sábado, 9 de abril de 2016

Análise,Celso Ming - A indústria e o câmbio

O que fazer, afinal, para salvar a indústria diante da tendência à valorização do real (baixa do dólar) no câmbio interno?

Nem mesmo a crise profunda em que se meteu a economia vem conseguindo eliminar a propensão à baixa do dólar. Basta uma melhora na economia para que as cotações deslizem. É uma situação que reduz a capacidade da indústria de competir com o produto importado, traz insegurança e, assim, tende a provocar sua desidratação.

Em boa parte, essa tendência à baixa do dólar é consequência da nunca vista abundância de moeda estrangeira nos mercados, situação que, mais cedo ou mais tarde, deve ser revertida pela atuação dos grandes bancos centrais.

Para quem aceita a tese de que o problema central são as receitas muito altas com matérias-primas (doença holandesa), como é o caso do professor Luiz Carlos Bresser-Pereira, a melhor maneira de devolver competitividade à indústria seria instituir o confisco (Imposto de Exportação) nas exportações de commodities e usar os recursos assim arrecadados para programas de reequipamento do setor. Mas esta seria medida contraproducente por várias razões: porque é altamente duvidoso o diagnóstico da doença holandesa, como a Coluna dessa quinta-feiraargumentou; porque desestimularia a produção agropecuária e a mineração; e porque não atacaria o problema principal.

O problema principal é a baixíssima competitividade da indústria. Não é a excessiva valorização do real que sabota, que tira o chão da indústria; apenas  acentua a situação. O setor enfrenta o elevado custo Brasil, um conjunto de problemas estruturais graves: excessiva carga tributária, infraestrutura ruim e cara, obsolescência de seu estoque de máquinas e equipamentos, um sistema de leis trabalhistas confuso e imprevisível, burocracia em excesso e a falta de acordos comerciais que garantam preferência ao produto industrial brasileiro.

As condições adversas da indústria são tais que apenas um câmbio fortemente desvalorizado seria capaz de lhe dar competitividade. Essa hipótese é de probabilidade insustentável, porque o País não pode ter um câmbio feito sob medida apenas para a indústria.

Ainda que tenda a atrair mais dólares, é a melhora dos fundamentos da economia a principal condição para fortificar a indústria. Contas públicas em ordem, contas externas equilibradas e inflação na meta são fatores que garantem previsibilidade para os negócios e confiança em alta. É canteiro propício para os investimentos no setor produtivo e aumento do emprego. Para isso, não basta o bom trabalho de bombeiro; é preciso garantir reformas estruturais: da Previdência, do sistema tributário, das leis trabalhistas, das regras da política... e por aí vai.

É um grave equívoco achar que a indústria tem de ser fortificada com aumento artificial do consumo interno, com desonerações improvisadas, com créditos subsidiados seletivos, como os oferecidos pelo BNDES, e pelas demais invenções proporcionadas pela Nova Matriz Macroeconômica inventada pelo então ministro da Fazenda Guido Mantega.

A melhor política industrial consiste em proporcionar crescimento econômico sustentável e uma política comercial ativa que garanta mercado externo para o produto brasileiro. Mas o governo Dilma não entende assim.


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