Este artigo foi originalmente publicado no Instituto Juan de Mariana.
A Colômbia está mergulhada em uma crise evidente. Nada de novo sob o sol. Do ponto de vista econômico, o último dado de crescimento é de 0,6%, embora isso não deva surpreender ninguém. A única coisa que o governo de Petro fez até agora foi deixar clara sua intenção de asfixiar boa parte do esforço privado para superar a pobreza, o que, somado ao efeito regressivo de medidas regulatórias adotadas durante o governo anterior, torna ainda mais palpável a sensação de desesperança.
Por outro lado, a imensa maioria dos habitantes do país se sente à mercê dos criminosos comuns, verdadeiras empresas criminosas que desafiam o monopólio de expropriação do próprio estado e que crescem cada vez mais em número e em ousadia. Isso pode ser compreendido, por um lado, pela incapacidade dos indivíduos de se defenderem de forma privada, dado que não existem serviços privados de segurança eficazes e o porte de armas é severamente restringido, e, por outro lado, porque está se tornando cada vez mais atraente, para um número crescente de indivíduos, obter riqueza mais por meio da apropriação violenta do que da criação produtiva. Diante desse estado de coisas, os colombianos começam a olhar para outros países da América Latina onde se experimentam novas estratégias para combater um ou ambos os problemas.
Colômbia e a segurança que não existe
Não creio que isso seja apenas uma impressão, mas sim uma realidade: apenas uma minoria se pergunta quem será o Milei colombiano. Quem é capaz, com uma elevada compreensão do que é o mercado, de como ele funciona, de como ele é destruído e quais são os efeitos dessa destruição, e de como reverter tais medidas para, então, começar a prestar atenção quando decidir falar? Sinceramente, e com pesar, acredito que não há um Milei colombiano, ao menos não por agora.
Para os colombianos, ao que me parece, um personagem como Milei não é tão urgente, uma vez que a Colômbia não é a Argentina, ainda. Não creio que Javier Milei tivesse alcançado tamanho avanço e tamanha atenção dos indivíduos sem uma inflação como a que a Argentina enfrentou, praticamente beirando a hiperinflação; nem tampouco sem um estancamento econômico tão generalizado quanto o que esse país vem sofrendo há décadas. Na Colômbia, arrisco dizer, a maior preocupação na mente das pessoas é a segurança, ou, melhor dizendo, a falta dela nas ruas, dentro das casas, nas cidades, nas áreas rurais, em todos os lugares.
Restaurar a segurança
É bastante comum, diante do aumento da criminalidade nas cidades, que o porte de qualquer tipo de bem, celulares, relógios etc., esteja associado a uma probabilidade relativamente alta de expropriação. O avanço de diferentes grupos subversivos também promete, em um futuro próximo, uma maior quantidade de deslocamentos forçados. Creio que, diante disso, a pergunta que os indivíduos se fazem não é quem será o Milei colombiano, mas sim quem será capaz de utilizar o estado da maneira mais eficaz possível para limitar e reduzir a violência privada na Colômbia.
O que as pessoas se perguntam nas ruas é quem será o deus ex machina que, no último momento e com um triunfo retumbante, chegará para restaurar a tranquilidade de poder voltar a percorrer as estradas sem medo de ser sequestrado; ou de sair para caminhar sem ser assaltado. Diante disso, as pessoas se perguntam: quem será o Bukele colombiano?
O El Salvador de Bukele
Nayib Bukele é presidente de El Salvador desde 2019. Ele é conhecido por seu estilo carismático, sua abordagem jovem nas redes sociais e sua imagem de líder jovem e moderno. Antes de sua presidência, foi prefeito da cidade de San Salvador, onde implementou programas de segurança e de desenvolvimento urbano. Bukele, claramente um populista, gerou controvérsia por suas ações, incluindo confrontos com o Poder Judiciário e o uso da força militar para enfrentar a criminalidade.
Após um ano de estado de emergência, período durante o qual o estado tem a faculdade de restringir os direitos de associação, intervir nas comunicações telefônicas e deter suspeitos por longos períodos sem apresentar acusações, a taxa de homicídios por cem mil habitantes experimentou uma queda drástica, passando de 35,8 em 2019 para 7,8 em 2022. E, sem que isso nos surpreenda muito, durante esse mesmo período o número de pessoas encarceradas aumentou significativamente, passando de 39.646 em 2018 para 97.525 em 2022.
