Desde o fim do governo Bolsonaro, o ex-ministro da Economia Paulo Guedes tem se mantido na sombra. Convencido de que não tem nada a ganhar ao responder às acusações feitas à sua gestão pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ele não deu até hoje uma única entrevista nos mais de três anos desde que deixou o cargo, apesar dos pedidos constantes da imprensa.
Seus ex-colaboradores têm seguido a mesma estratégia, mas um ex-colagorador do ministro mandou a mensagem a seguir para o jornalista Jose Fucs, pedindo para não ser identificado.
1. Gastos públicos
No governo Lula, de 2023 a 2025, o crescimento real (descontada a inflação) da despesa primária (excluídos os juros da dívida pública) chegou a 4,7%, em média, ao ano. Entre 2019 e 2022 a taxa ficou em 2,8% ao ano. Apenas para efeito de comparação, no período de 1998 a 2018 o crescimento real médio da despesa primária foi de 5,2% ao ano.
2. Despesa primária em relação ao PIB
Entre dezembro de 2018 e dezembro de 2022, houve uma redução de 1,4 ponto percentual do PIB (Produto Interno Bruto) na despesa primária, enquanto entre dezembro de 2022 e dezembro de 2025 houve um aumento de 0,8 ponto percentual. Cada ponto do PIB corresponde em valores atuais a cerca de R$ 130 bilhões.
3. Despesa primária com a Previdência
Em 2025, o gasto do governo com a Previdência foi de R$ 1 trilhão. Em 2022, a despesa foi de R$ 926 bilhões —12% a menos. Em relação ao PIB, o aumento dos gastos neste quesito no governo Lula chegou a 0,8% contra uma queda de 0,5% no governo Bolsonaro.
4. Custo da máquina pública
Em 2022, o custeio da máquina pública, excluída a despesa com pessoal, consumiu R$ 60,2 bilhões, enquanto no governo Lula 3 ela chegou a R$ 72,7 bilhões —um aumento real de 20,9% em apenas três anos. No período de 2019 a 2022, houve uma redução de R$ 8,2 bilhões nos gastos com a máquina— o equivalente a 12% da despesa realizadas no governo Temer na área.
5. Restos a pagar (RAP)
Nesta rubrica do Orçamento, os valores foram de R$ 291,7 bilhões na virada de 2022 para 2023, segundo o "zap" enviado pelo ex-colaborador de Guedes. Mesmo de 2020 para 2021, no pico da pandemia, os restos a pagar atingiram R$ 303,4 bilhões. Já de 2025 para 2026, os valores rolados de um ano para o outro chegaram a R$ 391,5 bilhões —34% a mais que em 2022. Na atual gestão, os restos a pagar voltaram praticamente ao nível atingido de 2014 para 2015, no governo Dilma, um dos piores momentos da economia na história recente do país.
6. Rombo nas estatais
Em 2022, o resultado primário das estatais alcançou um superávit de R$ 6,1 bilhões, excluídos os grupos Petrobras e Eletrobras, enquanto em 2025 as empresas públicas tiveram um déficit de R$ 5,9 bilhões - uma diferença significativa de R$ 12 bilhões.
7. Dívida líquida
No período 2023 a 2025, a dívida líquida do setor público explodiu, devido à gastança sem lastro promovida pelo governo Lula. O nível de endividamento bateu recorde, atingindo 65,3% do PIB em 2025 —um salto de 9,2 pontos percentuais do PIB ou um aumento nominal de R$ 2,7 trilhões em três anos.
8. Dívida bruta
No fim da gestão de Guedes, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) era equivalente a 71,7% do PIB e fechou 2025 em 78,7% do PIB ou R$ 10 trilhões, com um aumento de sete pontos percentuais do PIB só no governo Lula. De outubro de 2020, no auge da pandemia, quando a dívida bruta chegou a 86,7% do PIB, a dezembro de 2022, houve um corte de 16 pontos percentuais do PIB na dívida pública, mas ela voltou a subir em ritmo acelerado desde 2023.
9. Taxa de juros
A taxa de juros implícita na Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 12,7% em 2025. No total, o gasto com juros superou a casa de R$ 1 trilhão no ano passado, o equivalente a quase R$ 2 bilhões por minuto. Em 2022, a taxa de juros implícita era 10,8%, enquanto a média de 2019 a 2022 foi de 7,7% ao ano. No caso da dívida líquida, o indicador atingiu 13,8% em 2025 ante 11,6% em 2022 e uma média de 9,8% ao ano no governo anterior. Na gestão de Guedes, houve uma redução de 3,6 pontos percentuais do PIB na dívida e não um aumento significativo, como o que está ocorrendo com Lula.
10. Resultado fiscal estrutural
O indicador —que desconsidera receitas não recorrentes no diagnóstico fiscal do país e é tido como o mais adequado para avaliar resultados e entregas de governos— aponta que houve um superávit estrutural de 0,3% do PIB em 2022, mesmo dado apurado pela IFI (Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado), ante um déficit de 0,9% do PIB em 2025. Na gestão de Guedes, a variação em relação ao resultado herdado do governo Temer foi positiva em 2,3 pontos percentuais do PIB, enquanto na gestão de Haddad foi negativa em 1,2 pontos do PIB em relação ao que herdou de seu antecessor. O resultado de Haddad até agora só é melhor do que o apresentado na gestão do ex-ministro Guido Mantega na Fazenda, no governo Dilma.
Como mostram os indicadores acima, Lula e Haddad podem até iludir quem não acompanha os números de perto, ao "dourar" os dados do atual governo na área fiscal e compará-los ao seu modo com os do governo anterior. Mas, para quem tem uma noção básica dos principais indicadores relacionados às contas públicas, a narrativa petista não resiste ao teste da realidade.
Na hora que subir a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2027, o próximo presidente, seja ele quem for, terá de lidar com uma bomba fiscal e com um nível de endividamento recorde que narrativa nenhuma poderá apagar.
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