quarta-feira, 29 de julho de 2020

Artigo, Astor Wartchow - Pandemia politizada

Advogado
  A politização da pandemia tem atingido níveis surpreendentes e agravado a discórdia social. Não é exclusividade nacional. Em todos os lugares estão exacerbados os ânimos e a precocidade de avaliações e responsabilizações.
Na Europa, especialmente, desde os primeiros dias da crise sanitária, antes mesmo do reconhecimento como uma pandemia, já havia expressivos debates acerca das atitudes das autoridades.
Especialmente, tocante à extensão e à intensidade de inúmeras restrições sociais, ainda que a título de prevenção, todavia acusadas (as autoridades) de práticas de exceção e abuso de poder.
Ainda em março, o filósofo italiano Giorgio Agamben afirmou que "os homens, acostumados a viver em permanente crise, não percebem que a vida foi reduzida à condição biológica, perdendo suas dimensões social, política e emocional. Uma sociedade em permanente estado de emergência, diz, não pode ser livre."
Concentrado nas mobilizações e festejos de carnaval (esquecemos dos antecedentes?), no Brasil a ação e reação foi tardia quanto à compreensão da emergência sanitária, pasmem, tornada pública já em novembro de 2019.
Consequentemente, postergamos todos os possíveis e necessários debates. Fossem filosóficos e políticos, clínicos e farmacológicos, sobre prevenções e restrições. Pior: tudo restou agravado.
Com a recente insinuação do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a narrativa subiu ousadamente o tom e propõe a hipótese da ocorrência de um genocídio.
Alinhados e agrupados  os debates, nacionais e internacionais, e mantida e sustentada a hipótese acima, quantos governantes, mundo afora, se enquadrariam igualmente no respectivo  argumento e julgamento?
Por tabela, exageradamente, deveríamos incluir prefeitos e governadores, e seu complexo aglomera-desaglomera e abre-fecha comercial, na lista dos réus?
Mais: quantos de nós, cidadãos, seríamos corresponsáveis?  Afinal, não exercitamos habitual e historicamente conduta individual e coletiva de imprudência e negligência? Não fizemos  sempre, sempre, pouco caso acerca de recomendações gerais de autoridades?
Todavia, se não há certezas, seja em torno da "curva, da projeção do pico, do pior já passou, do abre e fecha, medicamentos e a segunda onda, agora a grande onda, etc..", como definir e estimar responsabilidades objetivas sobre ocorrências e óbitos? E se mesmo a Organização Mundial da Saúde (OMS),  a cada dia que passa, apresenta menos convicções e mais e mais dúvidas?
Seja no Brasil ou não, há uma única resposta para os fatos, hipóteses e perguntas. E que exige moderação e desideologização: é uma inédita pandemia, sem controle assegurado, e não há medicamento específico para combater o vírus!


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