Editorial, RBS - A estranha rede de proteção ao Master

 A cada novo dia emerge uma novidade sobre o caso do Banco Master que espanta e intriga. Espanta pela descoberta de mais indícios de irregularidades e pela extensão da teia de proteção que atua nas sombras para tentar reverter a liquidação extrajudicial da instituição, decretada pelo Banco Central (BC), e proteger o seu dono, o bilionário Daniel Vorcaro. Intriga porque se avolumam perguntas à espera de respostas sobre quais são as razões de tamanha mobilização. É plausível concluir que são numerosas e influentes as figuras da República com receio de que venham a público suas relações com o banco e Vorcaro e a natureza dessas ligações.

Um país que pretende ser sério não pode admitir que um acordão impeça que o caso seja passado a limpo

Parece que o país está diante de um caso com potencial para se tornar um escândalo de rara proporção, mesmo para um país pródigo em episódios de corrupção grossa. Cabe à sociedade brasileira permanecer atenta aos desdobramentos e cobrar que a caixa-preta do Master seja aberta. Compete exigir que as investigações prossigam de forma rigorosa. Convém dar atenção a movimentos mal explicados em instituições de caráter político ou que, apesar de orginalmente técnicas, têm agido de forma atípica.

A mais recente descoberta sobre a engrenagem para proteger o Master é referente a um ataque digital massivo e coordenado para descredibilizar o BC. É preciso saber quem teria pagado valores que chegavam a R$ 2 milhões de reais a influenciadores para difamar a autoridade monetária, que acertadamente liquidou o Master devido à incapacidade de honrar compromissos e à fraude da venda de carteiras de crédito inexistentes no valor de R$ 12 bilhões. Esses influenciadores tinham de assinar um contrato de confidencialidade de R$ 800 mil antes de a tarefa ser revelada. Merece reconhecimento a atitude do vereador de Erechim Rony Gabriel (PL), que apesar de ter firmado o termo de sigilo denunciou o caso, a despeito do risco que passa a correr.

Há muitos enigmas a serem desvendados. A que se deve todo o lobby político para que o BRB, banco estatal do Distrito Federal, adquirisse o Master, já em crise de liquidez? O negócio foi barrado pelo BC. Como reação, o centrão articulou um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir diretores do Banco Central. Quais razões levaram Estados e municípios a investir em fundos previdenciários do Master, apesar dos alertas sobre a insustentabilidade do banco? 

O país segue ainda à espera de melhores explicações sobre o contrato de R$ 129 milhões do Master com a banca da esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes e acerca da suposta tentativa de Moraes de interceder pelo Master junto ao BC no caso da aquisição pelo BRB. Da mesma forma, não são satisfatórias as razões alegadas pelo ministro Dias Toffoli para puxar toda a investigação sobre o banco para a Corte e decretar sigilo no caso. Ainda é um mistério a motivação do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, apadrinhado do centrão, de tentar uma insólita inspeção no BC sobre a liquidação do Master. A credibilidade das próprias instituições brasileiras está em jogo.

Um país que pretende ser sério não pode admitir que um acordão por interesses inconfessáveis impeça que o caso Master seja passado a limpo. 











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