sábado, 21 de abril de 2018

Artigo, Igor Oliveira, Zero Hora - A união nem sempre faz inovação


No dia 9 de abril, foi lançada uma iniciativa conjunta de inovação entre as três principais universidades de Porto Alegre. Isso é uma boa notícia? Creio que sim, porque qualquer iniciativa é melhor do que nada. O risco que corremos é de ficarmos perto demais do nada.

Inovação é um fenômeno tão complexo que poucas analogias dão conta de explicá-lo. Uma das mais usadas é a da banda de jazz que se reúne para improvisar. No caso das universidades gaúchas, o que vemos é um contrato entre três tímidos, porém competentes, contrabaixistas que se comprometem em tocar alguns temas no mesmo tom.

É uma banda formada apenas por contrabaixistas, que normalmente assumem o papel de entender e fornecer a matemática por trás da música, ou seja, o conhecimento que sustenta a inovação. Pode resultar em coisa boa, mas não é a formação que costuma funcionar.

Assim como na música improvisada, o que faz a diferença em ecossistemas de inovação é o padrão de interação entre os agentes. Por influência de nossas experiências pessoais, é comum pensarmos que a união é o melhor padrão de interação. Em inovação, não costuma ser assim, porque concorrência, divergência e clusterização, entre outros padrões de interação difíceis de mapear, são muito importantes.

Uma das anedotas mais famosas sobre inovação no século 20 é a da Apple. Um capítulo marcante é a apresentação de Steve Wozniak no Homebrew Computer Club, realizada em Stanford. Eram vários empreendedores (ou trompetistas) tocando na casa de um só baixista. Wozniak percebeu ali outros empreendedores tão avançados quanto a Apple na cruzada pelo primeiro computador pessoal. Mais tarde, seu sócio Steve Jobs conseguiu realizar uma venda para um varejista local, o que os colocou na dianteira novamente. Quem já tocou em banda sabe quão difícil é achar um baterista, aquele cliente importante ou investidor que dispõe do mais volumoso instrumento, e que determina com seu capital o ritmo do desenvolvimento.

O que se aprende com essa narrativa é a importância da fluidez dessas relações entre os diferentes componentes de um ecossistema de inovação. Se não fosse a informalidade de Stanford (oposta à pompa do anúncio entre as universidades gaúchas) e o fácil acesso ao varejista, talvez não tivesse surgido a Apple. Fica meu apelo por mais fluidez no Rio Grande.

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