segunda-feira, 18 de abril de 2016

Artigo, Antonio Britto - Temer x Temer, o dia seguinte

                   Simples assim: um novo Governo não é automaticamente o oposto daquele a quem combateu.

                  O sentimento majoritário dos brasileiros contra o Governo Dilma, o aparelhamento do estado, os reiterados casos de corrupção, a frustração com o PT, o desemprego, a caótica gestão econômica poderiam ser- e foram – capazes de aprovar a etapa fundamental do impeachment, ontem, na Câmara dos Deputados.

                  Mas o oposto de tudo que não se aceita mais não se transforma milagrosamente no que queremos.

                  Um governo  Michel Temer, a se confirmar no Senado Federal o resultado da Câmara dos Deputados, terá enormes e difíceis desafios para ao mesmo tempo:  desarmar espíritos no País, estabelecer prioridades nacionais em vez de partidárias, soluções estruturais no lugar de improvisações, luta sem tréguas contra  a corrupção e, ainda, propostas que imponham sacrifícios em um ambiente político corroído pelo populismo e pelo sentimento de que o Estado pode tudo e tem recursos para tudo.

                  Não deixa de ser irônico que Michel Temer, reconhecido pela incapacidade de dizer não,  assuma uma situação econômica e social que exige decisões rápidas, firmes e muitas delas impopulares ou claramente distantes do pensamento médio do Congresso Nacional, onde ideias modernas de sociedade e Estado são uma constrangedora minoria.

                  A primeira e mais importante decisão, Temer poderá tomar sozinho:  escolher se quer  preparar um Governo que dura dois anos e meio, não disputa a reeleição e trabalha olhando para a História ou um Governo que quer durar seis anos e meio, enfrentando e ganhando a eleição presidencial dentro de dois anos e pouco. Se a ambição for a primeira, Temer pode por coerência buscar nomes respeitáveis, propor reformas inadiáveis e aos 75 anos trocar a imagem do político hábil pela do estadista.

                 Nenhuma outra decisão de Temer  será tão estratégica.

                  O País que hoje afasta Dilma e aceita, mesmo que sem entusiasmo, a solução Temer será implacável na cobrança de uma atitude nova. O governo dele poderá até errar em suas políticas e ações administrativas, demorar a resolver o caos na economia mas se falhar, desde o primeiro minuto, em mostrar que está comprometido com o sentimento que o gerou, terá dificuldades extraordinárias.  A primeira obra de Temer precisa ser a atitude. E a atitude começa por definir-se por um governo de curta duração, comprometido em fazer as reformas indispensáveis e, acima de tudo, reaproximar a sociedade do Estado.

                  A economia também espera ansiosa por Temer. Assim como a sociedade, a crise econômica não dará a ele nem muito tempo nem muito espaço. A gravidade da herança recebida exige uma liderança com clareza absoluta sobre o que fazer ainda que os resultados demorem. A inflação, a dívida e o desemprego não       dão espaço a vacilações, incertezas, contradições...

                  Este Presidente Temer que o Brasil exige terá de ser construído por ele próprio. E, mais, exigirá o rompimento com práticas e parcerias que fizeram do PMDB e de grande parte dos que o cercam presenças diárias nos escândalos da Lava Jato e nos piores exemplos do que o País não aceita mais.

                  Trata-se de uma tradição brasileira. O novo, por aqui, costuma chegar prometendo sepultar o velho mas a tarefa é geralmente entregue a uma parte do que deve ser destruído... Basta ver que o cenário político a partir de hoje nada tem de inédito: o PT de volta ao que faz muito bem – a oposição; o PSDB e alguns partidos agora próximos ao Planalto;  e o PMDB , o PP, partidos conservadores, partidos pequenos, bancadas corporativistas ou religiosas onde sempre estiveram – no Poder.

                  Temer tem que administrar esta contradição e faze-la minimamente sintonizada com a sociedade que não dá sinais de voltar para casa junto com Dilma Rousseff.  A história, porém, não se constrói pela lógica. E no Brasil, menos ainda. A esperança chega neste momento muito mais pelo que se encerra do que pela certeza sobre o que se inicia. Por isto,  é essencial lembrar: o impeachment não constrói práticas, políticas, nem tempos novos. Derrota o que existia, abre espaços a serem ocupados por uma difícil e indispensável série de padrões e atitudes novas, todas precisando ser edificadas a partir de agora. A começar por Temer.

2 comentários:

  1. Erro na chamada: quando morreu Tancredo quem assumiu foi o Sarney e o Brito, que era porta voz do presidente falecido, se elegeu deputado constituinte em 1986. Somente em 1992, com o impeachment de Collor, ele virou ministro da previdência de Itamar.

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  2. Erro na chamada: quando morreu Tancredo quem assumiu foi o Sarney e o Brito, que era porta voz do presidente falecido, se elegeu deputado constituinte em 1986. Somente em 1992, com o impeachment de Collor, ele virou ministro da previdência de Itamar.

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