Redução dos homicídios em 78%
Essa redução dos homicídios em uma taxa nada desprezível de aproximadamente 78% foi o resultado de um plano ambicioso por parte de Bukele, colocado em prática quase imediatamente após sua chegada ao poder. A chave desse processo foi a mobilização de recursos. Nas etapas iniciais, o plano de segurança de Bukele conseguiu obter apoio suficiente para mobilizar os recursos necessários por meio de práticas cada vez mais autoritárias.
Por exemplo, desde as eleições legislativas de 2021, Bukele assegurou o controle de pelo menos 64 dos 84 assentos da Assembleia Legislativa, o que lhe permitiu aumentar consideravelmente os gastos com segurança sem encontrar grande resistência. Além disso, Bukele exerce influência sobre a Corte Suprema de Justiça, o que lhe permitiu, ao menos temporariamente, evitar possíveis acusações relacionadas à implementação de seu plano de segurança.
Especificamente, a administração de Bukele elevou os gastos com segurança pública e defesa nacional de uma média anual de US$ 573.136.399 durante o governo de Salvador Sánchez Cerén para US$ 838.450.000, o que representa um aumento de 46,39%. Esse incremento é ainda maior se levado em conta o recente emprego das forças armadas em tarefas de segurança pública.
O que se espera de um estado: produção de segurança
Que um estado, como El Salvador, transfira, diante dos males existentes, o consumo privado para o consumo de fatores de produção destinados à produção da defesa sob seu controle e que, com isso, reduza aquilo que se conhece como crime comum não deveria causar surpresa.
A segurança é um dos monopólios mais caros do estado — e não é gratuita. Mais ainda, o estado pode ser concebido como o monopólio da violência, uma definição amplamente aceita no âmbito do libertarianismo. O estado não é nada além disso: um grupo minoritário de indivíduos que, por meio do monopólio da força que conquistou, extrai riqueza da maioria dos indivíduos que compõem a sociedade, contando, no mínimo, com a aceitação passiva e resignada dessa maioria.
Com a única exceção, talvez, da criação dos Estados Unidos, nenhum estado foi criado para produzir bens públicos, controlar externalidades ou subsidiar bailes populares que deveriam acabar. Apesar de todas as teorias que justificam a existência do estado como condição para a produção de certos benefícios aos cidadãos, nenhum estado foi criado para produzir tais benefícios. Pelo contrário, o estado foi criado como um meio de governar os indivíduos, possibilitando a extração forçada de recursos de seus bolsos.
Uma realidade hobbesiana?
Na desordem descrita por Hobbes, na qual o direito natural dos homens é controlar tudo aquilo que desejarem, a vida se transforma em uma guerra de todos contra todos, desagradável, brutal e breve. Os fortes dominam os fracos, arrebatando-lhes tudo o que possuem, mas os próprios fortes não prosperam na anarquia hobbesiana, pois há pouco a ser tomado. Ninguém produz quando o produto certamente lhe será tomado. Mesmo sob condições mais ordenadas do que a cena hobbesiana, a depredação apresenta um benefício limitado, porque as pessoas que acumularam ativos resistem pela força àqueles que tentam saqueá-las, e as batalhas resultantes consomem recursos tanto dos predadores quanto das vítimas.
A bandidagem desorganizada gera uma situação em que ninguém prospera, porque ninguém tem incentivo para ser produtivo. Se os predadores conseguem se organizar, podem evoluir para pequenas máfias capazes de oferecer certo grau de proteção a seus clientes. Essa evolução criará uma sociedade mais produtiva, com maior renda tanto para os predadores quanto para suas presas, mas as máfias terão de limitar sua apropriação para que esse resultado se concretize. Se a máfia consegue assegurar a seus clientes que, em troca de um pagamento, eles estarão protegidos de outros predadores e poderão conservar uma parte substancial do que produzem, a produção aumentará e a renda de todos poderá crescer. No entanto, as perdas decorrentes das rivalidades entre máfias continuarão a ser suportadas, já que máfias concorrentes têm incentivos para saquear indivíduos que não contratam com elas.
