quinta-feira, 21 de abril de 2016

Artigo, Glauco Fonseca - Cumplicidade, ingenuidade e neurose

Há pessoas que não se satisfazem jamais com fatos, tampouco com a mais escancarada e pontiaguda realidade. Muitas, milhares, milhões de pessoas são assim. A culpa é sempre alheia, a vítima sou “sempre eu”. No mesmo plano de avaliação, existem as que se acham sempre certas e que, por uma lógica toda particular - e para elas inequívoca -  jamais, em momento algum, se consideram erradas. E há pessoas com pensamento marxista ou derivado, que são uma fusão exorbitante de toda a “sintomática” acima, capazes de qualquer coisa em nome de qualquer causa, sem sequer tendo a obrigação de fazer grande sentido. São afortunados, infelizmente, por terem hordas enormes de seguidores ou de simpatizantes nas mais diversas camadas da nossa cultural e mentalmente comprometida sociedade, notadamente na mídia gaúcha.

Os editoriais de hoje, 21 de abril de 2016, dos jornais Zero Hora e Jornal do Comércio, remetem-me à minha condição provinciana (jamais esquecida), mas, ainda assim, me movem ao ato de escrever por ter lido ambos os textos dos diários. Por simples e livre “ato volitivo”, decidi que não passariam em vão. Faço, portanto, este registro, em primeiro lugar, em homenagem a mim mesmo, à minha capacidade de ler e de saber “com quem estou lidando”, ao mesmo tempo em que aponto aos autores dos textos e lhes digo, com todas as minhas letras, o que segue.

O de ZH pode ser condensado numa palavra rápida e concisa: Ridículo. Defender que Dilma promova sua “perseguição” nos microfones da ONU, estando ela já em vias de afastamento da presidência por crime de responsabilidade, com encaminhamento favorável ao impeachment por 367 Deputados Federais, é de uma ingenuidade típica de quem escreve (conheço o autor). Uma ingenuidade “funcional”, operante, com o rabinho abanando, como faz um cão que ainda não sabe que seus donos já se foram e não o levaram junto. Segundo o repulsivo – e ingenuamente funcional – editorial, “...ela tem todo o direito de fazê-lo. Tem direito de se defender como melhor lhe aprouver e de receber todas as oportunidades para se expressar diante dos estrangeiros como vem se expressando no Brasil.”. Ora, a presidente, que está prestes a se acertar com as decisões institucionais que a afastam, deve mesmo ir aos microfones estrangeiros, às nossas custas, para fazer troça das forças constitucionais que lhe apontam ilícitos? Não lhe caberia um mínimo de recato e de bom senso? Responda a esta pergunta relendo o primeiro parágrafo e, em seguida, entenderá como a cumplicidade editorial, associada à ingenuidade de uma “jihad” de editores é capaz de levar à miséria intelectual e política um grupo importante como a RBS.

Já o editorial do JC peca basicamente por ser ralo como sopa de presídio. Se os autores dos editoriais mais se parecem com bons estudantes em provas de redação do ENEM, o estilo do editorial do JC não chega a pecar pela cumplicidade canhestra e degenerada de ZH, mas sequer tangencia o que chama de cleptocracia em seu título. Esta puerilidade – típica – surge na fantástica passagem a seguir: “Dando o obséquio da dúvida, é possível que Dilma Rousseff não tenha se envolvido em qualquer um dos muitos deslizes e falcatruas denunciados nas investigações e delações premiadas da Operação Lava Jato, que vem desnudando uma teia de vigarices e conluios entre pessoas no serviço público e empreiteiras no caso do Petrolão, na Petrobras.”. Ora, se fizéssemos uma simplista aplicação da Teoria do Domínio do Fato (Hanz Welzel, 1939) – teoria esta que foi decisiva para o encarceramento de petistas et caterva na Ação Penal 470 (Mensalão) – de imediato não poderíamos apartar de culpas várias a principal beneficiada nos crimes do Petrolão, considerado o maior escândalo conhecido da história da humanidade. Portanto, Dilma está sendo afastada do comando do país por inúmeros crimes, todos debaixo de seu manto vermelho e perfidioso, psicótico e, graças a Deus, politicamente terminal.


Todo psicopata vive em permanente estado de divergência com a realidade. Seja um simples punguista, seja um destacado líder de esquerda quando embretado pela descoberta de suas vastas burradas e atos delitivos em continuidade. Dilma está a negar porque a negação é típica do quadro psicótico que se lhe acomete. A negação, seja no caso de Dilma, seja no caso de um batedor de carteiras, é um sintoma muito corriqueiro que tipifica alguém apanhado em flagrante e que negará, se não o fato, sua culpa pelo protagonismo, sempre e sempre. Não é estratégia nem tática. É sintoma, típico e recorrente. A negação, devidamente diagnosticada, é atestado de culpa e reconhecimento às avessas. Eis Dilma, a nossa mais conhecida e aborrecida doente social.

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