terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Artigo, Tito Guarniere - Distribuir renda, sim, mas a dos outros

Artigo, Tito Guarniere - Distribuir renda, sim, mas a dos outros

O debate sobre a concentração de renda, no Brasil e no mundo, está sempre em alta temperatura. Há teoria para todos os gostos. Eu mesmo tenho enunciado que com Lula e Dilma, ao contrário do que dizem e até do que era de se esperar de um partido que se diz de esquerda, o perfil de distribuição de renda no Brasil não melhorou em nada.  Não é figura de linguagem nem exagero.  Ficou igual ao que existia em 2003 quando o PT assumiu. Se houve um ligeiro avanço na renda dos mais pobres, foi compensado por igual avanço em favor das camadas mais favorecidas.
Os processos de concentração de renda são denunciados, nos meios acadêmicos e de esquerda, como um efeito colateral e necessário do capitalismo.  Eles têm razão.  O capitalismo é o sistema econômico dos desiguais. Está no seu cerne e na sua natureza.
Não é à toa que o socialismo atrai tantas vontades generosas. Não seria mais habitável um mundo em que não houvesse tantas diferenças entre as classes, entre pobres ou ricos, e onde todos pudessem desfrutar de uma situação de vida decente e confortável?
O problema está em que (quase) todos que propugnam em favor de uma distribuição mais justa da renda nacional, só querem distribuir a renda dos outros.
É suprema ingenuidade achar que uma sociedade mais igualitária possa ser alcançada através de medidas administrativas ou políticas públicas. A discussão prospera até que alguém diga:   muito bem, companheiros; precisamos distribuir melhor a renda e a riqueza. Alguém tem de ganhar: os mais pobres. E alguém tem de perder, os mais ricos. E de que modo podemos tirar a parte dos mais ricos, mexer no seu rico dinheirinho?
Aí, não é que a discussão apenas patine. Ela simplesmente congela. Porque os detentores da maior parcela de renda e da riqueza, não têm a menor disposição de perder os anéis e muito menos os dedos. Querem a prova provada? Olhem a atual polêmica sobre a previdência no Brasil. Todos sabem que está quebrada, ou em vias de quebrar, até mesmo os maluquetes que dizem se tratar de uma conspiração do governo de Temer, aliados aos patrões e banqueiros. Ou os que fazem uma conta torta e falaciosa das projeções possíveis da previdência brasileira, dizendo que ela não precisa de reforma.
O fato singelo, que ninguém gosta de admitir, é que a concentração de renda mais injusta e desigual, é a da previdência dos servidores públicos, face à previdência dos trabalhadores privados. No agressivo corporativismo brasileiro, ninguém abre mão de um único milímetro de suas “conquistas”, de seus “direitos adquiridos”. O Brasil gasta com um milhão de aposentadorias do setor público mais do que gasta com 33 milhões de aposentadorias do setor privado.
E como fazer, se os defensores de uma distribuição mais justa da renda nacional, são também os mais ferrenhos defensores dos seus direitos, agora mais do que adquiridos, sagrados e intocáveis?
Ao menos no Brasil, a mais iniqua das concentrações de renda   não tem a mão invisível do mercado, mas a mão visível dos tecnoburocratas do Estado, e dos altos estamentos da República. 

titoguarniere@terra.com.br

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