terça-feira, 19 de junho de 2018

Artigo, Tito Guarniere - Em luta permanente


Uma palavra comum no dicionário da esquerda é “luta”. Sempre se está lutando por alguma causa, uma bandeira. É como se todos vivêssemos em conflito permanente, e como se não houvesse solução que não fosse o enfrentamento.

Com frequência na história, os grupos humanos se veem na contingência única de lutar. Se uma potência estrangeira invade o nosso território, que alternativa temos, senão a de resistir? Que opção tinha o mundo senão enfrentar no campo de batalha o Reich insano, o psicopata furioso Adolf Hitler?

De onde vem essa postura de contínuo desafio, de maus bofes e mau humor permanentes, que move dirigentes e militantes ditos “progressistas”? Arrisco dizer que vem, em primeiro lugar, das certezas inabaláveis, da confiança cega nos seus próprios dogmas. Se não há hipótese de o adversário ter alguma parcela de razão, se ele teima em não aceitar a verdade revelada, então não há o que fazer senão subjugá-lo. Se não for pelo argumento, que seja no grito. Na política, no debate social, quanto maiores forem as nossas certezas, mais beligerantes tendemos a ser.

A outra razão, que depende da primeira, é o mito marxista da luta de classes. O profeta alemão errou em quase todas as predições. As suas ideias, onde floresceram, só geraram a ruína econômica e as ditaduras mais brutais. Mas Marx é um fracasso que deu certo: tanto mais ele errou, mais os seus seguidores em todo o mundo o reverenciam, principalmente entre os intelectuais, os professores da academia. Podem não ter lido toda a obra, podem ter lido e não ter compreendido ou assimilado muito bem. Mas a luta de classes é um bordão para todas as ocasiões.

Então, em cada greve de caminhoneiros, em cada grande movimento popular, em cada evento relevante da história, em cada grande ou pequeno tremor na economia, tudo se explica pela luta de classes. Para ter luta, é preciso ter inimigos. E se eles não existem, ou não são tão visíveis nem tão claros, que se os criem, que se lhes ponha na testa um carimbo, que lhes atribua uma maldade intrínseca e uma congruência de meios e fins.

Mas será assim mesmo, tudo é luta e conflito? Felizmente, na vida e na história, não é assim. Inúmeras vezes, a solução de um impasse, um conflito, vem de um gesto de paz, de cooperação, de entendimento, de concessão mútua.

O que chamamos de civilização não é senão a convivência comum, a resolução pacífica das diferenças. O mundo se tornou mais habitável não nos gabinetes da guerra, mas nas salas de conferência de paz, quando os homens entre si se respeitaram e estenderam-se as mãos.

Qual a razão, hoje em dia, para fincar pé, se manter em postura de ataque, proclamar que é preciso “luta” em todas as situações? Não nos compele mais a contingência do homem das cavernas, quando se aventurava sair em busca de comida: enfrentar ou fugir, diante do perigo.

Somos o resultado de séculos de evolução, aprendemos com nossos erros e nosso sofrimento: é avançado, é progressista sentar à mesa com o adversário ou inimigo, e encontrar saídas razoavelmente consensuais, nas quais todos perdem e todos ganham alguma coisa.

titoguarniere@terra.com.br




Nenhum comentário:

Postar um comentário