mas tive que repeli-lo.

Quando o levante militar iniciou em Minas, em 31 de março de 1964. não pensei duas vezes: peguei um ônibus em Florianópolis, onde morava e trabalhava e embarquei para o Rio Grande do Sul, onde achei que seria possível resistir na defesa da legalidade.

Mas a realidade de 64 era abissalmente diferente de 61. 

Em 61, eu morava e era agitador estudantil em Joinville, o governo Jânio Quadros era conservador, enquanto em 64 o governo Jango era de esquerda, rumava com certeza para um regime comunista e a economia estava terrivelmente degradada. O mais importante: em 61, Leonel Brizola era o governador do Rio Grande do Sul e comandava a Cadeia da Legalidade a partir do Palácio Piratini; em 64, Brizola era apenas deputado federal pela Guanabara e o governador gaúcho era seu arqui-inimigo, Ildo Meneghetti. Não havia base institucional de apoio. A resistência armada evaporou-se antes de começar.

Em 1961, com a renúncia de Jânio, e em 1964, mais tarde, com a queda de Jango, o cenário internacional era o de Guerra Fria, configurava um quadro geopolítico fatal para a esquerda brasileira e seus aliados, já que o chamado sistema era umbilicalmente ligado ao poderio político e militar do Governo dos Estados Unidos, do qual era aliado fiel.

As prisões no início do regime militar e o início da carreira profissional de jornalista

Sem poder retornar a Santa Catarina, onde minha prisão já fora decretada, passei dois anos clandestino em Porto Alegre. O jornal onde eu trabalhava sem carteira assinada, embora profisisonalmente, tinha sido empastelado nas primeiras horas do dia 1o de abril de 1964 e todo mundo tinha fugido ou sido preso.

No dia 31 de março de 1964, ao perceber pelo noticiário da Rádio Diário da Manhã, sob controle da UDN, que o General Mourão Filho levantra em  armas a IV Divisão do Exército, Juiz de Fora, Minas, achei melhor procurar o Deputado Paulo Wright, com quem trabalhava, consegui passagens e viajei para Porto Alegre, onde já estavam Jango e Brizola, ao que parecia ser um movimento de resistência. Comigo, viajaram dois líderes estudantes universitários, Francisco Mastella, mais tarde eleito Deputado Estadual, e Ivo Eckiert. 

Na manhã do dia 1o de abril de 1964, ao desembarcarmos do ônibus, fomos até a Prefeitura de Porto Alegre, onde resistia o Prefeito Sereno Chaise, PTB, que depois seria preso e cassado. Ao descermos a Avenida Borges de Medeiros, bombas de gás lacrimogênio espocavam para dissuadir qualquer resistência. Acabamos, o trio, escondidos num tambo de leite localizado nas cercanias do Aeroporto, tudo com a ajuda do professor Francisco Fiori e do estudante José Newton Machado. Fiori era professor da UFRGS, ligado à Ação Popular, a AP, que na época era aparelho político da Igreja Católica, mas Machado era homem do PTB.

Após alguns dias, comprando o jornal Correio da Manhã todos os dias no aeroporto, que ficava perto do tambo de leite, Francisco Mastella e Ivo Eckiert resolveram voltar para Santa Catarina. Lá foram presos, interrogados e libertados.

Eu fui parar na casa da Juventude Universitária Católica (JUC 3), na descida da rua Mostardeiro, no elegante bairro Moinhos de Vento. 

A Polícia do regime me procurava no Brasil inteiro, enquanto eu trabalhava, praticamente clandestino, em jornais como A Plateia, Livramento, Zero Hora e Rádio Gaúcha, Porto Aleagre.

Em 1966, finalmente me pegaram. 

Fui levado para Curitiba, onde passei seis meses encarcerado. Aquela ainda era uma fase "romântica" da repressão: não cheguei a apanhar. O carcereiro era um sujeito curioso que passava as noites discutindo filosofia através das grades da cela.

Antes das minhas prisões, eu já havia conhecido a Raquel. Ela era filha de um estivador comunista, e nós dois compartilhávamos das mesmas ideias de esquerda na juventude. Assim que saí da cadeia em Curitiba, fui procurá-la para saber se continuava solteira. Em três meses estávamos casados. Digo sempre, em tom de brincadeira, que depois que me casei nunca mais fui preso pela ditadura — provavelmente achavam que um homem casado não causaria mais problemas. Antes de csar fui preso várias vezes. Minha última detenção no regime militar ocorreu por ocasião da tentativa de sequestro do cônsul americano em Porto Alegre. Eu não tinha a menor participação naquele plano terrorista, mas os sujeitos que tentaram executar a ação moravam na mesma casa que eu. Quando eles quiseram me contar o que pretendiam fazer, cortei na hora: "Não me contem nada, porque não concordo com essa ação e, se me levarem para o pau de arara e me torturarem, eu vou contar tudo! Eu não resisto à tortura!".

Quando a polícia estourou o lugar, fui parar na prisão como o primeiro da lista. Ninguém acreditava que eu morava com eles e não sabia dos detalhes. Quem me tirou do calabouço foi o jornalista Alberto André. Ele liderou uma comitiva da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) até o gabinete do Secretário de Segurança Pública, o general Jaime Mariath, e exigiu minha libertação. O general olhou para mim e disse: "Olha, o dr. Alberto André e esses jornalistas estão pedindo para soltar o senhor. Vou soltar, mas eles estão assumindo total responsabilidade pelo que o senhor fizer daqui para frente. Se for preso de novo, trago todos eles para a cadeia junto com o senhor".

Paralelamente a esses sobressaltos políticos, minha carreira no jornalismo profissional dava os primeiros passos acidentados. 

Em Florianópolis, 1960, passei a escrever para o Diário da Tarde, de propriedade do deputado Osmar Cunha, PSD. Era um jornalzinho modesto.. Eu carregava o chumbo de carrinho de mão pela rua Felipe Schmidt em direção às máquinas.

Certo dia, um terrível acidente tirou a vida dos três únicos jornalistas que compunham a redação. Fiquei absolutamente sozinho. O deputado, que estava em Brasília — vir de Brasília naquela época demorava o equivalente a vir da China —, ligou desesperado dizendo que eu tinha de assumir a chefia do jornal. Eu não sabia nada daquilo, mas assumi junto com a ajuda do colunista social.

Minha estreia na chefia foi catastrófica: escrevi um artigo injurioso, atacando o comandante do 14º Batalhão de Caçadores. /Depois disto, minha carreira de Diretor Geral acabou ali. Tive de me esconder na então inacessível Praia dos Ingleses, praia isolada, até o deputado voltar de Brasília e me demitir sumariamente no momento em que pisou na cidade.

No dia 1o de abril de 1964 cheguei a Porto Alegre para resistir, como já tinha feito com a Legalidade em 1961, mas desta vez o tiro saiu pela culatra. Como estava clandestino e sem dinheiro, procurei trabalha em algjuma redação. Fui contratado pela Zero Hora sob o pseudônimo de Adolfo Braga. Para disfarçar a fisionomia, passei a usar um óculos de grau sem precisar e deixei crescer um bigodinho. O pesadelo é que o meu chefe de redação era o delegado de polícia Wuilde Pacheco — um homem do regime que trabalhava com uma metralhadora em cima da mesa. Na redação, trabalhavam nomes brilhantes como Tarso de Castro, Marcos Faermann e João Souza. Mas olhando para aquela metralhadora diariamente, pensei: "Daqui a pouco esse cara descobre quem eu sou e me dá um tiro".

Quem me salvou foi o jornalista Hélio Gama, que tinha conseguido uma vaga na Rádio Gaúcha, mas no mesmo dia foi chamado  para integrar a equipe fundadora da revista Veja. Ele preferiu ir para São Paulo e me ofereceu sua vaga na Gaúcha. Aceitei na hora. Fiquei bem longe da metralhadora do delegado. Meu chefe direto era Dilamar Machado, homem de esquerda do PTB. Dilamar Machado foi depois Vereador de Porto Alegre, deputado estadual e Secretário de Estado.