Da máfia ao estado
Se as máfias se organizarem ainda melhor, podem se estabelecer como um estado. Os predadores têm todos os incentivos para deixar de operar como bandidos e passar a operar como estados, porque os bandidos não conseguem garantir para si mesmos um fluxo de receitas de longo prazo proveniente da depredação e porque, quando a bandidagem é desenfreada, as pessoas têm pouco incentivo para produzir riqueza. Os estados tentam convencer os indivíduos de que limitarão sua apropriação e que protegerão seus cidadãos, a fim de fornecer a esses cidadãos um incentivo para produzir. Os estados obtêm mais receitas do que os bandidos porque podem permanecer em um território e receber um fluxo constante de rendas, em vez de saquear uma vez e depois ir embora. Em tal situação, os indivíduos também ganham, de certa forma.
Em resumo, o monopólio que o estado detém sobre a produção de segurança é apenas o resultado de um processo por meio do qual o grupo criminoso do estado adquiriu meios suficientes para proteger seus súditos da concorrência, na expropriação, de outros grupos criminosos, reduzindo a probabilidade de que as receitas obtidas por esse meio diminuam no futuro. O monopólio estatal sobre a produção de segurança é desenhado para reduzir as unidades marginais de crime, de modo que reste apenas um único crime sistemático, com um único ofertante.
El Salvador: a certeza de uma menor liberdade
Assim, sendo a vocação do estado, e de quem o comanda, a de ampliar a segurança estatal para eliminar a concorrência no espólio da riqueza criada pela maioria, Nayib Bukele fez jus a esse papel, recriando-o com carisma estelar. Não sendo alheio ao apelo de aumentar impostos, com a exceção de reduzi-los para inovações tecnológicas, o que seguramente tem relação com aplicativos de iPhone e similares, a arrecadação tributária corrente sob Bukele passou de 18,1% do PIB para 19,4% em 2021 (sendo que, na Colômbia, em 2021, de 14,4%).
O papel crescente da intervenção do estado em El Salvador, sobretudo impulsionado pelo aumento do gasto público destinado à produção de segurança, o que, logicamente, leva os indivíduos a pagarem seus impostos com maior diligência, reflete-se na redução de sua liberdade econômica. Assim, no mais recente índice de liberdade econômica da Heritage Foundation, Bukele, o “salvador”, conseguiu reduzir a pontuação do país de 61,8 para 56 (sendo a da Suíça, considerada mais livre, 83,8; e a da Colômbia, 63,1).
Quem será o Bukele colombiano nas próximas eleições?
Antes de tudo, resta-nos, então, contemplar a pergunta que hoje se faz nas ruas das cidades colombianas, bem como de forma esporádica em certos meios de comunicação: quem, se é que alguém, será o Bukele colombiano?
Vejamos…
Em um país como a Colômbia, onde todos os partidos políticos têm o estado como a única fonte possível de ordem e de prosperidade econômica; onde a noção da superioridade ética e moral da economia de mercado é descartada como uma piada de mau gosto; onde toda a estratégia política se reduz a abastecer com combustível, de preferência verde, a furiosa locomotiva estatal; e onde aquilo que se apresenta como oposição propõe medidas que os socialistas da Alemanha têm como padrão em suas plataformas programáticas. Na Colômbia, o partido no poder não poupa esforços para demonstrar seu mais latente ódio à liberdade individual.
Quem será o próximo apaixonado pelo poder, que buscará apenas aumentá-lo cada vez mais, contribuindo para a tendência natural do estado de concentrar-se cada vez mais em uma única pessoa, sufocando ainda mais a iniciativa privada do processo de mercado? Qualquer um. Qualquer um quer ser Bukele. Todos sonham com esse papel. Atire-se uma pedra e, com toda certeza, veremos alguém levantar a mão com um fio de sangue na testa.
A pergunta, então, não se reduz àquela, mas a quem será capaz de pintar o cabelo de preto azeviche e de organizar um concurso internacional de beleza. E é aí que encontramos os de sempre, amigos da mesma hipocrisia, que vão de Álvaro Uribe a Gustavo Petro: amigos na oposição essencial à liberdade e no amor adolescente pelo poder estatal.
Este artigo foi originalmente publicado no Instituto Juan de Mariana.
