quarta-feira, 7 de março de 2018

Artigo, Astor Wartchow - O golpe da narrativa


Artigo, Astor Wartchow - O golpe da narrativa
- O autor é advogado, RS


      Alguns professores e departamentos de universidades públicas estão empenhados em criar e oferecer cursos e palestras acerca do impeachment da presidente Dilma Roussef (PT). Na opinião prévia e notória destes professores, o fato se caracterizaria como um golpe político.
      Antecipadas suas avaliações e certezas pessoais, tudo indica que o curso não tratará exata e especificamente acerca das razões e da natureza do respectivo processo constitucional. Mas, sim, do ponto de vista pessoal, ideológico e partidário dos ditos professores. Ou seja, o curso em questão renovará e fortalecerá tal narrativa.
      Consequentemente, esta tese acadêmica (originariamente petista) não reconhece a legalidade e legitimidade do processo de impeachment , ainda que cumprido todo o ritual, inclusive presidido o ato pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).
      Assim como não reconhece como infringidos fundamentos legais da administração pública, como fazem prova documentos e relatórios públicos.  A “narrativa do golpe” também pressupõe ignorância e desvinculação da situação atual (recessão e desemprego) relativamente àqueles antecedentes de má administração.
      À época, entre as razões políticas e fiscais que sustentariam um processo de impeachment, as “pedaladas fiscais” são prova óbvia e conseqüência direta da administração perdulária, insustentável e fiscalmente irresponsável, práticas típicas de administrações populistas. 
      A anunciada iniciativa acadêmica vem apenas confirmar o que já sabe há muito tempo. Não há mais debate, criatividade e autonomia intelectual na universidade brasileira.
      Fica evidente que se criou um ambiente de contínuo patrulhamento ideológico, estabelecendo constrangimentos a livre opinião e prática docente (e discente), assim como obstáculos invisíveis (ainda que reais) às pretensões individuais de objetivos e carreira acadêmica.
      Não sou contra tais cursos, palestras e abordagens! Mas, como explicar que a exemplo do curso ora em discussão não haja iniciativa semelhante voltado a pesquisar e divulgar, por exemplo, o sucesso e a popularidade da Operação Lava-jato, a surpreendente degradação nacional (logo após a messiânica narrativa do “nunca dantes”), a exportação da corrupção, o escandaloso financiamento e cooptação de partidos, etc...
      Final e ironicamente, a vingar o curso sugerido, caberia consultar os regimes parlamentaristas em vigor em outras nações - a título de pesquisa e comparação acadêmica - se a cada queda dos respectivos gabinetes ministeriais, também realizados pela maioria congressual e dentro do processo legislativo-constitucional de cada país, a respectiva minoria, ou próprio primeiro ministro, também afirmaria se tratar de “golpe”?

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