Logo na primeira noite na rádio, o chefe do Dilamar, Ivan Castro, me ligou às dez da noite dando ordens sobre uma notícia. Respondi de pronto: "Não vou fazer coisa nenhuma! Meu chefe é o Dilamar!". Ele esbravejou que era o diretor e que ia me botar na rua, e eu rebati: "Bota nada!". Eu nem sabia quem ele era. Essa foi a tônica da minha vida nas redações: entrei e saí da Rádio Gaúcha cinco vezes; da Zero Hora, seis vezes; do Correio do Povo, umas dez vezes; da TV Piratini e da Band, outras tantas. Sempre brigado, ou porque pediam a minha cabeça, ou porque eu mandava os donos às favas.

Minha experiência mais duradoura e completa foi no  grupo RBS, da Família Sirotsky. Por ali trabahei na Rádio Gaúcha, na RBS TV, no Ano Econômico e no jornal Zero Hora, tudo entre os anos de 1964 e 1986.

Durante os anos em que fui editor da página mais importante de Zero Hora, o Informe Especial, vivenciei na pele o cinismo das grandes empresas de comunicação. Eu apurava, redigia e entregava a página pronta ao diretor-editor Lauro Schirmer. No dia seguinte, abria o jornal e via que metade das notas que eu tinha escrito tinham sido cortadas e, no lugar delas, constavam notas que eu jamais escrevera, defendendo posições diametralmente opostas ao meu pensamento.

Quando ia reclamar com a direção, a resposta era descarada: "Mas Políbio, é assim mesmo. A coluna não é assinada, tu és apenas um dos redatores e essa é a linha editorial do jornal". Eu esbravejava: "Como, redator v? Eu sou o editor da página!". Cortavam notas contra empresas que anunciavam no jornal e proibiam ataques a políticos estimação da direção. Na RBS, o jornalista de opinião tinha, como acontece até hoje, de adivinhar o rumo do vento, tudo para não pisar nos calos dos patrocinadores e dos aliados do poder.

Ainda nos tempos de Maurício Sirotsky Sobrinho, houve uma convenção de editores com os editores, em Santa Maria e eu fui chamado a participar. Durante os debates, foi criada uma comissão para unificar a linguagem de todos os veículos do grupo, composta por mim, Carlos Bastos, Lauro Schirmer e Roberto Appel. Fiquei como relator. Após quatro horas de discussões estéreis e que não chegavam a lugar algum, peguei o papel e redigi um relatório definitivo, de apenas duas cínicas linhas:

"A linha editorial dos diversos veículos da RBS será estabelecida diariamente no início da manhã, numa reunião entre o editor-chefe de Zero Hora e o proprietário, senhor Maurício Sirotsky Sobrinho. Ponto. Acabou."

O relatório foi aprovado por unanimidade. E digo sem nenhum pudor: essa é a gênese real da linha editorial de absolutamente todos os grandes veículos de comunicação do Brasil. O resto é conversa para boi dormir.

O jornal Zero Hora até chegou a elaborar um elegante Código de Ética, mas no fundo é como o cãozinho da RCA Victor: vale a voz do dono.

Episódio exemplar da voz decisiva, anos mais tarde comprovei numa conversa que tive com o brilhante jornalista Paulo Henrique Amorim. Nós estávamos num táxi. Eu acompanhava Paulo Henrique ao Aeroporto de Porto Alegre conversávamos sobre nossas atividades. Na época, ele era colunista de O Globo e eu de Zero Hora. Quando reclamei da interferência da direção no meu trabalho, Paulo Henrique falou com aquele sotaque carregado de carioca:

- Não esquenta. Uma vez, fui reclamar com o dr. Roberto Marinho no seguinte tom queixoso: "Dr. Roberto, mexeram na minha coluna". Ele nem me olhou e respondeu curto e grosso, escandindo cada palavra para não deixar dúvida sobre seu estado de ânimo: "Sua coluna ? Fique sabendo que eu sou o dono do jornal, portanto dono da sua coluna".


O Bastidor do Poder, Brizola, Collares e a Ruptura

Se há algo que aprendi ao longo de décadas circulando nos bastidores da política e da imprensa é que o jornalismo tradicional brasileira sempre viveu  numa simbiose hipócrita com o poder. Ao longo da minha carreira, atuei como jornalista e como agente político. Transitei entre redações e gabinetes governamentais. Cheguei a ser consultor jurídico do Banerj, Rio de Janeiro, nomeado por Leonel Brizola. Antes disto, junho de 1988, fui Secretário da Indústria e Comércio, Secretário da Fazenda, sendo que em 1992 assumi a chefia da Casa Civil no governo estadual de Alceu Collares (PDT).

O episódio da saída ruidosa da Casa Civil, 1992, significou o fim da minha atividade em governos.

Alceu Collares era um mestre na arte da hipocrisia política. Numa determinada manhã, ele me chamou ao seu gabinete no Palácio Piratini, tirou um papel da gaveta e disse que havia recebido um "dossiê anônimo" com denúncias contra mim. Queria que eu investigasse o caso. Olhei bem para a cara dele, peguei o documento e disse de cara: "Não vou tocar nisso aí. Eu conheço o teu jogo, Collares. Sei perfeitamente que foi você quem mandou a P-2 da Brigada Militar armar esse dossiê contra mim. Estou me demitindo do cargo agora. Vou sair desta sala e vou te denunciar para a imprensa".

Ele se levantou furioso: "Eu sou o governador e você me respeita!". Retruquei na mesma moeda: "Desde quando vou te respeitar? Tu não te dás ao respeito!". Saí do gabinete, chamei os repórteres no corredor do Piratini e escancarei a manobra. As acusações do tal dossiê eram ridículas: diziam que eu tinha concedido uma passagem de ônibus para o presidente da Fracab ir a um congresso no Rio de Janeiro e que tinha feito um churrasco de aniversário num clube da Brigada Militar com verba pública. Tudo armação barata da P-2.

O Governador já tinha feito exatamente a mesma canalhice com outros companheiros do PDT: armou dossiês falsos contra Milton Zuanazzi na CRT, contra Leonid Streliaev na TVE, contra o professor Eduardo Dutra Aydos na Fundação de Recursos Humanos, contra Aldo Pinto na Secretaria da Agricultura e contra Newton Alves na Cohab. O modus operandi era sempre o mesmo: ele fabricava a acusação via serviço de inteligência e espalhava notinhas caluniosas nos jornais através de jornalistas chapa-branca que se prestavam ao serviço de recusa do governo de plantão. Um desses jornalistas era da RBS. Na época, levei a denúncia documentada ao Diretor de Redação da época, o jornalista Augusto Nunes, atraído pela Família Sirotsky ao Rio Grande do Sul para transformar o diário Zero Hora num grande jornal do Brasil, o que conseguiu. 


A Ilusão da Esquerda e o Surmento do Petismo

Muita gente me pergunta como um homem que passou a juventude na esquerda, combatendo a ditadura e sofrendo prisões, tornou-se um dos mais ferrenhos opositores da esquerda e do Partido dos Trabalhadores. A resposta é simples: até os meus quarenta anos, eu acreditava genuinamente que a esquerda lutava por liberdade, por pluralismo e pelo restabelecimento do Estado Democrático de Direito. ILUSÃO.

A minha grande decepção não foi uma mudança repentina de valores individuais, mas a constatação fática de que a esquerda brasileira carrega em seu DNA um viés autoritário, incapaz de conviver com o contraditório e com a imprensa livre. Quando combatíamos o regime militar, eu estava ao lado da esquerda não-armada defendendo a liberdade de expressão. Pensei que eles queriam o mesmo. Tolo engano. Na verdade, eles não queriam destruir a ditadura para instalar a democracia; queriam derrubar a ditadura militar para colocar no lugar uma ditadura de esquerda. Eu não queria ditadura nenhuma.

