Editorial Estadão 30/01/2026
Caso da relação do escritório de Lewandowski com o Master é só a mais recente de uma série de situações eticamente reprováveis, mas que são tratadas pelas autoridades com espantosa naturalidade
Algumas autoridades importantes de Brasília querem fazer os brasileiros se convencerem de que nem sempre um bicho que tem pé de porco, orelha de porco e rabo de porco é mesmo um porco.
Por exemplo: ao contrário das aparências, dizem esses próceres da República, não há nada de errado quando o escritório de advocacia de um ministro da Justiça presta serviços para um banco investigado pela Polícia Federal, que está sob o comando desse mesmo ministro; também não há nenhum problema quando um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) decide comandar o inquérito sobre esse tal banco mesmo tendo parentes possivelmente envolvidos no caso; por fim, não há nada de mais quando o escritório de advocacia da mulher de outro ministro do Supremo é contratado por esse mesmo banco, com remuneração milionária, para representá-lo junto ao Banco Central e ao Congresso Nacional - atividade típica de lobistas, não de advogados.
Ora, francamente. O possível envolvimento de autoridades de altíssimo escalão com o Banco Master, protagonista de um dos maiores escândalos da história recente, já seria suficientemente grave, mas mais grave ainda é essa tentativa vergonhosa de negar o que está escancarado à vista de todos: que essas autoridades no mínimo se comportaram de maneira imprudente, ignorando limites éticos óbvios. Seria sinal de respeito pelos cidadãos se os indigitados ao menos reconhecessem o deslize. Mas não: preferem fazer o País de bobo.
É espantosa a naturalidade com que Ricardo Lewandowski, por exemplo, tratou da vigência do contrato de "consultoria jurídica" firmado entre seu escritório de advocacia e o Banco Master no período em que ele já era ministro da Justiça e Segurança Pública. Ao justificar que se afastou da
advocacia para ingressar no governo federal, deixando a banca aos cuidados da mulher e do filho, Lewandowski insultou a inteligência alheia. Não deveria ser difícil identificar um problema ético quando o núcleo familiar do ministro responsável por órgãos centrais do sistema de persecução penal e de controle financeiro do País recebe dinheiro do principal investigado no caso Master, Daniel Vorcaro.
Já o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, por exemplo, ainda não se dignou a esclarecer os negócios de seus irmãos com um cunhado de Vorcaro, o que deveria ser suficiente para determinar sua suspeição no processo. Seu colega Alexandre de Moraes, por sua vez, até hoje não disse uma palavra convincente sobre o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua mulher, que previa honorários de espantosos R$ 129,6 milhões.
Em vez de constranger seus pares a recobrar o prumo em nome da honorabilidade da instituição que preside, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, jamais tratou do contrato da mulher de Moraes e classificou como "regular" a atuação de Toffoli à frente do caso Master - que nem deveria estar no Supremo. Já o decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes, defendeu Toffoli amparando-se no entendimento da Procuradoria-Geral da República, de resto omisso, segundo o qual nada justificaria o impedimento de Toffoli. Para o procurador-geral, Paulo Gonet, o aparente envolvimento direto de irmãos do ministro no caso não tem relevância alguma. No entender de Gilmar Mendes, essa conclusão de Gonet "reafirma a maturidade do sistema constitucional brasileiro".
O denominador comum desses episódios é a naturalização de gritantes conflitos de interesses e a recusa sistemática dessas autoridades a prestar contas à sociedade, como se pairassem como entidades acima dos controles republicanos. O Supremo precisa pôr a mão na consciência e voltar a ser respeitado como instituição vital para o regime democrático.
Quando algumas das mais altas autoridades da República oferecem o silêncio ou explicações que ferem o bom senso sobre suas relações com um banqueiro que hoje só não está preso por causa da rede de proteção que teceu em Brasília, é sinal de que a bússola moral está avariada.
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https://www.estadao.com.br/opiniao/fazendo-o-pais-de-bobo-2/?srsltid=AfmBOortGnVtUB7ES6dz3d76nl3OiJKxFJih7VcQDiBQfZgkjA1Hd1KF
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