Quando a ideologia ignora a realidade, o sangue inocente vira estatística; por Felipe Vieira

Há crimes que chocam, há crimes que revoltam e há crimes que nos obrigam a encarar decisões que vêm sendo tomadas há anos no Brasil. O assassinato da irmã Nadia Gavanski, de 82 anos, dentro de um convento no interior do Paraná, é um desses casos que não permitem silêncio confortável nem explicações burocráticas.


Uma freira idosa, com sequelas de AVC, 55 anos dedicados à vida religiosa, morta no pátio onde alimentava as galinhas, asfixiada, estuprada, violentada de forma brutal. Não é apenas um crime bárbaro. É a prova dolorosa de que algo falhou — e falhou antes do dia do assassinato.


O autor havia saído da prisão dois meses antes. Dois meses que separaram a liberdade provisória de um homicídio qualificado com violência sexual contra uma senhora indefesa. Segundo a própria polícia, ele já tinha passagens por roubo, furto e violência doméstica. Foi preso por furto qualificado no fim de dezembro e colocado em liberdade provisória dois dias depois. Em março, uma mulher de 82 anos estava morta.


É aqui que o debate precisa sair do discurso e entrar na realidade concreta.


Há anos o Brasil vive uma forte agenda de desencarcerização, sustentada pelo argumento repetido de que o país prende demais. Essa linha foi defendida com ênfase institucional pelo então ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, quando presidiu o Conselho Nacional de Justiça e impulsionou políticas de revisão de prisões provisórias, fortalecimento das audiências de custódia e ampliação de medidas alternativas como estratégia de redução do encarceramento. O sistema prisional é precário? É. Precisa melhorar? Sem dúvida. Mas a tentativa de corrigir distorções históricas não pode se transformar em soltura sem critério, sem avaliação séria de risco e sem acompanhamento adequado de reincidentes. Garantia de direitos não pode virar descuido com a sociedade, nem política criminal pode ser conduzida apenas por slogans. E o próprio Lewandowski voltou a defender essa mesma linha já como ministro da Justiça no governo Lula, reforçando a ideia de que reduzir o encarceramento seria prioridade estrutural da política penal brasileira — prioridade que precisa ser debatida à luz de seus efeitos concretos na segurança da população.


Quando alguém com histórico recente de crimes volta às ruas e pouco tempo depois comete um assassinato com violência sexual contra uma idosa, não estamos diante de teoria acadêmica, mas de consequência concreta, com nome, rosto e idade definidos.


Há ainda outro ponto que precisa ser enfrentado com coragem: o desmonte progressivo dos hospitais de custódia e a fragilidade no tratamento de pessoas com transtornos mentais graves que cometem crimes. Se alguém alega ouvir vozes ordenando assassinato, isso não pode ser tratado com romantização nem com abandono social. Trata-se de caso para tratamento com segurança, porque a rua não é solução terapêutica e tampouco pode ser espaço de risco para terceiros.


O que se consolidou no Brasil, em nome de uma visão supostamente humanista, foi uma tensão permanente entre o discurso e a realidade. Questionar encarceramento em massa é legítimo; ignorar reincidência concreta é irresponsável. Defender garantias é civilizatório; esvaziar instrumentos de contenção de risco é temerário.


A irmã Nadia não morreu por falha da investigação policial, não morreu por ausência de prova, não morreu por omissão na apuração. Ela morreu porque alguém que já demonstrava trajetória criminal estava livre e voltou a agir. Isso precisa ser dito com clareza.


Não se trata de defender populismo penal nem encarceramento indiscriminado. Trata-se de exigir racionalidade. Política criminal séria não se constrói com discursos ideológicos, mas com dados, avaliação de risco, acompanhamento real de egressos e prioridade absoluta à proteção dos vulneráveis. Quando o sistema erra para mais, o custo é orçamento; quando erra para menos, o custo é vida.


A morte de uma freira de 82 anos dentro de um convento não pode se transformar em mais um número na estatística da violência brasileira. Ela deveria servir como ponto de inflexão em um debate que há muito tempo se tornou excessivamente teórico e distante da rua. Porque enquanto se discute tese, alguém sangra, e o Estado existe, antes de tudo, para impedir que isso aconteça.


@felipevieirajornalista

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