A história do Brasil nos mostra que governos de centro ou de esquerda tradicional do passado não agiam com o fel e o aparelhamento destrutivo que o PT introduziu no País. Getúlio e Jango enfrentaram oposições ferozes de jornais e rádios, mas jamais orquestraram uma patrulha sistemática para estrangular financeiramente veículos ou cassar o sustento de jornalistas. Eles não cortavam publicidade oficial de jornais para exigir a demissão de críticos, não usavam a polícia para intimidar repórteres nem acionavam a máquina do Judiciário em bloco para falir profissionais.

O PT, não. O PT transformou a gestão pública num trator de perseguição ideológica. E tudo isso não começou em Brasília com o governo Lula em 2003; começou muito antes, no dia 1º de janeiro de 1989, quando Olívio Dutra assumiu a Prefeitura de Porto Alegre.

Porto Alegre e o Rio Grande do Sul foram os laboratórios onde o PT testou a engenharia do autoritarismo e da censura oblíqua que mais tarde tentaria implantar no Brasil inteiro. As propostas de "controle social da mídia" e o natimorto "Conselho Nacional de Jornalismo", tentados pelo governo Lula no plano federal, nada mais foram do que a cópia amarelada daquilo que nós, jornalistas gaúchos, já havíamos enfrentado e combatido nos anos 1990 em Porto Alegre e no Palácio Piratini.

Quem estudou a história do comunismo — como eu estudei —, quem leu as biografias de Stalin e examinou as entranhas dos regimes totalitários na União Soviética, em Cuba ou na China (países que visitei diversas vezes), reconhece o figurino de imediato. Nesses países não existe imprensa livre; os jornalistas são reles funcionários do Estado e do Partido Único, e a informação é totalmente tutelada.

Quando vejo dirigentes petistas reclamando de suposta perseguição da mídia, sou obrigado a rir para não chorar. O que a esquerda realmente quer não é uma imprensa justa; quer uma imprensa totalmente amordaçada e curvada aos seus projetos de poder.

O Cerco e o Laboratório Petista em Porto Alegre (1989–1998)

A minha guerra contra o aparelhamento petista começou no primeiro mês da administração de Olívio Dutra na Prefeitura de Porto Alegre, em 1989. O governo municipal resolveu intervir brutalmente nas empresas de transporte coletivo da capital. Fiz críticas duríssimas àquela medida truculenta na minha coluna no Correio do Povo. A resposta do prefeito Olívio foi imediata: moveu uma ação judicial cível contra mim baseada na antiga Lei de Imprensa.

Antes de mover o processo, Olívio tentou me amansar. Convidou-me para um almoço no restaurante Treviso, no Mercado Público. Quando ele me ligou fazendo o convite, respondi no meu estilo meio brincalhão, meio sério: "Só aceito se tu te comprometeres a não me envenenar durante o almoço!". Tivemos uma conversa socialmente agradável — Olívio é um sujeito de trato pessoal afável quando fala de assuntos irrelevantes —, mas na política era implacável. O processo dele contra mim acabou caindo por um erro crasso do advogado dele, o doutor Marco Túlio de Rose, e nem chegou a ser julgado no mérito.

Logo em seguida, o Secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre, Caio Lustosa, me processou duas vezes consecutivas pela Lei de Imprensa por causa de notas críticas que publiquei. Na primeira, cometeu erro processual; na segunda, fui levado a julgamento e absolvido. Quando me preparei para voltar à carga contra a secretaria, a direção do Correio do Povo, amedrontada com o contexto político, censurou minhas notas dizendo que "já era demais".

A máquina de comunicação da Prefeitura de Porto Alegre foi transformada numa monstruosa engrenagem de propaganda e patrulhamento. Durante as quatro gestões petistas na capital (1989–2004), a Coordenação de Comunicação Social virou um feudo com mais de 110 profissionais, entre servidores, cargos em comissão e estagiários. Nomes como Félix Valente, Vera Spolidoro, Ilza do Canto e Ayrton Kanitz revezavam-se no comando desse aparelho.

No último ano do governo João Verle, a verba publicitária da prefeitura atingia o equivalente a mais de R$ 8 milhões de reais em valores atualizados. Esse dinheiro irrigava agências companheiras como  era torrado na produção de um único programete semanal de rádio e TV, o "Cidade Viva", produzido sucessivamente pela Cooperativa de Vídeo, Eixo Z, Radioativa e Competence. Era a utilização da máquina pública para construir uma hegemonia cultural e sufocar as vozes dissonantes.

Enquanto os grandes veículos de comunicação do centro do País — e parte da mídia paulista — fechavam os olhos ou aplaudiam o "modelo de Porto Alegre", nós, um pequeno grupo de jornalistas gaúchos, fazíamos o enfrentamento diário por nossa conta e risco. A maioria da imprensa tradicional gaúcha e das lideranças empresariais capitulou ou preferiu se omitir diante dos abusos, deixando a defesa da liberdade de expressão nas mãos de poucos profissionais que recusavam o cabresto.

O Terrorismo de Estado no Governo Olívio Dutra (1999–2002)

Se a experiência na Prefeitura foi o laboratório, a chegada de Olívio Dutra ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul, em 1999, representou a deflagração de uma guerra aberta contra a imprensa independente. O homem forte da comunicação do Palácio Piratini era o jornalista Guaracy Cunha, que se tornou o czar absoluto da área. Ele não apenas patrulhava o conteúdo dos jornalistas gaúchos, mas utilizava a verba publicitária do Estado como chibata para premiar os submissos e punir exemplarmente os críticos.

Como minha relação com o PT já era de hostilidade declarada desde 1989, a minha recepção no governo estadual foi a inclusão imediata do meu nome num verdadeiro Index da Secretaria de Comunicação do Governo. A inclusão nesse Index trazia consequências dramáticas para o meu trabalho diário:

  1. Fui proibido de receber qualquer release ou informação oficial de todas as secretarias e órgãos do governo estadual.
  2. Tive o acesso cortado a qualquer autoridade do Estado. Não adiantava solicitar entrevistas com secretários, diretores de autarquias ou com o governador: a porta estava trancada.
  3. Fui sumariamente banido da lista de convidados para todos os atos oficiais e não-oficiais. Solenidades, coletivas de imprensa, cafés da manhã ou almoços de trabalho: eu era considerado persona non grata.

Durante os quatro longos anos do Governo Olívio Dutra, não pisei no Palácio Piratini e nem em nenhuma repartição pública estadual. A única exceção ocorreu quando fui intimado a prestar depoimento numa Delegacia de Polícia da Polícia Civil, na condição de investigado.

O motivo da intimação? Escrevi uma nota denunciando perseguições políticas no Banrisul. Os diretores petistas do banco, irritados, acionaram o Ministério Público Estadual para forçar a Polícia a arrancar o nome da minha fonte. Compareci à delegacia constrangido. O delegado, de forma muito cortês, me disse: "Olha, Políbio, estou constrangido de te perguntar isso, mas recebi o pedido do Ministério Público e sou obrigado a cumprir".

Olhei para o delegado e respondi firmemente: "O senhor nem poderia me fazer essa pergunta. A Constituição Federal me garante categoricamente o direito ao sigilo da fonte". Ele insistiu que era sua obrigação formal perguntar, e eu, obviamente, não abri o sigilo. Não abro sigilo de fonte em hipótese alguma. (Nesse mesmo período conturbado, a Polícia Federal também me intimou a prestar depoimento para tentar me arrancar a fonte de uma reportagem que fiz sobre esquemas nos Correios, e mantive a mesma postura inabalável).

