Hamilton Mourão é senador e general. Este artigo está publicado no Estadão de hoje.
O idealismo e a coragem física, embora respeitáveis, não podem substituir a responsabilidade institucional do Estado e, nessa direção, a guerra da Ucrânia é um alerta duro sobre os rumos do sistema internacional e sobre a necessidade de se pensar e se investir nas capacidades de defesa.
Depois da 2ª Guerra Mundial, a atual guerra em curso no Leste Europeu é um dos episódios mais graves do cenário geopolítico desde o final da Guerra Fria. A criminosa invasão da Ucrânia pela Federação Russa recolocou no centro do debate temas como a capacidade dos organismos internacionais, a relativização da soberania nacional, a autodeterminação dos povos e os limites do uso da força nas relações internacionais. Mas além desse espectro, pouco a pouco nos chama a atenção o incremento numérico da presença de brasileiros que, de forma voluntária, e por vezes até iludidos, aceitam o recrutamento e decidem viajar para atuar no conflito. O que busco aqui não é polemizar, mas sim lançar luzes sobre o fenômeno dos voluntários brasileiros, seus reflexos e possíveis consequências. Destarte, é preciso separar a emoção para não contaminar a lente de uma análise fenomenológica em nível mais estratégico. Por força constitucional e pelo histórico consuetudinário do “modus operandi” de nossa diplomacia, vemos que o Brasil é um país comprometido com a solução pacífica de controvérsias. Não somos, por natureza, uma nação beligerante e nem tínhamos a tradição de exportar combatentes para conflitos externos. Agora, com a hiper conectividade que marca nosso mundo, vivemos uma realidade onde indivíduos, movidos por motivações distintas (convicções ideológicas, necessidade financeira, valores pessoais ou até expectativas equivocadas) tomam decisões de alto risco sem qualquer mediação ou orientação do Estado brasileiro. continua após a publicidade É certo que, na guerra da Ucrânia, os brasileiros que se alistam como voluntários não representam a posição oficial do nosso País, agindo por conta própria e assumindo, individualmente, as consequências incertas de suas escolhas. Não é exagero dizer que muitos o fazem movidos por uma percepção genuína de solidariedade a um povo que resiste à invasão injusta de seu território. Outros, infelizmente, podem ser atraídos por narrativas romantizadas da guerra, sem plena consciência de sua brutalidade, de seus custos humanos e de suas implicações jurídicas. Há, ainda, um aspecto humano que não pode ser ignorado. A guerra não se assemelha aos discursos inflamados das redes sociais; pois produz mortos, mutilados, traumas psicológicos profundos e famílias destruídas. Muitos desses voluntários, quando e se retornarem, voltarão marcados para o resto da vida. Assim, é dever do Estado buscar informações, prevenir-se e, dentro dos limites legais, orientar seus cidadãos para que não se lancem, de forma inconsequente, em uma aventura macabra. Como senador da República, cumpre-me analisar e avaliar qual seria a postura cabível e responsável do Estado brasileiro face a essa realidade. É certo, também, que esse movimento deva ser monitorado pela inteligência de Estado, que precisa saber quem são essas pessoas e o que farão quando retornarem ao Brasil. Não se trata de criminalizar automaticamente esses cidadãos, mas sim de perceber que esses voluntários, ao retornar, poderão sofrer de stress pós traumático, poderão ser cooptados por organizações criminosas e poderão, inclusive, ter vínculos internacionais de caráter suspeito. continua após a publicidade Plumasul R$ 180,82 Travesseiro de Fibra Siliconizada Toque de Pluma Branco 50X70cm Saber mais Além das necessidades da inteligência, o Brasil precisa pensar e avançar no que tange aos sérios riscos legais, diplomáticos e pessoais desse fenômeno. Não se trata de dizer que o Brasil pode ser arrastado, ainda que indiretamente, para uma guerra que não é sua, mas sim de não permitir que ações individuais comprometam a segurança interna e nossa tradicional posição de equilíbrio e diálogo. Por derradeiro, é fundamental e urgente pensarmos no fenômeno dos brasileiros que estão lutando na Ucrânia e nos reflexos futuros dessa realidade. O idealismo e a coragem física, embora respeitáveis, não podem substituir a responsabilidade institucional do Estado e, nessa direção, a guerra da Ucrânia é um alerta duro sobre os rumos do sistema internacional e sobre a necessidade de se pensar e se investir nas capacidades de defesa. Tudo Sobre Ucrânia [Europa]
Nenhum comentário:
Postar um comentário