quarta-feira, 14 de março de 2018

Artigo, Tito Guarniere - O golpe do "golpe"


Certas esquerdas têm para si que o futuro lhes pertence. E não só o futuro, como se pode ver pela proliferação, nas universidades públicas, das “disciplinas” que têm como tema o “golpe de 2016”. As instalações, a estrutura escolar, a própria escola pública também lhes pertencem, de tal sorte que, para elas é perfeitamente natural que utilizem todo esse aparato para fazer proselitismo político e ideológico.

Críticos severos do Golpe Militar, não lhes constrange, entretanto, o fato de que nem os militares no poder ousaram lançar mão de um tal instrumento para justificar a intervenção de 1964, ou para convencer os jovens universitários da correção dos seus propósitos ou dos seus projetos e das suas realizações.

Fazem-no em nome da “autonomia universitária”. Porém a tal não chega o conceito. A autonomia da universidade não diz respeito nem alcança o uso de prédios e recursos públicos, de professores pagos com dinheiro público para fazer propaganda política ou difundir a versão única, pronta e acabada de uma facção, um partido. Escola não é palanque partidário por conta do dinheiro do contribuinte.

A disciplina, criada originalmente na Universidade de Brasília, pelo professor catarinense Luiz Felipe Miguel, já rasga a bandeira e diz a que vem no título: “Golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. Eis alguns dos módulos do "curso": “Lulismo e a promoção da paz social”; “Resistência popular e as eleições de 2018”; “O PT e o pacto lulista”; “(...) Restabelecimento do Estado de direito”; “Investigar a agenda de retrocessos do governo Temer”. E vai por aí nessa toada.

E o que diz o professor Miguel? Que a disciplina vai ser desenvolvida “sem qualquer dogmatismo”. Ah, bom! Imagine-se como seria o curso, se com esses títulos, ainda estivesse impregnado de dogmatismo!

Notem que o professor propõe o tema do “restabelecimento do Estado de direito”. Quer dizer, o sujeito abre uma disciplina em universidade do Estado, que ataca frontalmente o governo vigente, classificando-o como golpista, dizendo-o ilegítimo. Sabe q ue não será perseguido, não será preso, continuará recebendo religiosamente a sua (boa) remuneração, não será impedido de rezar a sua cartilha política, inclusive em instalações da universidade pública. Se é preciso restabelecer o Estado de direito, em um país onde o professor Miguel pode fazer livremente todas essas coisas, o que vem a ser, então, o Estado de direito?

A iniciativa desses cursos têm merecido a repulsa da mídia e dos jornalistas. Foi assim com Veja e Folha de São Paulo. Foi assim com articulistas como Hélio Schwartsman e Demétrio Magnoli. Mas todos eles condenaram a atitude do ministro da Educação, Mendonça Filho, de representar junto ao Ministério Público Federal e outros organismos para que apurem possível violação da lei de improbidade administrativa - fazer proselitismo político-ideológico em uma instituição pública de ensino. O ministro sabe muito bem que não vai dar em nada. Mas marcou a posição: teve ciência de uma ação ilegal em área de seu ministério e tomou a providência que lhe cabe. É preciso torturar os fatos para achar que isso é censura.

titoguarniere@terra.com.br

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