Mas a perseguição policial e governamental do PT não parou por aí. Guaracy Cunha e a cúpula do Piratini foram diretamente aos veículos de comunicação onde eu trabalhava para exigir a minha cabeça. Foram à direção da Rádio Bandeirantes e da Gazeta Mercantil e aplicaram uma chantagem financeira sórdida: cortaram 100% da publicidade estatal nesses dois veículos e condicionaram o retorno dos anúncios à minha imediata demissão.

Resultado: fui demitido simultaneamente e sucessivamente da Gazeta Mercantil e da Rádio Bandeirantes por pressão direta do Palácio Piratini. O mesmo terrorismo econômico foi praticado contra o Novo Jornal, de Caxias do Sul, para onde eu escrevia. O Governo Olívio asfixiou o jornal cortando todas as verbas publicitárias até obrigar o veículo a fechar as portas definitivamente.

A tática petista era a destruição total do indivíduo. O governo fez comigo tudo o que estava ao alcance da máquina estatal:

  • Cortou minhas fontes de suprimento de informação;
  • Cassou meus empregos no rádio e na imprensa escrita;
  • Intimou-me em delegacias policiais;
  • Moveu dezenas de processos judiciais cíveis e criminais para tentar me colocar na cadeia e tomar o meu patrimônio familiar através de indenizações pesadas.

A única coisa que faltou Olívio Dutra fazer comigo foi mandar me matar ou me trancar fisicamente numa cela, porque o resto ele tentou de tudo. E essa crueldade não foi aplicada só contra mim; estendeu-se a duas dezenas de profissionais corajosos, como Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto Simões Pires e José Barrionuevo.

No final do governo Olívio, a situação de sufocamento financeiro e profissional era tão desesperadora que eu costumava dizer, com meu humor ácido, que só não pedi socorro à Associação Protetora dos Animais porque o Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, liderado por Jair Krischke, acudiu a mim e aos colegas a tempo, dando-nos suporte moral e institucional para manter a dignidade.

O Desagravo na OAB e a Estratégia dos Processos em Massa

No dia 10 de dezembro de 2000, às 20 horas, vivi um dos momentos mais emblemáticos dessa resistência. O auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio Grande do Sul estava lotado por um público apreensivo e nervoso. Havia um clima de tensão palpável no ar, agravado pelo fato de o então presidente da OAB gaúcha, Nelson Batista, ter se recusado a compor a mesa e a ceder formalmente a casa, decidindo, na prática, agravar ainda mais os jornalistas perseguidos.

Com vinte minutos de atraso, Jair Krischke abriu os trabalhos da sessão de desagravo público aos doze jornalistas perseguidos pelo Governo Olívio Dutra. Cada um de nós — eu, Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto Simões Pires, José Barrionuevo e outros companheiros de luta — recebeu uma pomba de acrílico transparente, uma obra de arte belíssima concebida pelas mãos do artista plástico uruguaio Mario Cladera.

Aquele ato não era apenas uma cerimônia simbólica; era o grito de socorro de uma imprensa acossada pela sombra do autoritarismo estatal. Muitos outros profissionais do interior e da capital pagaram preços altíssimos, no anonimato, por acreditarem que podiam criticar o PT com a mesma liberdade com que criticavam qualquer outro governo democrático.

Derrotado nas urnas e desmascarado publicamente, o petismo mudou de tática nos anos seguintes: passou a utilizar a metralhadora de processos judiciais coordenados. Entre 2005 e 2006, fui vítima de um verdadeiro cerco jurídico orquestrado. A cada dois meses, brotava uma nova ação judicial contra mim. Cheguei a responder a 19 processos simultâneos!

A orquestração era evidente: os advogados das partes eram os mesmos, e os autores eram sempre figuras do PT, parlamentares ou entidades sindicais aparelhadas.

  • Tive processos movidos pelo deputado Frei Sérgio Göergen (PT) — caso em que me baseei numa fonte que se provou falsa, admiti o erro, mas fui condenado nas duas instâncias a indenização e pena de prisão, convertida por ser primário;
  • Fui processado por quatro diretores petistas do Banrisul;
  • Duas ações movidas pela organização do Fórum Social Mundial (fui absolvido no crime e condenado no cível);
  • Processos movidos pelo CPERS, pela agência de publicidade Intelig, pelo Sinttel (Sindicato dos Telefônicos) e por cinco diretores dos Correios do RS;
  • Recebi e-mails com ameaças veladas de processos vindas de Eliezer Pacheco (marido da deputada Maria do Rosário) e do ex-procurador-geral do município, Rogério Favretto, ambos instalados em cargos poderosos no Palácio do Planalto durante o governo Lula.

Diante dessa avalanche, tomei uma decisão radical que mudou minha vida: demiti meus advogados e passei a fazer a minha própria defesa em juízo. Como sou formado em Direito, percebi que os advogados que eu contratava estavam perdendo uma causa atrás da outra. Pensei comigo: "Se é para perder e ir para a cadeia, que seja comigo me defendendo! Pelo menos economizo dinheiro e não perco tempo". Assumi a minha defesa e o resultado foi surpreendente: passei a ganhar a esmagadora maioria das ações, somando absolvições sucessivas na primeira e na segunda instâncias.

A Reinvenção na Internet e a Criação do Portal

Quando o PT conseguiu me varrer simultaneamente da Gazeta Mercantil e da Rádio Bandeirantes, vi-me num momento de profundo isolamento profissional. Olhei para o mapa dos veículos de comunicação de Porto Alegre e perguntei a mim mesmo: "Para onde posso ir agora?".

A RBS não me contrataria nem com banda de música; a Caldas Júnior não me queria nem pintado de ouro; a Band fechara as portas. Os donos de jornais sabiam que, se me colocassem para dentro da redação, eu criaria uma confusão dos diabos em menos de 24 horas. Cheguei a considerar seriamente a hipótese de abandonar o jornalismo e me dedicar exclusivamente à advocacia.

Mas eu sou um homem ativo. Não tenho espaço para vitimismo na minha vida. Pode me acontecer a pior desgraça do mundo que eu não vou me deitar no chão para chorar ou achar que estou liquidado. Eu sempre caminho para a frente. E foi no meio desse cerco sufocante que enxerguei a luz de uma revolução tecnológica que estava apenas começando: a internet.

Minha história com a rede vem de longe. Quando surgiu o Via-RS — o primeiro provedor de internet do Rio Grande do Sul, há mais de uma década —, eu fui o primeiro jornalista gaúcho a assinar e manter uma coluna diária na internet. Se um dia alguém se der ao trabalho de escrever a história do jornalismo digital neste País, vai ter de encontrar o meu nome na gênese.

Anos mais tarde, quando eu ainda estava na Rádio Bandeirantes, o diretor Bira Valdez sugeriu que eu criasse um site para a emissora abrigar a minha coluna. Criei o projeto do zero. A coluna na página da Band começou a dar um retorno espetacular. Um dia, um leitor ligou para a rádio e perguntou: "Por que o Políbio não cria um sistema de assinatura para mandar essa coluna por e-mail?". Eu nem sabia como funcionava aquilo. Fui pesquisar, descobri a ferramenta do e-mail em massa e lancei a ideia. A resposta dos leitores superou todas as expectativas.

Quando rompi com a Bandeirantes — após o Bira Valdez passar a me assediar moralmente no ar para agradar ao governo Olívio que cortara as verbas da rádio —, levantei da mesa no meio do programa ao vivo, peguei meu casaco e minha pasta e nunca mais voltei. Quando vieram me oferecer o acerto financeiro, mandei uma resposta fulminante: "Peguem esse dinheiro e mandem para uma ONG de caridade ligada ao PT! Não quero esse dinheiro sujo do Palácio Piratini!". Levei a rádio para a Justiça do Trabalho e arranquei uma bolada.

Livre das amarras de patrões e de governos, fundei o meu próprio veículo: o site [www.polibiobraga.com](https://www.polibiobraga.com).br.