Santiago Dussan 21 de fevereiro de 2026
Nota da edição:
O texto a seguir, apesar de pertinente para discussões sobre a violência na América Latina, traz uma visão estatista sobre a segurança pública, como se esta pudesse apenas ser fornecida pelo estado. Para uma argumentação mais condizente com a visão austro-libertária sobre o assunto recomendamos o texto “A produção privada de serviços de segurança” disponível em nosso site.
A Colômbia está mergulhada em uma crise evidente. Nada de novo sob o sol. Do ponto de vista econômico, o último dado de crescimento é de 0,6%, embora isso não deva surpreender ninguém. A única coisa que o governo de Petro fez até agora foi deixar clara sua intenção de asfixiar boa parte do esforço privado para superar a pobreza, o que, somado ao efeito regressivo de medidas regulatórias adotadas durante o governo anterior, torna ainda mais palpável a sensação de desesperança.
Por outro lado, a imensa maioria dos habitantes do país se sente à mercê dos criminosos comuns, verdadeiras empresas criminosas que desafiam o monopólio de expropriação do próprio estado e que crescem cada vez mais em número e em ousadia. Isso pode ser compreendido, por um lado, pela incapacidade dos indivíduos de se defenderem de forma privada, dado que não existem serviços privados de segurança eficazes e o porte de armas é severamente restringido, e, por outro lado, porque está se tornando cada vez mais atraente, para um número crescente de indivíduos, obter riqueza mais por meio da apropriação violenta do que da criação produtiva. Diante desse estado de coisas, os colombianos começam a olhar para outros países da América Latina onde se experimentam novas estratégias para combater um ou ambos os problemas.
Colômbia e a segurança que não existe
Não creio que isso seja apenas uma impressão, mas sim uma realidade: apenas uma minoria se pergunta quem será o Milei colombiano. Quem é capaz, com uma elevada compreensão do que é o mercado, de como ele funciona, de como ele é destruído e quais são os efeitos dessa destruição, e de como reverter tais medidas para, então, começar a prestar atenção quando decidir falar? Sinceramente, e com pesar, acredito que não há um Milei colombiano, ao menos não por agora.
Para os colombianos, ao que me parece, um personagem como Milei não é tão urgente, uma vez que a Colômbia não é a Argentina, ainda. Não creio que Javier Milei tivesse alcançado tamanho avanço e tamanha atenção dos indivíduos sem uma inflação como a que a Argentina enfrentou, praticamente beirando a hiperinflação; nem tampouco sem um estancamento econômico tão generalizado quanto o que esse país vem sofrendo há décadas. Na Colômbia, arrisco dizer, a maior preocupação na mente das pessoas é a segurança, ou, melhor dizendo, a falta dela nas ruas, dentro das casas, nas cidades, nas áreas rurais, em todos os lugares.
Restaurar a segurança
É bastante comum, diante do aumento da criminalidade nas cidades, que o porte de qualquer tipo de bem, celulares, relógios etc., esteja associado a uma probabilidade relativamente alta de expropriação. O avanço de diferentes grupos subversivos também promete, em um futuro próximo, uma maior quantidade de deslocamentos forçados. Creio que, diante disso, a pergunta que os indivíduos se fazem não é quem será o Milei colombiano, mas sim quem será capaz de utilizar o estado da maneira mais eficaz possível para limitar e reduzir a violência privada na Colômbia.
O que as pessoas se perguntam nas ruas é quem será o deus ex machina que, no último momento e com um triunfo retumbante, chegará para restaurar a tranquilidade de poder voltar a percorrer as estradas sem medo de ser sequestrado; ou de sair para caminhar sem ser assaltado. Diante disso, as pessoas se perguntam: quem será o Bukele colombiano?
O El Salvador de Bukele
Nayib Bukele é presidente de El Salvador desde 2019. Ele é conhecido por seu estilo carismático, sua abordagem jovem nas redes sociais e sua imagem de líder jovem e moderno. Antes de sua presidência, foi prefeito da cidade de San Salvador, onde implementou programas de segurança e de desenvolvimento urbano. Bukele, claramente um populista, gerou controvérsia por suas ações, incluindo confrontos com o Poder Judiciário e o uso da força militar para enfrentar a criminalidade.
