quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Fim de um dos maiores ciclos de alta nos EUA? Professor faz alerta para padrões históricos

Fim de um dos maiores ciclos de alta nos EUA? Professor faz alerta para padrões históricos
Mercado norte-americano se aproxima de um de seus mais longevos períodos de alta em um século – e isso pode ser um sinal de alerta

O mercado norte-americano está convivendo com um momento histórico: os investidores estão presenciando um dos maiores e mais duradouros ciclos de alta em um século. Em termos de duração, o momento atual fica atrás apenas do ciclo originado nos anos 1990 e que desembocou na Bolha da Internet no início dos anos 2000 – e, se o atual ciclo permanecer até o final de agosto deste ano, será o mais longo em um século. Em termos de ganhos totais, o ciclo dos anos 1920 que desembocou na crise de 1929 também é mais expressivo, mas o momento atual caminha em busca dessa marca.

Os dados históricos do mercado norte-americano foram analisados pelo professor Aod Cunha, que leciona na pós-graduação online em Finanças, Investimentos e Banking da PUCRS. Aod explica que é preciso prestar atenção para os padrões históricos para compreender a possibilidade de exaustão do movimento atual. “Economistas e financistas podem ter diferenças sobre por que os ciclos existem ou não, mas ninguém discorda que temos ciclos de alta e em algum momento precisamos ter realizações”, diz. Cunha também foi Managing Director do banco norte-americano JPMorgan em São Paulo e sócio do BTG Pactual, e ainda atua como conselheiro em diversas empresas.

O que mais preocupa o professor no movimento atual é o motivo que tem alimentado o “bull market”, iniciado após a forte crise financeira de 2008. “O que é interessante é que esse não é um ciclo de alta associado a um dos mais longos ciclos de crescimento econômico real da história. Vários ciclos anteriores tiveram crescimento maiores. O que tem de diferente nesse ciclo atual é muita liquidez no mercado, guiada pelos juros baixos por muito tempo”, explica. Como base de comparação, nos anos 1990 era normal o crescimento do PIB anualizado dos EUA rondar a faixa dos 4% ao ano, enquanto o ciclo atual tem girado próximo a uma taxa de 2%.

Você quer ter aulas com Aod Cunha e um time de professores de peso? Conheça a pós-graduação da PUCRS e matricule-se em poucos passos.

E o alerta vale para outros mercados, uma vez que os ganhos em descompasso com o crescimento econômico não é uma particularidade do mercado acionário. “Se olharmos para vários outros ativos, como os mercados de bonds, high yields, crédito corporativo, todos eles estão com preços esticadíssimos”, afirma.

Ciclos permanentes de alta são improváveis, e os padrões históricos refutam a ideia muitas vezes difundida de que “dessa vez é diferente”. Aod lembra dos anos 1990, quando se argumentava que a economia crescia a taxas superiores a 4% por conta da revolução da internet e pelos ganhos de produtividade advindos com a nova tecnologia. “Sabemos o que aconteceu na sequência: a realização veio e foi muito acentuada”, afirma. Segundo dados compilados pela S&P Capital IQ, após o estouro da Bolha da Internet o mercado norte-americano entrou em um forte “bear market”, com perdas de 49,1% no S&P 500. Foram necessários 56 meses para que o índice se recuperasse e igualasse a pontuação anterior.

*Até 26/01/2018
Fonte: CFRA, S&P DJ Indices                      
Bull Markets desde 1921
Período               Duração               Ganhos Totais
09/03/2009 - atual*        107 meses          325%
09/10/2002 – 09/10/2007             60 meses            101%
11/10/1990 – 24/03/2000             113 meses          417%
04/12/1987 – 16/07/1990             31 meses            65%
12/08/1982 – 25/08/1987             60 meses            229%
03/10/1974 – 28/11/1980             74 meses            126%
26/05/1970 – 11/01/1973             32 meses            74%
07/10/1966 – 29/11/1968             26 meses            48%
26/06/1962 – 09/02/1966             44 meses            80%
22/10/1957 – 12/12/1961             50 meses            86%
13/06/1949 – 02/08/1956             86 meses            267%
17/05/1947 – 15/06/1948             13 meses            24%
28/04/1942 – 29/05/1946             49 meses            158%
31/03/1938 – 09/11/1938             7 meses               62%
14/03/1935 – 06/03/1937             24 meses            132%
01/06/1932 – 18/07/1933             14 meses            177%
01/08/1921 – 07/09/1929             97 meses            395%
Os dados, compilados pela CFRA e pelo S&P DJ Indices, mostram que os bull markets duram, em média, 52 meses, com ganhos totais de 163%. Portanto, o momento atual, com 107 meses de duração e ganhos de 325%, representa o dobro dos ciclos médios de alta registrados desde 1921. O alerta não significa que o mercado norte-americano irá necessariamente iniciar uma correção nos próximos dias ou meses, mas é importante ter em mente que essa possibilidade existe e pode vir em algum momento. “A cada mês que passa, se olharmos as regularidades passadas, ainda que o mundo seja diferente por diversas razões, aumenta a probabilidade de um ajuste mais forte”, explica.

E o Brasil?

O comportamento do mercado brasileiro é um pouco diferente do norte-americano, mas ainda assim um eventual ajuste nos EUA também deverá trazer implicações para os investidores brasileiros. Em um primeiro momento, espera-se um ajuste para baixo, mas na sequência a bolsa brasileira ainda tem um espaço adicional a percorrer na recuperação, uma vez que os últimos anos foram marcados por um forte descolamento do mercado brasileiro proveniente da crise política.

Quanto ao forte desempenho registrado em 2017 e nesse início de 2018, Aod credita esse desempenho principalmente ao cenário externo. “O que ocorre aqui faz parte de um movimento global de muita liquidez e crédito barato. O investidor estrangeiro olha para os emergentes e vê que o Brasil sofreu mais e está tentando fazer reformas, ele está precificando as expectativas do próximo governo, em um momento no qual os múltiplos estão esticados lá fora”, explica.

O mercado colocou nessa conta um desfecho positivo para as eleições presidenciais – ou seja, um governo comprometido com uma agenda de reformas –, mas para os próximos anos o Governo pode ter que enfrentar novos problemas. “Depois de 2019 a vida vai ser mais dura do que se espera. O Brasil tem um problema ligado principalmente à demografia, com um processo único no mundo de envelhecimento da população, o que coloca um teto mais baixo na nossa taxa de crescimento”, alerta. Atualmente, parcela significativa dos ganhos de produtividade é proveniente do aumento natural da força de trabalho. “No longo prazo, para continuarmos crescendo, a produtividade vai ter que multiplicar, e isso deve vir de uma série de reformas. Hoje o mercado está olhando somente para a questão fiscal”, afirma.

O fim do bull market

A grande questão, no entanto, é como identificar o início do fim de um bull market. “É prematuro dizer que está começando o estouro de uma bolha. As regularidades passadas mostram que raramente temos um mergulho direto. Pode ocorrer algo semelhante à crise de 2008, quando tivemos um primeiro ajuste, uma recuperação e 

Nenhum comentário:

Postar um comentário