A internet me deu o que a grande mídia sempre me negou: LIBERDADE ABSOLUTA. Se antes as minhas denúncias eram limadas pelos diretores e editores medrosos dos jornais, agora o dono do negócio era eu mesmo. Lancei a minha newsletter diária, que atingiu a marca impressionante de mais de 90 mil assinantes diretos. Passei a publicar absolutamente tudo o que apurava. O volume e a gravidade das denúncias contra os desmandos do PT cresceram em progressão geométrica. Afinal, durante o governo Olívio, o que acontecia no Rio Grande do Sul era coisa para se escrever um livro por dia.

Ironicamente, a perseguição e o ódio do PT foram os melhores combustíveis para a minha carreira. Todas as vezes que eles conseguiram me colocar na rua de um veículo, fui para outro, ganhando o dobro; quando me fecharam as portas da imprensa tradicional, fui para a internet e construí minha independência financeira e editorial. Costumo dizer: se o PT ficasse mais vinte anos no poder me perseguindo, eu acabaria virando milionário! Eles me obrigaram a me reinventar.

Métodos de Trabalho, Ideologia e o Futuro

Hoje, olho para a minha mesa de trabalho abarrotada de documentos, relatórios e livros densos. Não consigo escrever uma única linha sobre qualquer assunto sem antes investigar a gênese, a origem histórica daquilo. Quantas vezes perdi a chance de dar um "furo" jornalístico apressado só porque me recusei a publicar antes de compreender profundamente a raiz do problema?

Defino meu estilo de trabalho com clareza: sou um jornalista minucioso, trabalhador, brigão e profundamente indignado com a degradação ética do Brasil. Vivo intensamente ao lado da minha esposa Raquel e acompanho com orgulho a trajetória dos meus dois filhos, Frederico e Pedro Mariano. Continuo escrevendo diariamente para o meu portal e assinando minha coluna no jornal O Sul, do grupo Pampa, onde encontrei espaço para trabalhar sem as amarras cínicas do passado.

Minha rotina de autopublicação no site hoje passa por um filtro curioso: escrevo absolutamente tudo o que quero, do jeito mais incisivo e visceral possível. Depois, sento na cadeira do editor, leio o meu próprio texto e começo a cortar os excessos. Aprendi a me autocensurar para não dar munição fácil aos canalhas, mas sem jamais perder a contundência.

Politicamente, não tenho pudor em dizer: dentro das categorias vigentes, sou um homem de direita. Minha bronca com o PT ultrapassou a esfera política tradicional e virou uma questão quase psiquiátrica: eles são ressentidos comigo e eu sou visceralmente ressentido com eles. Cheirou a militante ou dirigente petista perto de mim, a briga está formada no ato.

Assistimos no Brasil a uma degradação moral, ética e institucional sem precedentes. O cidadão de bem está encurralado pela impunidade, pela violência e pelo mal exemplo que vem de cima. Como dizia o Cardeal de Retz: "Quando os de cima se desmoralizam, os de baixo perdem o respeito". As elites políticas que governam o Brasil atual são as piores que já vi em toda a minha vida.

O brasileiro está exausto da inversão de valores, de bandido protegido e de discurso politicamente correto. Acredito firmemente na lei, na ordem e no cumprimento rigoroso das regras. Elas são para todos. 

Sou um sobrevivente das prisões da ditadura militar e do terrorismo econômico-judicial das ditaduras disfarçadas da esquerda. Nunca me vergaram. Continuo aqui, no meu escritório, de pé, firme, com a caneta  e o teclado afiados, sempre pronto para a próxima briga. Porque enquanto houver alguém querendo amordaçar a verdade, atentando contra a liberdade de expressão, eu não vou me calar.

 



Artigo, especial, Carlos Eduardo Bellini Borenstein - Surpresas eleitorais é uma característica das disputas ao Piratini

- O autor é cientista político da Arko Advice pesquisas

carloseduardo@arkoadvice.com.br

As diferentes pesquisas divulgadas sobre a disputa ao Palácio Piratini mostram hoje um cenário de polarização entre o deputado federal Luciano Zucco (PL) e a ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT). Na terceira posição está o vice-governador Gabriel Souza (MDB) seguido pelo ex-prefeito de Guaíba Marcelo Maranata (PSDB).

Faltando cerca de 45 dias para o pleito, surge a seguinte pergunta: este cenário é definitivo ou pode haver mudanças? Observando o padrão de comportamento eleitoral das últimas seis disputas ao governo gaúcho, marcado pela decisão tardia de voto, o atual quadro não deve ser considerado definitivo. Desde 2002, em todas as eleições ao Palácio Piratini tivemos a ocorrência das chamadas surpresas eleitorais. 

Em 2002, no mês de agosto, a eleição estava polarizada entre Antônio Britto (PPS), que registrava 36% das intenções de voto na pesquisa Ibope. Tarso Genro (PT) aparece com 29%. Germano Rigotto (PMDB) figurava com apenas 5%. No final do primeiro turno, Rigotto teve 41,17% dos votos válidos. Tarso atingiu 37,25%. Britto terminou com apenas 12,31%. No segundo turno, Rigotto venceu Tarso. 

No pleito de 2006, nesse mesmo período, o Ibope aponta que Germano Rigotto (PMDB) liderava com 28%. Olívio Dutra (PT) registrava 21%. Yeda Crusius (PSDB) aparece com 15%. Ao final do primeiro turno, Yeda teve 32,90% dos votos válidos. Olívio ficou com 27,39%. Rigotto, que buscava a reeleição, mas foi derrotado em primeiro turno, teve 27,12%. No segundo turno, Yeda derrotou Olívio.

Na eleição de 2010, em agosto, Tarso Genro (PT) despontava com 37%, segundo o Ibope. José Fogaça (PMDB) aparecia com 31%. Yeda Crusius (PSDB) tinha 13%. Nesse pleito, Tarso atingiu 54,35%, venceu em primeiro turno. Fogaça teve 24,74%. Yeda ficou com 18,40%.

Em 2014, no mês de agosto, dados do Ibope indicam que Ana Amélia Lemos (PP) liderava com 38%. Tarso Genro (PT) tinha 35%. José Ivo Sartori (PMDB) contabiliza apenas 5%. No entanto, Sartori teve 40,40% dos votos válidos no primeiro turno. Tarso ficou com 32,57%. Ana Amélia registrou21,79%. No segundo turno, Sartori derrotou Tarso. 

Na eleição de 2018, em agosto, José Ivo Sartori (PMDB) aparecia com 19%. No Ibope, Eduardo Leite (PSDB) e Miguel Rossetto (PT) tinham 8%. Jairo Jorge (PDT) contabilizava 6%. No final do primeiro turno, Leite obteve 35,90% dos votos válidos. Sartori ficou com 31,11%. Rossetto atingiu 17,76%. Jairo ficou com 11,08%. No segundo turno, Leite venceu Sartori.

No pleito de 2022, segundo o IPEC – novo nome do Ibope, que hoje se achava Ipsos IPEC, Eduardo Leite (PSDB) liderava com 32% em agosto. Onyx Lorenzoni (PL) tinha 19%. Edegar Pretto (PT) aparecia com 7%. Ao término do primeiro turno, Onyx ficou com 37,50% dos votos válidos. Leite atingiu 26,81%, quase ficando de fora do segundo turno, já que Edegar chegou aos 26,77%.

Este histórico de surpresas eleitorais nas últimas seis disputas ao governo gaúcho são consequências de três fatores: 

1) A decisão tardia de voto – uma parcela importante do eleitorado processa sua decisão eleitoral nas últimas horas, mudando de candidato poucas horas antes da eleição; e 

2)A alta abstenção, que está em elevação desde 2006, tendo superado os 19% no primeiro turno de 2022; e

3) Fatos novos surgidos na reta final, impactando o humor dos eleitores

Por todos esses aspectos, as pesquisas divulgadas neste início de campanha, embora sejam um parâmetro importante, não são definitivas. Embora Zucco e Juliana polarizem a eleição, Gabriel tende a crescer, fazendo com que os três principais candidatos travem uma acirrada disputa na reta final.