Após um ano de estado de emergência, período durante o qual o estado tem a faculdade de restringir os direitos de associação, intervir nas comunicações telefônicas e deter suspeitos por longos períodos sem apresentar acusações, a taxa de homicídios por cem mil habitantes experimentou uma queda drástica, passando de 35,8 em 2019 para 7,8 em 2022. E, sem que isso nos surpreenda muito, durante esse mesmo período o número de pessoas encarceradas aumentou significativamente, passando de 39.646 em 2018 para 97.525 em 2022.
Redução dos homicídios em 78%
Essa redução dos homicídios em uma taxa nada desprezível de aproximadamente 78% foi o resultado de um plano ambicioso por parte de Bukele, colocado em prática quase imediatamente após sua chegada ao poder. A chave desse processo foi a mobilização de recursos. Nas etapas iniciais, o plano de segurança de Bukele conseguiu obter apoio suficiente para mobilizar os recursos necessários por meio de práticas cada vez mais autoritárias.
Por exemplo, desde as eleições legislativas de 2021, Bukele assegurou o controle de pelo menos 64 dos 84 assentos da Assembleia Legislativa, o que lhe permitiu aumentar consideravelmente os gastos com segurança sem encontrar grande resistência. Além disso, Bukele exerce influência sobre a Corte Suprema de Justiça, o que lhe permitiu, ao menos temporariamente, evitar possíveis acusações relacionadas à implementação de seu plano de segurança.
Especificamente, a administração de Bukele elevou os gastos com segurança pública e defesa nacional de uma média anual de US$ 573.136.399 durante o governo de Salvador Sánchez Cerén para US$ 838.450.000, o que representa um aumento de 46,39%. Esse incremento é ainda maior se levado em conta o recente emprego das forças armadas em tarefas de segurança pública.
O que se espera de um estado: produção de segurança
Que um estado, como El Salvador, transfira, diante dos males existentes, o consumo privado para o consumo de fatores de produção destinados à produção da defesa sob seu controle e que, com isso, reduza aquilo que se conhece como crime comum não deveria causar surpresa.
A segurança é um dos monopólios mais caros do estado — e não é gratuita. Mais ainda, o estado pode ser concebido como o monopólio da violência, uma definição amplamente aceita no âmbito do libertarianismo. O estado não é nada além disso: um grupo minoritário de indivíduos que, por meio do monopólio da força que conquistou, extrai riqueza da maioria dos indivíduos que compõem a sociedade, contando, no mínimo, com a aceitação passiva e resignada dessa maioria.
Com a única exceção, talvez, da criação dos Estados Unidos, nenhum estado foi criado para produzir bens públicos, controlar externalidades ou subsidiar bailes populares que deveriam acabar. Apesar de todas as teorias que justificam a existência do estado como condição para a produção de certos benefícios aos cidadãos, nenhum estado foi criado para produzir tais benefícios. Pelo contrário, o estado foi criado como um meio de governar os indivíduos, possibilitando a extração forçada de recursos de seus bolsos.
Uma realidade hobbesiana?
Na desordem descrita por Hobbes, na qual o direito natural dos homens é controlar tudo aquilo que desejarem, a vida se transforma em uma guerra de todos contra todos, desagradável, brutal e breve. Os fortes dominam os fracos, arrebatando-lhes tudo o que possuem, mas os próprios fortes não prosperam na anarquia hobbesiana, pois há pouco a ser tomado. Ninguém produz quando o produto certamente lhe será tomado. Mesmo sob condições mais ordenadas do que a cena hobbesiana, a depredação apresenta um benefício limitado, porque as pessoas que acumularam ativos resistem pela força àqueles que tentam saqueá-las, e as batalhas resultantes consomem recursos tanto dos predadores quanto das vítimas.
A bandidagem desorganizada gera uma situação em que ninguém prospera, porque ninguém tem incentivo para ser produtivo. Se os predadores conseguem se organizar, podem evoluir para pequenas máfias capazes de oferecer certo grau de proteção a seus clientes. Essa evolução criará uma sociedade mais produtiva, com maior renda tanto para os predadores quanto para suas presas, mas as máfias terão de limitar sua apropriação para que esse resultado se concretize. Se a máfia consegue assegurar a seus clientes que, em troca de um pagamento, eles estarão protegidos de outros predadores e poderão conservar uma parte substancial do que produzem, a produção aumentará e a renda de todos poderá crescer. No entanto, as perdas decorrentes das rivalidades entre máfias continuarão a ser suportadas, já que máfias concorrentes têm incentivos para saquear indivíduos que não contratam com elas.