Artigo, Facundo Cerúleo - Ecossistema gremista

Há quantos anos gremistas não sentem orgulho e alegria por ver um time que impõe respeito? Quem ainda não percebeu que o Grêmio, com uma das folhas mais altas, joga bem menos que clubes com orçamentos modestos? Como podem outros fazer mais com menos?

Faltam uns 100 dias para terminar a temporada e não se vê o trabalho do técnico. Sem uma única jogada ensaiada, sem ligação entre os setores, nenhuma organização e, salvo raras reações individuais, um time sem alma: o Grêmio aguerrido, que vendia caro qualquer derrota mesmo quando tinha limitações técnicas, hoje é um time com sangue de barata. Pior, já entra em campo derrotado. Mas tem sempre um discurso para justificar!

As coletivas do técnico Luís Castro nada esclarecem. Perguntas bestas, entrevistadores em busca de "engajamentos" e falando para seu público consumidor. Tudo que se vê é cada um garantindo o pirão da sua farinha. A autodefinida imprensa tradicional perde, cada vez mais, espaço para as mídias alternativas - ou seja lá como elas se definem.

Aí vem um diretor e diz "O trabalho do dia a dia é muito bom!" E garante a permanência do técnico. A reportagem não aperta o fulano. Faz sentido falar de "bom trabalho no dia a dia" sem nenhum resultado em campo? Ele treina? Que tipo de treino faz? Por que não há um esquema para tirar o melhor do bom centroavante que é Carlos Vinicius? É bom técnico quem não sabe aproveitar as valências do grupo? Até quando vão com essa história de que Castro ainda não conseguiu pôr em prática suas ideias? E ele tem ideias mesmo? Cascalho! Quem é que deveria fazer essas perguntas?

O Grêmio de hoje parece o de Renato Portaluppi. Falta articulação entre os setores, não tem jogada ensaiada, mata a valência dos jogadores, joga o potencial da equipe no lixo. É igual inclusive no comportamento dos dirigentes, que justificam o fracasso, e da imprensa que, salvo exceções, não mete o dedo na ferida.

Há muito comportamento que não se explica. Mais de um comentarista, de mais de uma rádio, procurou, procurou e achou jeito de elogiar Paulo Pelaipe, diretor executivo do clube. Numa sequência de escolhas erradas da direção, contratações caríssimas e sem resultado, alguma tinha que dar certo, como Walace, jovem zagueiro. E os cérebros superdotados da imprensa logo viram nesse fato a ocasião de enaltecer Pelaipe, embora não soubessem ao certo qual foi a participação dele na contratação do jovem. "Parece ter o dedo do Pelaipe", disse um deles.

Ah, e a a torcida? Como reagiria o torcedor se, em vez de um treinador europeu, o Grêmio houvesse contratado um técnico sem grife e com sotaque do sertão? É óbvio que, por muito menos dinheiro, o clube poderia trazer alguém que, no mínimo, daria um pouco de organização ao time. Na Série B há uns quantos capazes de fazê-lo. Ah, mas se é estrangeiro é melhor! E quem pensa o contrário só pode ser xenofóbico...

Dirigentes, imprensa, empresários do futebol, torcida, ainda mais as ditas "organizadas", toda essa gente forma o ecossistema do Grêmio. Toda essa gente, queira-se ou não, é responsável pelo desastre atual. O clube está encolhendo e a responsabilidade é coletiva. É um ecossistema com a fórmula infalível do fracasso, em que cada indivíduo, assim como cada grupelho, age prioritariamente em prol do autointeresse e, apesar das manifestações de respeito ou mesmo de de amor ao clube, o interesse do Grêmio vem em segundo lugar.

É preciso repetir. Essa realidade, que é da maioria dos clubes, é igual à das empresas estatais. O critério para formar os quadros dirigentes é político: tanto faz se o sujeito é um gênio ou uma topeira. E essa gente não corre risco e não responde pelos prejuízos. Se a coisa vai mal, a conta é do clube (no caso do Grêmio) ou do poder público (no caso das estatais).

Mas, sabe como é, resta um alívio, não uma solução, mas um alívio passageiro: achar alguém para jogar a culpa justificando o fracasso. É o padrão de um ecossistema que se formou para fracassar: não ter autocrítica, transferir responsabilidades e, no fim, acostumar-se com a derrota. E o pior é ter de admitir que, se essa mediocridade fosse exclusiva do futebol, até que estaríamos bem. Só que não!


Artigo, Fernando Schuller, Estadão - Pode investigar. É seu direito. Está na Constituição

Fernando Schüler é cientista político, doutor em Filosofia (UFRGS) e professor do Insper.

 Surgiu no transe brasileiro dos últimos anos a ideia de que as regras do direito podiam ser ajustadas seletivamente em nome da própria democracia

 "O sigilo de fonte é uma garantia constitucional consagrada", diz o ministro. De fato, é o que está lá, na Constituição. O problema é que o ministro põe uma vírgula e continua: mas não pode ser usado como "escudo" para o cometimento de crimes. Vai aqui um bom resumo sobre a lógica de poder que pautou o país nos últimos anos. A lógica do "escudo".

Foi assim com a imunidade parlamentar. O deputado Marcel Van Hattem foi à tribuna da Câmara e fez uma denúncia sobre abuso de poder. Foi indiciado. Vale também para a liberdade de expressão. Já na censura da revista Crusoé, em 2019, estava lá a teoria do "escudo".

Depois de alguns parágrafos com elogios à liberdade de expressão, surge a famosa "vírgula", seguida do tom ameaçador. Tudo com direito a uma frase esquisitíssima, garantindo que "jamais" se permitiria a existência de "mecanismos de censura prévia" no país. À luz de tudo o que se viu no Brasil nos anos que se seguiram, não deixa de ser uma curiosidade.

Surge agora este caso do jornalista Luiz Pablo, no Maranhão. Algumas organizações de mídia se dizem "preocupadas". O tom é protocolar e perfeitamente inócuo. De um jornalista, leio que isto pode ser um "precedente perigoso". De outro, escuto que nem o jornalista nem sua fonte possuem "foro" e, logo, não deveriam estar no Supremo.

Nas entrelinhas, o argumento de sempre: coisas como essa de fato foram "necessárias" nos anos recentes para "salvar a democracia", mas, agora que Bolsonaro está preso e tipos perigosos como a Débora do Batom estão fora de ação, seria o caso de voltarmos todos a respeitar o que diz a Constituição.

O problema desta tese é simples: é o poder, e não seus críticos ou vítimas, que define o estado de exceção. Se, de fato, os ministros salvaram nossa democracia, sabiamente flexibilizando direitos individuais, por que não poderiam usar esta mesma sabedoria, agora, lá no Maranhão?

Não achamos lógico que um deputado do Paraná, Homero Marchese, fosse censurado durante meses por um banner na internet, divulgando um protesto em Nova Iorque? Não ficamos em silêncio quando Luciano e outros empresários foram censurados por cerca de dois anos por um papo-furado no WhatsApp? E ainda agora não fizemos o mesmo quando um pastor se tornou réu no Supremo por chamar generais de "covardes"?

Qual seria exatamente a razão de tanto espanto quando um jornalista, no Maranhão, tem os seus dispositivos apreendidos e o sigilo de fonte quebrado em uma investigação? Esta foi, de fato, a crônica brasileira dos últimos anos. Um estranho mundo feito da conversão do direito em um jogo de palavras. O mundo em que um jornalista inconveniente se converte em "blogueiro", em que a investigação sobre o uso de um veículo oficial se torna um "ataque" ao Supremo e a relação entre fonte e jornalista, uma "organização criminosa".

Tudo isso para dizer que há um pecado original no transe brasileiro dos últimos anos: a aceitação da lógica do atalho. A ideia de que as regras do direito podiam ser ajustadas seletivamente em nome da própria democracia. Uma lógica que vem de longe na vida brasileira, mas que, por alguma razão, sempre nos soa como novidade. O resultado prático disso é que o poder não se abala. O ministro quebra o sigilo de fonte sem muita cerimônia porque sabe que há uma equação política que sustenta sua posição. Há a Primeira Turma, há uma maioria confortável na Corte, há um alinhamento com o governo e boas perspectivas eleitorais. Há um Congresso inerte e um mundo jurídico que circula ao redor do Tribunal. E, por fim, uma opinião ilustrada que ainda reproduz a tese da "salvação da democracia". Não penso que nada disso seja estranho à nossa tradição. Estranho seria um ministro dizendo: "Ok, vamos respeitar sua fonte.  Pode investigar o uso do carro oficial. É seu direito. Está na Constituição." Nesse caso, não há dúvida: estaríamos em outro país.

 

Link deste artigo no Estadão:

https://www.estadao.com.br/politica/fernando-schuler/pode-investigar-e-seu-direito-esta-na-constituicao/?srsltid=AfmBOoo3-HewZDcIwvmIaXeDzwzmfey2zY74JHQXmI_htWhT29BOEeQs


Artigo, Antonio Cabrera, Gazeta do Povo - O Brasil subsidiou o carro elétrico chinês enquanto tinha a resposta em casa

O papel do Estado não é escolher vencedores, mas criar regras para que as melhores tecnologias concorram em igualdade de condições.

Antonio Cabrera é médico-veterinário, empresário do agronegócio e presidente do Grupo Cabrera. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária - o mais jovem da história - e secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Integra o Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e preside o Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.

 Nos Estados Unidos, as vendas de carros elétricos caíram fortemente entre janeiro e maio de 2026, na comparação com 2025: de 102 mil para 66 mil em janeiro e de 103 mil para menos de 85 mil em maio. A retração foi expressiva em todos os cinco primeiros meses do ano.

O motivo não pode ser atribuído a uma única causa, mas a mudança de política teve peso importante. O governo Trump encerrou o crédito fiscal federal de US$ 7.500 por veículo elétrico sete anos antes do previsto, afrouxou regras de economia de combustível e reduziu o apoio federal à infraestrutura de recarga. Quando o incentivo público diminui, o mercado passa a revelar com mais clareza quanto da demanda existia por mérito próprio e quanto dependia da política pública.

No Brasil, talvez a nossa história seja ainda mais contraditória.

O carro elétrico chegou aqui isento de imposto. Até o fim de 2023, elétricos importados pagavam zero de imposto de importação, enquanto automóveis convencionais estavam sujeitos à tarifa cheia. Quando o governo decidiu recompor a tributação, fez isso gradualmente: 10% em janeiro de 2024, 18% em julho de 2024, 25% em julho de 2025, chegando posteriormente à alíquota cheia. Foi uma transição longa para um setor que já havia recebido anos de proteção tributária.

E não parou aí. Enquanto a tarifa subia no papel, o governo manteve cotas de importação com alíquota zero, no valor de centenas de milhões de dólares, e criou tratamento favorecido para kits desmontados e semidesmontados (CKD e SKD), destinados à montagem local. Na prática, abriu-se uma porta para trazer grande parte do valor agregado de fora e realizar aqui apenas a etapa final de montagem.

O próprio governo reconheceu, em nota técnica, que a tarifa zero acabou beneficiando também veículos de alto valor. Entre os eletrificados mais vendidos estavam modelos como o Porsche Cayenne, na faixa de R$ 630 mil, e o Volvo XC60, próximo de R$ 420 mil, ao lado de modelos como o BYD Song. Em alguns casos, a renúncia potencial de imposto de importação chegava a cerca de R$ 138 mil por veículo. Ou seja, não se tratava apenas de incentivar uma tecnologia nascente. Parte do benefício tributário também alcançava consumidores de automóveis de luxo.

E há uma segunda camada de incentivos: os estados. A Bahia, justamente onde está instalada a fábrica da BYD, concede isenção de IPVA para veículos elétricos de até R$ 300 mil. Assim, o mesmo carro que durante anos entrou no Brasil com imposto de importação reduzido ou zerado ainda pode receber um novo benefício tributário depois de emplacado. A Bahia não está sozinha. Diversos estados brasileiros oferecem isenção total, parcial ou alíquotas reduzidas de IPVA para veículos elétricos e híbridos.

Não discuto o mérito do carro elétrico. É uma tecnologia importante e continuará conquistando consumidores.

O problema é outro.

Por que um governo decide favorecer uma tecnologia em detrimento de outra justamente no país que já possui uma solução renovável, nacional e madura?

A resposta também passa pela China. Um estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS) estimou que a indústria chinesa de veículos elétricos recebeu pelo menos US$ 230,8 bilhões em apoio estatal entre 2009 e 2023, incluindo benefícios tributários, crédito subsidiado, infraestrutura de recarga, terrenos e outras formas de incentivo. A União Europeia investigou esses subsídios e aplicou tarifas compensatórias específicas por montadora. Os Estados Unidos foram além e elevaram sua tarifa para mais de 100%.

Ou seja, o veículo elétrico chinês pode chegar ao Brasil favorecido duas vezes: primeiro, por políticas públicas no país de origem; depois, por incentivos e benefícios tributários concedidos aqui.

Enquanto isso, o Brasil é líder mundial em etanol de cana-de-açúcar. Temos infraestrutura instalada há décadas, tecnologia flex desenvolvida no país, uma cadeia produtiva nacional e um combustível capaz de reduzir fortemente as emissões sem exigir a substituição imediata de toda a frota.

Mesmo assim, a política pública muitas vezes trata o etanol como uma tecnologia do passado e o carro elétrico como um destino inevitável.

Essa escolha merece ser questionada.

Nos Estados Unidos, o veículo elétrico substitui predominantemente um automóvel movido a gasolina. No Brasil, ele pode substituir um veículo flex abastecido com etanol - e isso muda completamente a comparação ambiental.

Estudos brasileiros de Avaliação do Ciclo de Vida mostram que um híbrido flex abastecido com etanol pode emitir cerca de 29 gramas de CO² equivalente por quilômetro, um desempenho ambiental extremamente baixo. Em determinadas comparações, esse resultado é inferior ao atribuído a veículos elétricos quando se considera todo o ciclo de vida, incluindo a fabricação das baterias e a origem da eletricidade.

A questão deixa de ser simplesmente "carro elétrico versus carro a combustão". Em muitos casos, o Brasil pode estar

Opinião

 Mais uma vez é desmoralizado o STF no caso desta decisão do tribunal de Londres decidiu que o órgão britânico pode continuar usando provas da Operação Lava Jato para confiscar 7,3 milhões de libras (cerca de R$ 51 milhões) de um ex-engenheiro da Petrobras. A decisão do juiz Mark Weekes ignorou um despacho do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia anulado o envio desses documentos ao Reino Unido.

Não é o primeiro caso de repercussão internacional, porque Cortes nos EUA ignoram o golpe promovido pelo STF no caso da Lava Jato.

O processo envolve o recurso do ex-engenheiro Mario Ildeu de Miranda contra o confisco civil de suas contas bancárias determinado em 2023. O juiz britânico Mark Weekes classificou a anulação feita por Dias Toffoli como "altamente incomum". O magistrado apontou que a decisão brasileira foi individual (monocrática) e não passou pelo plenário do STF. Para a Justiça de Londres, as provas foram obtidas de boa-fé no passado sob acordos de cooperação internacional válidos na época.

O tribunal entendeu que a ação de confisco civil em Londres foca diretamente no dinheiro e que a revogação posterior da base jurídica no Brasil não invalida o material já transferido. 

Questões diplomáticas decorrentes do ato devem ser resolvidas entre os governos, e não pela corte.