Da máfia ao estado
Se as máfias se organizarem ainda melhor, podem se estabelecer como um estado. Os predadores têm todos os incentivos para deixar de operar como bandidos e passar a operar como estados, porque os bandidos não conseguem garantir para si mesmos um fluxo de receitas de longo prazo proveniente da depredação e porque, quando a bandidagem é desenfreada, as pessoas têm pouco incentivo para produzir riqueza. Os estados tentam convencer os indivíduos de que limitarão sua apropriação e que protegerão seus cidadãos, a fim de fornecer a esses cidadãos um incentivo para produzir. Os estados obtêm mais receitas do que os bandidos porque podem permanecer em um território e receber um fluxo constante de rendas, em vez de saquear uma vez e depois ir embora. Em tal situação, os indivíduos também ganham, de certa forma.
Em resumo, o monopólio que o estado detém sobre a produção de segurança é apenas o resultado de um processo por meio do qual o grupo criminoso do estado adquiriu meios suficientes para proteger seus súditos da concorrência, na expropriação, de outros grupos criminosos, reduzindo a probabilidade de que as receitas obtidas por esse meio diminuam no futuro. O monopólio estatal sobre a produção de segurança é desenhado para reduzir as unidades marginais de crime, de modo que reste apenas um único crime sistemático, com um único ofertante.
El Salvador: a certeza de uma menor liberdade
Assim, sendo a vocação do estado, e de quem o comanda, a de ampliar a segurança estatal para eliminar a concorrência no espólio da riqueza criada pela maioria, Nayib Bukele fez jus a esse papel, recriando-o com carisma estelar. Não sendo alheio ao apelo de aumentar impostos, com a exceção de reduzi-los para inovações tecnológicas, o que seguramente tem relação com aplicativos de iPhone e similares, a arrecadação tributária corrente sob Bukele passou de 18,1% do PIB para 19,4% em 2021 (sendo que, na Colômbia, em 2021, de 14,4%).
O papel crescente da intervenção do estado em El Salvador, sobretudo impulsionado pelo aumento do gasto público destinado à produção de segurança, o que, logicamente, leva os indivíduos a pagarem seus impostos com maior diligência, reflete-se na redução de sua liberdade econômica. Assim, no mais recente índice de liberdade econômica da Heritage Foundation, Bukele, o “salvador”, conseguiu reduzir a pontuação do país de 61,8 para 56 (sendo a da Suíça, considerada mais livre, 83,8; e a da Colômbia, 63,1).
Quem será o Bukele colombiano nas próximas eleições?
Antes de tudo, resta-nos, então, contemplar a pergunta que hoje se faz nas ruas das cidades colombianas, bem como de forma esporádica em certos meios de comunicação: quem, se é que alguém, será o Bukele colombiano?
Vejamos…
Em um país como a Colômbia, onde todos os partidos políticos têm o estado como a única fonte possível de ordem e de prosperidade econômica; onde a noção da superioridade ética e moral da economia de mercado é descartada como uma piada de mau gosto; onde toda a estratégia política se reduz a abastecer com combustível, de preferência verde, a furiosa locomotiva estatal; e onde aquilo que se apresenta como oposição propõe medidas que os socialistas da Alemanha têm como padrão em suas plataformas programáticas. Na Colômbia, o partido no poder não poupa esforços para demonstrar seu mais latente ódio à liberdade individual.
Quem será o próximo apaixonado pelo poder, que buscará apenas aumentá-lo cada vez mais, contribuindo para a tendência natural do estado de concentrar-se cada vez mais em uma única pessoa, sufocando ainda mais a iniciativa privada do processo de mercado? Qualquer um. Qualquer um quer ser Bukele. Todos sonham com esse papel. Atire-se uma pedra e, com toda certeza, veremos alguém levantar a mão com um fio de sangue na testa.
A pergunta, então, não se reduz àquela, mas a quem será capaz de pintar o cabelo de preto azeviche e de organizar um concurso internacional de beleza. E é aí que encontramos os de sempre, amigos da mesma hipocrisia, que vão de Álvaro Uribe a Gustavo Petro: amigos na oposição essencial à liberdade e no amor adolescente pelo poder estatal.
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