A decisão do STF declarou nula a remessa do acervo probatório sob o argumento de incompetência da vara de origem (Curitiba) para autorizar a transferência internacional. Especialistas apontam o caso como um atrito na cooperação jurídica mútua entre Brasil e Reino Unido.

Artigo, Felipe Vieira - João Garcia: há amigos que o rádio nos dá para a vida inteira

Felipe Vieira é jrnalista da Band TV


Há textos que custam mais do que outros. Não pela falta de palavras, mas porque nenhuma delas parece suficiente quando é preciso se despedir de um amigo.


É assim que escrevo sobre João Garcia.


Foram muitos anos de convivência, rádio, futebol, conversas, risadas e histórias. E é difícil aceitar que alguém que esteve durante tanto tempo por perto, com aquele jeito tão particular de ocupar os ambientes, agora passe a existir apenas na memória.


João Antônio Lopes Garcia morreu nesta terça-feira, 18 de agosto, aos 77 anos, em decorrência de um acidente doméstico sofrido durante a madrugada.


João atravessou mais de cinco décadas de comunicação no Rio Grande do Sul. Fez parte de uma geração em que o rádio esportivo gaúcho não era apenas acompanhamento de futebol. Era companhia. Era hábito. Era parte da vida das pessoas.


Natural de Arroio Grande, começou profissionalmente em 1971, na Rádio Cultura de Pelotas. No ano seguinte, passou pela TV Tuiuty, posteriormente incorporada à RBS TV. Viveu também uma etapa profissional em Brasília, onde chegou à chefia de Jornalismo da Rádio Alvorada e foi correspondente de Zero Hora.


De volta ao Rio Grande do Sul, passou por algumas das principais emissoras do Estado. Trabalhou nas rádios Gaúcha, Sucesso, Difusora, Bandeirantes e Guaíba, além da televisão.


Na Rádio Gaúcha, integrou uma geração extraordinária do esporte, convivendo com nomes como Ruy Carlos Ostermann, Pedro Ernesto Denardin e Haroldo de Souza. Participou também da experiência da Rádio Sucesso, ao lado de Pedro Ernesto, Wianey Carlet, Nilton Azambuja, Paulo Mesquita e tantos outros profissionais que ajudaram a construir uma época especial do rádio esportivo gaúcho.


Mas foi na Rádio Bandeirantes que nossas histórias profissionais se encontraram de maneira mais próxima.


João chegou à emissora em 1995. Entre aquele ano e 2003, apresentou o Manhã Bandeirantes e participou intensamente da programação esportiva da rádio e da televisão. Mais tarde, em 2008, retornou ao Grupo Bandeirantes, novamente dividindo sua atuação entre jornalismo, esporte e opinião.


Foi ali que trabalhei com ele.


E é inevitavelmente esse João que aparece primeiro quando fecho os olhos.


Antes do comentarista, do radialista experiente, do homem que conhecia futebol e carregava décadas de rádio nas costas, lembro do parceiro.


João era um companheiro espetacular de trabalho. Amigo, engraçado, divertido, com aquele repertório inesgotável de quem tinha vivido muito dentro e fora das cabines.


Com ele, o rádio não começava quando acendia a luz vermelha do estúdio. Começava muito antes. Nas conversas, nas provocações, nas histórias, nas discussões sobre futebol. E também não terminava quando o microfone era desligado.


Esse talvez seja um dos maiores privilégios que a nossa profissão proporciona: algumas pessoas entram na nossa vida como colegas e, quando percebemos, já viraram amigos.


João foi um deles.


Seu trabalho também recebeu reconhecimento. Em 2011, ganhou o Prêmio Press de Melhor Comentarista de TV. Em 2024, esteve entre os profissionais homenageados pela Associação Riograndense de Imprensa em uma celebração dedicada à história do rádio gaúcho. Mesmo depois de deixar a rotina das grandes emissoras, continuou ligado à comunicação em diferentes projetos, entre eles a Rede de Opinião.


E havia ainda sua relação com os próprios cronistas esportivos.


João presidiu a Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos, a ACEG, trabalhando pela valorização dos profissionais e pelo fortalecimento da entidade. O vínculo permaneceu mesmo depois da presidência, e uma das competições promovidas pela associação chegou a receber seu nome.


Mas a vida também reservou a João capítulos muito duros.


Um deles eu jamais esqueci.


João perdeu uma filha depois de uma doença grave. Naquele período, a família precisava de ajuda e nós nos mobilizamos. Amigos, colegas e profissionais de diferentes lugares participaram de uma campanha para auxiliá-los.


Anos depois, seria o próprio João quem precisaria novamente dessa corrente.


Nos últimos tempos, sua saúde se tornou cada vez mais frágil. Enfrentou dois infartos, três AVCs e problemas renais que o levaram à hemodiálise três vezes por semana. Passou ainda por uma infecção grave e sepse. Mais recentemente, foi diagnosticado com aterosclerose, doença que comprometeu a circulação das pernas e exigiu novos procedimentos médicos.


E, outra vez, o rádio se encontrou.


Colegas de diferentes emissoras, gerações e redações se mobilizaram para ajudá-lo. Houve vaquinha, campanha, rifa, divulgação. Gente que havia trabalhado com João décadas antes apareceu. Outros que conviveram com ele mais recentemente também.


Isso sempre me tocou.


Porque há uma espécie de família invisível formada por quem passou a vida em redações e estúdios. Podemos trabalhar em empresas diferentes, disputar audiência, discordar sobre futebol, política ou qualquer outra coisa. O tempo pode nos afastar.


Mas, quando um dos nossos precisa, muitas dessas diferenças desaparecem.


Foi assim com João na doença da filha.


Foi assim novamente quando ele próprio adoeceu.


E talvez isso diga muito sobre as relações que construiu durante a vida.


Lembro também de uma homenagem feita a João anos atrás. Naquela ocasião, ele deixou uma mensagem aos jovens jornalistas. Falou sobre sonhos, honestidade, verdade e sobre a possibilidade de transformar o rádio em instrumento de amor e solidariedade.


E falou sobre o dia em que não estivesse mais aqui.


Esse dia chegou.


Só que João não será apenas saudade.


Será memória.


Será uma voz guardada na cabeça de quem cresceu ouvindo rádio no Rio Grande do Sul.


Será parte da história de uma geração extraordinária da crônica esportiva, aquela em que uma jornada começava horas antes da bola rolar e o rádio acompanhava o torcedor dentro de casa, no carro, no estádio, na rua, onde quer que estivesse.


Será lembrado pelas redações pelas quais passou, pelas cabines que ocupou, pelas Copas que acompanhou, pelos programas que apresentou e pelas intermináveis discussões sobre futebol.


Para mim, porém, ficará sobretudo o amigo.


Aquele João da Bandeirantes.


O parceiro.


O sujeito engraçado.


O contador de histórias.


O homem com quem dividi microfones, trabalho e uma parte importante da vida profissional.


A morte sempre nos confronta com uma crueldade simples: durante anos encontramos determinadas pessoas acreditando, sem sequer pensar nisso, que haverá outra conversa, outra brincadeira, outro encontro.


Até que descobrimos que o último encontro já aconteceu.


João deixa a esposa, Nélia Garcia, as filhas Thaiany e Thaynã, os netos Lucas, Bethânia e Dielly e uma quantidade impossível de medir de colegas, ouvintes e amigos que fez ao longo de mais de meio século de comunicação.


À Nélia, às meninas, aos netos e a toda a família, deixo meu abraço mais carinhoso.


E a ti, meu querido João, deixo o meu obrigado.


Obrigado pela amizade.


Pelas conversas.


Pelas histórias e pelas risadas.


Pela generosidade.


Pelo rádio.


Pelo jornalismo.


E por ter ajudado a construir uma época do rádio esportivo gaúcho que aqueles que tiveram o privilégio de viver jamais esquecerão.


Vai em paz, meu amigo.


O microfone pode ter sido desligado.


A tua voz, não.


@felipevieirajornalista